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Seguindo viagem pela província de Goiás, a figura 77, representa a cidade de Meiaponte (Atual Pirenópolis). Observa-se neste desenho à lápis, uma recorrência curiosa no trabalho de Burchell: As igrejas retratadas a partir de suas fachadas posteriores, escondendo de nossas vistas sua fachada frontal, indicando-nos que o interessava, nestes momentos muito mais o entorno do que a própria igreja que, muitas vezes, era uma das poucas construções de fachada mais rebuscadas e por este motivo, um dos temas recorrentes nos cadernos dos viajantes. As perspectivas por esse ângulo dão-nos a chance de observa-nos, inclusive, a simplicidade das formas laterais e posteriores do edifício, do jogo de volumes e alturas que ele proporciona na paisagem, assemelhando-se à cadeia da Serra dos Pirineus ao longe e de sua relação com as construções de seu entorno. A igreja em questão é a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, cuja construção se iniciou em 1728365.

Figura 71 - William Burchell, Meiaponte, 1827. Lápis, 260 x 480 mm.

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981

Da mesma localidade, Burchell registrou uma das pontes sobre o rio das Almas (Figura 82).A esquerda, Ferrez (1981) identifica a construção religiosa como sendo a igreja das Mercês. A igreja apresenta duas escoras ao lado de uma de suas paredes externas laterais, sugerindo traços de decadência na construção. Em 1750, ainda no século XVIII, sua estrutura básica estava consolidada, incluindo a construção de cinco igrejas que, com exceção da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, marcavam os extremos do perímetro urbano.

365 VEIGA, Felipe Berocan. A Folia Continua: Vida, Morte e Revelação na Festa do Divino de Pirenópolis, Goiás. In: Luciana Carvalho. (Org.). Divino Toque do Maranhão (Série Encontros e Estudos, 6). Rio de Janeiro: IPHAN, CNFCP, 2005, v. , p. 83-94. Ainda a respeito da Igreja matriz, Veiga informa-nos: “Na madrugada de 05 de setembro de 2002, o povo de Pirenópolis viveu uma tragédia de grandes proporções: o incêndio total da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Matriz de Pirenópolis, a primeira, maior e mais expressiva igreja colonial de Goiás, construída de 1728 a 1732. O fogo consumiu bancos, altares, retábulos, imagens e pinturas, derreteu o enorme sino de bronze, desabou o teto e destruiu o assoalho de madeira do piso. O fato foi noticiado nacionalmente pela televisão e pelos jornais”.p.88.

Figura 81 - William Burchell, Ponte sobre o Rio das Almas, Pirenópolis.

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981

A então capital da província, a cidade de Goiás Velho seria também representada por Burchell em seu trajeto e seria seu pouso durante quatro meses; contudo, a alcunha de cidade mais importante da região não se faz presente em seus desenhos, o núcleo urbano se mostra rarefeito e diminuto em meio aos picos da Serra Dourada e dos morros de São Francisco, Canta Galo e das Lages.

Figura 72 - William Burchell, Goiás Velho. Lápis.

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981

A prancha à lápis (Figura 73) apresenta uma das pontes que vencem o rio Vermelho. Ao fundo, a vegetação do cerrado recobre uma das várias serras que circundam a cidade. As “casas

encostadas cochichando uma com as outras”366 de tipologia simples, de porta e janela e sem maiores

ornamentos, estão assentadas sobre a margem elevada, no entanto, não estão segregadas da relação com o rio: as fachadas voltadas para o seu curso e os vários níveis do terreno, a proporcionar patamares naturais, nos indica a possibilidade de interação entre os moradores do casario e o rio e são essas práticas que prendem a atenção de Burchell na paisagem goiana e teriam continuidade à medida que segue viagem, os cursos de água (ou sua menção indireta)concorreriam com o casario em importância em seus desenhos.

Figura 73 - William Burchell, Ponte de Goiás Velho, s/d. 340 x 500 mm. Lápis.

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981

Seguindo viagem, Burchell continuaria em direção ao norte da província, parando na vila de Natividade, cujo início da ocupação se insere nos processos econômicos do ciclo do ouro no Brasil, ainda século XVIII assim como suas correspondentes mineiras. Edifica-se, em 1734, o Arraial de São Luiz, no topo da serra; com o declínio da produção aurífera, em 1770, os moradores desceram a serra, formando um novo arraial denominado Natividade, que só viria a se tornar vila em 1833367. Este núcleo relativamente novo da região seria retratado na figura 74:

366 CORALINA, Cora. Minha cidade. In: Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Global Editora, 1983. p. 47.

367 SOUSA, P. M.; ERTZOGUE, M. H. História, memória e religiosidade na festa do Divino Espírito Santo em Natividade - TO. Revista Internacional de Folkcomunicação, v. 11, p. 101-116, 2013, p. 107

Figura 74 - William Burchell, Natividade, 1828. Lápis, 340 x 500m.

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981

A ocupação da porção de Natividade que se observa no desenho de Burchell nos parece rarefeita, sem ruas definidas e como elemento definidor de ocupação, a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em pedra sabão e de arcos feitos com grandes tijolos368. Ao

longe, a cadeia de serras que cerca Natividade é apenas esboçada. Nota-se o emprego da tomada de perspectiva que privilegiava a porção de terra “incauta” à frente de Burchell, em detrimento da parcela construída. Este terreno nada mais é do que um exemplo do emprego da tipologia dos “amplos largos fundacionais” das cidades setecentistas em outro contexto de ocupação resultante da expansão dos arraiais; o largo da matriz era palco das procissões e festas religiosas e ao qual as residências mais abastadas se voltavam, em um claro rearranjo da localidade pela hierarquia 369. Por

se tratar de um largo voltado à igreja da ordem que congregava pardos, alforriados e escravos, o terreno representado por Burchell mostra-nos dimensões menores, expressão física e urbana da hierarquia que regia as ordens sociais da sociedade oitocentista.

As atividades produtivas não são representadas neste grafite, o núcleo urbano vazio é pontilhado por tipos sentados à porta das casas; com pedras cangas mostrando o trabalho de cantaria da igreja que havia poucos anos paralisado suas obras.

368 Livros do Tombo, Histórico, Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e das Belas Artes do IPHAN: < http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do;jsessionid=958EED57B956CF0172C49E97F1805E15?id =18183&retorno=paginaIphan > Acesso em 15 nov. 2014.

369 BOAVENTRUA, Deusa Maria Rodrigues. Urbanização em Goiás no século XVIII. 2007. 280 f. Tese (Doutorado) - Curso de Arquitetura, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.

O português e comandante de armas de Goiás, Raimundo José Cunha Mattos, poucos anos antes, em 1824, havia deixado registrado em sua Chorografia Histórica da Província de Goyaz , uma descrição de Natividade na qual o arraial pareceu-lhe: “extenso, aprazível, com boas casas, belas ruas, largas praças, casa de Conselho, quatro igrejas, uma companhia de Infantaria, duas de cavalaria, uma de milicianos e uma de ordenanças”370. A estrutura que se observa é paradigmática

do núcleo urbano colonial minerador, sobremodo daqueles ligados às bandeiras paulistas e mineração371.

Natividade era uma das localidades mais importantes da região conhecida hoje como Jalapão. Considerada o marco inicial de povoação do atual Tocantins, sua economia foi baseada na extração de ouro a partir do século XVII, em declínio já no século XIX. Em Natividade, o viajante e naturalista inglês George Gardner passou alguns meses recrutando novos cavalos e à espera das condições das estradas melhorarem.372 A região parecia contar com certas comodidades pois,

durante quatro meses, Burchell viveu no arraial de Porto Real (atual Porto Nacional), que distava aproximadamente três dias de viagem da Vila de Natividade373 à espera da passagem da estação de chuvas e da estabilização do nível das águas da rede fluvial da região.

Figura 75 - William Burchell, Natividade. 1828. Lápis, 340 x 500m

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981.

370 MATTOS, Raimundo José Cunha. Chorografia Histórica da Província de Goyaz. Goiânia: Secretaria do Planejamento e Coordenacão, 1979.

371 SANTOS, Paulo. Formação de cidades no Brasil colonial. 2º Ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/IPHAN, 2008. 372 Carta de George Gardner endereçada à William Hooker, docente da cátedra de Botânica da Univerisdade de Glasgow [1839]. Disponível em: http://plants.jstor.org/stable/10.5555/al.ap.visual.kldc9337 Acesso em: 22 nov. 2016.

Outra representação da presença do poder eclesiástico pode ser observada, Burchell registrou, em outro desenho acerca de Natividade, a matriz de invocação de mesmo nome. O óculo representado por Burchell não pode ser comprovado, visto que a igreja sofreu modificações ao longo do tempo, como a adição de uma nova torre e a mudança das vergas para arcos plenos, mas os dois volumes de sua lateral mantem-se semelhantes ao representado por pelo naturalista.

A arquitetura em meio à floresta

À medida que Burchell segue para o norte do império, as tipologias das moradias vão cambiando. Há cada vez mais pranchas onde ele indicará, por escrito, o emprego do “sapé” nas coberturas, incluso na varanda das igrejas (detalhe da Figura 76). Ao se observar as representações destes núcleos urbanos, percebemos que há algo em falta: onde está a tipologia dos sobrados que tanto foram utilizados na representação desta urbe Oitocentista brasileira? As construções das províncias do norte guardam semelhanças com a matriz tipológica carioca e paulista, mas suas diferenças e adições são claramente visíveis.

Seus assentamentos no terreno mostram-se muito mais esparsos do que nas cidades das províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Burchell não nota – ou ao menos não deve ter achado importante o registro – das marcações das ruas nas quais os moradores e suas carroças poderiam transitar: a presença de muros de adobe ou pedra parecem ser um dos poucos divisores – de quintais das casas paroquias? Das terras de cultivo da igreja? – que nos dão idéia dos usos dos espaços. Contudo, menções ao traçado e ao material empregado, ruas “guarnecidas de calçadas de laje”374.

A Figura 76 traz um exemplo desta observação de Burchell, em um desenho relativo ao presídio de São João das Duas Barras. Neste desenho a lápis, Burchell destaca a forte influência militar da localidade e o emprego do sapé na cobertura.

Os poucos relatos a respeito das regiões banhadas pelo rio Tocantins também seriam consequência de série de imposições por parte do Governo, uma vez que havia uma interdição sobre a navegação nas águas rio Tocantins, existente desde 1730, que ensejava dificultar o extravio do ouro375.

Declinada a produção aurífera, a interdição somente foi suspensa em 1782, período em que se iniciam, por parte do governador de Goiás, Tristão da Cunha Menezes, medidas que buscam

374 POHL, J. E. Viagem no interior do Brasil. Tradução Milton Amado e Eugênio Amado. São Paulo: EDUSP, 1976 375 GIRALDIN, O – “Pontal e Porto Real: dois arraiais do norte de Goiás e os conflitos com os Xerente nos séculos XVIII e XIX”. Revista Amazonense de História, v. 1. n.1 jan/dez/ 2002, pp. 131-146

aumentar o comércio com a cidade de Belém do Pará, a fundação de Porto Real estaria inserida neste esforço em melhorar as condições de navegação e serviria como entreposto das mercadorias e embarcações destinadas à Belém e funcionaria também como destacamento militar, uma vez que era constante os ataques de indígenas.376

Na margem direita do caudaloso rio Tocantins, erguer-se-ia então o arraial de Porto Real, , uma das mais recentes povoações do país, num esforço de colonizar as “bravias” terras goianas. Em seu lugar, décadas mais tarde, seria erguida a Catedral Nossa Senhora das Mercês, finalizada em 1904.

Figura 76 - William Burchell, presídio de São João das Duas Barras, no Araguaia. Sem data, grafite sobre papel.

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981, editado pela autora.

Neste desenho a lápis, Burchell anotou, no lado esquerdo: “tudo cor de lama, salvo a igreja e a cadeia”.377 Essa descrição sucinta consegue tingir toda a cena com os tons terrosos que o pintor

evocou e também aponta-nos que para além da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, outro símbolo

376 GIRALDIN, op., cit.

377 Com alguma dificuldade, lê-se, em inglês: “All mud color except church and jail”. FERREZ, 1981, p. 148, op, cit.

IGREJA

“ARMAZÉM” “QUARTEL”

ARTILHARIA

GRADES

de poder da cidade oitocentista estava fincado nas margens do largo. Desde os primeiros agrupamentos de moradores, o local possuía o presídio de Matança.378

Figura 77 - William Burchell, Porto Real, 1829. Lápis, 330 x 250 mm.

Fonte: FERREZ, Gilberto. O Brasil do Primeiro Reinado visto pelo botânico William John Burchell 1825-1829, 1981, editado pela autora.

Surgidas geralmente a partir de destacamentos militares, em esforços de conter avanços indígenas em áreas já tomada pelos colonos, com constante presença de tropas, pode explicar a presença de soldados e símbolos militares recorrentes nos desenhos de Burchell. Tais construções de palha e terra pontilhada por artefatos bélicos, inclusive, a representação destas difusas fronteiras territoriais, das divergências e do alcance limitado dos poderes imperiais em uma região com conexões limitadas com o restante do império. Os enquadramentos de cena do viajante serviriam ao propósito de aumentar este ar de atraso e de distanciamento da “civilização”, como observado na figura 82.

Sobre Porto Real, o naturalista inglês Francis de Castelnau, em 1847, discorreria: “a cidadezinha em que estávamos, outrora conhecida por Porto Real379, possuía antes cento e quarenta

casas; hoje não tem mais do que setenta e cinco, para uma população de uns 400 habitantes”380.

A partir de Porto Real, Burchell deveria seguir a Belém unicamente pelas vias fluviais pois, entre Porto Real e Belém: “Não havendo estradas, apenas trilhos para tropas, estes eram úteis

378 RODRIGUES, Edivaldo. Pedras de Fogo. Palmas: Alternativa Gráfica e Editora, 2003, p.13. 379 Porto Real seria renomeada mais tarde por Porto Imperial e, posteriormente, Porto Nacional.

380 CASTELNAU, Francis. Expedição às regiões centrais da América do Sul v.2 , São Paulo, Biblioteca Pedagógica Brasileira/ Ed. Nacional, 1949.p.92.

principalmente para gado que se auto transportava. Devido a estas condições, as viagens pelo rio se tornariam necessárias”381. Seguiu viagem pelo rio Tocantins e afluentes até chegar, em junho de

1829, na baía do Marajó.

4.3 Conhecer a cidade através dos rios: a província do Grão-Pará por William Burchell

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