• Aucun résultat trouvé

CHAPITRE 2 ANALYSE ET MODIFICATION DES CADRES

2.1 Description d’un cadre de raisonnement dans ArchE

La verdadera historia de Cuba es la historia de sus intrincadísimas transculturaciones Fernando Ortíz

Para dar continuidade aos estudos propostos no presente item, cabe situar no tempo e no espaço, as condições em que se instituiu o conceito- chave que o fundamenta. O termo transculturação, proposto pelo antropólogo e músico Fernando Ortiz foi publicado, primeiramente, em 1940. Neste ano, entra em vigência na ilha de Cuba a Nova Constituição da República. Nascido como um conceito pertinente ao campo etnográfico, o termo transculturação seria, segundo Ortiz (2002: 260), o vocábulo mais adequado para

[...] expressar melhor as diferentes fases do processo transitivo de uma cultura a outra, porque este não consiste somente em adquirir uma cultura distinta, que é o que a rigor indica a voz anglo- americana acculturation, mas sim que o processo implica também, necessariamente, a perda ou desarraigo de uma cultura precedente, o que se poderia denominar uma parcial desculturação e, além disso, significa a criação de novos fenômenos culturais que foram denominados neoculturação. Por fim, como bem sustenta a escola de Malinowski, em todo abraço de culturas sucede o mesmo que na cópula genética dos indivíduos: a criatura sempre possui algo de ambos os progenitores, porém é sempre distinta de cada um dos dois. Em conjunto, o processo é uma transculturação e este vocábulo compreende todas as fases de sua parábola.

Mais que consagrar um neologismo, e substituir várias expressões correntes como “câmbio cultural” ou “osmose de cultura”, o antropólogo cubano desejava com a publicação de Contrapunteo cubano del tabaco y del azúcar (2002) apresentar um estudo do nacionalismo econômico e seus reflexos na sociedade cubana e fazer dele uma nova sugestão para o estudo de seu país e suas peculiaridades históricas”. No entanto, a difusão do conceito proposto

proporções continentais e abarcou não só a história, mas também a compreensão da temática literária latino-americana.

O crítico uruguaio Ángel Rama (2001:22), em seu livro Transculturación

narrativa en América Latina, aplica o termo transculturação ao campo dos

estudos culturais com o fim de “neutralizar os efeitos nocivos ou alienantes causados pela modernização”. De tal modo, Rama pode vislumbrar que o processo transculturador se compunha através de algumas etapas: uma parcial desculturação, aplicável tanto à cultura como ao exercício literário, ocorrida em diversos graus e capaz de afetar várias zonas; a incorporação de elementos próprios da cultura estrangeira e, finalmente, o intento de recompor os elementos de ambas as culturas em uma nova concepção da mesma.

Tem-se, portanto, a partir de Rama, a possibilidade de trabalhar com o conceito fundado por Fernando Ortiz também no contexto literário. Tal ampliação causou um significativo impacto nos estudos culturais da época. Tornou-se até, em análises pouco densas, um sinônimo para mestiçagem ou hibridismo. Termos que nomeiam apenas o resultado do processo que implica a mescla de etnias, diferente do termo de Ortiz que contempla o acontecimento de maneira mais ampla. Contudo, no que concerne ao estudo de Cuba, não é possível aplicar o vocábulo transculturação como um simples cognato do produto de uma mescla de etnias. Em conformidade com o acima exposto temos a seguinte afirmação de Ortiz (2002: 255):

Em todos os povos a evolução histórica significa sempre um trânsito vital de culturas em ritmo mais ou menos lento ou veloz; porém em Cuba foram tantas e tão diversas, em posições de espaço e categorias estruturais, as culturas que influenciaram na formação de seu povo, que esse imenso amestiçamento de raças e culturas sobrepõe, de maneira transcendente, a qualquer outro fenômeno histórico.

A poesia de Nicolas Guillén, como expressão de vida do povo cubano, alcança perfeitamente o intento de Ortiz (2002: 254) ao propor o conceito de transculturação, afirmando que este vocábulo expresaria

Os variadíssimos fenômenos que se originaram em Cuba através de complexas transmutações de cultura que lá se verificam, sem as quais se torna impossível entender a evolução do povo cubano em todos os níveis sociais

Como exemplo inicial do que foi afirmado nas linhas anteriores temos a análise da primeira poesia proposta na introdução. No par de versos que inicia o poema “Balada de los dos abuelos” contemplam–se duas sombras, vistas unicamente pelo sujeito do poema, a escoltá-lo:

Sombras que sólo yo veo, me escoltan mis dos abuelos

Após tal consideração observa-se a composição imagística de cada um desses ancestrais: o avô branco e a avô negro. Cada um em seu território, com suas peculiaridades culturais que futuramente seriam transformadas. Desvela-se primeiro a imagem do avô materno.

Lanza con punta de hueso, tambor de cuero y madera: mi abuelo negro.

Os elementos “lanza”, “punta de hueso” e “tambor” conotam a origem do guerreiro africano. A lança é empunhada por heróis. Ao descrevê-la como um artefato pontiagudo, confere poder a quem a detém. A ponta de osso confirma a origem do combatente: trata-se de um líder guerreiro e herdeiro das tradições africanas. O tambor, além de ressaltar a influência africana, atua como símbolo de arma psicológica; seu ruído se aproxima ao do trovão e ao do raio, desfazendo internamente toda a resistência do inimigo. Sua presença também sacraliza o acontecimento da guerra, já que se utiliza o tambor para invocar a descida das bênçãos celestes em favor das causas de um povo.

Gorguera en el cuello ancho, gris armadura guerrera: mi abuelo blanco.

Este se encontra com sua “gris armadura guerrera” e sua “gorguera”. Ao atribuir ao pescoço de seu avô branco o adjetivo “ancho”, o poeta constrói tal figura como detentora de extensa força vital. Tal hipótese pode ser baseada no fato de os likoubas e likoualas do Congo considerarem o pescoço a morada primeira das articulações do ser humano. Nela circula a energia geradora, por meio do jogo das articulações 10.

O sujeito do poema representa o resultado da fusão de duas fortes lideranças. Descende de dois guerreiros que parecem desempenhar, em seus territórios, posições de poderio e realeza. Em seu avô branco, vislumbra-se uma armadura que protege o seu corpo dos males; já o avô negro aparece, como se verá em seguida, despido, o que pode torná-lo mais vulnerável em um confronto.

Os versos seguintes dão continuidade à descrição iniciada na primeira estrofe do poema. O eu – lírico destaca o corpo de seu avô negro:

Pie desnudo, torso pétreo los de mi negro;

O “pie desnudo” sugere um maior contato do guerreiro africano com a sua terra. Já o tronco recebe o adjetivo “petreo” com o intuito de atribuir ao corpo do guerreiro africano a resistência de uma pedra, simbolizando também o marco de uma civilização.

Quando a descrição se refere ao avô branco o sujeito poético ressalta o olhar que se mostra com “pupilas de vidrio antártico”, possível alusão ao mar, espaço que possibilitou a chegada dos conquistadores e, posteriormente, dos escravos vindos da África. Um mar azul como as pupilas do avô branco,

10

Entende – se que as articulações permitem a ação, o movimento, o trabalho. Simbolizariam, segundo tais crenças dos povos do Congo, as funções necessárias à passagem da vida à ação. In: CHEVALIER & GHEERBRANT,2003.

através das quais se descortinou um novo campo de visão: a terra a ser colonizada.

Pupilas de vidrio antártico las de mi blanco!

O poema de Guillén trata de duas vozes cansadas e caladas pelo triste espetáculo da guerra. Vozes que ecoam na memória de um indivíduo, cujos ancestrais travaram longos combates em um passado distante. Em um mesmo lugar cada figura experimenta uma sensação diferente. Para respaldar a afirmação anterior, temos o estudo de Kevin Lynch em seu livro A imagem da

cidade. O autor discorre que as imagens ambientais são as resultadas de um

processo bilateral entre o observador e seu espaço. Deste modo, cada pessoa depreende, organiza e confere significado singular ao que é visto. Lynch

(1982:1), afirma também que “[...] a cada instante há mais do que o olho pode

enxergar, mais do que o ouvido pode perceber, um cenário ou uma paisagem esperando para serem explorados”

Nada seria vivenciado em si mesmo, mas sempre em relação aos seus

arredores, às sequências de elementos que a ele conduzem à lembrança de experiências passadas. Comprova-se a assertiva com o seguinte fragmento:

África de selvas húmedas y de gordos gongos sordos... --¡Me muero!

(Dice mi abuelo negro.) Aguaprieta de caimanes, verdes mañanas de cocos… --¡Me canso!

(Dice mi abuelo blanco.) Oh velas de amargo viento, galeón ardiendo en oro… --¡Me muero!

(Dice mi abuelo negro.) ¡Oh costas de cuello virgen

--¡Me canso!

(Dice mi abuelo blanco.)

Perpetuam-se no sujeito poético as impressões de um “abuelo negro” que morre com o duelo e de um “abuelo blanco” que se cansa em territórios a serem conquistados por seu povo. A memória do avô negro registra uma paisagem de “selvas húmedas” de onde parte um “galeón ardiendo en oro”. Este metal tão apreciado pelos colonizadores, considerado pela tradição como o mais precioso, enriqueceu os cofres e as construções europeias graças ao trabalho da mão escrava.

Neste contexto contemplativo, o verbo “morir” empregado nas linhas acima como resultado de um combate, podem também denotar o deslumbramento do personagem diante da paisagem. Em contrapartida tem- se, um cansado avô branco que contempla “costas de cuello virgen” e “verdes mañanas de coco”. Do duelo travado entre o sangue negro e o branco este último sai como vencedor, ainda que fatigado pela guerra e pela distância que o separa de sua pátria.

¡Oh puro sol repujado, preso en el aro del trópico; oh luna redonda y limpia sobre el sueño de los monos!

O “puro sol repujado” e a “luna redonda y limpia” são espectadores oniscientes desse cenário. Contemplam a dor e o cansaço de cada ânsia. Escutam as preces de todos os personagens desse capítulo da história de dois povos. História que se eterniza no corpo e na memória de um poeta. Memória que surge graças às reminiscências que fundam a cadeia da tradição, transmitindo os acontecimentos de geração em geração. Por ela se dá a propagação da memória. O ouvinte pode então participar do que foi vivido, confirmando as acepções de Walter Benjamin (1995:213,. ao enunciar que “[...] quem escuta uma história está em companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia.” Assim sendo, uma voz segue o canto relatando o

passar dos dias na terra colonizada e todo o horror presenciado nos navios negreiros.

Qué de barcos, qué de barcos! ¡Qué de negros, qué de negros! ¡Qué largo fulgor de cañas! ¡Qué látigo el del negrero! Piedra de llanto y de sangre, venas y ojos entreabiertos, y madrugadas vacías, y atardeceres de ingenio, y una gran voz, fuerte voz, despedazando el silencio. ¡Qué de barcos, qué de barcos, qué de negros!

Voz que pode ser entendida tanto como a expressão do colonizador, quanto como a voz que surge da dor e da rebeldia em face de tal situação. Encerra-se, no poema, a gênese da mestiçagem. A estratégia de Guillén insere os elementos que compõem esse processo: a imigração branca com o propósito de colonizar; a forçada imigração negra; a produção açucareira como base da economia colonial; a escravidão.

O par de versos que aparece no início do poema é retomado para aproximar as duas imagens.

Sombras que sólo yo veo, me escoltan mis dos abuelos

Tal recurso confirma o título dado ao poema. Ao atribuir à composição o título de balada, o poema de Guillén aproxima-se à acepção dada ao termo. Além de possuir um estribilho, como na definição histórica, assemelha-se ao conceito atribuído recentemente ao mesmo vocábulo. Por influência anglo-saxônica, o sentido da palavra ampliou-se, passando a designar também uma canção que conta a vida de uma pessoa ou alguns fatos precisos.

Em seguida temos o início da integração entre as duas tradições: a africana e a europeia. É o prenúncio do fim das diferenças entre os guerreiros. “Don Federico”, que grita, e “Taita Facundo”, que cala, sonham “en la noche”. Noite pode denotar tanto a ideia de escuridão e morte quanto referir-se à noite ancestral, a instauração do não-tempo, perpetuando a ideia de eternidade. O eu-lírico afirma que seus antepassados seguem por essa noite a sonhar, o que pode corroborar com a ideia de morte como redenção do indivíduo.

Don Federico me grita y Taita Facundo calla; los dos en la noche sueñan y andan, andan.

O corpo do eu-lírico é o elemento que permite a síntese desses dois guerreiros em um só corpo: “Yo los junto”. Nele se mesclam sangue e cultura de povos que duelaram em tempos anteriores, mas que agora coexistem com a existência do sujeito poético. Os quatro versos que encerram o poema tratam de uma série de ações a serem realizadas pelos dois guerreiros:

gritan, sueñan, lloran, cantan. Sueñan, lloran, cantan. Lloran, cantan.

¡Cantan!

A ausência de uma conjunção aditiva entre o penúltimo e o último verso da referida estrofe sugere uma união, que se mostra eternizada pelo uso de vírgulas ao enumerar tais ações. Combinado com o recurso poético da aliteração essa união, traz à poesia uma conotação fonossemântica importantíssima, confirmando ainda mais o título da composição e contribuindo com a musicalidade. Segundo Walter Benjamin (1995:207)

[...] a ideia da eternidade sempre teve na morte sua fonte mais rica. Morrer era um episódio público na vida de um indivíduo e possuía caráter altamente exemplar. É no momento da morte que a sabedoria do homem e, sobretudo sua existência vivida assumem pela primeira vez uma forma transmissível.

Ainda que mortos, a história de cada avô do sujeito poético permanece viva no coração de seus descendentes e na memória de cada um que pôde tomar conhecimento de suas experiências. O que se contempla perfeitamente se considerarmos a seguinte afirmação de Benjamin (1995:205):

Contar história sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a história. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido

Assim como o eu-lírico, Guillén possui um passado marcado pelos dois lados da história da colonização na América. História que pode ser transmitida através dos versos de Nicolás Guillén.