Em Recordação da Casa dos Mortos havia um prisioneiro muçulmano chamado Ali, de apenas vinte e dois anos, vizinho de quarto de Alexander Petrovich Goriantchikov, per- sonagem autobiográfico identificado com Dostoiévski. Ali foi condenado junto com seus irmãos por assalto e assassinato de um comerciante armênio. Dos irmãos, ele foi o único
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GROSSMAN, Leonid. Dostoiévski artista. Trad. Boris Schnaiderman. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.
que teve a pena mais indulgente, de apenas quatro anos de presídio. Seu semblante era como de um garoto:
É difícil de conceber como, em vez de se corromper, aquele moço pudera conservar no presidio um coração tão manso, uma honestidade tão escrupulosa, uma sinceridade tão aberta, uma bondade tão simpática151.
Ali veio da região do Cáucaso, do Daguestão, e aprendeu a ler em russo com a ajuda de um exemplar do Novo Testamento:
─ Escuta, Ali, disse-lhe eu certa noite. Por que não aprendes a ler e a escrever em russo? Há de ser-te muito útil mais tarde, na Siberia. ─ Eu bem queria, mas com quem? ─ Aqui não falta quem saiba. Se queres eu te ensino. ─ Oh, por favor, ensina-me! Ergueu-se da tarimba, juntou as mãos e me olhou, com ar súplice. Começamos no dia seguinte à tarde. Eu possuia uma tradução russa do Novo Testamento, livro autorizado no
presídio. Sem abecedario, com o auxílio único desse livro, Ali, em algumas
semanas, aprendeu a ler correntemente. Três meses depois, compreendia muitíssimo bem a linguagem escrita. Estudava com ardor, com
exaltação152.
A descrição a seguir, refere-se à leitura do Sermão da Montanha:
Certa vez, lemos juntos o Sermão da Montanha. Observei que lhe interessavam particularmente algumas passagens. E perguntei se lhe agradara o que acabara de ler. Ele me lançou um olhar vivo, e a cor lhe subiu ao rosto: ─ Oh, sim! Issa [variação do nome Jesus] é um grande profeta. Issa fala as palavras de Deus. É muito bonito. ─ Que é que mais te agrada? ─ O trecho onde ele diz: perdoa, ama, não ofendas, estima o teu
inimigo. Ah, como ele diz bem isso!153.
De acordo com a citação, possivelmente, os trechos que mais impactaram Ali estão descritos no Evangelho de Mateus 5.39: “Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra”; em Mateus 5.44:
“Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”; Mateus 5.46-47: “Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?”. Tais versículos expressam claramente os temas do perdão, do amor e da estima ao inimigo.
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DOSTOIÉVSKI, F.M. Recordação da Casa dos Mortos. Tradução de Rachel de Queiroz. Prefácio de Brito Broca. Xilogravuras de Osvaldo Goeldi. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945. Coleção Fogos Cruzados. p. 82. Grifo meu.
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DOSTOIÉVSKI, F.M. Recordação da Casa dos Mortos, 1945, p. 85. Grifo meu.
153
Outro trecho de Recordação da Casa dos Mortos que faz uma referência direta aos evangelhos, está descrito nas impressões dos prisioneiros durante a Semana Santa:
Essa semana de descanso me fez muito bem. Iamos à igreja, que ficava a pequena distância da fortaleza, duas, e até três vezes por dia. Já há muito tempo que eu não entrava em uma igreja. (...) Revivo ainda o prazer que sentia quando, pela manhã, pisando a terra gelada pelo frio da noite, nós nos dirigíamos sob escolta para a casa de Deus. (...) Os forçados rezavam com grande fervor (...) diante de Deus somos todos iguais (...) Comungamos na primeira missa. Quando o padre, segurando o cálice recitou a oração: “Como o
ladrão, eu vos digo: lembrai-vos de mim, Senhor, quando estiverdes no vosso reino...” quase todo o nosso grupo se prosternou, com um
tilintar de ferros, tomando essas palavras ao pé da letra154.
No momento da crucificação de Jesus, ele esteve acompanhado de dois malfeitores, algumas traduções utilizam as palavras ladrões ou criminosos. Um deles blasfema da condi- ção de Cristo, o outro, porém, O reconhece:
Quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali o crucificaram, a ele e também aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus, porém, dizia: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem. Então repartiram as vestes dele, deitando sortes sobre elas.(...) Os soldados também o escarneciam, chegando-se a ele, oferecendo-lhe vinagre, e dizendo: Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. Por cima dele estava esta inscrição (em letras gregas, romanas e hebraicas: Este é o rei dos judeus. Então um dos malfeitores que estavam pendurados,
blasfemava dele, dizendo: Não és tu o Cristo? salva-te a ti mesmo e a
nós. Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça; porque recebemos o que os nossos feitos merecem; mas este nenhum mal fez. Então disse: Jesus, lembra-te de
mim, quando entrares no teu reino. Respondeu-lhe Jesus: Em
verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso (Lc 23.33-43).
No degredo, com as grilhetas de ferro a tilintar, aqueles presos, como aquele ladrão da cruz, comungaram do Reino de Deus e foram lembrados e reconhecidos por Ele. No uni- verso dostoievskiano e também na narrativa bíblica, há espaço para o perdão, para a com- paixão e para a redenção. Até os ladrões podem vislumbrar o paraíso.
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