O processo de elaboração das categorias de análise, dos eixos articuladores, dos elementos categoriais e do elemento transversal se estabeleceu a partir das recorrências destacadas no processo de análise das narrativas coletadas e, também, do campo epistemológico que fundamentou a pesquisa.
O percurso empreendido constitui-se em um grande desafio, devido o denso material obtido a partir das entrevistas semiestruturadas com as estudantes de mestrado e doutorado, colaboradoras deste estudo. Primeiramente, realizamos uma pré-análise em cada uma das entrevistas destacando os aspectos presentes nas narrativas que contemplassem os tópicos guias delineados. Esta dinâmica de análise permitiu construir um primeiro mapeamento das narrativas, o qual foi utilizado em uma segunda etapa de análise.
Na segunda etapa de análise, objetivamos destacar a ideia central explicitada em cada voz nos excertos das narrativas selecionadas. Desse modo, a partir do conjunto de recorrências construímos os elementos categoriais. Esse movimento exigiu a retomada constante dos objetivos de pesquisa, bem como da base teórica da investigação empreendida na busca de delimitarmos a ideia-chave dos excertos.
Em uma terceira etapa de organização e trabalho de análise, tivemos como tarefa agrupar os elementos categoriais de maneira que em seu conjunto pudessem caracterizar cada uma das categorias de análise. Nossa ideia é que uma categoria de análise possa ter o potencial de explicar, de conceituar o fenômeno analisado. Por essa razão, mais uma vez, se fez imprescindível o movimento de retomada dos objetivos da pesquisa, bem como à base teórica da investigação empreendida.
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Vale ressaltar que todo o processo de construção dos elementos categoriais, subcategorias e categorias formaram-se a partir do conteúdo dos excertos das narrativas expressas pelos sujeitos colaboradores mediante as entrevistas semiestruturadas e o exame dos memoriais de suas dissertações e teses. Assim, dos conteúdos de cada um desses tópicos emergiram as narrativas das colaboradoras.
A partir da organização da coleta dos dados achados foram feitos quadros, nos quais as narrativas foram organizadas e registradas de acordo com os respectivos tópicos-guias e tópicos-norteadores, de modo a construirmos um panorama geral das narrativas coletadas. A partir dessa sistematização, foi possível observar e marcar as recorrências em cada um dos excertos selecionados. Após, reunimos as recorrências que se aproximavam em grupo. Desses grupos emergiram os elementos categoriais e do conjunto destes os eixos articuladores, e, por fim, as categorias. A partir dessa dinâmica de análise e organização, foi possível a construção de duas categorias: produção da pesquisa e autonomia na pesquisa.
Antes de apresentarmos especificamente cada uma das categorias, é necessário apresentarmos as dimensões que permeiam de modo constante e implicam diretamente em ambas as categorias citadas, são elas: a dimensão
particular, a dimensão profissional e a dimensão do campo investigativo. Estas três
dimensões estão implicadas através de motivos e necessidades próprias estejam elas presentes no contexto profissional, pessoal ou mesmo na busca de contribuir para o campo de pesquisa. Segundo Leontiev (1984, p. 67) “la actividad del hombre, cualquiera que sea la estructura que tome, no se la puede considerar como desgajada de las relaciones sociales, de la vida de la sociedad100”, por essa razão não é possível deixar de considerar essas dimensões no decorrer da produção da pesquisa como também na constituição da autonomia do sujeito nesse processo.
Na direção de suprir os desafios emergidos em uma dessas dimensões, os sujeitos, no caso de nossas colaboradoras analisadas, se propõem a organizar uma pesquisa e para tanto eles passam por diferentes momentos organizacionais, através de ações e operações, as quais caracterizam seu próprio percurso investigativo. Isto ocorre na medida em que o sujeito que pesquisa organiza sua coleta de dados, faz suas análises, constrói suas categorias, elabora sua escrita etc.
100 “a atividade do homem, qualquer que seja a estrutura que tome não se pode considerar como separada das relações sociais, da vida da sociedade” (p. 67, tradução nossa).
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Tudo isso ocorre e inevitavelmente é influenciado pelas dimensões: pessoal, profissional e do campo investigativo.
A produção da pesquisa constitui-se na categoria que permitiu sintetizar conceitualmente o fenômeno dos sujeitos colaboradores, no caso estudantes de mestrado e doutorado, quanto à compreensão de como eles construíram seus percursos investigativos na elaboração de suas dissertações e teses. Neste trabalho entendemos que o processo de produção da pesquisa exige a organização de
atividades de estudos. A atividade de estudo é mobilizadora do processo de
produção de pesquisa, a medida que colocam em movimento seus elementos estruturantes: tarefa de estudo (necessidades e motivos), ações, operações,
autoavaliação e autorregulação (DAVÍDOV; MÁRKOVA, 1987a).
A categoria produção da pesquisa organiza-se a partir de dois eixos articuladores: necessidades de produção de pesquisa e percurso da pesquisa. Em seu primeiro eixo articulador, necessidades de produção da pesquisa, reunimos o conjunto de ideias que nos levam a compreender as necessidades e os motivos que mobilizaram os sujeitos a elaborarem suas pesquisas e, consequentemente, a realizarem suas dissertações de mestrado e teses de doutorado. Seus elementos categoriais são: necessidade pessoal, necessidade profissional e necessidade do
campo investigativo.
O segundo eixo articulador, percurso da pesquisa, definimos como sendo o caminho percorrido pelos colaboradores durante o desenvolvimento de suas investigações. Caminho este que é constituído por um conjunto de ações e
operações que os sujeitos efetivaram, bem como os estímulos auxiliares implicados
na realização de suas investigações. Esse eixo apresentou os seguintes elementos categoriais: organização da pesquisa, seleção de leituras, formas de registros das
leituras de estudo, organização da coleta e da análise dos achados, construção das categorias e dos elementos categoriais, reorientação da base teórica, produção da escrita dos resultados e das análises e elaboração do relatório de pesquisa.
Um desenho investigativo pautado dentro de um tempo e de um espaço próprio e diretamente influenciado pelas dimensões pessoais, profissionais e do próprio campo investigativo. E, à medida que produzimos a pesquisa buscamos de forma sistemática aprender, e esta aprendizagem, que se constitui a partir da
atividade de estudo leva-nos à autonomia, mediante a autorregulação, um dos
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Assim, entramos na segunda categoria a autonomia na pesquisa que, neste trabalho, constitui-se no gerenciamento de si no processo investigativo, na capacidade do sujeito que pesquisa de tomar decisões e auto-orientar-se nessa atividade. Isto significa sermos capazes de fazer escolhas conscientes, isto é, conhecer e analisar as possibilidades, selecionando a que melhor servir à necessidade do momento vivido durante na pesquisa. Nesse sentido, compreendemos a autonomia na pesquisa como um processo de aprender a
aprender continuamente, na busca do conhecimento e da [re] construção dos
mesmos para solucionar e fundamentar as sua ações frente aos desafios do cotidiano profissional (RUÉ, 2009). Esse processo de aprender a aprender é gerado mais uma vez pela atividade de estudo e, consequentemente, pelas tarefas de
estudo (necessidades e motivos), ações, operações e, por fim, autoavaliações e autorregulações; estas, por sua vez, novamente provocarão novas tarefas de estudo
(necessidades e motivos), ações, operações autoavaliações e autorregulações, formando um ciclo constante (DAVÍDOV; MÁRKOVA, 1987a).
Essa segunda categoria possui como eixo articulador o percurso da
autonomia que indica o desenho do percurso que as colaboradoras fizeram para a
constituição de sua autonomia. Os elementos categoriais que constituem esse eixo são: tomada de consciência das limitações e das potencialidades, momentos de
rupturas, gerenciamento da aprendizagem, transformação de si e compreensões sobre autonomia.
A tomada de consciência das limitações e das potencialidades constitui-se na percepção de suas limitações, bem como de suas potencialidades no processo investigativo, especialmente, a partir do encontro de si mediante a observação do outro. Isto significa analisar a forma como o sujeito procede durante o desenvolvimento de seu próprio processo investigativo de modo a perceber-se, por meio de autoavaliações, suas fragilidades e potencialidades e, assim, realizar a
autorregulação. E todo esse processo de tomada de consciência é facilitado quando
o sujeito observa o desenvolvimento da atividade de estudo do outro, o qual influencia na percepção do modo a perceber o desenvolvimento da sua própria atividade de estudo e possibilidade de aprendê-la com esse outro.
Assim, a tomada de consciência das limitações e das potencialidades requer do sujeito momentos de rupturas, segundo elemento categorial da autonomia na pesquisa. Estes momentos são necessários para o sujeito avançar; pois são
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momentos de ultrapassagens de limites; momentos nos quais o sujeito não só percebe suas limitações, mas pondera sobre as diversas opções de avanços que possui à sua frente com o objetivo de desenvolver suas potencialidades e, por fim, não só reflete sobre a situação vivida, mas reordena as ações dessa situação vivida de forma a gerenciar a si mesmo no processo investigativo.
O próximo elemento categorial a ser apresentado é gerenciamento da
aprendizagem que consiste na capacidade de pensar coordenadamente sobre o
próprio caminho de sua aprendizagem. Requer o entendimento da tarefa de estudo, isto é, compreender o objetivo da tarefa a ser realizada e assumir para si a responsabilidade da tarefa a ser realizada (DAVÍDOV; MÁRKOVA, 1987a). E, assumir para si tal tarefa dependerá do quanto o sujeito se sente motivado, bem como o quanto possui os recursos necessários para sua efetivação, gerando uma autoformação. Assim, consiste na ideia de trabalhar sobre e a partir das potencialidades do sujeito e não ficar estagnado em cima das suas limitações. É fazer com que o sujeito gere novas necessidades e, consequentemente, novas atividades de estudos de pesquisa.
A transformação de si consiste nas mudanças que a experiência da produção da pesquisa imprime no sujeito tanto no âmbito pessoal, profissional e acadêmico. Ela se constitui a partir da reflexão que se faz sobre os fatores que levaram o sujeito aos êxitos ou aos equívocos durante o percurso de pesquisa.
E, por fim, para compreendermos se a atividade de estudo na pesquisa possibilitou a constituição da autonomia na produção das teses e das dissertações das colaboradoras, procuramos saber o que elas compreendiam por autonomia.
A partir dos achados podemos dizer que as categorias produção da pesquisa e autonomia da pesquisa são atravessadas por um elemento categorial que mobiliza constantemente tanto a atividade de estudo como as dimensões pessoais, profissionais e do campo investigativo, os quais, por sua vez, movem ambas as categorias. Este elemento transversal é denominado, nesse trabalho, de estímulos
auxiliares.
De acordo com Vygotski (1994) a criação e o uso dos estímulos auxiliares pelo sujeito é um aspecto importante da condição do gênero humano, pois são por meio deles que uma situação nova, bem como as reações dela inerentes, são modificadas pela atividade do sujeito. Vale lembrar que os estímulos auxiliares criados pelo homem não são diretamente relacionados com uma situação específica
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em vigor, podendo ser reutilizados em outras situações. É nesse sentido que Vygostki considera os estímulos auxiliares como altamente diversificados.
Nessa perspectiva, os estímulos auxiliares utilizados pelos nossos sujeitos- colaboradores, constituíram-se em instrumentos materiais ou psicológicos e de pessoas mais especializadas, os quais os auxiliaram na mediação do processo da produção e da autonomia de suas pesquisas. Tais estímulos auxiliares foram: companheiros de grupo; orientação coletiva; sujeito orientador; currículo da Pós- graduação em Educação em stricto sensu; o grupo de pesquisa.
O quadro seguir ilustra a síntese que a pesquisa tomou a partir das análises dos excertos das narrativas:
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Quadro 5 – Síntese da análise e construção das categorias.
Dimensões Categorias Eixos Articuladores Elementos Categoriais Dimensões
Dimensão Pessoal Produção da Pesquisa Necessidade de Produção da Pesquisa Necessidade pessoal Necessidade profissional
Necessidade do campo investigativo
Dimensão Pessoal
Percurso da Pesquisa
Organização da pesquisa Seleção de leituras
Formas de registros das leituras de estudo Organização da coleta e da análise dos achados
Construção das categoriais e dos elementos categoriais
Reorientação da base teórica
Produção da escrita dos resultados e das análises
Elaboração do relatório de pesquisa Dimensão Profissional Dimensão Profissional Dimensão do Campo Investigação Dimensão do Campo Investigação
Autonomia na Pesquisa Percurso da Autonomia
Tomada de consciência das limitações e das potencialidades
Momentos de rupturas
Gerenciamento da aprendizagem Transformação de si
Compreensões sobre autonomia Eixo Transversal - Estímulos Auxiliares
Companheiros de curso; orientação coletiva; sujeito orientador; currículo da Pós-graduação em Educação em stricto sensu; o grupo de pesquisa.