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2. DESCRIPTION OF THE AREA

A teoria que atravessa esse trabalho é a da Análise do Discurso. Nesse sentido, o título dessa seção é já provocativo: as práticas científicas são como práticas discursivas. E as práticas discursivas pressupõem um grupo que produz um discurso, o põe em circulação e procura controlar seu funcionamento. Esse grupo é uma comunidade discursiva. O discurso científico comporta muitas comunidades e, portanto, muitas práticas discursivas. Não seguiremos aqui os caminhos da sociolingüística para descrever os liames entre os aspectos normativos e restritivos que a institucionalidade subjacente às comunidades e suas práticas impõem aos seus membros. Em vez disso, vamos trabalhar, a partir de Thomas Kuhn, com as noções de paradigma e comunidade científica, acolhendo também alguns de seus importantes desdobramentos, tais como a idéia de ciência normal e a noção de incomensurabilidade.

Thomas Kuhn construiu um caminho próprio e apropriado para realizar suas análises do processo de produção de conhecimento científico. A descrição de sua caminhada é ao mesmo tempo um rico relato de sua implicação com a história da ciência (KUHN: 2006, p. 9- 17). E caminhar por vias a construir é seguir as palavras de António Machado (apud MORIN:

1980, p. 25): “caminante, no hay camino. Se hace camino al andar”. A despeito de sua formação inicial na área de física, berço de uma ideologia de ciência positivista, Kuhn logrou uma nova perspectiva (histórica) de análise da produção de conhecimento científico. Segundo Morin (2000, p.24-25) um paradigma pode ser definido pela promoção e seleção dos conceitos-mestres de inteligibilidade, e pela determinação das operações lógicas-mestras. Com isso,

(...) o paradigma efetua a seleção e a determinação da conceptualização e das operações lógicas. Designa as categorias fundamentais da inteligibilidade e

opera o controle de seu emprego. Assim, os indivíduos conhecem, pensam e

agem segundo paradigmas inscritos culturalmente neles. (MORIN, op. cit. p.25) (Grifo nosso).

Morin afirma também que “o paradigma desempenha um papel ao mesmo tempo subterrâneo e soberano em qualquer teoria, doutrina ou ideologia. O paradigma é inconsciente, mas irriga o pensamento consciente e controla-o e, neste sentido, é também supraconsciente” (MORIN, 2006, p.26). É isso que ele quis significar quando disse que o paradigma está inscrito culturalmente nos cientistas. Isso quer dizer que os cientistas têm um imaginário social de ciência que lhes controla as práticas de ciência e estabelece as relações necessárias (mas não suficientes) para a formação das comunidades científicas (discursivas).

A centralidade do conceito de paradigma em A Estrutura das Revoluções Científicas (KUHN: 200635) levou Masterman (1979: p. 75-79) a realizar uma análise cuidadosa desse livro, dedicando-se profundamente à elucidação do conceito de paradigma. Ela chegou a listar 21 ocorrências desse conceito, agrupando-os em paradigmas metafísicos ou metaparadigmas – ligados a aspectos míticos ou de crença, visões de mundo, modelos ou percepção –, paradigmas sociológicos – referentes a uma constatação empírica ou aos aspectos institucionais dos grupos ou da comunidade científica –, e, por fim, paradigmas de artefato ou construção – quando ligados a aspectos tecnico-instrumentais da pesquisa, à sua linguagem ou a aspectos psicológicos relacionados. No entanto, no famoso posfácio de 1969 da mesma obra, Kuhn relata que foram encontradas 22 acepções diferentes desse conceito (op. cit., p.228). Também Epstein (1990) fala de uma polissemia desse conceito em Kuhn. Isso, certamente, abriu caminho para um turbilhão de críticas às suas idéias centrais. Mas Kuhn (2006, p.220) se defende de tamanha dispersão dizendo que

(...) o termo “paradigma” é usado em dois sentidos diferentes. De um lado, indica toda a constelação de crenças, valores, técnicas etc., partilhadas pelos membros de uma comunidade determinada. De outro, denota um tipo de elemento dessa constelação: as soluções concretas de quebra-cabeças que, empregadas como modelos ou exemplos, podem substituir regras explícitas como base para solução dos restantes quebra-cabeças da ciência normal. (Op. cit., p. 220) (Aspas do original).

Essa constelação de que se fala acima é a ideologia. Além disso, uma situação como essa não assustaria Bachelard, para quem a compreensão de um conceito se dá no processo de conceitualização, isto é, por suas totalizações parciais e atualizações, dentro do espectro epistemológico, ou seja, desde seu perfil. É assim com a noção kuhniana de paradigma: tem um perfil epistemológico que precisa ser resgatado, mas também um perfil conceitual, no sentido atribuído por Mortimer (2006, p.78-82). O que há de mais próximo ao perfil conceitual de paradigma é justamente a descrição/classificação, dedicada e competente, feita por Masterman (1979).

Note-se também que a defesa de Kuhn aponta para a necessidade de existência de uma comunidade que procura partilhar tanto um imaginário de ciência, quanto um conjunto (não limitado) de formas exemplares de resolução de problemas que têm lugar na prática da ciência normal. Esta, aliás, é pensada por ele como sendo

(...) a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior. (KUHN, 2006, p. 29).

Aqui isso significa dizer que essas realizações, tomadas agora por modelos (KUHN, 2006, p.13), por formas autorizadas de práticas científicas dentro da comunidade, aceitas às vezes tacitamente (idem, p.239), transformam-se (melhor dito: tendem a transformar-se) em conhecimentos estabilizados, em sentidos imobilizados, interditados à interpretação.

Todavia, mesmo sob a égide de um paradigma ou um conjunto de FDs, nas práticas estabilizadas da ciência normal, há situações em que um problema parece esquivar-se aos cânones de resolução, seja na perspectiva técnico-metodológica, pela atualização de montagens experimentais que permitem a irrupção de novos fenômenos, seja na perspectiva teórica, pela predição de novos efeitos que exigem a construção de conceitos mensuráveis, realizáveis tecnicamente como diria Bachelard, caracterizando o noumeno.

Em qualquer dos casos acima, tal como no discurso, os limites de explicação ou mesmo de descrição (porque é preciso construir – pelo deslizamento de sentidos ou por outros

mecanismos – novos objetos descritíveis dentro das teorias ou FDs) correspondem a brechas: há deslizamentos de sentido e deslocamento de posições de sujeito produzindo outros sentidos. Elas expressam rupturas do tecido paradigmático e, conquanto sejam consideradas importantes, produzem ou expressam as chamadas crises de paradigma que podem produzir revoluções científicas. Kuhn as descreve da seguinte forma:

Algumas vezes um problema comum, que deveria ser resolvido por meio de regras e procedimentos conhecidos, resiste ao ataque violento e reiterado dos membros mais hábeis do grupo em cuja área de competência ele ocorre. Em outras ocasiões, uma peça de equipamento, projetada e construída para fins de pesquisa normal, não funciona segundo a maneira antecipada, revelando uma anomalia que não pode ser ajustada às expectativas profissionais, não obstante esforços repetidos. Desta e de outras maneiras, a ciência normal desorienta-se seguidamente. E quando isto ocorre, isto é, quando os membros da profissão não podem mais esquivar-se das anomalias que subvertem a tradição existente da prática científica – então começam as investigações extraordinárias que finalmente conduzem a profissão a um novo conjunto de compromissos, a uma nova base para a prática da ciência. (KUHN: 2006, p.24)

Kuhn enfatiza que o conhecimento científico evolui e que essa evolução se dá pela sucessão: ciência normal  crise paradigmática  ruptura  reorganização das comunidades em torno de um novo paradigma. Evitei aqui usar a expressão “abandono de uma estrutura teórica e sua substituição por outra, incompatível”, como proposto por Chalmers (1993, p. 123), porque o próprio Kuhn (2006, p. 88) chama a atenção para o fato de que nem todas as teorias são paradigmáticas. Isso quer dizer, numa perspectiva discursiva, que algumas teorias consideradas aqui como FDs, não instituem o paradigma, apenas o constituem, enquanto outras, como a teoria da mecânica racional de Newton ou o “mundo fechado e hierarquicamente ordenado” de Aristóteles (MARCONDES: 2001. p. 18), são instituintes de paradigmas. Há de se considerar também que o mecanicismo pode ter sido deflagrado pelos sucessos das idéias newtonianas, mas o paradigma a que elas deram origem alcançou o fim do Século XIX com uma plêiade de teorias físicas: a termodinâmica, a teoria eletromagnética de Maxwell e a óptica, a mecânica analítica e a física estatística, apenas para citar algumas. Esse conjunto de teorias constituía apenas uma parte do paradigma mecanicista, visto que ele influenciou diversas disciplinas, nas quais produziram-se teorias e realizaram-se descobertas que reforçaram sua posição hegemônica.

Trazer a perspectiva dessa investigação para o campo da AD é uma necessidade incontornável porque, quando provoco que as teorias são como FDs, permito-me pensar na

revolução científica, nas rupturas e processos de adoção de outros paradigmas sob outro ângulo. Quando a AD enuncia que o sujeito se constitui no discurso, significa que ele, para assumir posições dentro da rede de significações, deve filiar-se a uma FD (idealmente) ou a um conjunto de FDs onde seu dizer possa produzir sentidos e de onde ele possa realizar leituras que tenham sentido.

Ao comparar o problema da “pedra oscilante” nas perspectivas aristotélica e galileana, Kuhn (2006, p.166) revela um traço importante da noção de paradigma: uma prática discursiva de ciência exige um conjunto diferenciado de conceitos e suas inter-relações. Para Aristóteles o que importava era o retorno da pedra ao seu lugar natural – o estado inicial, longe do chão, e o estado final, em repouso, mais próximo do chão. Assim, apenas esses dois estados eram necessários à compreensão da ordem (hierárquica) das coisas. Já para Galileu importava o processo entre esses estados, a passagem entre as várias e sucessivas posições que a pedra descrevia em seu movimento no espaço, relacionando-as com o intervalo de tempo decorrido entre passagens sucessivas. Assim, as medições – se realizadas – ocupavam- se de objetos (conceitos) diferentes e de relações diferentes em cada caso, quando vistas de um ou de outro paradigma.

Assim, uma transição36 de uma FD para outra, de uma teoria para outra, significa um deslocamento da posição-sujeito. Significa também, num primeiro momento, um gesto de abertura, próprio das brechas discursivas que dizem que o sentido sempre pode ser outro (apesar da comunidade e do paradigma), e depois, num segundo momento, compelido pela ideologia do novo paradigma, um gesto de fechamento, de interdição da interpretação, de controle dos sentidos e significados produzidos ou a produzir. Isso amarra o sujeito num lugar empírico da rede de significações (ORLANDI: 2007a, p. 54), construção do campo disciplinar que define sua profissão, lugar este imaginário, virtual37. Alguns mudam de posição na rede de significações durante a revolução científica, enquanto outros o fazem depois dela, quando se organizam novas comunidades em torno do novo paradigma, condicionante de outro período de ciência normal. Por isso Kuhn retoma em vários momentos de seu projeto a figura do cientista como um profissional da ciência, lugar empírico,

36 Aqui essa transição, deslocamento da posição-sujeito, pode ser de uma FD para outra ou de um conjunto de

FDs para outro conjunto de FDs.

37 Quando digo que o lugar é emp írico e ao mes mo tempo virtual (em devir), é porque o entendo como

construção: existe um lugar de “médico” e um discurso médico (alopata ou homeopata) na rede de significações, mas ambos são construções dinâmicas, em p rocesso. Porque a compreensão do que é ser um médico é historicamente determinada, trabalho da ideologia.

instituinte do sujeito que pesquisa. É ao assumir essa posição de cientista que o sujeito aceita um paradigma, aceita o fechamento de sentidos, sem reflexão, porque se assujeitou ao discurso que lhe constitui e pelo qual se institui.

A transição entre paradigmas é o problema mais difícil de elucidar, porque a mudança somente pode ser percebida retrospectivamente (MARCONDES: 2001, p.29). Muitas vezes, os traços mais marcantes são aqueles deixados por mudanças de quadros teóricos. Assim, quando fala da transição da teoria de Newton para a teoria de Einstein, Kuhn aproxima-se um pouco da perspectiva discursiva, porquanto admite que há deslizamento de sentidos, mas não explicita as características ontológicas e epistemológicas dessa transição. Ele diz que:

Precisamente por não envolver a introdução de objetos ou conceitos adicionais, a transição da mecânica newtoniana para a einsteiniana ilustra com particular clareza a revolução científica como sendo um deslocamento da rede conceitual através da qual os cientistas vêem o mundo. (Kuhn: 2006, p. 137)

Já de início ele diz que a mudança não se dá pela adoção de objetos novos. Porém, massa, energia, espaço e tempo têm na teoria de Newton sentidos completamente diferentes daqueles admitidos e atribuídos por Einstein. Mas logo em seguida Kuhn admite que a mudança é um deslocamento da rede conceitual – em ressonância com a idéia bachelardiana de perfil epistemológico. Logo esses objetos devem ser novos. Esse excerto revela uma faceta de seu conceito de incomensurabilidade: o próprio Kuhn encontra-se na região de sobreposição de várias FDs; admite que há um deslizamento de sentidos, mas se perde na manutenção dos signos (massa, energia etc.), que agora produzem outros sentidos.

A dificuldade primordial de apreensão da categoria kuhniana incomensurabilidade, é que ela deveria caracterizar a impossibilidade de comunicação (produtiva) entre os pesquisadores pré-revolução científica e os cientistas da pós-revolução, porque não haveria aí proximidade teórica, metodológica, epistemológica ou mesmo de objetos de conhecimento (questões relevantes de pesquisa), pois certamente as categorias e os objetos antigos seriam desprovidos de sentido no novo contexto. Aqui há um risco muito grande de confusão entre significados consolidados em dicionários e enciclopédias e os sentidos moventes, frutos das mudanças paradigmáticas. E esse risco não é por acaso, pois é um conceito que somente pode ser apreendido na perspectiva discursiva, porque se desdobra nas várias regiões do espectro epistemológico. Seu caráter polêmico – porque mal interpretado – foi observado por Lovin & Cobern (2000):

(..) the most controversial idea that Kuhn first proposed in SSR38, which to

the end gave him his greater challenge, was his concept of

incommensurability. This was essentially a stance suggesting that members

of new and old paradigms within the same discipline, with their current reigning or competing theories, literally had no common measure, no common language. It is clear that Kuhn´s notion of scientific change was relegated to specific, isolated, somewhat insulated scientific communities in various disciplines39. (LOVIN; COBERN: 2000, p.190) (Grifo nosso)

É imperativo localizar aqui, como exemplo necessário, o conceito de momento linear ou momentum. Na tradição da mecânica racional de Newton ele se de fine pelo produto da massa de um corpúsculo por sua velocidade, sendo a velocidade obtida das tangentes à trajetória desse corpo no espaço em cada ponto de sua evolução espaço-temporal. No contexto da Teoria Quântica também existe uma observável física com esse nome, mas já não pode haver referência a uma trajetória qualquer, porque o conceito de trajetória não faz parte da Teoria Quântica, sendo proibido pelo princípio de incerteza de Heisenberg. De que falam então os físicos quando dizem que mediram o momento linear de uma partícula? Antes: que imagem mental eles têm desse dizer? Essa questão está fora do escopo desse trabalho, mas não deixa de ter pertinência. É aqui que se esgueira o conceito kuhniano de incomensurabilidade, e se reconhece o conceito bachelardiano de perfil epistemológico. Ou seja: há uma incomensurabilidade tácita no dizer do cientista, porque a compreensão de um conceito é somente possível desde a apreensão do seu perfil. O mesmo “fenômeno” se dá quando um físico newtoniano e um físico einsteiniano conversam sobre o conceito de massa. Eles não estão pensando as mesmas coisas, porque estão em regiões diferentes do perfil epistemológico desse conceito, conforme a Figura 2, estão, portanto, em diferentes conjuntos de FDs, em diferentes regiões de um espaço-tempo40 de significações.

38 SSR é a forma de referir-se a The Structure of Scientific Revolutions (A Estrutura das Revoluções

Científicas).

39 Livre-tradução: “(...) a idéia mais controversa que Kuhn primeiro propôs no SSR, a qual ao final deu -lhe seu

maior desafio, foi seu conceito de incomensurabilidade. Isso era essencialmente uma postura sugerindo que memb ros de paradigmas novos e velhos dentro da mesma disciplina, com suas teorias reinantes ou concorrentes, literalmente não tinham nenhuma med ida co mu m, nenhuma linguagem co mu m. É claro que a noção de mudança científica de Kuhn fo i relegada para co munidades científicas específicas, segregadas, um pouco isoladas, em várias disciplinas.”

40 Aqui a idéia de espaço-tempo significa que embora o conhecimento humano tenha alcançado – com as teorias

quântica e relativística – o surracionalismo, os indivíduos em fo rmação parecem estar vivendo nesse espaço de aprendizagem, mas em outras épocas, com timing epistemológico diferente da contemporaneidade, quando predominavam os estágios menos elaborados de abstração, no sentido do racionalismo aberto de Bachelard . Essa discussão será retomada nas considerações finais com a idéia de sincronia/diacron ia.

Infelizmente, a despeito dessa característica intervalar da evolução do pensamento humano, marcada por mudanças ontológicas e epistemológicas de largo espectro, a ciência ensinada na Escola se caracteriza pela tentativa de transmitir a idéia de que há uma continuidade na ciência, continuidade essa que se baseia num processo de acúmulo de conhecimento, no qual uma nova teoria deveria conter aquela que foi superada como um caso limite. Por isso é que se encontram na literatura as tentativas artificiais de mostrar que a Mecânica de Newton é um caso particular da Teoria da Relatividade quando se faz a velocidade da luz tender ao infinito.

Há duas fortes razões para evitar-se tal abordagem pedagógica. Uma é ontológica: o espaço-tempo de Einstein não é a junção ou justaposição do espaço e do tempo de Newton: é um continuum quadridimensional não absoluto. A outra é epistemológica: a teoria de Newton não tem como dificuldade fundante a medição do tempo, porque não a problematiza, enquanto a relatividade começa com a pergunta sobre a medição/determinação da simultaneidade de eventos. Foi essa mudança axiomática que fez surgir a teoria da relatividade. O mesmo questionamento pode ser feito ao dizer-se que a Mecânica de Newton pode ser obtida da Mecânica Quântica quando se toma o limite da constante de Planck tendendo a zero. É uma tentativa tecnicamente aceitável (até certo ponto), mas que fere as bases ontológicas de ambas as teorias, porque seus objetos são de naturezas muito diferentes. É uma transição artificial, realizada para acalmar os corações racionalistas positivos.

A rede conceitual que se abriga em um paradigma – para que os cientistas possam praticar e interpretar – é a parte fundamental do paradigma que orienta o processo de produção da ciência normal. Com ela “os cientistas normais articularão e desenvolverão o paradigma em sua tentativa de explicar e de acomodar o comportamento de alguns aspectos relevantes do mundo real tais como relevados através dos resultados de experiências ” (CHALMERS: 1993, p. 125). Aqui as palavras-chave são explicar e acomodar. Elas transformam o paradigma, segundo seu desdobramento teórico-metodológico, naquilo que Bachelard chamou de contra-pensamento, um dos obstáculos epistemológicos, porque “(...) a decisão de empregar um determinado aparelho e usá-lo de um modo específico baseia-se no pressuposto de que somente certos tipos de circunstâncias ocorrerão ” (KUHN: 2006, p.86). Aqui pode ocorrer também o obstáculo quantitativo, que é parte do paradigma positivista vigente ainda em muitos campos do conhecimento. Kuhn admite implicitamente essas possibilidades quando afirma que:

Os procedimentos e aplicações do paradigma são tão necessários à ciência como as leis e teorias paradigmáticas – têm os mesmos efeitos. Restringem

inevitavelmente o campo fenomenológico acessível em qualquer momento da

investigação científica. (idem, p. 87). (Grifo nosso).

Todavia, argumenta Kuhn, essa restrição traz bons resultados à ciência (dentro de uma dada ideologia, evidentemente), porque

(...) a comunidade científica, uma vez liberada da necessidade de reexaminar constantemente seus fundamentos em vista da aceitação de um paradigma comum, permite aos seus membros concentrarem-se exclusivamente nos fenômenos mais esotéricos e sutis que lhes interessam. (ibidem, p.207)

Mas, note-se, aqui o paradigma aproxima-se da idéia de teoria paradigmática, que é antes a exceção e não a regra em Kuhn. Isso porque, se não há a necessidade de revisitar criticamente as bases de um paradigma, então o processo de teorização reduz-se ao ato de citar aqueles grandes manuais onde estão coligidas e atualizadas as primeiras soluções de problemas, os modelos que deflagraram a existência do próprio paradigma, de “uma forma