A utopia concreta situa-se no horizonte de toda realidade. A possibilidade real envolve até o fim as tendências–latências dialéticas abertas.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 221)
Nos anos que separam The Spirit of Utopia (Geist der Utopie) de O Princípio Esperança, Bloch cultivou a revolta da esperança, no começo, com a união do marxismo e da Bíblia. As razões estavam na dramaticidade da Primeira Grande Guerra, que sacrificou milhões de vidas nos campos de batalha em benefício da burguesia. Terminada a guerra, as portas estariam abertas para o começo da revolução por imposição do obsoletismo da velha ordem e pela impossibilidade de qualquer Restauração nos moldes do que aconteceu no passado com a Revolução Francesa.
A esperança estava na Rússia revolucionária, que superara o romantismo de Münzer e purificara o marxismo do ―entusiasmo abstrato do mero jacobinismo‖ (BLOCH, 2000, p. 236). Apegar-se ao passado, para a Europa, significava a morte. A guerra emperrara as engrenagens do Estado conservador e deveria apressar o seu ocaso. O princípio da igualdade entre os homens correspondia, na proporção inversa, ao fundamento da superestrutura capitalista do homem considerado rebanho.
Bloch (2000, p. 242-3) entendia a revolução contra a ordem capitalista como processo de libertação do operariado e realização da filosofia. Mas, à época de The Spirit of Utopia (Geist der Utopie), tratava-se mais de apelo moral, menos do desenvolvimento revolucionário contra a exploração e a brutalidade. Seria o imperativo da construção da fraternidade e do paraíso terreno com o fim do capitalismo. Invertia-se o conceito de liberdade: a liberdade seria anterior ao indivíduo e a sua manifestação estaria no encontro do homem consigo mesmo. Resultaria na força coletiva.
Teoricamente, por aquela época, a resposta à problemática utópica estava no Apocalipse, não na revolução. Bloch (2000, p. 271-8) condenava não só o capitalismo, mas se posicionava contra o ―militarismo‖, o ―feudalismo‖ e o ―utopismo abstrato‖. E via, no Apocalipse, um ―ato de não conformismo da natureza‖ com a ausência de razão para viver, faltava-o ao homem alienado, ao homem que perdera o sentido da verdade. Pensava o mundo pela reinterpretação do Apocalipse, pela revolução humana contra a natureza das coisas, pela procura do que ainda ―não é‖, mas ―deve ser‖. Era uma epistemologia autêntica, mas que ele só a desenvolveria em O Princípio Esperança, com o realinhamento das Teses sobre Feuerbach.
Ele, já naquela época, desejava colocar o homem além da criação do real. A utopia mais do que interpretação da realidade, era a invenção do futuro, um futuro em que o homem tivesse a esperança de dizer, como numa inscrição antiga, que ele cita em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie): ―Eu estou surpreso por ser feliz como eu sou‖ (BLOCH, 2000, p. 276). Não parecia ter dúvidas de quanto o homem poderia ser feliz se rompesse com os ―tabus‖ e os ―demônios‖ da ―teocracia‖ e do capitalismo (BLOCH, 2000, p. 133).
O telos não era o reino de Deus, mas o reino do homem que permitiria romper com a estrutura metafìsica do Estado. O capìtulo ―Karl Marx, a Morte e o Apocalipse” (BLOCH, 2005) evoca o momento inaugural da mediação, que se encontraria no cristianismo primitivo, no sentido de primeiro, com a travessia de Moisés, anterior a Cristo, para libertar os escravos do jugo do faraó e erguer a Canaã revolucionária. Era a metáfora do encontro do homem com a sua exuberância interior. Tornar o ainda-não-consciente em consciente era a incontornável questão à espera de resposta (BLOCH, 2000, p. 229).
Se o homem não sabia para que vivia, se ele desejava entender o essencial da realidade, o método filosófico apontava não para a sua ―benevolência‖ com a acumulação e a mediocridade, nem para a ética metafísica ou a invenção lógica da alma, mas para a totalidade
do despertar (BLOCH, 1988, p. 275-8). O movimento da história almejava não o messias, mas a purificação do homem.34
Com o passar do tempo, o desafio utópico inicial ganhou amplitude na obra de Bloch. A filosofia utópica tornou-se revolucionária. As relações sociais degradantes precisavam transformar-se em relações dignificantes. As abstrações da ―ideia‖ e do ―espìrito‖, de origem hegeliana, tornaram-se ―pensamento real‖, experiência vivida da realidade. A liberdade interior cedeu lugar à força coletiva.
Moisés e a Canaã irrealizada remeteram Bloch à crueza da luta de classes e da divisão de classes: passaram a ser demiurgos do conflito com o mundo passado, do Egito de Ptah a Marduque, na Babilônia, com o mundo presente, porque a estrutura de dominação pela religião clarificou-se (BLOCH, 2006b, p. 354). Nascente entre os agricultores, foi a luta de classes que tornou o deus visível da igualdade, própria da travessia do deserto, no deus invisível do judaísmo e do cristianismo, o deus da justiça e do reino. Mas de uma justiça e de um reino nunca alcançável. Logo, a antiga dominação foi recriada e a igualdade entre os homens, durante a travessia do deserto, dissolveu-se.
O ponto de partida e de chegada de Ernst Bloch, o homem humano, floresceu. O homem é incognoscível, podendo ser tudo ou não ser nada, mas pela porta entreaberta da esperança pode ser belo e humano. Não conhece limites, embora seu saber seja limitado e carente de aperfeiçoamento. O tudo, em Bloch, é a vontade de fazer. Condensa os escritos norteadores, a dimensão moral, imortalidade do criar, como fez Hölderlin que, doente, concebeu o seu Empédocles eterno, porque associa os seres à metamorfose libertadora.35 A latência, quando explode em realidade, é a sedimentação do princípio de mudança. As estruturas modificam-se. A rebeldia ganha livre curso. O escravo se rebela contra o senhor. A utopia concreta ganhou o significado de refletir que o homem não é pleno, deseja vir a ser.
Não é pleno porque as relações de produção impedem a transformação dos indivíduos, o que só ocorrerá com a queda da classe dominante e a transformação do homem econômico no homem comunitário. A categoria do vir-a-ser ganhou, então, sentido da práxis da vida
34 O sonho dos alquimistas era restaurar a condição paradisíaca original. Alquimistas e milenaristas procuravam transformar metais em ouro, metáfora do novo ser humano. O sonho alquímico esteve disseminado por todas as culturas desde 700 d.C., embora seja possível que remonte da Era do Bronze. Foi a utopia ―mais ousada e mais mitológica‖ da tecnologia e perdurou até o século XVIII (BLOCH, 2006a, p. 198). A alquimia não encontrou ouro, mas foi a estrada para a química moderna.
35 Friedrich Hölderlin (1770-1843), poeta de substancial conteúdo político, escreveu A Morte de
Empédocles.Filósofo, político e taumaturgo grego, lutou ativamente pela democratização da pólis e o encontro com a natureza.
revolucionária para superar, principalmente, a interseção entre a obscuridade do instante vivido e a obscuridade do futuro.
A obscuridade torna-se mais intensa assim que não só nós, mas também a outra página, a página virada permanece indefinida, logo, assim que nos voltamos para o futuro, o qual, na medida em que ele se constituiu como o novo, sobretudo em termos lógicos, nada representa além da nossa obscuridade ampliada, da nossa obscuridade por ocasião do engendramento do seu ventre, na ampliação da sua história seguinte; e ele igualmente se fortalece em vista de Deus como o problema do radicalmente novo, que não apenas deve tornar-se visível para nós para existir, de tal modo que o processo do mundo como um todo se reduziria elasticamente a uma relação de movimento entre duas realidades ―separadas‖, mas que está cônscio de si mesmo apenas como esperança, como ser-não-para-si, que, igual a nós, encontra-se no não acontecido obscuro, no ainda-não real (BLOCH, 2005, p. 293).
Bloch recorre a Deus no sentido metafórico. Para ele, o homem é Deus e, portanto, não precisa de um Deus exterior a si mesmo. Coloca o problema da matéria36 que, iluminada, associa-se ao novum e ao ultimum e ganha vida no ventre do tempo pela dinâmica do movimento. A imagem invoca o despertar do homem para a enorme resiliência da cultura capitalista. O processo de revelação dessa característica e compreensão da totalidade socialista é acompanhado pela atividade humana, atitude ―revolucionária‖ ―prático-crìtica‖, tal como escrito em as Teses sobre Feuerbach (MARX; ENGELS, 2007). O despertar do homem para o seu papel na história marca a fronteira entre movimento e repouso, entre o pulso da vida de agora e a vida do devir, entre a alienação e a desalienação.
O ainda-não real ao qual Bloch (2005, p. 233) se refere não é objeto subjetivo, mas a realidade objetiva que precisa ser clarificada, fecundada – a realidade do que pode vir a ser determinada na matéria. Na filosofia da práxis revolucionária, os postulados mais conhecidos são a penúria material, o conhecimento e a consciência, mas o campo efetivo a transformar-se é aquele dos valores. Sem o culto aos valores revolucionários, à ética da transformação, principalmente, não há contemporaneidade. Predomina a percepção não das luzes do tempo vivido, mas do seu escuro. Pelo movimento revolucionário e pela elucidação dos mecanismos de dominação é que ―Deus e a matéria tornam-se idênticos‖ (BLOCH, 2005, p. 233).
36 A matéria é fator determinante do nascimento da filosofia. Relaciona-se ao conceito de ―forma‖, de ―espìrito‖, de ―força‖, de ―energia‖ ou até de ―número‖. Em Marx, o materialismo histórico surge com A
Ideologia Alemã. ―O primeiro pressuposto de toda a história humana é, naturalmente, a existência de
indivìduos vivos‖ (MARX; ENGELS, 2007, p. 41). Cai o império da religião, a produção humana ascende na interpretação do mundo.
A obscuridade é um ponto de passagem que, mediado pela iluminação, no entender de Bloch (2006b), revela o acerto ou o erro do pensamento utópico. Pode impedir que o homem fique cego ou ofuscado pelas luzes e possa perceber as trevas das diferentes épocas. Como obscuridade, o risco de fracasso na revolução é irreversível. A construção do socialismo não é alvo perfeito. Nem inexorável. Para Bloch (2006b), não existe determinismo histórico. Ele encontra o alvo na busca do mundo novo, mas nada pode garantir que esse desejo seja verdadeiro ou falso. Há sempre dúvidas quanto ao efetivo alvo da esperança.
Trata-se de ruptura do processo histórico. A ruptura transcende os graus a que possam ser elevadas as previsões quanto à prática e, também, à teoria. As relações econômicas não podem ser ignoradas, mas não se concentram no campo preponderante de batalha. Este situa- se na superação da necessidade e, ao mesmo tempo, na construção da vida real. As utopias antigas – a Ilha dos Feacos de Homero, o Jardim do Éden da Bíblia, a Terra Prometida dos Santos na Índia – pressupunham terras da felicidade que precisariam ser descobertas. Na utopia concreta, a Terra da felicidade precisa ser construída pelo homem.
A categoria do possível, ainda que tão bem conhecida e a toda hora utilizada, constituía uma crux em termos da lógica. Dentre os conceitos que, no decorrer dos séculos, foram elaborados e levados a um grau de precisão pela filosofia, essa categoria é a que até agora permaneceu a mais indefinida. Com certeza, é a que menos foi rastreada ontologicamente: por isso, ela ocorreu tradicionalmente quase só na lógica formal. Mesmo quando a doutrina das categorias se ocupa com o possível, este é considerado, preponderantemente, apenas como determinação do conhecimento e não do objeto (BLOCH, 2005, p. 238).
O pressuposto para transformar a latência da possibilidade em utopia concreta seria fazer com que o homem rebelde tivesse maior influência que o homem conservador e o homem em aperfeiçoamento. Como o mundo é planejado para que o homem não pense e, não pensando, fique cada vez menos rebelde, o homem é cada vez menos intenso. Produz, consome, mas se mantém distante do cuidado com a natureza e das inquietações.
A utopia concreta interdita, por outro lado, o niilismo. Não é a mesma coisa que o conservadorismo, mas seu irmão gêmeo. Na concepção niilista,37 Deus abandonou o mundo e nada mais existe para ser feito. ―Há mais alegria e coisa boa a se esperar de um nazista convertido do que de todos os cìnicos niilistas‖ (BLOCH, 2005, p. 432). O niilista carece da
37 O niilismo é a ausência de sentido para os valores tradicionais, partindo do silogismo: se Deus – a verdade, o princípio – morreu, então tudo é permitido. O termo, derivado do latim nihil, nada, aparece na Revolução Francesa, com aqueles que teimavam em não tomar partido, não sendo a favor nem contra. Com Nietzsche e a ―morte de Deus‖, alcança o seu mais alto grau. No século XX, o niilismo ganha conotação da grande doença na civilização ocidental. Se as coisas não são vividas, onde estaria a lógica da vontade?
vontade de ação. Não se movimenta. ―É um pessimista incondicional‖, mais nocivo do que o otimista ―condicionado artificialmente‖, porque não acredita em nada (BLOCH, 2005, p. 432). O niilismo, para Bloch, é o vazio, ―transformando o mero nada do futuro capitalista num nada absoluto-inevitável para que fosse totalmente impedido o olhar para um mundo transformável, para o futuro socialista‖ (BLOCH, 2006b, p. 242).
Estrangeiros ao dever ser da utopia, a contemplação e o niilismo sabotam a práxis.38 Ao negar a mudança, fazem do desejar e da vontade potências passivas. Levam o homem a estacionar nas relações sociais dilacerantes. O niilismo não implica o conhecimento. A antinomia entre mudanças radicais, contemplação e niilismo encontra-se na raiz da incompletude da vida humana.
Em meio a essa pletora de realidades, Bloch transitou da teoria do Apocalipse para a teoria revolucionária, mas sem jamais considerá-la absoluta. Romantismo, idealismo, humanismo abstrato e o concreto cedem lugar ao desejo de mudança para além das exigências morais burguesas e do reformismo. Dentro desse contexto, virar as costas para a prática é se curvar ao poder da estrutura capitalista de se repetir e se perpetuar.
A advertência feita por Bloch (2005), ao agrupar as Teses 2 e 8 de Marx e Engels (2007) sobre Feuerbach, enfatiza: a teoria em função da práxis para adiante, coloca a filosofia e o futuro em perspectiva, tendo a ética revolucionária como âmago. O tema já se fazia presente em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie), quando Bloch (2000) considera que o período gótico, mais do que a antiga Grécia e o antigo Egito, devotou-se à descoberta da maturidade do homem e acendeu a chama dos primeiros românticos alemães (BLOCH, 2000, p. 22-31).
Foi uma época em que a utopia de Bloch estava carregada de linguagem mística e de religiosidade, mas já se distinguia do romantismo conservador pela mensagem de que o desafio utópico do socialismo consistia em procurar soluções racionais para problemas racionais. Em O Princípio Esperança, seria ainda mais enfático. A utopia concreta exige abandonar linhas salvacionistas: deixar de lado o altruísmo, o misticismo, a filantropia de interesse capitalista, a nostalgia, a ―fé inventada‖, o ―amor inventado‖ e o ―idealismo retrógrado‖.
38 Die Praxis, termo traduzido da palavra grega praxis significava, no século XVI, realizar uma ação. Kant irá recorrer ao termo para opor teoria e prática, definindo a praktische como produto da razão. Fichte e Hegel irão considerar a praxis como atividade moral-prática de transformação (moralisch-praktische), o que corresponde à atividade. Marx interpreta a prática como a autotransformação material do homem na procura da sua libertação, mesmo nas condições alienantes. A prática revolucionária (Revolutionären Praxis) é a atividade prático-crítica voltada para a mudança das circunstâncias do trabalho humano.
Em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie), a ideia de mediação é clara: na Primeira Grande Guerra, homens foram massacrados por ideais medíocres, mas a vida nova renasceu. A textura dos sonhos vencia a obscuridade dos campos de batalha. O ainda-não-consciente insinuava-se na memória daqueles tempos. A utopia concreta estava à procura do âmago do homem. ―Não há pensamento sem privações, porém a constante estupefação com algo o faz avançar‖ (BLOCH, 2006a, p. 426). Isso é o que distingue o homem revolucionário: ele não se curva à ―estupefação‖, ele se rebela em profundidade, ele se expressa pela ação, pela busca de relações humanas mais perfeitas.
1.4 FILOSOFIA E UTOPIA: CONSCIÊNCIA E PRÁXIS, UMA MESMA UNIDADE NA