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3. METHODOLOGY AND ASSUMPTIONS

3.1. Demand

A trilha que tentamos abrir na construção da metodologia ancora-se, sobretudo, nas seguintes posturas teóricas: na concepção de pesquisa como experiência criadora, nutrida pelos estudos de Chaui (2006, 2010) interpretando Merleau-Ponty (2012) e autorizada pela concepção de ciência pós-moderna embasada no pensamento de Santos (2006, 2010), ambas encadeadas a teoria da AD construída por Orlandi ( 2007, 2010, 2011, 2012), compreendendo o discurso (imagético e verbal) marcado pelo atravessamento das ideologias e do inconsciente. Reafirmamos: partimos da concepção de ciência pós-moderna por seu caráter sincrético, como tentamos demonstrar com a metáfora da trilha metodológica.

Também é necessário dizermos que isto ocorreu porque há uma identificação da concepção de ciência pós-moderna com o próprio tema da pesquisa – A Recepção da AT. Compreendendo a AT como teoria de interpretação do universo das Artes e Culturas Visuais, teoria que se constituiu no contexto da Arte/Educação de tendência pós-moderna, como afirma sua sistematizadora/criadora: Ana Mae Barbosa (2009).

Ao realçar, assim, o papel da imaginação – vista com desconfiança por muitos acadêmicos que privilegiam a supremacia da ciência moderna como a mais verdadeira explicação da realidade – Santos abre a perspectiva de pensarmos o gesto de pesquisar como experiência criadora muito próximo da recriação artística, porque esse se relaciona intimamente com a dimensão estética e, neste sentido, enfatiza Santos: “A dimensão estética da ciência tem sido reconhecida por cientistas e filósofos da ciência, de Poincaré a Kuhn, de Polanyi a Popper. Jones considera que o sistema de Newton é tanto uma obra de arte como uma obra de ciência”. (2010 p. 86).

Santos segue a sua argumentação ressaltando que a matemática aparece no contexto da modernidade como aquele conhecimento que: “[...] fornece à ciência moderna, não só o instrumento privilegiado de análise, como também a lógica da investigação”. (2010, p. 14). Pensamos que sua crítica torna-se mais contundente quando ele afirma:

Deste lugar central da matemática na ciência moderna derivam duas consequências principais. Em primeiro lugar, conhecer significa quantificar. O rigor científico afere-se pelo rigor das medições. As qualidades intrínsecas do objeto são, [...], desqualificadas. O que não é quantificável é cientificamente irrelevante. Em segundo lugar, o método científico assenta

na redução da complexidade. [...] Conhecer significa dividir e classificar

para depois poder determinar relações sistemáticas entre o que se separou. (SANTOS, 2010, p. 14-15, grifos nossos).

O cientista social luso, nesse sentido, aponta para o entendimento de que a ciência é criação humana e por isso mesmo histórica e social, tomando feições diferentes no tempo e estando ao lado, na maioria das sociedades, do pensamento hegemônico; portanto servindo aos interesses da dominação, sob a alegação da importância do rigor cientifico, ou seja, colocando-o como seu maior valor.

Ao questionar o paradigma do fazer/pensar da ciência moderna o autor propõe o paradigma emergente no contexto de uma sociedade em constantes mudanças, provavelmente causadas pelas próprias transformações da ciência. Explica ele: “[...] um paradigma a emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico (o paradigma de um conhecimento prudente), tem de ser também um paradigma social (o paradigma de uma vida decente) ”. (SANTOS, 2010, p. 37).

A ressignificação da ideia de construção do conhecimento pós-moderno, fundamentada no pensamento de Santos, nos autoriza a apresentarmos, por meio da mobilização da imaginação no gesto de pesquisar como experiência criadora, os critérios que foram estabelecidos para esta pesquisa, estudo que tomou como objeto de análise o discurso (visual e verbal) de um pequeno grupo de arte/educadores pernambucanos por meio da materialidade nomeada como caderno de bordo.

O campo de pesquisa foi escolas da rede estadual de Pernambuco, localizadas na região metropolitana, considerando que os arte/educadores da referida rede participaram de um Curso de Especialização em Arte/Educação (2007-2008), com foco em Artes Visuais, resultado de um convênio da Secretaria de Educação de Pernambuco com a Universidade Católica de Pernambuco. O referido curso teve início em outubro de 2008 e terminou com as defesas dos trabalhos monográficos em 2010, atribuindo o título de especialista a um total de cem arte/educadores, dentre esses a maioria sem a formação inicial em Arte. O que representou, de certa maneira, um ganho qualitativo para a Arte/Educação. Por meio desse curso o grupo de professores/estudantes conheceram arte/educadores do cenário nacional, como Rita Bradariolli e Rejane Coutinho (ambas, professoras da UNESP) e participaram de uma palestra com Ana Mae Barbosa (ECA/USP), criadora da AT.

Neste curso os arte/educadores, habilitados oficialmente como professores de Arte e os que possuíam habilitações afins, tiveram a oportunidade de cursar a disciplina Leitura de

Imagem, cujas bases teóricas e, portanto, também, as referências estavam ancoradas na AT,

como teoria de interpretação das Artes e Culturas Visuais e não simplesmente como uma metodologia. Antes de ressaltar a ementa e o conteúdo programático da referida disciplina, cabe dizer que fui um dos elaboradores desse curso e que além dessa disciplina fui professor

juntamente com a arte/educadora Rita Bradariolli, por indicação da professora Ana Mae Barbosa, da disciplina História da Arte/Educação, além de ter orientado algumas das pesquisas desenvolvidas por integrantes do grupo.

No que se refere à ementa da disciplina Leitura de Imagem, trata-se de promover um estudo da leitura de imagem a partir das condições de construção do conhecimento dos estudantes e de sua compreensão estética e artística. O conteúdo programático foi constituído pelos seguintes elementos: As sete mudanças na Arte/Educação brasileira segundo Ana Mae Barbosa; A leitura interpretativa da imagem: ênfase pós-modernismo da Arte/Educação (a imagem da propaganda e da obra de arte); A abordagem triangular e sua história de reelaboração; A nova História da Arte segundo Jacqueline Chanda: abordagem teórica do estudo de uma obra de arte; A obra de Arte na era de sua reprodutibilidade técnica segundo Walter Benjamin: Transformações decorrentes da descoberta da fotografia para o estatuto das belas artes e suas principais interferências nas Artes Visuais; Multiculturalismo, Interculturalismo e interdisciplinaridade em Arte/Educação; A educação do olhar: Arte e inclusão social e cultural.

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