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Chapitre III : Caractérisation et performances des capteurs

II. Description du Banc de test

Há disparidade quando se fala sobre o universo surdo em números devido à falta de informações confiáveis e precisas, fator só minimizado ao serem consideradas as informações de órgãos públicos e oficiais. Em nível mundial, o dado mais recente publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é relativo a 2004, quando se registrava 275 milhões de pessoas no mundo com surdez moderada a profunda (OMS, 2013).

No Brasil, o último Censo do IBGE realizado em 2010 indicou que junto à população de 190.755.799 milhões de brasileiros existem 9.722.163 milhões de pessoas com deficiência auditiva, índice assim constituído: ‘Não consegue (ouvir) de modo algum’: 347.481 pessoas; ‘grande dificuldade’: 1.799.885 pessoas; ‘alguma dificuldade’: 7.574.797 pessoas (IBGE, 2012). Nessa ordem, o Estado de Santa Catarina, com um total de 305.809 mil pessoas com deficiência auditiva, apresenta o seguinte quadro: 10.402 pessoas com surdez profunda; 62.200 com grande dificuldade e 233.207 pessoas com alguma dificuldade (IBGE, 2012). As estatísticas demonstram que pelo menos uma em cada mil crianças nasce profundamente surda e que muitas pessoas desenvolvem problemas auditivos ao longo da vida por causa de acidentes ou doenças (INES, 2011).

Isso estabelece outra diferença. Quem se torna surdo antes do contato com a língua oral tem um nível de surdez classificado como ‘pré-linguístico’, quem fica surdo depois é considerado ‘pós- linguístico’. O fato determina concepções de modelos que refletem diferentes discursos, com implicações na vida de um surdo, como se verá neste trabalho de análise e síntese.

Pesquisadores são unânimes em apontar dois modelos ou concepções estabelecidos pela forma com que o surdo adquire a linguagem: se por meio da língua de sinais ou pela tentativa de adequar-se à língua oral, o que estabeleceu inúmeras pesquisas que buscam evidenciar diferenças entre esses dois públicos (FERNANDES, 1990; CORDEIRO E DIAS, 1995; BOTELHO, 1998; SANTOS E DIAS, 1998, MEIRELLES E SPNILLO, 2004).

Por determinarem diferentes discursos, esses modelos são discutidos com mais profundidade no subitem 4.6.4. A rigor, nesses modelos não se encaixa a questão do idoso, que ao longo da vida pode vir a ter a audição diminuída, o que constitui outro público com suas especificidades e características. Entre os surdos, ter adquirido a linguagem ou por sinais ou pela via oral demarca um polêmico e até hoje inacabado debate entre educadores, pesquisadores e profissionais da área da saúde.

A polêmica instaurou-se desde o século XVIII, quando o abade De l’Epée (1712-1789), fundador da primeira escola pública no mundo para surdos, na França, e o educador Samuel Heinicke (1727-1790), Alemanha, tornaram públicas suas respectivas crenças em educação para os surdos (BISOL, SIMIONI, SPERB, 2007). O primeiro desenvolveu a língua de sinais associada à gramática francesa criando o que chamou de ‘sinais metódicos’, e o segundo criou uma instrução sistemática baseada em métodos estritamente orais. Conhecer esses detalhes pode contribuir com educadores e especialistas que se debruçam sobre o tema para melhor compreensão do mundo surdo. O senso comum diz que, geralmente, pessoas com perda parcial da audição referem-se a si mesmas como tendo uma deficiência auditiva, enquanto as que têm

perda total da audição preferem ser chamadas de surdas (Manual de Redação da Assembleia do Estado do Rio Grande do Sul, 2011).

O professor Neivaldo A. Zovico, coordenador de acessibilidade da Federação Nacional de Educação e Integração do Surdo (FENEIS) explica que o termo ‘surdo’ é utilizado por aqueles que nasceram surdos, não se considerando, portanto, com alguma deficiência. Para o surdo, o natural é não ouvir. O Quadro 5 oferece uma visão das diferenças mapeadas pelo autor entre surdos pré e pós linguísticos (estes últimos considerados por Zovico como ‘deficientes auditivos’). A primeira e grande diferença colocada por Zovico (2011) é que o surdo que se considera ‘surdo’ é usuário libras, enquanto o ‘deficiente auditivo’ busca comunicar-se por meio da língua oral, no caso brasileiro, a língua portuguesa.

Quadro 5: Diferenças entre surdos e deficientes auditivos

Fonte: Adaptado de Neivaldo A. Zovico, 2011

Surdo Deficiente auditivo

Usuário libras Não usuário libras Mobilização na defesa da libras,

cultura e da comunidade surda

Mobilização em busca de aparelhos auditivos

Assiste televisão por meio de legenda

Assiste televisão por meio de fone sem fio

Usa telefone para surdos É mais próximo dos ouvintes Utiliza sinalizadores luminosos para

campainha, telefone, etc.

Conforto auditivo é oral-auditivo Participa de associações de surdos Não participa de associações de

surdos Não aceita ser chamado deficiente

auditivo

Não aceita ser chamado de surdo Utiliza mais de imagens na

interpretação e comunicação

Alguns pontos na tabela possam ser considerados controversos, pois se o conforto do “deficiente” é ‘oral-auditivo’, poder-se-ia dizer que o conforto nesse caso para o surdo seria visuo-espacial, sua categoria correspondente. Mas a tabela de Zovico (2011) não deixa de ser esclarecedora. Só que isso não é tudo. A questão pode e merece ser elucidada.

Como já se viu, nascer surdo e nunca ter ouvido sons coloca o sujeito em uma condição pré-linguística. Tornar-se surdo depois de se adquirir a faculdade da fala confere ao sujeito uma condição pós-linguística, ou seja, ele fará uso de recursos de oralização e buscará ouvir com o auxílio de aparelhos auditivos ou implantes cocleares. Esta peculiaridade do mundo surdo determina concepções opostas em educação, cultura, política, enfim, de desenvolvimento humano existencial. Tudo começa na linguagem.

A linguagem é o meio mais eficiente de expressão da inteligência, pois possibilita a organização, o desenvolvimento e a comunicação do pensamento, acelera o ajustamento socioemocional e é estímulo permanente à formação de conceitos, permitindo a expansão das tendências de um indivíduo. (CAMPBELL, 2009, p.98) Embora existam diferentes teorias de como o ser humano adquire a linguagem, como se verá, há consenso entre os pesquisadores sobre seu importante papel na estruturação do pensamento (CHOMSKY, 1994; FINGER E QUADROS, 2008; CAMPBELL, 2009). As contribuições de Vygotsky (1896-1934), a

partir da década de 1980, com quem se entendeu que o desenvolvimento da criança surda deve ser compreendido como um processo social, também introduzirão as bases para novos olhares em relação à surdez. Para entender os diferentes discursos em relação ao tema, será necessário, antes, conhecer suas origens históricas.

3.6.3 Surdez e linguagem: narrativas da história