3. Descriptif du site actuel
3.1 Description des installations
Este paradigma que parece inovador, já havia sido defendido desde o final do século XIX, por planejadores que já tinham uma visão integrada do ambiente urbano, ao buscar soluções urbanísticas que tinham como perspectiva a integração da infraestrutura às condições dos ecossistemas atuantes. Um dos mais importantes precursores desse paradigma foi Frederick Law Olmsted, que enquanto na Europa e em diversas cidades do continente americano, no final do século XIX predominava a visão higienista e sanitarista, Olmsted lançou nos Estados Unidos as bases para o planejamento ecológico da paisagem.
Olmsted tinha um conhecimento multidisciplinar proveniente dos ensinamentos da agricultura advindos de seu pai. Ao passar um breve período na Inglaterra, em 1850, vivenciou a introdução dos parques urbanos nas cidades industriais, como caráter mitigador dos impactos provocados pela Revolução Industrial. Desse modo, possuía uma concepção sistêmica das funções e processos naturais e considerava que a saúde física e mental da população estava diretamente relacionada ao desfrute da natureza (HALL, 1955 apud SPIRN 1995). Olmsted desenvolveu projetos pioneiros visando não somente conservar o ambiente natural, mas que
incluíssem sistemas de áreas verdes de recreação e circulação, como o Central Park em Nova York reconhecido mundialmente por suas paisagens naturais.
Dentre os projetos Figura 03: Sistema do Parque Colar de Esmeraldas desenvolvidos por Olmsted,
destaca-se o sistema de parques chamado Back Bay Fens, mais conhecido como “Colar de Esmeraldas”, que consiste numa conexão de parques existentes, que outrora era uma área pantanosa, estagnada por aterros, contaminada por esgotos e sujeita a inundações, interligados pelas matas ciliares dos rios Stony e Muddy em Boston, que foram recuperados com a finalidade de restabelecer a dinâmica hídrica aliada ao sistema de
esgotos (SPIRN, 1995).
Fonte: http://urban-networks.blogspot.com.br/2012/04.
Desenvolvido na década de 1880, este sistema levou quase 20 anos para ser implantado, com uma visão integrada da paisagem de seus processos e fluxos, atendendo diversas necessidades, uma vez que reúne área de recreação associada a um sistema de proteção a enchentes e melhoria da qualidade das águas. Assim, Olmsted foi pioneiro ao “imitar” a natureza reintroduzindo um alagado construído numa área urbana, o Lago Jamaica, com o objetivo de limpar as águas poluídas por esgotos e efluentes industriais de forma natural, e também resguardar as áreas vizinhas sujeitas a enchentes. Este é considerado o primeiro projeto de construção de áreas alagadas (wetlands). Também foi implantado um interceptor de esgotos, um parkway (via parque designada a veículos, cercada de paisagens naturais) e a primeira linha de bondes da cidade. Assim, visava, além dos fluxos naturais, os fluxos das pessoas.
Os resultados desse projeto permanecem, com a melhoria da qualidade de vida na cidade proporcionada pela criação dos espaços públicos que possuem múltiplos atributos ambientais e que prestam serviços ecossistêmicos. Porém, este parque foi sendo degradado durante o século XX ilustrando bem “a negligência do século XX” (SPIRN, 1995, p191). Apesar de ser um projeto exemplar, seus conceitos ecológicos só foram retomados na segunda metade do século XX, diante da conscientização de que era necessário mudar o paradigma e os objetivos dos planos e projetos urbanísticos para rios urbanos.
Dá-se destaque também aos trabalhos realizados pelos arquitetos e professores Ian McHarg e John Lyle com suas metodologias de planejamento e projeto articulados aos princípios ecológicos e de sustentabilidade, por meio das discussões sobre a conservação ambiental. McHarg, seguindo a mesma linha de trabalho de Olmsted, propôs o planejamento e o desenho ambiental baseado na visão ecológica de mundo, inspirada nos trabalhos de Eugene Odum. De acordo com Odum (1988) é necessário se respeitar a capacidade de regeneração do ecossistema. A desconsideração dos limites da biosfera, do ponto de vista sistêmico, ameaça a estabilidade do sistema global levando-o ao colapso.
No livro, “Design with nature” de 1967, McHarg propõe uma metodologia de planejamento ecológico territorial, adotando como base a bacia hidrográfica baseada na vocação intrínseca da terra, a partir da definição de critérios de aptidão e do estabelecimento de zonas pela sobreposição de mapas temáticos, tais como: o de relevo e declividades; drenagem natural e hidrológica; de vegetação e outros elementos naturais existentes; de uso do solo; dentre outros. Segundo o autor, para cada caso é necessário elaborar um mapeamento específico, com marcos histórico, inundações e outros para subsidiar a tomada de decisão sobre as formas de uso e ocupação do solo.
Um dos principais projetos desenvolvidos pelo autor foi o do Parque Woodlands no Texas, onde o autor consegue resolver de forma sistêmica a drenagem das águas das chuvas, o controle das enchentes, a qualidade das águas e a conservação do ambiente natural. O projeto de Woodlands se tornou referência de planejamento ecológico, pois tinha como objetivo proteger as águas não aparentes, possibilitando a recarga do aquífero e restringindo sistemas de drenagem convencionais, tubulados e de escoamento rápido. McHarg defendia a importância de não apenas preservar o ambiente natural, mas de manejar e intervir de forma sustentável, ressaltando a importância da elaboração de um desenho urbano que aumente o contato da população com as margens dos cursos d´água, de modo a valorizá-las. Assim, buscou dar instrumentos, elaborando uma sistematização projetual ambientalmente equilibrada nos
Estados Unidos, ao lidar com conflitos entre intervir e conservar, criação e cultura, teoria e prática.
A partir da década de 1980, com o advento das tecnologias mais avançadas, como o Sistema de Informações Geográficas – SIG foi possível avaliar e analisar as paisagens em múltiplas escalas e com maior exatidão. Essa tecnologia impulsionou a ecologia da paisagem, um campo disciplinar que tem revolucionado o planejamento urbano. Nesse campo, Richard Forman se destaca, abrindo novas possibilidades para se compreender as dinâmicas que ocorrem entre os processos naturais e os antrópicos, de forma a permitir a criação de espaços livres capazes de conciliar a conservação dos ambientes naturais com os demais usos urbanos.
O termo ecologia da paisagem foi criado pelo geógrafo e ecologista alemão Carl Troll, inspirado na observação de fotografias em 1937, definindo-o como: “o estudo de uma complexa rede de causa e efeito entre as comunidades vivas (biocenoses) e as condições ambientais preponderantes em seções específicas da paisagem” (TROLL, 1968 apud PELLEGRINO et al, 2006, p 58). Assim, a ecologia da paisagem observa os processos de fragmentação e conectividade realizados pela ação antrópica nos ecossistemas naturais, visando analisar a influência dos padrões espaciais sobre os processos ecológicos.
Os processos de fragmentação originam a quebra da conservação dos ecossistemas naturais, causando a redução da área e por consequência a diminuição da conectividade entre eles. Estes processos limitam as probabilidades de recolonização e aumentam os riscos de extinção local de diferentes espécies, ameaçando de forma direta a manutenção da biodiversidade (SOULÉ, 1991 apud PELLEGRINO et al, 2006)
A concectividade, por sua vez, é a habilidade que uma área tem de promover fluxos entre os seus elementos bióticos. Pode ser identificada pelos corredores verdes (greenways) que são elementos lineares que servem como conexão entre fragmentos verdes e que unem equipamentos e outras funções importantes para a cidade (BEIER & NOSS, 1998, apud PELLEGRINO et al, 2006). Outro elemento de conectividade associado a ecologia da paisagem é o stepping stones (caminho das pedras) que são ambientes naturais pequenos, que embora fragmentados pelo processo de urbanização, possibilitam a circulação de espécies numa determinada área, permitindo a recolonização do habitat, e assim, beneficiando a acomodação de animais e sementes (PELLEGRINO et al, 2006).
Dessa forma, a ecologia da paisagem tem colaborado para o entendimento de que a paisagem urbana é um sistema complexo, a qual sempre recorre a mudanças quando não há o equilíbrio. Tanto os ecossistemas naturais, como os humanos, podem mudar de maneira inesperada, sempre que sujeitos à alteração em seus processos e fluxos. Para isso, é necessário
que planejemos para conservar as interfaces que asseguram a funcionalidade dos ecossistemas urbanos, com o objetivo de manter os processos e fluxos bióticos, abióticos e humanos. Desse modo, os serviços ecossistêmicos promovidos pela biodiversidade urbana, essenciais para manter ou restabelecer as conexões e fluxos, proporcionarão uma estrutura para um ambiente sustentável.
John Tilman Lyle foi outro arquiteto paisagista e professor que ganhou destaque com relação a abordagem ecológica e sustentável. Exaltou o termo regeneração dos processos
naturais por achar que este tinha uma abordagem mais efetiva com vista em promover a
renovação dos ecossistemas degradados (THOMPSON e SORVIG, 2000 apud GORSKI, 2008) Publicou três obras que são consideradas de vital importância, quando se busca soluções para as questões ambientais: “Design for humane ecosystems”, em 1985, onde expõe três aspectos principais para os ecossistemas humanos: a escala de atuação inter-relacionadas, o método projetual e a ordem subjacente que liga as dimensões ecossistêmicas.
Ao publicar “Can floating make deep forms?” em 1991, Lyle aponta que nas paisagens naturais, a forma é o resultado da união de três dimensões que compõe o ecossistema: a estrutural, a funcional e a inerente ao local. A estrutural seria tudo que se refere aos elementos bióticos e abióticos, o ecossistema ao envolver todos os elementos passa por constantes mutações, entretanto se esta mutação acontece de forma brusca pode gerar uma grande perturbação. Segundo Lyle, quando o homem transforma a paisagem de uma forma reducionista sem considerar as diversas cadeias de interação pode gerar instabilidade no meio ambiente.
A dimensão funcional se refere aos fluxos de energia e matéria que suprem todas as espécies existentes na estrutura. Esses fluxos têm sua própria dinâmica e são naturalmente alterados pela influência antrópica. De acordo com Lyle quando tratamos com as funções ecossistêmicas no planejamento dos espaços ribeirinhos, estamos lidando com energia, nutrientes e fluxos de água, que ao terem seu equilíbrio quebrado podem gerar enormes perdas ambientais. A dimensão relativa do lugar se refere às condições de forma e caráter da paisagem. A outra publicação também de grande relevância de Lyle foi “Regenerative design for
sustainable development” em 1996, onde ele recomenda abordagens práticas para arquitetos,
urbanistas e engenheiros, ressaltando as ações regenerativas para uso racional do solo, da água, e das diretrizes para um projeto de edificação que dialogue com o ambiente externo, incentivando a relação entre o homem e a natureza. O autor defendeu, dentro da linha de prevenção de inundações, a solução de renaturalização dos leitos dos rios, não como resgate do
seu estado original, mas como solução hidrológica que ao diminuir a velocidade do fluxo da água, reduzindo os impactos à jusante e possibilitando um ambiente mais ameno à fauna e flora. Neste mesmo sentido, destaca-se também o trabalho de Roy Mann, pela investigação e divulgação de experiências em gestão de espaços ribeirinhos sob o paradigma da visão integrada. Em seu livro “Rivers in the City”, publicado em 1973, o autor reúne projetos e intervenções concebidos sob esse novo paradigma em 15 cidades da Europa e dos Estados Unidos. Estas iniciativas foram incentivadas pelo fortalecimento dos movimentos sociais ecológicos, que emergiu desde a década de 1970. Assim como, o desenvolvimento de pesquisas científicas com visão integrada, abrangendo os campos da biologia, ecologia, geografia e hidrologia, em busca de conhecimento dos impactos ambientais provocados pela ocupação do solo urbano, assim como, das soluções de controle hidráulico e sanitário.
Mann dá destaque a outro projeto desenvolvido por Olmsted, o “Riverside Park”, em Nova Iorque, criado em 1886, que segundo Mann foi a ação mais significativa de abertura dos espaços às margens do rio Hudson para a recreação pública. O autor esclarece que o parque consolida o conceito de corredor ecológico de três formas: pela sua extensão ao longo das margens do rio, garantindo uma faixa de bosque integrada com os atributos naturais do rio; pela sua largura, promovendo um primeiro plano atrativo à faixa urbana e ao longo dele favorecendo os valores arquitetônicos e patrimoniais; e por ter sido construído em parte sobre trilhos de trem pré-existentes diminuindo a barreira degradante com o corredor ecológico (MANN, 1973).
Mann cita também o processo de planejamento da região do vale do rio Potomac, do plano Elliot, em Washington, em 1926, o qual visava a preservação das margens do estuário. O autor também ressalta a atuação de McHarg, a partir de 1967, neste processo, propondo o domínio da visibilidade da paisagem do vale, ao assumir o conceito de “rio-corredor” igual ao realizado em Boston e Nova Iorque. Entre as várias experiências europeias que Mann analisou, o mesmo considera o plano diretor para as margens de Rop Tyne em Newcastle Upon Tyne, Inglaterra, por ser referência no planejamento e na recuperação de espaços em margens de rios urbanos. O principal objetivo do plano desenvolvido em 1965 era a substituição das instalações portuárias que barravam a ligação da cidade com o rio, por parques ribeirinhos com amplas áreas recreativas.
Assim, em seus estudos Mann (1973) demonstra como a relação entre cidades e seus rios vêm se modificando respectivamente ao longo dos séculos. Ao chamar atenção para as interações entre elementos naturais e elementos antrópicos nas cidades, este autor aponta para uma concepção de cidade como ecossistema, o que implica numa revisão de posturas relacionadas às intervenções e aos projetos e seu impacto sobre os elementos naturais.
E por fim, também contribui nesta linha de reflexão o trabalho de Hough em “Cities and
Natural Process”, no qual discute como os projetos e intervenções urbanas tradicionais, que
moldaram a paisagem física da cidade, pouco contribuíram para a sua saúde ambiental. Dentre as estratégias apontadas pelo autor destacam-se aquelas que buscam dar visibilidade, acessibilidade aos rios, e conectividade com os demais corpos d´água que compõe a rede hidrográfica, como importantes critérios para valorizar sua dimensão ambiental e cultural, de modo que estes possam ser apreciados e experimentados como uma parte valiosa e essencial da vida urbana. Portanto, ao se pretender melhorar as condições socioambientais dos cursos d´água e transformar os espaços residuais em áreas de lazer e recreação é essencial reaproximar a população, de modo a modificar a percepção da mesma sobre estes espaços o que tende a modificar a relação social para a conservação e recuperação desses espaços.