Quinze anos e meio. O corpo é magro, quase mirrado, seios ainda infantis, maquilada de rosa pálido e vermelho. E depois essa roupa que poderia provocar risos e da qual ninguém ri. Vejo que já está tudo ali. Está tudo ali, e nada ainda começou, vejo nos olhos, tudo já está nos olhos.
(O amante – DURAS, 2015, p.21)
Apesar de o termo adolescência não ter surgido como conceito dentro da Psicanálise, há caminhos teóricos nos estudos psicanalíticos que levam às discussões contemporâneas desse campo quanto ao tema. Sendo assim, o que podemos apreender a partir dos escritos de Freud que contribuem para as noções de adolescência debatidas pela Psicanálise na atualidade? Nesse sentido, encontram-se os dizeres relativos à puberdade, os quais não coincidem com a ideia de
adolescência, porém, abrem caminhos para os debates atuais sobre ela.
A puberdade, no sentido fisiológico, corresponde a transformações no corpo responsáveis por levar à maturação das funções reprodutivas. No período anterior a Freud, a puberdade era exclusivamente afirmada como marco do início da vida sexual, além de considerar-se a fase do surgimento do interesse sexual, ativado pelos hormônios sexuais.
Freud, em sua teoria elaborada em 1905, a partir do texto “Três ensaios sobre a sexualidade”, opõe-se ao pensamento de que a sexualidade iniciaria apenas na puberdade, afirmando a existência da sexualidade infantil. Com isso, elabora a ideia na qual edificaria a teoria psicanalítica a partir de então, abrindo um novo caminho para o que se entendia como sexualidade e a sua função nas atividades humanas (ROUDINESCO&PLON, 1998).
Diante de toda polêmica causada por essa afirmação, de que a sexualidade está presente desde a infância, é preciso compreender que a afirmação freudiana só faz sentido a partir do momento no qual a própria noção de sexualidade é interrogada e repensada, desenhando-se de forma mais ampla, transpondo à função meramente reprodutiva. Em seus escritos, Freud expande a noção de sexualidade para além dos fundamentos biológicos e anatômicos, entendendo-a também como uma disposição psíquica. Desse modo, podemos dizer que:
Freud não inventou uma terminologia particular para distinguir os dois grandes campos da sexualidade: a determinação anatômica, por um lado, e a representação social ou subjetiva, por outro. Não obstante, por sua nova concepção, ele mostrou que a sexualidade tanto era uma representação ou uma construção mental quanto o lugar de uma diferença anatômica. (ROUDINESCO&PLON, 1998, p.704)
Como seres de linguagem, o biológico não determina em si a sexualidade humana. O ser homem e o ser mulher ocorre de forma singular para cada sujeito, eles se constroem tanto na convivência, nas apropriações dos códigos que nos chegam, quanto nas elaborações da história de cada um. Pelas palavras de Margarete Miranda (2001, p.189), “quando se trata de sexualidade, há toda uma trama, que é forjada no encontro de um ser humano com outro e, a partir da qual o sujeito vai se constituindo psiquicamente”. O desejo de estar com o outro não cumpre as necessidades estritamente biológicas; diz de um “algo a mais” e nesse algo que resta, que escapa, está o que é possível chamar de sexualidade, no entendimento freudiano (MIRANDA, 2001).
Dentre as características atribuídas por Freud à sexualidade infantil, está o fato de esta surgir associada à satisfação de uma necessidade orgânica, como ele observa nos bebês. “No lactente, os primeiros impulsos da sexualidade mostram-se apoiados em outras funções importantes para a vida” (FREUD, 1917/2014, p.415). Dessa forma, um bebê suga o seio
materno inicialmente em busca de alimentação. Contudo, Freud nota a repetição dessa ação do lactente de sugar, porém sem demandar mais alimento, havendo um outro estímulo para esse ato, um significado psíquico, que está além da satisfação da fome. Nas palavras do próprio autor, Freud (1917/2014, p.416) enfatiza que:
Dizemos que ele chupa ou suga, e o fato de, ao fazer isso, ele torna a adormecer com uma expressão de bem-aventurança nos mostra que a ação de sugar em si lhe trouxe satisfação. (...) Descobrimos, portanto, que o lactente executa ações que não tem outro propósito senão a obtenção de prazer.
Este prazer, Freud (1917/2014) denomina de sexual. Além das observações das crianças, através da escuta clínica dos adultos neuróticos, cujas lembranças surgidas no trabalho da análise remetem aos primeiros anos da infância e às atividades sexuais infantis. Assim, a teoria freudiana se estende àquilo que a sociedade aponta como perversão, concluindo que “uma prática sexual é justamente chamada de pervertida quando, tendo renunciado ao propósito reprodutivo, persegue a obtenção de prazer como meta autônoma” (FREUD, 1917/2014, p.420). Desse modo, pela apresentação de semelhanças entre as atividades sexuais infantis e as perversões, a noção de sexualidade é ampliada no entendimento freudiano.
Expandimos o conceito de sexualidade apenas para que ele possa abranger também a vida sexual dos pervertidos e das crianças. Ou seja, devolvemos a ele sua amplitude correta. Aquilo que, fora da psicanálise, é chamado de sexualidade refere-se apenas a uma vida sexual restrita, a serviço da reprodução e denominada normal. (FREUD, 1917/2014, p.424)
Diante da ausência de fins reprodutivos, a sexualidade infantil é caracterizada por Freud (1905/1985) como auto erótica, ou seja, uma busca de prazer que não se dirige a um objeto sexual, mas às zonas erógenas da própria criança. Após a vivência das primeiras experiências sexuais infantis, com a dissolução do Complexo de Édipo (FREUD, 1905/1985), segue um período denominado latência. Esse período sugere certo adormecimento das primeiras pulsões sexuais e em seguida, com a chegada da puberdade e das transformações do corpo infantil para um corpo adulto, abrem-se os caminhos para que essa pulsão, inicialmente auto erótica, encontre o objeto sexual.
Além disso, na obra “Três Ensaios sobre a sexualidade”, Freud (1905/1985) considera que há uma intensificação do Complexo de Édipo na adolescência, no sentido de uma reedição, gerada a partir do amadurecimento sexual dos órgãos genitais e ocorrência da puberdade.
A crise da adolescência é compreendida, na psicanálise, como um retorno da crise edipiana em proporções aumentadas; no adolescente, os desejos incestuosos se tornam mais ameaçadores em função da maturidade hormonal/genital e a rivalidade edípica com o genitor do mesmo sexo se intensifica, aliada às noções de liberdade próprias da ambiguidade (não mais
criança/ainda não adulto) desse período. (KEHL, 2005, p.94)
Nesse caminho, as disposições orgânicas são influenciadas por fatores sociais,
o púbere ao eleger um objeto sexual necessita fazer um árduo trabalho psíquico de desligamento dos pais de sua infância. Tal processo é ajudado pelos paradigmas culturais de nossa sociedade, em que são integrados conceitos morais que excluem da escolha objetal as pessoas amadas da infância. (BOAVENTURA JÚNIOR, 2012, p.96)
Os paradigmas culturais, apontados por Boaventura Júnior (2012), referem-se à barreira do incesto na ocasião da escolha de objeto, sendo abordadas especificamente por Freud (1905/1985), no contexto da puberdade. Vejamos o que ele nos diz:
Sem dúvida, o caminho mais curto para o filho seria escolher como objetos sexuais as mesmas pessoas a quem ama, desde a infância, com uma libido, digamos, amortecida. Com o adiamento da maturação sexual, entretanto, ganhou-se tempo para erigir, junto a outros entraves à sexualidade, a barreira do incesto, para que assim se integrem os preceitos morais que excluem expressamente da escolha objetal, na qualidade de parentes consangüíneos, as pessoas amadas na infância. O respeito a essa barreira é, acima de tudo, uma exigência cultural da sociedade, esta tem de se defender da devastação, pela família, dos interesses que lhe são necessários para o estabelecimento de unidades sociais superiores, e por isso, em todos os indivíduos, mas em especial nos adolescentes, lança mão de todos os recursos para afrouxar-lhes os laços com a família, os únicos que eram decisivos na infância. (FREUD, 1905/1985, p.138)
Podemos perceber que Freud (1905/1985) sinaliza uma mudança não apenas no que diz respeito à escolha de objeto no sentido do encontro sexual, agora de um corpo amadurecido, mas nos fala também da transformação na relação do adolescente com os pais enquanto principais figuras de identificação. Assim, o autor complementa esse raciocínio dizendo que:
Contemporaneamente à subjugação e ao repúdio dessas fantasias claramente incestuosas consuma-se uma das realizações psíquicas mais significativas, porém também mais dolorosas, do período da puberdade: o desligamento da autoridade dos pais, unicamente através do qual se cria a oposição, tão importante para o progresso da cultura, entre a nova e a velha gerações.
(FREUD, 1905/1985, p.138)
Freud (1914/1995) retoma essa questão no texto “Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar”, ao propor que os professores ocupam o lugar de pais substitutos nesse deslocamento feito pelo adolescente, das figuras familiares, a outras capazes de representá-las na cultura. Segundo Luciana Coutinho (2009, p.100), “trata-se, assim, de uma elaboração da passagem da família ao laço social na adolescência, o que, freudianamente, é fruto de uma reelaboração da interdição do incesto imposta pela cultura”.
Em suma, no contexto da teoria psicanalítica, a puberdade, portanto, não coincide com o despertar da sexualidade, visto que esta se faz presente desde a infância, “o que nela se
desperta por essa época é a função reprodutora, que serve, para seus fins, de um material físico e psíquico já existente” (FREUD, 1917/2015, p.413). A puberdade inicia o segundo momento na constituição sexual visando sua organização definitiva (FREUD, 1905). Trata-se de um momento no qual se revisitam as experiências sexuais infantis, no percurso de abandono do autoerotismo para a escolha e encontro de objeto.
Assim, a partir da leitura freudiana, entendemos que a puberdade pressupõe um trabalho psíquico, diante da possibilidade de encontro com o objeto e de uma outra configuração sexual. Esse suposto encontro acionado pela puberdade traz, inevitavelmente, desencontros. A medida que a noção de sexualidade excede as necessidades reprodutivas, ela traz consigo as desarmonias do desejo, os impasses das tomadas de decisões, a percepção do descontrole sobre o mundo e sobre o outro. Ao mesmo tempo, Freud (1905/1995) também sinaliza que, por consequência da puberdade, há uma convocação para que o sujeito se aproprie do social, buscando meios de se fazer representar fora do núcleo familiar.
O caminho de entrada na adolescência, a partir da puberdade, é mais certo que o da saída, uma vez que essa se apresenta num tortuoso trajeto, sem orientações definidas, uma invenção que precisa ser traçada a partir da história de cada um. A seguir, tratarei de alguns desses trajetos.