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Derivation of the surface temperature differences of water

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Thermal images

5.2 General aspects

5.2.1 Derivation of the surface temperature differences of water

Em Sob o Signo de Capricórnio, como a primeira linha textual sugere, a história começa com Corto Maltese descansando preguiçosamente na varanda de uma pensão na capital da Guiana Holandesa (atual Suriname) e nos apresenta rapidamente ao mundo

comum do personagem, segundo o termo utilizado por Joseph Campbell e Christopher

Vogler. Issoaté o destino lhe impelir para o caminho que traçará posteriormente o que Vladimir Propp classifica como função do afastamento quando o personagem é

79 distanciado de sua situação inicial e impulsionado a uma mudança (PROPP, 2006, p. 19). A calmaria de Corto já parece ter fim com a aparição do personagem de Jeremiah Steiner que é expulso bem ao lado de onde Corto buscava relaxar. Professor da Universidade de Praga, Steiner é amargo com a vida o que lhe tornou um bêbado. Apesar da rispidez com que Corto Maltese trata o professor, o mesmo não se sente ofendido e continua depressivo. A personagem da Madame Java, que está com Corto, conta um pouco da história de Steiner e também é respondida com sarcasmo pelo protagonista. Pontuada aqui a personalidade egocêntrica de Corto isso nos leva a crer, neste momento, que o protagonista encarna um típico anti-herói. Posteriormente, fica mais claro que o Professor Steiner faz o papel de mentor nesta edição de Corto Maltese, pois apesar de suas peculiaridades e problemas com o álcool, é ele quem sabe explicar lendas e indicar caminhos aos personagens. É claro que, como já mencionado, Corto é também mentor para outros personagens, ele é o herói-mentor. Em mais uma comparação com a HQ de Tintim, Steiner faz o mesmo tipo do Capitão Haddock. Esse encontro inicial de Corto com o professor chega a ser decisivo para uma ação futura de Corto. Nela, este o ajudará a lutar contra valentões, situação a qual desencadeia as ações já demonstrada nas Imagens 18, 19 e 23. Mesmo que Corto nunca fuja de uma boa briga e pareça pensar somente em si por causa de seu sarcasmo com as situações da vida, ele se mostra preocupado com os outros e é impelido, por vontade própria ou não, a ajudar os indefesos. Agora podemos pensar Corto mais como um herói, egocêntrico e não cem por cento ético e moral, logo, mais humano.

Na sequência aparece Tristan Bantan, personagem central em Sob o Signo de

Capricórnio e quem possui a demanda por uma aventura. Aqui encontramos o destino,

o chamado à aventura de Corto Maltese que o leva além de sua varanda, local onde descansava preguiçosamente. Temos o conflito principal revelado e o que fará quase toda a história de Sob o Signo de Capricórnio funcionar: Tristan é filho de um velho amigo de Madame Java e está procurando pelo misterioso reino de Mú, pois é atormentado por visões e vozes que lhe encaminham para essa busca. Todavia, nesse momento, Corto acha que não é de seu interesse e recusa ao chamado, sai rumo ao seu barco e é então que ele se envolve na já citada briga e acaba por salvar o Professor. Aqui, graças a uma pergunta sarcástica de Steiner, eles acabam definindo que tipo de herói o personagem é:

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Imagem 29 – Corto Maltese: Sob o Signo de Capricórnio. Fonte: PRATT, 2006, p. 13.

Na Imagem 29, notamos como Steiner indaga por qual motivo Corto Maltese o salvou, este é sarcástico na resposta, mas o Professor responde na mesma moeda. Essa situação evidencia que Corto é um herói que não gosta muito de sua condição messiânica devido ao seu passado sombrio no qual foi um herói que buscou utopias, mas falhou nessas jornadas e, por isso, foge da realidade. Provavelmente essa situação se deve ao período histórico em que a narrativa se desenrola, um mundo instável em razão da Primeira Guerra Mundial. Aqui, um dos toques de realismo na narrativa, pois nem sempre todos saem ilesos ou mesmo vivos nas aventuras de Corto e poucas vezes os objetivos são conquistados, logo é impossível uma jornada acabar utopicamente feliz. O que importa para Corto e sua sombra e colega muitas vezes presente, Rasputin, é a jornada. “Nesse sentido, mais do que nunca o que importa é o percurso percorrido, que se confunde com o objetivo em si; ou seja, o caminho é o único fim possível, apontando naturalmente para um recomeço” (CONTRERA, 1996, p. 112) ou ainda “o herói mitológico não é patrono das coisas que se tornaram, mas das coisas em processo de tornar-se” (CAMPBELL, 2007, p. 324). Inclusive, a importância da jornada em detrimento de uma ilusão de fim, cai como uma luva para obras seriadas como os quadrinhos, nas quais geralmente temos várias edições e arcos narrativos que se iniciam e terminam.

Voltando à análise, além do encontro que Corto Maltese teve com Steiner, temos uma nova fase de encontro com o mentor, quando Madame Java solicita que Corto ouça a história de Tristan (PRATT, 2006, p.15). É então que Tristan conta que foi chamado por vozes e por um nome de uma figura mítica, o orixá Ogum Ferreiro (PRATT, 2006, p. 16). Logo em seguida, a mensagem do chamado é confirmada pela Baianinha que traz informações sobre Morgana, a irmã de Tristan (PRATT, 2006, p. 17). Ela encarna o

81 arquétipo do arauto, conforme proposto por Vogler (2006), pois é quem lança o desafio que está por vir para o herói. Por fim, Corto que até então parecia ser somente o mentor dessa história de Tristan, começa cada vez mais a ser impelido para a aventura pela baiana que anuncia que Corto Maltese também está em perigo, segundo revelação de Iemanjá, após Olhos de Sapo atirar em Tristan (PRATT, 2006, p. 19). Na sequência, o barco de Corto, com Steiner adormecido dentro, é queimado por bandidos e o protagonista finalmente nota que faz parte dessa aventura mesmo recusando o chamado brevemente nesse momento (PRATT, 2006, p. 22).

Imagem 30 – Corto Maltese: Sob o Signo do Capricórnio. Fonte: PRATT, 1997, p.34.

Nesse momento vale uma pausa do andamento da jornada do herói para lembrarmos que a estrutura da jornada e suas fases estão acontecendo, mas em uma ordem um pouco diferente da estabelecida por Vogler com algumas quebras e até quase supressão de um dos estágios. Tivemos a apresentação do mundo comum, encontro com o mentor Professor Steiner, Tristan já se aventurando, uma breve recusa da parte de Corto por não ter interesse, um novo encontro com mentor no qual Corto Maltese é definido como herói-mentor, chamado da aventura para Tristan e Corto e, por fim, uma abreviada e verdadeira recusa ao chamado pela parte de Corto. As jornadas do marinheiro e do jovem Tristan Bantam enfim se unem e notamos praticamente como a

82 jornada do herói e os arquétipos estão ali formando esse mito moderno, mas que ela realmente não é uma estrutura rígida e imutável apesar de as partes se fazerem presentes. Nesse trecho que se passou, também fomos apresentados à visão do estrangeiro e de como Hugo Pratt retrata os clichês por meio dos quais os europeus enxergam as religiões brasileiras de matriz africana.

Imagem 31 – Corto Maltese: Sob o Signo do Capricórnio. Fonte: PRATT, 2006, p.17.

Percebe-se nitidamente como o olhar do estrangeiro é superficial e mistificador da religião brasileira ao associar, sem maiores ressalvas, o candomblé (que também será tratado como “macumba”) ao ritual do vodu, que é haitiano. Além disso, percebe-se uma tentativa um tanto desastrada de sincretizar o Candomblé ao Espiritismo Kardecista, como se tivesse sido psicografada uma mensagem ditada por Ogum, o que não é possível na religião afro-brasileira, uma vez que os orixás só se comunicam por meio do jogo de búzios.

83 Dando sequência, Corto Maltese procura pelos meliantes responsáveis pela tentativa de assassinato de Tristan e pela queima do seu barco (PRATT, 2006, p. 23), aqui, observa-se claramente a travessia do primeiro limiar onde um guardião precisou ser superado. Também encontramos aqui uma singularidade repetida muito pelo mito do herói moderno, Corto Maltese encarna, segundo Campbell, o herói guerreiro; geralmente retratado como aquele cuja lança aponta contra o dragão, este tipo de herói supera desafios físicos. Ainda diz que “o local de nascimento do herói, ou a terra remota de exílio de onde ele retorna para realizar suas tarefas de adulto entre os homens, é o ponto central ou centro do mundo” (CAMPBELL, 2007, p. 322). Corto não é o herói que se aventura em um total desconhecido, mas é sim um velho conhecedor do mundo que visita terras remotas para realizar fainas ou, em outras histórias que não estamos analisando profundamente no momento, volta também para seu local de nascimento. Poderíamos encará-lo, segundo termo de Campbell, como um senhor de dois mundos (CAMPBELL, 2007, p. 225), pois ele parece transitar entre esse mundo dos homens e um mundo mais elevado, no qual já encontrou respostas, mas não um fim.

Após uma aula sobre hieróglifos que Steiner ministra a Tristan e Corto, numa espécie de referência metalinguística aos quadrinhos e à linguagem de um modo geral (PRATT, 2006, p. 26), os três se lançam à busca pelo desconhecido. A partir do início capítulo II, “Encontro na Bahia”, começa a fase de testes, aliados e inimigos. Segundo Vogler (2006, p. 204), é aqui que o herói encara o contraste com o mundo comum, passa por provações, encontra quem o ajuda e forma uma equipe e encontra com seus antagonistas. Levando em conta que Corto Maltese é um senhor de dois mundos, ele passa por todas essas fases juntamente de Tristan, exceto pelo choque cultural que é exclusivo do menino, pois Corto é um viajante e enxerga as culturas de fora, mas esses ambientes já lhe são conhecidos e muitos ele já acessou anteriormente. A interpretação sob um ponto de vista exótico perpassa Tristan que indaga o motivo de sua irmã estar rodeada de “estranhas feiticeiras”, já Corto, ao dizer que a irmã de Tristan cresceu numa “parte do mundo tão diferente da sua Inglaterra” (PRATT, 2006, p. 31), ensina o menino fazendo-o refletir sobre o fato de o mundo ser um lugar de contrastes. No caso da equipe, encontramos a resposta à questão Corto e Tristan serem ambos heróis, pois “muitas histórias apresentam heróis múltiplos, ou um herói apoiado em uma equipe de personagens com habilidades ou qualidades específicas” (VOGLER, 2006, p. 207).

84 Temos então encontro com aliados na figura do ex-presidiário Caiena e alguns índios que apontam caminhos aos personagens (PRATT, 2006, p. 34). Na sequência, os personagens encontram-se enfim com a irmã de Tristan, Morgana. O rapaz passa por um choque ao notar que ela é negra, mas Steiner e Corto, ambos no papel de mentores, falam para ele não ter preconceitos.

Imagem 32 - Corto Maltese: Sob o Signo do Capricórnio. Fonte: PRATT, 1997, p. 51.

Nesta altura da jornada, é comum que personagens adentrem locais movimentados como bares ou saloons (VOGLER, 2006, p. 209) como quando Luke Skywalker está sem rumo definido em sua aventura e se encontra com Han Solo no filme Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança, mas isso é uma situação pouco corriqueira nas aventuras de Corto Maltese. Normalmente, ele só encontra-se com alguns grupos de pessoas que lhe auxiliam de alguma maneira, como aqui em Sob o

signo de Capricórnio.

Chegamos ao sétimo estágio descrito por Campbell, a aproximação com a

caverna oculta. Tristan encontra muitas respostas desconhecidas com sua irmã

Morgana (PRATT, 2006, p. 40), então forças do inconsciente se levantam contra Tristan (vide imagens 24 e 25). Aqui temos uma antecipação do décimo primeiro estágio para

85 Tristan (a ressurreição), pois ele passa por uma morte e um renascimento simbólicos, por meio dos quais teve experiências que o mudarão. É então que a sombra de Tristan, seu antagonista e advogado da família, aparece como provação no oitavo estágio, o da

provação (PRATT, 2006, p. 45). Tristan clama pelo seu herói salvador: “gostaria que o

senhor Corto Maltese estivesse no meu lugar” (PRATT, 2006, p. 45), e, então, Corto aparece salvando-o do advogado responsável pela morte de seu pai e, na sequência, com tudo resolvido, o crânio de Tezcatlipoca aparece misteriosamente na porta da casa de Morgana caracterizando o nono estágio, o da recompensa. Os personagens são então encaminhados à Ilha de Maracá, onde Boca Dourada e o início do caminho de volta, décimo estágio, avistam-se.

Todavia, é notável que aqui vemos uma inversão de caminhos na narrativa, pois Tristan estava perseguindo as anotações de seu pai em relação ao reino perdido de Mú (PRATT, 2006, p. 16) e o inconsciente lhe levava para essa demanda, mas o final de sua jornada, ao menos em Sob o signo de Capricórnio, torna-se uma espécie de vingança ou justiça feita pela morte de seu progenitor. Aqui vale pontuar uma característica da obra de Hugo Pratt na totalidade: várias tramas ou subtramas ficam em suspenso para abrir caminho a outras, sendo que algumas delas retornam em edições posteriores ou já haviam sido abordadas em anteriores, dando uma característica de saga à obra. Na última edição produzida e publicada por Pratt, Mu a Cidade Perdida, o próprio Tristan volta a aparecer anos mais tarde na vida de Corto justamente para auxiliá-lo a procurar o continente perdido de Mu, mas ali a jornada já é outra e Tristan é só um personagem coadjuvante. As várias jornadas de cada edição de Corto e outros personagens se entrelaçam em um grande emaranhado, maior do que cada narrativa, formando um todo do qual optamos, neste momento, por isolar a história narrada em Sob o Signo de

Capricórnio.

No capítulo III, “Samba com Tiro Certeiro”, Corto e os demais se encontram com Boca Dourada, uma mulher misteriosa que aparentemente tem muitos anos a mais de vida do que um ser humano comum conseguiria ter. Aí temos uma mudança de foco e da aventura, Tristan só está acompanhando Corto que, afinal, toma para si só o papel de herói e se afirma como protagonista ao aceitar uma demanda de Boca Dourada. O marinheiro assume a proposta aparentemente só pelo lucro monetário (PRATT, 2006, p. 56). O grupo formado por Corto, Tristan e Steiner dirige-se então ao cangaço e lá participam da jornada dos cangaceiros mostrando claramente a quebra de tema e início

86 de uma nova jornada (vide imagem 22). Após fazer uma leitura de como era o governo brasileiro no início do século XX (PRATT, 2006, p. 59), Corto se torna responsável pelo nascimento de um novo chefe político, segundo o Professor Steiner: Tiro Certeiro foi encaminhado por Corto Maltese. Essa mescla de figuras históricas ou semi- históricas reais na narrativa do marinheiro é constante na maioria de suas aventuras, mais um traço de Hugo Pratt. Após ajudar os revoltosos a se livrar do coronel corrupto, Corto unge Corisco de São Jorge como o novo chefe dos cangaceiros (PRATT, 2006, p. 72), pois Tiro Certeiro morreu na empreitada. Aqui, novamente numa analogia à Bíblia, Corto encarna novamente o mentor numa figura facilmente identificada com João Batista e Corisco seria o futuro salvador, o nosso Jesus Cristo.

No quarto capítulo, “A águia do Brasil”, temos novamente Boca Dourada encaminhando os personagens a uma aventura. Tristan continua como coadjuvante e Steiner como conselheiro e aqui temos, enfim, as demandas do próprio Corto Maltese postas em pauta: a busca por tesouros ou segredos. Tudo culmina no último capítulo relacionado com a aventura que se iniciou na varanda da pensão de Java, “... E Falaremos mais uma vez dos Cavalheiros da Fortuna”. Vale lembrar que, apesar de fazerem parte de um todo que se fecha em si, Sob o Signo de Capricórnio muitas vezes foi publicado em edições menores o que pode ter acarretado a inclusão de capítulos posteriores à aventura de Tristan, sejam elas o fechamento do enredo iniciado com o jovem inglês atrás de sua irmã Morgana ou não.

Apesar de continuar cronologicamente, o último capítulo contido no álbum Sob

o signo de Capricórnio, “Por Causa de Uma Gaivota”, é uma história totalmente isolada

e sua pequena trama não remete diretamente a nada acontecido anteriormente, ela só é uma espécie de introdução para o que está por vir na edição, Corto Maltese: Sempre Um

Pouco Mais Distante.

No quinto capítulo, Tristan chega a ser abandonado pelo autor e desaparece após as páginas iniciais. É aqui que, finalmente, Corto Maltese é posto à prova ao se encontrar com Rasputin. Inúmeras vezes, o parceiro de viagens de Corto é Rasputin, um sociopata russo que, arquetipicamente e dentro da jornada heroica de Corto como um todo, além de amigo, faz o papel de sua sombra. Corto é avesso à maneira de agir de Rasputin que costuma ser muito violento e inescrupuloso, matando qualquer um que esteja em seu caminho, apesar de o russo buscar as mesmas coisas que Corto, ser um Cavalheiro da Fortuna. Essa singular relação entre os dois significa que o herói

87 “descobre e assimila seu oposto (seu próprio eu insuspeitado), quer engolindo-o, quer sendo engolido por ele. (...) Então, descobre que ele e seu oposto são, não de espécies diferentes, mas de uma mesma carne” (CAMPBELL, 2007, p. 110).

Imagem 33 – Corto Maltese: Sob o Signo de Capricórnio. Fonte: PRATT, 2006, p.103.

Corto Maltese sempre entra em conflito com Rasputin, chegando ao ponto da violência, vide a imagem abaixo. Curioso como Rasputin é inconstante, hora parece prestes a matar Corto, hora o encara como seu único amigo. Nesse ponto, ele é também a figura que encarna o arquétipo do camaleão.

Imagem 34 - Aventuras de Corto Maltese na Sibéria: II – Ungern da Mongólia. Fonte: PRATT, 1979b, p. 21.

88 Após inúmeros percalços, a busca por um tesouro perdido e o encontro com a figura do pícaro encarnada no louco da ilha que também exerce um antagonismo a Corto (PRATT, 2006, p. 105), a narrativa enfim tem seu décimo primeiro estágio da jornada, ressurreição, quando Corto e Rasputin se tornam um dos poucos sobreviventes de um tiro de canhão (PRATT, 2006, p. 112). Tragicamente e ironicamente, temos também aqui o estágio da recompensa para Corto, que recebe seu tesouro através de um tiro, mas isso que lhe trará também mudanças, sua verdadeira recompensa (PRATT, 2006, p. 111).

Apesar de o estágio de ressureição para Corto ser simples, mais para ilustrativo e não tão grandioso quanto o de um salvador da humanidade como Buda, é ele que encaminha a mudança e a reflexão no herói, pois ironicamente, a munição era justamente o tesouro que procuravam e Corto Maltese é quem prontamente identifica esse acaso triste, mas risível (PRATT, 2006, p. 114). Aqui, mesmo não conseguindo conquistar o que queria materialmente, Corto foi mudado espiritualmente por toda sua jornada. O décimo segundo e último estágio da jornada, retorno com o elixir, está cravado com uma última ironia na qual a informação necessária para tudo ter sido diferente chega atrasada (PRATT, 2006, p. 116).

Corto não retorna ao seu mundo comum, não com a coisa material pretendida, mas com uma soma de experiências. O seu barco e o mar, afinal, cravam o mundo

comum de Corto: um mundo do homem moderno, com uma vida em trânsito, sua casa é

a viagem e o deslocamento, não um espaço físico e imutável.

Temos aqui mais uma característica marcante de todas as histórias de Corto Maltese de um modo geral, afinal o que sempre importa é o percurso da jornada, as experiências que dela se conquista e não o seu breve e efêmero fim.

89 Agora podemos visualizar o resumo da jornada do herói em Corto Maltese: Sob

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