CHAPITRE 6 : APPLICATION DU MODELE DE REFERENCE DANS LA
1. CARACTERISTIQUES DES EXEMPLES ET HYPOTHESES
“Não se pode dizer que se faz uma escolha neutra; pelo
contrario se faz porque está relacionado com um sistema de valores e com as convicções últimas do sujeito que escolhe”.
Jacques Andre Leon Marre (1991, p. 10).
A escolha do tema da presente pesquisa é fruto de uma construção permeada de “olhares” e “escutas” do meu cotidiano profissional. Emerge do “mergulho” na empiria. Nesse sentido, Marre (1991, p. 11) aponta que a escolha de um tema de pesquisa “exige distanciamento, análise e crítica, é um momento de ruptura. Escolher um tema é já construí-lo qualitativamente de um modo diverso do senso comum, pois exige relação com a abordagem teórica”.
Nesse momento, penso que este processo de “análise e crítica” foi-se dando ao longo de minha trajetória na educação e tomou forma, quando ingressei no
doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, na linha de pesquisa “Pessoa e Educação”. Inicialmente, tinha como intenção de pesquisa o processo histórico da formação do educador, de modo especial, daquele que atua na Educação Profissional e Tecnológica. Nessa perspectiva, o objetivo traçado era identificar que saberes constituíram-no e que saberes se fazem necessários para tal educador.
Entretanto, após minha inserção no Programa, pelas leituras propostas das disciplinas cursadas, das discussões nos seminários oferecidos e ainda pelas contribuições do grupo de pesquisa4, coordenado pela Profa. Maria Helena Menna Barreto Abrahão, meu olhar se deslocou, para conhecer o processo de constituição da docência no contexto da Educação Profissional e Tecnológica, em especial, no IFSul – Campus Passo Fundo.
Compreendo que conhecer os processos constitutivos da docência nesse contexto assume a crença no caráter formativo, o que contribuirá, de forma significativa, para implementação de políticas de formação continuada no âmbito da docência, no mesmo sentido preconizado por Josso (2010), que possibilita a formação de consciência em uma dinâmica singular e coletiva, a qual permite compreender os sentidos de ser e estar no mundo e, assim, tomá-la como paradigma constitutivo da decência.
Isso significa focar o olhar na pessoa do professor e nos seus processos interativos, temporalmente constitutivos de trajetórias de vida. Nóvoa (1996) diz que a ação pedagógica é influenciada pelas características pessoais e pelo percurso de vida profissional de cada professor, eis que “a maneira como cada um de nós ensina está diretamente dependente daquilo que somos como pessoa quando exercemos o ensino” (NÓVOA, 1996, p. 17).
As pesquisas a respeito da vida dos professores têm alcançado notoriedade, pelo fato de apontar a outra face da mudança na educação, ou seja, os contextos nos quais os professores vivem e trabalham. Por isso – e devido a isso – compreender as trajetórias de vida dos professores é relevante, a fim de implementar mudanças educativas.
Segundo Bolivar (2002a), estudar o curso de vida de uma pessoa requer compreensão do percurso por ela percorrido, devendo ser analisado diacronicamente, em função de um conjunto de etapas, como idades, circunstâncias sociais e históricas e estágios profissionais. Tais estudos obedecem a certo grau de normatividade, seguindo as sequências de fases/estágios pelos quais costumam passar os seres humanos. No entanto, deve-se considerar também o conjunto de acontecimentos sócio-históricos e os eventos individuais inesperados na vida de cada pessoa.
Nesse sentido, encontro suporte reflexivo também em Tardif (2008) que, ao ampliar seus estudos sobre a profissão docente, expressa que os saberes que servem de base para o ensino, tais como são vistos pelos professores, não se limitam a conteúdos escolares que exigem conhecimentos específicos e especializados, mas abrangem as relações que estabelecem e os constituem enquanto profissional do ensino.
Juntamente com o tema, surge a intenção de conhecer, questionar, indagar sobre: Como as relações intersubjetivas, estabelecidas ao longo das trajetórias formativas, passam a inferir como experiências na constituição da docência na Educação Profissional e Tecnológica? Esse questionamento me direcionou a definir o objetivo da pesquisa: “compreender os processos constitutivos da docência na Educação Profissional e Tecnológica, em especial, no IFSul – Campus Passo Fundo”.
Diante do objetivo de pesquisa, faz-se necessário problematizá-lo, apontando para as questões de pesquisa.
Que motivos levam esses profissionais a assumirem a docência como única atividade profissional, mesmo com qualificação para exercerem suas atividades profissionais na indústria e/ou empresas ligadas à produção, não à formação, como é o caso da docência?
Que imagens as pessoas da pesquisa têm de si como professores em situações de sala de aula, nos diferentes momentos da docência?
Que elementos configuram a trajetória de formação dos professores da Educação Profissional e Tecnológica, enquanto sujeitos da aprendizagem?
Como os processos formais de formação pedagógica podem contribuir na constituição da docência?
Dessa forma, compreendo que a formulação do problema funciona como o orientador da pesquisa. Assim, as condições necessárias para a formulação de um problema partem da observação, das conversas com outras pessoas, da leitura, discussão e imaginação. Após a definição do problema, deveremos buscar caminhos para o estudo e as perspectivas sobre o tema delimitado.
Sobre essa questão, Alves-Mazzotti (2001) afirma que o problema de pesquisa pode ser definido com algumas questões relevantes, as quais as informações disponíveis não dão respostas. Ressalta ainda que, “em sentido geral, um problema é uma questão que mostra uma situação necessitada de discussão, investigação, decisão ou solução” (ALVES-MAZZOTTI, 2001, p. 24).
3 O PERCURSO DA PESQUISA: A CONSTRUÇÃO DO CORPUS
“É em virtude desta teia preexistente de relações
humanas, com suas inúmeras vontades e intenções conflitantes, que a ação quase sempre deixa de atingir seu objetivo: mas é também graças a esse meio, onde somente a ação é real, que ela produz histórias”.
Hanna Arendt (2005, p. 196-197).
Compreendo, com a epígrafe, a teia preexistente de relações humanas, é resultado de um processo bastante complexo de construção que ocorre na interação entre o pesquisador e o evento pesquisado. O pesquisador é visto também como interlocutor, já que o contato com o objeto de investigação mobiliza nele uma complexa e dinâmica rede de significações, a qual estrutura e canaliza os seus recortes e interpretações. Assim, a sua rede de significações é continuamente impregnada e transformada pelo ofício da pesquisa, produzindo histórias.
Então, entendo que a pesquisa é uma prática social que introduz constantemente uma modificação no campo, por isso imprime limites aos atores envolvidos, os quais, quando explícitos, impõem condições para o estabelecimento de contratos entre os atores. Nessa perspectiva, recomenda Melucci (2005) a necessidade de reconhecer que:
a) os atores têm a capacidade de definir-se, mas que tal capacidade é limitada; b) os observadores e os observados se definem como tais no interior do processo de definição dos limites recíprocos; c) quanto mais tais limites se tornam explícitos, mais se põem as condições para um contrato, isto é, para uma definição negociada e consensualmente regulada da própria relação (MELUCCI, 2005, p. 328).
Segundo Amorim (2004), quanto ao objetivo da coleta dos dados, este deve ser o de apreender vários dos elementos presentes em determinadas situações interativas, com o intuito de analisar os significados e os sentidos que se destacam na situação para as várias pessoas participantes do processo, acompanhando, ainda, os seus movimentos de transformação e procurando interpretar os processos pelos quais as significações emergem.
A construção do corpus empírico, portanto, exige grande cuidado, no sentido de aprofundar o trabalho metodológico de coleta e análise dos dados. Nessa perspectiva, a coleta de dados deu-se por procedimentos diversos, compreendidos pela análise documental, observação e entrevistas narrativas. Destaca-se que as entrevistas narrativas assumem a principal fonte de dados, bem como a análise documental e a observação serviram como fontes auxiliares, porém, não menos importantes, pois exerceram papel complementar, fornecendo dados de grande relevância na tessitura dos fios constituidores da docência na Educação Profissional e Tecnológica, no IFSul – Campus Passo Fundo.
Como consequência, obtive uma base de dados bastante ampla, o que resultou em uma árdua organização e estruturação do corpus a ser analisado. Tal tarefa me impôs grandes desafios na perspectiva de apreender os elementos que configuram as redes de significações, em um processo contínuo e complexo de articulação desses elementos.
Então, passo a relatar o percurso percorrido para a construção do corpus, que iniciou pela minha vivência inicial na situação pesquisada, permitindo, assim, o primeiro delineamento da pesquisa. Entendo que este percurso é delimitado por um tempo e um espaço e descrevê-lo é o exercício de desenhar o seu mapa, com todas as suas configurações. Essa tarefa é de grande complexidade e exige fazer escolhas e recortes dentro de um universo constituído de vivências e memórias.
Utilizo-me do relato, como forma de escrita, com a intenção de narrar, explicitar e contextualizar as condições de produção do corpus, assim como as relações que se estabeleceram entre as pessoas da pesquisa e o campo, expressas pelos olhares, escutas e posturas, que se iniciam com a constituição do olhar e a definição do tema de pesquisa; posteriormente, os caminhos que rumam na busca dos dados e as estratégias de análise.
Por conseguinte, a constituição de sentidos é uma construção singular, significada pelo sujeito, que decorre de uma construção temporal que é histórica, social e cultural, porque somos constituídos na cultura. Talvez estejam, no entrelaçar desses diferentes tempos de professores e professoras do IFSul – Campus Passo Fundo, os sentidos constitutivos da docência.
Então, proponho o dialogo – professores e professoras, autores e pesquisadora – no intuito de aproximar teoria e prática, ao fazer leituras de singularidades e apresentá-las na qualidade de exemplos, não, de generalizações. Assumo as incertezas e a provisoriedade do conhecimento, valorizando o processo tanto ou mais que o produto final.
3.1 O REENCONTRO COM O CAMPO: ENTRELAÇAMENTOS ENTRE FALAS E