O segundo eixo das entrevistas versava sobre os direcionamentos teórico-metodológicos que têm norteado os trabalhos dos pesquisadores entrevistados. Desejava saber a respeito das principais referências sobre as quais apóiam suas construções teóricas e verificações empíricas. O objetivo era o de apreender os eixos centrais em termos de teoria e método, deixando de lado particularidades ou certo nível de detalhamento mais minucioso relacionados às leituras que diferenciam a produção acadêmica dos entrevistados, podendo ser muito distintas entre si, ou, eventualmente, se aproximar sob um mesmo esteio teórico, metodológico e conceitual. A ideia também não era enrijecer nem criar “rótulos” que neguem o próprio movimento de realização do trabalho acadêmico com suas assimilações e refutações, continuidades e descontinuidades no
tempo, mas observar grandes linhas teórico-metodológicas a partir da análise das entrevistas e, quando necessário, de outros textos complementares.
O período que se estende de meados do século XIX até a primeira metade do século XX foi marcado, segundo Milton Santos (2006a), pela consolidação de técnicas que revolucionaram o sentido do espaço-tempo no mundo. Essas técnicas, ou sistemas técnicos, para melhor dizer, articulados/condicionados a/por movimentos políticos (consolidação do Estado-moderno, criação de grandes impérios coloniais, etc.), iniciaram um processo mais agudo de relacionamento multi- escalar entre economia e política, que culminou, na segunda metade do século XX, na chamada globalização. Esse desenvolvimento técnico e sua inserção nos territórios foram responsáveis por uma reestruturação espacial em escala planetária, modificando não só as formas espaciais, mas as próprias relações entre os homens e entre os lugares (SANTOS, 2006a).
Em escala nacional, particularmente, a realização desses eventos e a incidência desses vetores foram responsáveis por uma maior complexificação do espaço geográfico, pela conformação de uma nova situação geográfica mediada por um adensamento técnico fixado de modo combinado e desigual no próprio território brasileiro e por mudanças na vida social, sobretudo no tocante à urbanização intensa que a população brasileira experimentou a partir da segunda metade do século XX. O modo como se deu a realização e a incidência desses eventos e desses vetores, respectivamente, seja em escala global ou em escala nacional, atribuiu ao espaço geográfico o que muitos autores denominaram de caráter fragmentário/fragmentado, ou, simplesmente, produziu uma fragmentação espacial (SANTOS, 2006a).
É também sob os termos de um ciclo fragmentário, iniciado nos anos 1940, que o professor Ruy Moreira (2010b, p. 81) observa o próprio movimento epistemológico da Geografia. Sobre o esforço dos geógrafos brasileiros em compreenderem os processos em curso, Ruy Moreira fala em duas ondas de renovação na ciência geográfica no Brasil (aproximadamente entre 1940/1950 e 1970/1980), nas quais acredita haver um “fio” de transversalidade em que trabalhos de professores-pesquisadores expoentes do campo disciplinar geográfico se ligam, na trama teórico- metodológica que desenvolveram, a fim de não perderem a ideia e a prática da integralidade herdadas dos autores clássicos da Geografia.
Há um certo clamor por uma visão geral e mais integrada da Geografia nessas duas ondas. E que se expressa em dois sinais. De um lado, a ideia de integração que Lacoste vai designar projeto unitário. De outro, a ideia de um nexo aglutinador do todo unitário que seja na Geografia ativa, seja na ‘new Geography’, seja nas correntes dos anos 1970 converge epistemicamente para a categoria do espaço. No Brasil, esse é um tema que vem combinado a outro, mais nacional e mais histórico. O de uma Geografia que se combine numa unidade, ao mesmo tempo que dê origem a uma teoria geral de Brasil. É com essa característica que desde os anos 1940 a ideia de integração atravessa o pensamento geográfico brasileiro (MOREIRA, 2010b, p.81).
Se a ideia e a prática da integração estiveram presentes de modo afirmativo na leitura de um mundo mais orgânico, de relações que se bastavam nos lugares, onde as escalas geográficas de origem e as escalas geográficas de impacto dos eventos e dos vetores não variavam/divergiam muito (SANTOS, 2006a), elas reaparecem intencionadas de diferentes modos nas leituras geográficas que se seguem aos ciclos fragmentários, de que fala Ruy Moreira (2010b). A leitura sobre a relação sociedade-natureza toma, assim, novos contornos. Se a relação é integrada, se ela é mediada pelos sistemas técnicos, compreendida pela ação do trabalho no espaço-tempo ou vista como paradoxo epistemológico, é o que será discutido a partir de agora.
Os esclarecimentos do professor Ruy Moreira colaboram com o esforço de traçar linhas gerais sobre os direcionamentos teórico-metodológicos dos entrevistados, pois se trata de direcionamentos que são tributários, em algum aspecto, do esforço unitário (MOREIRA, 2010a). A reestruturação espacial em escala planetária, em suas distintas fases, e a inserção do Brasil na modernização de maneira tardia, porém intensa, colocou um problema central para a Geografia: a necessidade de acompanhar o movimento em curso, mais agudo e mais complexo, levou à comunidade geográfica a, paulatinamente, questionar a concepção de ciência de síntese, ponte entre a physis e o mundo produto humano, ou entre a superfície da Terra e o espaço, como distinguira Kant (MOREIRA, 2010a, 2010b).
Uma espécie de mal-estar traz no seu decurso uma dimensão política e outra epistemológica, muitas vezes confundidas e possíveis de serem separadas apenas sob uma perspectiva didática. Uma dimensão política, posto que, no processo contínuo de afirmação dos saberes parcelares, a especificidade da conjugação sociedade-natureza apareceu sempre como um elemento de distinção, portanto um trunfo de legitimação frente às outras disciplinas no campo científico. Mas a especificidade trouxe também, no confronto das ideias com outras áreas do conhecimento, um
desconforto de ordem epistemológica, perpassando, inevitavelmente, pelo método da disciplina e pela ontologia do ser do espaço (MOREIRA, 2010a, 2010b).
A simbiose Geografia-História, que ajudou a sustentar a coerência metódica dos autores clássicos (LIRA, 2014), também viu seus alicerces ruídos pelos movimentos de segmentação e de especialização do conhecimento. A Geografia no Brasil acompanhou a tendência mundial a partir do final da década de 1930, pedindo o “divórcio” e se afastando da História na década de 1950, ainda que enfrentando resistência por parte dos primeiros catedráticos que aportaram nas Universidades do sul do país (SEABRA, 2008; MACHADO, 2009). Uma reaproximação apenas se daria duas décadas mais tarde, em uma espécie de resgate de método, tendo como influência central a obra Por uma Geografia Nova, de Milton Santos (MOREIRA, 2010a).
Como que num repente, a noção da historicidade do espaço é internalizada na geografia e o conceito de espaço geográfico ganha nova cara. [...] Milton Santos submete o discurso geográfico a uma completa releitura. E isso numa extensão que vai da crítica epistemológica à teoria do objeto. [...] Os pensamentos neopositivista e estruturalista são hegemônicos no meio intelectual nesse tempo. [...] Na geografia neopositivista, a morte da história dera-se na forma da redução do espaço a um mero discurso de pontos e linhas. A uma ideia de espaço só com forma, despojado de conteúdo. Fala-se nela de pontos, querendo-se falar de cidade. E fala-se de linhas, querendo-se falar de rede e fluxos de transportes. O que, todavia, é a cidade e o que é a rede de transporte, o que exprimem como forma de realização da história, disso não se cogita. A visão estruturalista do espaço como instância trazida à geografia por Milton Santos oferece o elemento essencial à crítica da abordagem neopositivista, embora nela o sujeito da história, contraditoriamente, seja sublimado (MOREIRA, 2010a, p. 27-28).
Esse foi um dos períodos de renovação teórico-metodológica pela qual passou a Geografia, polarizada pelo materialismo histórico e dialético, mas que se constituiu, em verdade, em um movimento marcado por uma diversidade de concepções sobre a Geografia, submetendo alguns temas a uma profunda releitura ao passo em que outras questões, também caras à Geografia, foram esquecidas ou a elas foi dispensado pouca atenção, a exemplo da linguagem cartográfica. Mas não foi apenas o método o que esteve em jogo. O próprio objeto da Geografia se apresentava como elemento das contendas acadêmicas (MOREIRA, 2010a).
No bojo desse processo, coincidem em alguns aspectos as leituras que fazem Milton Santos e Ruy Moreira sobre a natureza do espaço geográfico, esse produto social. Os pressupostos de que o espaço é história, de que a história se realiza no espaço e de que a Geografia se assenta sobre um objeto historicamente determinado, fazem da Geografia uma ciência social, segundo o
professor Ruy Moreira (2010a). Os objetos que compõem o espaço de modo sistêmico, com suas formas-conteúdos, têm os seus significados, valores e potencialidades determinados pela totalidade social da qual fazem parte, em um contexto histórico específico (MOREIRA, 2010a, SANTOS, 2006a).
Tendo por objeto uma categoria de caráter social, o caráter científico da Geografia fica determinado pelo caráter do seu objeto. Ora, o espaço é essencialmente um ente social. [...] O espaço não é suporte, substrato ou receptáculo das ações humanas. E não se confunde com a base física. O espaço geográfico é um espaço produzido. Nele a natureza não é mera base ou parte integrante. É uma condição concreta de sua produção social. E isso porque a natureza é uma condição concreta da existência social dos homens. Conquanto a “primeira natureza” não seja o espaço geográfico, não há espaço geográfico sem ela (MOREIRA, 2010a, p. 64-65).
Não é objetivo aqui esmiuçar tal compreensão sobre a natureza do espaço geográfico (essa que é uma dentre outras tantas possíveis), nem o texto caminhará por um percurso de também esquadrinhar as divergências de concepções sobre a Geografia e sobre a existência de um objeto da Geografia, particularmente nas duas ondas ou movimentos de renovação vividos pela disciplina no Brasil56, que aponta Ruy Moreira. Essas questões serão analisadas no momento em que as falas dos entrevistados nos convidarem a pensarmos um pouco mais sobre elas. O objetivo é mesmo o de demonstrar, em primeiro lugar, que o campo disciplinar sentiu as transformações em curso no espaço-tempo, da escala global à escala local, o que forçou a Geografia, particularmente no Brasil, a uma releitura de si, questionando as suas “lentes” de observação do mundo. E, depois, é preciso ressaltar a compreensão de que uma pluralidade de concepções emergiu como proposta dessa releitura.
É nessa pluralidade que Ruy Moreira (2010b) enxerga e localiza a busca por uma teoria geral na Geografia no Brasil em autores como Aziz Ab’Saber (ciclos de tempo e ciclos de espaço, na Teoria dos redutos-refúgios, conformando unidades morfoclimáticas e biogeográficas nas quais habitam as populações), Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (Teoria clima urbano, denotando atenção particular à ação do homem, na produção da cidade, sobre as transformações
56 Sobre os processos de renovação da Geografia no Brasil recomenda-se a leitura de SCARIM, P. C. Coetâneos da
crítica. Contribuição ao estudo do movimento de renovação da geografia brasileira. [Dissertação de Mestrado]. São
Paulo: DG/FFLCH/USP, 2000; SANTOS, M. Por uma Geografia Nova. São Paulo. EDUSP, 2008; MOREIRA, R.
Para onde vai o pensamento geográfico? São Paulo. Ed. Contexto, 2006; MOREIRA, R. Pensar e ser em Geografia. São Paulo, Ed. Contexto, 2010; MOREIRA, R. O pensamento geográfico brasileiro 1 – as matrizes
clássicas originárias. São Paulo, Ed. Contexto, 2008; MOREIRA, R. O pensamento geográfico brasileiro 3 – as matrizes brasileiras. Ed. Contexto, 2010, dentre outros.
do clima), Milton Santos (Teoria tempo-espaço: a gênese e a genealogia do espaço dadas pela historicidade de suas formas-conteúdos) e Armando Correa da Silva (a Geossociabilidade do ser na história), para ficarmos somente com alguns autores que passaram pela USP e (ou) pela UFBA, influenciando as pesquisas nos seus programas de pós-graduação até a atualidade, deixando de lado outros esforços de integração realizados no Brasil. Os modelos explicativos, para Ruy Moreira (2010b), revelam, em última instância, a herança kantiana na Geografia.
[...] É com Kant que a superfície terrestre entra na teoria geográfica como fenomênica e o espaço como base abstrata de ordem dos arranjos. Por um tempo essas duas categorias andaram juntas e como um só eixo, até que se separaram em eixos diferentes e ao fim o espaço suprime a superfície terrestre como tema e eixo da Geografia [...] (MOREIRA, 2010b, p. 144).
Essa compartimentação que se observa no campo disciplinar geográfico, denominada também por Ruy Moreira (2010b) de ciclo fragmentário, expressão da lógica industrial e das divisões social e intelectual do trabalho, que emerge no Brasil com a Modernidade tardia em que o país se insere (1930/1940), se vê questionada, ainda segundo o professor Moreira, mais fortemente após a crise ecológica que despontou no mundo nos anos 1970, pondo em dúvida as práticas explicativas deslocadas exclusivamente para uma ou para outra dessas duas categorias – superfície terrestre e espaço. É nesse movimento que as ondas de renovação se realizam primeiro nos anos 1940/50 e, mais tarde, nos anos 1970/80, de onde os esforços teóricos citados nessa seção são expressões autênticas.
A essas duas gerações segue-se outra, em um movimento que combina assimilações, negações e (ou) superações sobre as bases das pesquisas geográficas no Brasil, revelando uma ligação (influência) na produção acadêmica que desenvolvem e que se revelam tributárias, em alguma medida, das construções teórico-metodológicas de autores que pensaram/produziram a Geografia nos seus momentos de inflexões epistemológicas.
As conversas com os entrevistados caminharam por aí. Como numa aula, o aprendizado veio das observações que fizeram colegas e professores, agora sobre os aportes teórico-metodológicos de suas práticas investigativas na Geografia. Foi de um estudante de doutorado da UFBA que vieram algumas importantes questões esclarecedoras sobre o momento da ciência geográfica na atualidade, a partir de sua leitura referenciada no transcurso histórico da disciplina. Um estudante
um tanto diferenciado, é verdade. Diferenciado diante desse novo contexto em que se ingressa muito cedo, muito jovem, nos cursos de pós-graduação, às vezes com algum prejuízo no tocante ao processo formativo.
Cursando doutorado em Geografia na UFBA na fase de realização das entrevistas desta tese, o professor Claudemiro Ferreira da Cruz Neto, do Departamento de Geografia da UFBA, caminhou por uma leitura que reafirmou as indicações do professor Ruy Moreira (2010b). A entrevista, na verdade, serviu como uma espécie de formalização das muitas conversas que tínhamos constantemente na UFBA. A entrevista ocorreu na sala em que ocupa do prédio de Geociências da UFBA, uma sala simples, como as outras vinculadas aos cursos de Geografia: uma mesa, duas cadeiras e uma pequena bancada, além de um armário de ferro – esse sim, com algumas preciosas raridades geográficas: livros e textos, alguns com os quais fui até presenteado pelo professor Claudemiro, entusiasta da minha pesquisa.
A minha vida profissional toda foi dentro da Geografia, então, eu assisti a Geografia dos últimos trinta anos passar, e eu considero hoje um momento excepcionalmente favorável, porque eu vejo uma diversidade, uma pluralidade teórico-metodológica como eu nunca vi antes. A história do pensamento geográfico é a história da hegemonia de uma determinada corrente do pensamento sobre as demais. Subordinando, subjugando as demais perspectivas, não é? Hoje isso não é o que se dá. Hoje você tem, de um lado, essa diversidade, que é muito interessante, porque permite um espectro muito largo no campo da filiação filosófica, o que vai implicar em uma diversidade muito grande de metodologias de pesquisas e que tem um segundo aspecto que eu considero importante que é a qualidade [...]. Então, você tem, de um lado, um leque de perspectivas e, de outro, uma qualificação cada vez maior dentro desse leque de perspectivas. As pessoas hoje são obrigadas a dialogar sobre os seus fundamentos de pesquisa. Então, diante da diversidade elas não podem mais se ancorar em determinados paradigmas para se justificar. Elas têm que ir, na medida do possível, apresentar o seu projeto com articulação de suas bases ontológicas, epistemológicas e metodológicas, e a gente já começa a ver isso acontecendo na Geografia. Acho que alguns autores ajudaram a fazer essa qualificação. Eu, particularmente, enxergo o Ruy Moreira como o grande nome da Geografia brasileira hoje e, ao lado dele, Carlos Walter Porto-Gonçalves, que é um cara que sempre produziu desde o início desse movimento de renovação. Alguns nomes como Paulo César da Costa Gomes, Rogério Haesbaert, Marcelo Lopes de Souza, Pedro Vasconcelos, são pessoas que vêm elevando a produção. É uma geração intermediária àquela que fez o movimento de renovação, e você tem hoje um leque de jovens doutores, recém-doutores, jovens doutores produzindo com muita qualidade já com base nessa referência. Então, eu acho que em Ciência é muito isso, amadurecimento e acúmulo e ultrapassagem [...] (DEPOIMENTO DE
Dos elementos apontados pelo professor Claudemiro da Cruz Neto, três se destacam e se entrelaçam. O primeiro é a constatação de uma obra que vem sendo produzida com muita qualidade por uma geração intermediária entre os “autores da renovação” e os jovens que estão iniciando a vida acadêmica. Em segundo lugar, característica da geração intermediária, a diversidade de concepções ontológicas, epistemológicas e metodológicas para a Geografia se coloca como traço marcante, ainda que o esforço da unidade pareça não ter desaparecido, cabendo mais falar, talvez, em um desacordo na afirmação ou na compreensão sobre as bases de sustentação da disciplina. E, por último, e próprio do movimento do campo disciplinar, o esforço da unidade vem enredado a um movimento de superação das bases que amparam as pesquisas geográficas.
As questões colocadas pelo professor Claudemiro da Cruz Neto, conforme foi dito, reafirmam a análise do professor Ruy Moreira sobre os esforços de síntese realizados na história do pensamento geográfico, que tentam dar respostas aos processos de fragmentação em curso, marcados por fases de transição em que as perspectivas geográficas são confrontadas, assimiladas e (ou) refutadas no seu percurso. Dentre os entrevistados, o professor Sylvio Carlos Bandeira de Mello e Silva foi um dos que destacaram as fases de transição da Geografia no Brasil, esclarecendo as críticas e as motivações nas quais se apoiaram os primeiros esforços de superação ao método analítico-descritivo no Brasil.
Vindo de São Paulo para a Bahia, estimulado pelas possibilidades de realizar uma Geografia aplicada, muito em voga nos anos 1950/1960, a partir da passagem e das contribuições do professor Jean Tricart no Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, dirigido por Milton Santos, do qual foi pesquisador associado, o professor Sylvio Carlos Bandeira de Mello e Silva foi responsável, juntamente com outros colegas, pela elaboração de regionalizações do estado da Bahia, adotadas pelo estado nos anos 1970 e desenvolvidas a partir de teorias locacionais com as quais começou a trabalhar ainda nos primeiros anos de sua vida profissional, tornando-se, juntamente com a professora Barbara-Christine Nentwig Silva, também do Programa de Pós- graduação em Geografia da UFBA, referências das mais destacadas no campo disciplinar geográfico no Brasil, no tocante à corrente teórico-quantitativa da Geografia.
Professor Titular do Departamento de Geografia da UFBA desde 1975, hoje aposentado, o professor Sylvio Bandeira se vincula como professor-pesquisador e orientador nos cursos de mestrado e de doutorado em Geografia na UFBA, ao passo que também coordena o Programa de Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social, da Universidade Católica de Salvador. Nossa entrevista se deu nas dependências da Universidade Católica, na sua sala de trabalho, no dia 03 de junho de 2014. No fragmento de fala do professor Sylvio Bandeira, aqui apresentado, pode-se observar críticas e motivações sobre o momento de inflexão epistemológica que se pôs a partir da década de 1950, bem como as repercussões da corrente teórico-quantitativa no estado da Bahia.
[...] Quando eu estudei Geografia esse tema não era muito debatido, ninguém discutia muito teoria e metodologia em Geografia. Fazia-se Geografia fazendo