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CHAPITRE 6 : APPLICATION DU MODELE DE REFERENCE DANS LA

2. ILLUSTRATION DU TRAITEMENT DE L’INFORMATION – MODE POINT-A-POINT

2.2. Demande avec Perturbation

“Os olhos com que revejo já não são os olhos com que vi”.

Paulo Freire (1998, p. 54).

Após a qualificação do Projeto de Pesquisa pelo PPGEDU/PUCRS, lancei-me ao ofício de pesquisar. Nesse período, fui tomada por muitas expectativas, pois como seria pesquisar o “familiar”, delimitar papéis – da educadora e da pesquisadora? Mesmo assim, compreendia que só encontraria respostas vivenciando, experimentando, sentindo o sabor e mergulhando no campo de pesquisa, encharcada pelas percepções do cotidiano.

Tomada, então, pelo desejo de saber mais, de desvelar, rever com outros olhos, em uma tarde de sol intenso, iniciei o meu trabalho de pesquisa. Mesmo estando muito evidenciado que o meu olhar de pesquisadora vinha se constituindo desde o ingresso no IFSul, ele estava instigado pela desejo de melhor compreender esse espaço educativo e, assim, poder nele melhor interagir, mediar e, ao mesmo tempo, me constituir, enquanto educadora/docente que atua como assessora pedagógica.

A qualificação da proposta de tese significou para mim “um rito de passagem”, pois, ao retornar ao instituto, passei a ser indagada pelos meus colegas: E agora, quando inicia a tua pesquisa? Esse questionamento me fez pensar que, embora, para mim, a pesquisa estivesse se construindo no dia a dia, nas relações pedagógicas que estabeleço como educadora e tendo como registro o diário de campo, não eram suficientes, pois os papéis se misturavam em alguns momentos. Aí passei a me questionar: É possível descolar a educadora da pesquisadora? Minha resposta, apoiada na concepção de pesquisa que defendo, pautada no

paradigma da complexidade (MORIN, 1996; 2002), é de impossibilidade, já que a pesquisa social é permeada pela subjetividade, respeitando a condição de pluralidade humana (LAHIRE, 2004) e, portanto, formativa e construtora de saberes. Ainda que com essa compreensão, passei a perceber que o processo da pesquisa exige delimitar espaços, sem fragmentar, nem exercer papéis distintos. Nesse sentido, concordando com Neresini (2005), a pesquisa social exige uma condição de certo distanciamento do pesquisador, para inserir-se em um processo de conhecimento. Porém, considero a dualidade de papéis assumidos pelo pesquisador como relevante na pesquisa do cotidiano, como é o caso que me proponho a pesquisar. De acordo com o autor:

É exatamente o seu ser em outro lugar, em relação ao aqui do mundo da vida cotidiana, o que permite ao pesquisador colocar-se em um nível diverso, de operar aquela passagem que indica o início de um processo de conhecimento. Naturalmente, o destaque que a pesquisa social faz o pesquisador assumir não é nem absoluto, pelo fato de que ele continua a partilhar com os seus interlocutores muitos pressupostos sobre os quais se rege o mundo da vida cotidiana, nem definitivo, pelo fato de que voltará a inserir-se na quotidianidade (NERESINI, 2005, p. 81).

Sendo assim, inicio o processo de formalização da pesquisa, apresentando a proposta de tese à equipe diretiva do Instituto, constituída pelo diretor geral, pelos chefes do departamento de ensino e administração, com a intenção de obter a autorização para desenvolver este estudo. Procurei mostrar os objetivos da pesquisa, as motivações, o percurso metodológico e as possíveis contribuições para o contexto da Educação Profissional e Tecnológica. Foi um momento de muita expectativa, visto que compreendo que o estudo que venho propondo, de certa forma, rompe com as concepções até então conhecidas no Campo da Educação Profissional e Tecnológica. Estava prepara para responder muitos questionamentos sobre o processo metodológico em especial, porém as minhas expectativas não se confirmaram e recebi a referida autorização, bem como o convite para apresentação da proposta aos demais servidores do Campus. Tal convite me causou certo espanto, eis que a minha intenção inicial era apresentar a proposta de tese aos gestores e aos servidores docentes, mas, ao mesmo tempo, me levou a refletir sobre a importância desse momento, no sentido de compreender melhor o campo interativo da pesquisa e também me coloquei em uma condição de grande coerência

com a concepção de pesquisa que vem sustentando esse trabalho – da ciência do concreto, do vivencial, permeada pelo respeito ao outro. Não concebo fazer pesquisa se as pessoas envolvidas não conhecerem os objetivos, os meios e os possíveis fins, mesmo entendendo que a pesquisa não deva ter um fim prescritivo, mas, sim, anunciar, comunicar os possíveis achados/contribuições. Ao aceitar o convite, senti que estava reafirmando tal compromisso.

Então, ao aceitar tal sugestão, encaminhei uma proposta de data para as coordenações dos cursos e demais setores administrativos do Campus, a qual foi aceita.

Em uma tarde de calor intenso do mês de fevereiro no mini-auditório, estiveram presentes oitenta por cento dos servidores, entre eles a totalidade de docentes, o que gerou espanto e alegria, pois foi apenas um convite, fato que não é comum em outros momentos. Fui acolhida com muito carinho, contudo, ao mesmo tempo, percebia certa curiosidade por parte das pessoas que ali estavam. Assim, a minha alegria se misturou com perplexidade, fazendo-me pensar:  O meu trabalho é tão importante assim? – Será que corresponderei às expectativas criadas? Mas iniciei o trabalho, que se constituiu de dois momentos: primeiro, a apresentação da proposta de pesquisa, cuja estrutura de apresentação feita aos gestores procurei seguir; e um segundo momento, para questionamentos.

Nesse momento, os questionamentos esperados surgiram. Após a apresentação, fui questionada sobre os parâmetros de validação de minha pesquisa e quanto aos possíveis resultados, apontando para uma concepção pragmática segundo a qual toda a pesquisa deve comprovar e prescrever. Esse momento se revelou de grande significado, no qual foram explicitadas as concepções de ciência que sustentam historicamente as práticas pedagógicas e de pesquisa do Instituto, construídas nas trajetórias formativas das pessoas que constituem o grupo. Entre esses profissionais estavam engenheiros, com formação em pesquisa, pautada na concepção positivista, em que o conhecimento deve ser comprovado, testado mediante experimentos de laboratório, no qual se valoriza muito mais o resultado da pesquisa do que o processo. Nesse contexto, a ciência é reafirmada pelo seu método, que exige comprovação de seus resultados de forma rigorosa.

A importância dessa fase se deu pela possibilidade que se colocou para explicitar sobre o paradigma científico contemporâneo, pautado na compreensão da complexidade do conhecimento, por isto não é determinado e, sim, provisório e não prescritivo, ao qual a minha pesquisa está vinculada. Essa concepção do conhecimento científico questiona o paradigma moderno, por compreender “o ser humano como circunstanciado, histórico e com possibilidade de biografar-se, mediante os processos simbólicos que se dão no seio de cada cultura e de cada língua” (CASAGRANDE, 2010, p. 32).

Nesse momento, se estabeleceu um diálogo, marcado por argumentos divergentes, mas reflexivo, permeado pelo respeito. Acredito que as posições divergentes contribuem, para que aconteça a construção de novos saberes. Seria esse período um articulador para a construção de novos saberes? Quais?

Ao concluir o trabalho, fiquei satisfeita, por ter aguçado tais questionamentos, mas, ao mesmo tempo, preocupei-me com a tarefa de, com a pesquisa, realmente contribuir, sem ser prescritiva, pragmática, mas mostrar uma outra ciência – a do vivencial, do concreto, a ciência que se gesta no olhar e na escuta densa. Então, assumo o compromisso, ao encerrar a atividade, de apresentar ao grupo as reflexões que a pesquisa apontar, talvez não com respostas prontas, porém, com a perspectiva de melhor conhecer o mundo constitutivo da docência, a partir de seus protagonistas.

Dessa forma, essa fase da pesquisa também encaminhou outras mudanças de trilha, exigindo a autorização para a realização da pesquisa documental. Lancei o questionamento sobre o interesse ou não das pessoas em participar da pesquisa.

Considero tal relato significativo na descrição do processo de construção do corpus da pesquisa, por se tratar de um procedimento que se delineou no caminho, que não foi pensado, entretanto que se impôs, caracterizando-se por ser um momento de descontinuidade e de ruptura com o previsível. Apontou elementos significativos, para a compreensão do contexto relacional, em que as pessoas da pesquisa se constituem no exercício da docência, delineando, assim, o campo interativo, permeado por diferentes concepções pedagógicas, papéis e saberes, entendendo que os sentidos que são atribuídos a ela encontram-se “mergulhados” nesse contexto. Dessa forma, nesse período, encaminharam-se outras mudanças de trilha, exigindo a autorização para a realização da pesquisa documental.

Na construção do Projeto de Pesquisa, havia definido que iniciaria o processo da pesquisa com a escolha dos sujeitos, através da análise documental, guiada por alguns critérios estabelecidos, com base na empiria inicial.

Se assim agisse, não estaria sendo coerente com os princípios que considero fundamentais, como o do cuidado e respeito para com os participantes da pesquisa. Então, resolvi que, após a apresentação do Projeto de Pesquisa às pessoas, abriria um espaço de escuta, questionamentos e escolhas para as pessoas definirem entre participar ou não da pesquisa. Entendo, como Sarmento (2003, p. 147), que o “esforço de ouvir é eminentemente interativo, e, nesse ouvir o outro, estão as condições de uma ciência mais humana”. Ao realizar esse questionamento, todos os presentes concordaram com a realização da pesquisa documental, na perspectiva de selecionar os seis docentes para participar das demais etapas de pesquisa, ou seja, narrar as suas trajetórias de vida e, através delas, contribuir na compreensão dos processos constitutivos da docência.

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