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DELIBERATION PORTANT CREATION D’EMPLOIS PERMANENTS STATUTAIRES

Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. (...) Sua admirável ambição era produzir páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes. (...) O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico. (Mais ambíguo, dirão seus detratores; mas a ambigüidade é uma riqueza). Constitui uma revelação cotejar o Dom

Quixote de Menard com o de Cervantes. Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono capítulo): ... a verdade, cuja mãe é a história, êmulo do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro. Redigida no século

XVII, redigida pelo „engenho leigo‟, Cervantes, essa enumeração é um mero elogio retórico da história. Menard, em comparação, escreve: ... a

verdade, cuja mãe é a história, êmulo do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro. A história, mãe da verdade; a idéia é espantosa. Menard,

contemporâneo de William James, não define a história como uma indagação da realidade, mas como sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que sucedeu; é o que pensamos que sucedeu. As cláusulas finais – exemplo e aviso do presente, advertência do futuro – são descaradamente pragmáticas. Vívido também é o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard – no fundo estrangeiro – padece de alguma afetação. Não assim o do precursor, que com desenfado maneja o espanhol corrente de sua época. (...) [Menard] dedicou seus escrúpulos e vigílias a repetir num idioma alheio um livro preexistente (...)120

Este trecho conhecido do Quixote de Pierre Menard, escrito por Borges, é paradigmático para se entender os movimentos e os efeitos entre textos, palavras e sentidos ao longo do tempo121. Há um dilema proposto por Borges: mesmo uma cópia, palavra por

118

STEINER, 2005, p. 243. Grifo meu.

119

Apud STEINER, 2005, p. 247-248.

120

BORGES, Jorge Luis. “Pierre Menard, autor do Quixote”. In: Ficções. Tradução de Carlos Nejar. 1ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1972. Coleção os imortais da literatura universal. p. 47-58. Grifo do autor.

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Sobre este assunto ver o seguinte artigo: NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. “Hermenêutica da recepção: textos bíblicos nas fronteiras da cultura e no longo tempo”. In: Estudos de Religião (ER), Vol. 26, No 42 (2012). Versão disponível em: https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/ER/article/view/3095/3086.

palavra, pode carregar outros significados com o passar do tempo. Nesse exemplo, a forma da palavra permaneceu estável, idêntica, imutável, mas os seus significados não. Eis uma riqueza da linguagem, a possibilidade de novos significados. Aqui também ressoa conceitos como intertextualidade e longa duração122. Os textos, com o passar do tempo, são recheados e enriquecidos de novos significados ou sentidos:

A sobrevivência de uma grande obra nas épocas que lhe sucedem, próximas e distantes, parece, como estava dizendo, um paradoxo. No

processo de sua vida póstuma, a obra se enriquece de novos significados, de um novo sentido; a obra parece superar a si mesma, superar o que era

na época de sua criação. Pode-se dizer que nem sequer Shakespeare, nem seus contemporâneos, conheciam o „grande Shapeskeare‟ que conhecemos hoje. (...) Bielinski, em seu tempo, declarava que cada época sempre descobre algo novo nas grandes obras do passado. (...) Os fenômenos do sentido podem existir de uma forma latente, potencial, e revelar-se somente num contexto de sentido que lhes favoreça a descoberta, na cultura das épocas posteriores123.

O Quixote de Pierre Menard, embora utilize, exatamente, as mesmas palavras de Cervantes, não é aquele Dom Quixote, pois é provido de outra memória, de outro tempo. É justamente esse o motivo que torna o Quixote de Menard melhor que o de Cervantes. A intertextualidade apresenta "este mérito específico de relançar constantemente as obras antigas num novo circuito de sentido”124.

Este trabalho lida com textos literários, quer textos bíblicos, quer textos de Dostoiévski. Dostoiévski, muitas vezes, utiliza-se de textos e imagens bíblicas, enriquecendo e atribuindo novos significados a elas. Essa dinâmica de efeitos, de movimentos, de geração de novos sentidos entre textos que estão imbricados uns nos outros é um fenômeno da cultura. Pode-se falar de relações metamórficas e possibilidades de relação que passam por processos de tradução, de transformações, de deciframentos, de adaptações, incorporações, remodelações etc. Steiner dirá: “Quando usamos uma palavra, pomos a ressoar, por assim dizer, sua inteira vida pregressa”125

. Ninguém faz afirmações do zero e nenhum significado vem do nada. Um artista “não pode mais representar o que está diante de seus olhos sem um estoque pré-existente de imagens adquiridas da mesma forma

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BAKHTIN, M. “Os estudos literários hoje” In: Estética da Criação Verbal, versão em PDF. p. 200-204.

123

BAKHTIN, “Os estudos literários hoje”, p. 202. Grifo meu.

124

SAMOYAULT, Tiphaine. A intertextualidade. Tradução Sandra Nitrini. São Paulo: Hucitec, 2008, p. 124. Grifo meu.

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que não pode mais pintar sem as cores pré-existentes que ele deve ter em sua palheta”126. Dostoiévski, ao criar um personagem que figurasse a imagem de Cristo, trouxe, no interior dessa imagem, outras imagens preexistentes, principalmente dos evangelhos. Trata-se da arte precedente, da literatura sobre literatura, de uma relação de dependência, como se um trabalho anterior fosse, de certa forma, a razão do trabalho que está sendo criado. Para Steiner:

assim como a história da religião no Ocidente foi de variações e acréscimos ao cânone judaico-helenístico, assim também nossas metafísicas, artes visuais, humanidades e padrões científicos reproduziram, mais ou menos deliberadamente, o paradigma platônico, aristotélico, homérico e sofocliano127.

Parece que nas ciências naturais e tecnológicas, as constantes mudanças e inovações de conteúdo são mais intensas. Já nos discursos filosóficos e artísticos, as inovações de conteúdo são mais complexas e o impulso de organizar por meio de referências anteriores, de repetições, é mais comum. Dizer que os escritores recentes, embora talentosos, não se igualam à beleza, a genialidade e à competência dos clássicos antigos, pode até soar como tendências conservadoras. Entretanto, não se pode ignorar que: “a sensação de uma autoridade persistente do precedente clássico e hebraico tem sido uma das principais forças, talvez a principal força, durante mais ou menos dois milênios de sensibilidade ocidental”128.

O conceito de intertextualidade abrange a ideia de textos em outros textos, de tessituras, entrelaçamentos, diálogos, entrecruzamentos, biblioteca. Para Samoyault:

A literatura se escreve certamente numa relação com o mundo, mas também apresenta-se numa relação consigo mesma, com sua história, a história de suas produções, a longa caminhada de suas origens. Se cada texto constrói sua própria origem (sua originalidade), inscreve-se ao mesmo tempo numa genealogia que ele pode mais ou menos explicitar (...) [os textos] nascem uns dos outros; influenciam uns aos outros, (...) ao mesmo tempo não há nunca reprodução pura e simples ou adoção plena129.

A retomada de um texto anterior pode ocorrer de muitas formas, tais como: referência, citação, alusão, plágio, paródia, colagens etc. A ideia de memória é uma tentativa de se pensar a intertextualidade de maneira mais unificada. Assim, a intertextualidade é a memória que a literatura tem de si mesma ou uma memória literária

126

E.H. Gombrich, Meditations on a Hobby Horse and other Essays on the Theory of Art (London, 1963), p. 126 Apud STEINER, 2005, p. 483. 127 STEINER, 2005, p. 485. 128 STEINER, 2005, p. 485. 129 SAMOYAULT, 2008, p. 9.

dos textos. Nesse processo há um jogo de referências, no qual a literatura remete a si mesma:

(...) a intertextualidade não é mais apenas a retomada da citação ou da re- escritura, mas descrição dos movimentos e passagens da escritura na sua

relação consigo mesma e com o outro. Os efeitos de convergência entre

uma obra e o conjunto da cultura que a nutre penetra-a em profundidade, aparecem então em todas as suas dimensões: a heterogeneidade do intertexto funda-se na originalidade do texto. (...) tensão entre a retomada

e a novidade, entre o retorno e a origem, para propor uma poética dos

textos em movimento130.

Como dito acima, a característica maior da literatura consiste no diálogo que ela tece consigo mesma. O termo intertextualidade nasceu no âmbito dos estudos de teoria do texto, valorizando a suficiência e imanência do texto, independentemente do contexto ou de referências externas a ele. A palavra intertextualidade foi utilizada pela semioticista Julia Kristeva, em 1969. Mikhail Bakhtin foi quem introduziu o termo na teoria literária. Aqui a ideia é de que todo texto se constrói como um mosaico de citações, absorção e transformação de outros textos. Nessa perspectiva, buscava-se romper com a crítica das fontes, com os problemas de influência e transmissão no texto.

Em Bakhtin, insere-se o conceito de diálogo entre os textos e também o diálogo entre os enunciados das personagens e o autor. “O texto aparece então como o lugar de uma troca entre pedaços de enunciados que redistribui ou permuta, construindo um texto novo a partir dos textos anteriores”131. O diálogo pressupõe vozes que dialogam, numa multiplicidade de vozes, numa polifonia132. Bakhtin afirma ser Dostoiévski o criador do romance polifônico. A polifonia será abordada aqui sob um ponto de vista conceitual.

A polifonia permite o diálogo e não a objetificação dos personagens pelo autor. A polifonia não é conclusiva, mas se mostra como um processo inacabado. Os personagens de Dostoiévski não estão prontos e determinados pelo autor. Semelhantemente, Alter afirma: “existe, na perspectiva dos escritores hebreus, algo evasivo, imprevisível, irresoluto a respeito da natureza humana. O homem, feito à imagem de Deus, transcende com Ele, até outro ponto, as categorias, imagens, rótulos definidores133. Aqui se percebe um eco com o

130

SAMOYAULT, 2008, p. 11. Grifo meu.

131

SAMOYAULT, 2008, p. 18.

132

Mikhail Bakhtin analisa a obra de Dostoiévski como um espaço no qual autor/criador e personagem/criação

dialogam entre si. Ver: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra.

Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

133

ALTER, Robert. “Introdução ao Antigo Testamento”. In: Guia literário da Bíblia. ALTER, Robert; KER- MODE, Frank (orgs). São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997, p. 36.

conceito de polifonia. Dostoiévski dá voz, consciência e dialoga com seus personagens, não se sobrepondo a eles:

Dostoiévski não cria escravos mudos (como Zeus), mas pessoas livres, capazes de se colocar lado a lado com o seu criador [autor], de discordar dele e até de rebelar-se contra ele. (...) Dostoiévski não conclui as suas personagens porque estas são inconclusíveis enquanto indivíduos imunes ao efeito redutor e modelador das leis da existência imediata. (...) O enfoque dialógico e polifônico de Dostoiévski recai sobre personagens- indivíduos que resistem ao conhecimento objetificante e só se revelam na forma livre do diálogo tu-eu. Aqui o autor participa do diálogo, em isonomia [igualdade] com as personagens (...). [Dostoiévski] ouve vozes de mundos e existências inacabadas, vê o mundo como um processo em formação e o homem como um ser em formação, donde sua aversão a toda idéia do dogmaticamente acabado, do monologicamente fechado,da conclusão como ponto final134.

De acordo com a citação, percebe-se que, para Dostoiévski, os personagens não são apenas objetos do discurso do autor, mas sujeitos desse discurso. A voz de determinado personagem surge ao lado da voz do autor e dos demais personagens da obra. Nesse sentido, ocorre uma impressionante independência interior dos heróis e uma interação/diálogo entre várias consciências que não se objetificam. Essa é a ideia de vozes equipolentes ou equivalentes que Bakhtin apresenta. Na autoconsciência do herói está presente a consciência que o outro tem dele, da mesma maneira, na autoenunciação do herói está lançada a palavra do outro sobre ele. Nesse sistema, o autor não fala do herói, mas com o herói, numa relação dialógica e coparticipante. O diálogo não ocorre apenas na relação entre herói e autor, mas também nas relações entre os próprios personagens que representam ideias: ateu, cristão, generoso, cético, revolucionário, assassino, asceta, libertino, santo etc. Nos romances, as ideias têm vozes e também dialogam entre si. Para Dostoiévski, a linguagem só faz sentido em contato com outro com quem se argumenta e dialoga. Por isso, o conhecimento e o sentido ocorrem sempre em diálogo. Os textos fazem ouvir várias vozes, sem que nenhum intertexto seja explicitamente localizável. Os entrelaçamentos dos discursos e a autonomia das vozes são características do romance de Dostoiévski.

É importante destacar a aproximação existente entre a estrutura literária bíblica e o conceito de polifonia. Para Alter:

134

BEZERRA, Paulo. “Prefácio à segunda edição brasileira”. In: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de

Todo agente humano deve ter a liberdade de lutar com seu destino por seus próprios atos e palavras. Do ponto de vista formal, isso significa que o

escritor deve permitir que cada personagem se manifeste e se revele pelo diálogo e também, é claro, pela ação, livre da imposição de um aparato intrusivo de julgamento e interpretação autoral. O narrador hebreu não se mistura abertamente com os personagens que apresenta, assim como Deus

cria em cada personalidade humana um terrível emaranhado de intenções, emoções e maquinações que a linguagem capta com sua rede transparente e que compete a cada indivíduo extricar no prazo efêmero de uma vida135.

Bakhtin enxerga a palavra como parte de um processo dinâmico, dialógico e metalinguístico: “A palavra não é um objeto, mas um meio constantemente ativo, constantemente mutável de comunicação dialógica. Ela nunca basta a uma consciência, a

uma voz. Sua vida está na passagem de boca em boca, de um contexto para outro”136

. Para ele, o diálogo entre vozes resume a obra de Dostoiévski:

Representar o homem interior como o entendia Dostoiévski só é possível representando a comunicação dele com um outro. Somente na comunicação, na interação do homem com o homem revela-se o “homem no homem” para outros e para si mesmo (...) Ser significa comunicar-se pelo diálogo. Quando termina o diálogo, tudo termina. (...) Nos romances de Dostoiévski tudo se reduz ao diálogo, à contraposição dialógica enquanto centro. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina e nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida, o mínimo de existência137.

Para Samoyault: “A voz e a palavra de outrem se inscrevem nas palavras que dizemos e o diálogo identifica-se com a expansão de todos esses enunciados”138. Na literatura ocorre um movimento entre si e o outro, entre o gênio individual e o aporte intertextual. Roland Barthes afirma que todo texto é um tecido novo de citações passadas139. A existência do texto literário está vinculada à própria existência da literatura:

A literatura só existe porque existe a literatura (...). A literatura toma a literatura como modelo. (...) E do mesmo modo que um novo amor faz nascer a lembrança do antigo, a literatura nova faz nascer a lembrança da literatura140.

Outro conceito que corrobora com essa perspectiva é o do palimpsesto, assim chamados os manuscritos apagados e reescritos (um texto sob o outro). O processo de reescritura deixava aparecer, em detalhes pequenos quase insignificantes, os vestígios do

135

ALTER, A arte da narrativa bíblica, 2007, p. 136.

136 BAKHTIN, 1997, p. 203. 137 BAKHTIN, 1997, p. 256-257. 138 SAMOYAULT, 2008, p. 21. 139 Apud SAMOYAULT, 2008, p. 23. 140 SAMOYAULT, 2008, p. 74-75.

texto anterior. Gerard Genette141 denomina os palimpsestos de literatura de segunda mão ou de segundo grau. Esse mesmo autor trabalha com o conceito de transtextualidade ou transcendência textual do texto, ou seja, tudo aquilo que se coloca em relação, manifesta ou não, com outros textos. Assim se dá o movimento da intertextualidade, na qual “todo texto é segundo, [porque] vem depois de outros textos”142

. Todo trabalho de escritura é também um trabalho de reescritura, de lembranças, de retomadas, de memórias. É como dizer a mesma coisa em outras palavras, e dizer de maneira diferente, não deixa de ser um tipo de renovação. “Os estudos intertextuais substituíram a sucessão pelo movimento, substituíram a fixidez dos encadeamentos histórico-lógicos pelo estudo da circularidade dos liames [ligações] entre os enunciados”143

. No processo intertextual, os especialistas distinguem entre: 1) a relação de co-presença, (A está presente no texto B) e 2) a relação de derivação (A retomado e transformado em B). Genette chama o texto anterior A de hipotexto e o texto posterior B, de hipertexto. Ele cita como exemplo de hipotexto a Odisseia, cujos hipertextos são a “Eneida”, de Virgílio e “Ulisses”, de Joyce. O hipertexto nada mais é que um texto derivado de um texto anterior, por imitação ou transformação. “Toda situação redacional funciona como um hipertexto em relação à precedente, e como um hipotexto em relação à seguinte”144

. Pode-se também ter um hipotexto em modo narrativo e o seu hipertexto ser dramático, com certa teatralidade e encenação. Em suma:

A intertextualidade permite uma reflexão sobre o texto, colocado assim numa dupla perspectiva: relacional (intercâmbios entre textos) e

transformacional (modificação recíproca dos textos que se encontram

nesta relação de troca)145.

A memória da literatura atua em três níveis: a memória trazida pelo texto, a memória do autor e a memória do leitor. A intertextualidade é também um conceito chave para as teorias de recepção. A palavra não é somente de quem fala, mas de quem ouve; não apenas de quem escreve, mas de quem lê. Assim, há uma relação de dependência com o leitor, sem se limitar a um único lado da produção literária. Samoyault fala de três tipos de leitores: 1)

141

GENETTE, Gerárd. Palimpsestos – a literatura de segunda mão. Tradução de extratos: Cibele Braga, Erika Viviane Costa Vieira, Luciene Guimarães, Maria Antônia Ramos Coutinho, Mariana Mendes Arruda, Miriam Vieira. Belo Horizonte: Edições Viva Voz, 2012. Disponível em:

http://issuu.com/labed/docs/palimpsestoslivro-site/22 142 SAMOYAULT, 2008, p. 34. 143 SAMOYAULT, 2008, p. 138. 144 GENETTE, 2012, p. 140. 145 SAMOYAULT, 2008, p. 67.

o leitor lúdico; 2) o leitor hermeneuta; 3) o leitor ucrônico. Aqui, interessa o segundo modelo, pela riqueza com que ele lê e recria. Esse tipo de leitor não se contenta apenas em expor referências, mas prioriza o sentido, admite a polissemia, a plurivocidade e a polifonia.

No que se refere a este trabalho, sabe-se que Dostoiévski foi leitor da Bíblia e que em seus escritos estão presentes suas percepções, impressões e novas criações sobre essa literatura. “(...) A angústia da influência, que sente todo criador, leva-o a se servir do que leu, a tomar modelos para em seguida deformá-los”146. A Bíblia também se dirige ao tempo da interpretação. Seus textos são atualizados e reinterpretados por leitores, não como peças de museu, mas proporcionando novos sentidos, reafirmando seu potencial polissêmico.

O intuito desta tese é mostrar semelhanças, proximidades, inter-relações, intertextualidades, diálogos, entre a imagem de Cristo nos evangelhos e no romance O Idiota:

A memória da literatura depende estreitamente da memória do leitor e da

memória desses leitores que são também os escritores, com suas lacunas,

sua ordem, sua escolha. Esta orienta o movimento incessante dos textos e dela depende sua sobrevida no tempo. A intertextualidade aparece a partir daí como o jogo complexo e recíproco de duas atividades complementares que constituem o espaço literário, a escritura e a leitura, pelas quais uma

não deixa de se lembrar da outra147.

Nessa discussão, o autor não tem papel principal, mas sim o que ele escreve. A obra é maior que o autor. Nesse jogo intertextual, cabe uma pergunta sobre se quem escreve é o autor ou o outro:

Assim como uma pessoa se constitui numa relação muito ampla com o outro, um texto não existe sozinho, é carregado de palavras e pensamentos mais ou menos conscientemente roubados, sentem-se as influências que o subtendem, parece sempre possível nele descobrir-se um subtexto148.

É importante ressaltar que a literatura remete a si mesma e ao real. A intertextualidade possibilita uma compreensão que engloba estas duas possibilidades, aparentemente contraditórias. Assim, é possível sair de uma determinada posição estanque que divide a literatura em: literatura que fala do mundo ou literatura que fala de si mesma. A literatura é autônoma, mas também está diretamente ligada ao mundo, à realidade. Essa proposta une o texto à história. Contudo, sabe-se que as opiniões não são harmônicas e

146

SAMOYAULT, 2008, p. 129. Grifo meu.

147

SAMOYAULT, 2008, p. 96. Grifo meu.

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alguns críticos recusam à literatura toda referência ao real. Para estes, só a referência intertextual é que é válida. Nessa perspectiva, o texto de ficção não conduz a nenhuma realidade extratextual. A intertextualidade apresenta aspectos trans-históricos quando permite a busca, em qualquer obra, de ecos de outras obras, anteriores ou posteriores a e la. Aqui não cabe uma cronologia linear e uma fidelidade ao contexto histórico.

Embora a intertextualidade tenha recebido críticas, ela não deixa de ser uma teoria ampla e um método de análise de textos que permite a circularidade dos efeitos de sentido, uma orquestração de vozes que tecem, constroem e criam antigos e novos textos, revelando assim, a complexidade, a memória e o movimento da linguagem. Como diria Genette, é a

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