2.2 D´efinitions et m´etriques d´edi´ees au sch´ema CBL
2.2.8 D´efinitions d’un seuil temporel et des coefficients pond´erateurs
Segundo Josette Rey-Debove, não se pode considerar a palavra escrita como posterior à oral e como representação desta, o que reduziria a palavra escrita a um “signo de signo”. Na realidade Rey-Debove reconhece “a independência semiótica dos sistemas atuais em relação ao conteúdo que eles veiculam no discurso” 172. Assim, a ligação do signo escrito com o referencial se processa diretamente, assim como a do signo oral e não indiretamente por meio deste. A representação gráfica do oral só existe na transcrição fonética, já que esta é metalinguística e só é empregada para falar da linguagem. Dessa forma, a representação gráfica correspondente à palavra “doigt” é [dwa] e não “doua” como utiliza Queneau, já de acordo com convenções da ortografia francesa.
De acordo com seu projeto de inserção da língua falada, Queneau emprega muitas alterações ortográficas, seja para representar palavras estrangeiras com a grafia francesa, seja para conseguir um efeito arcaizante, ou ainda, mais frequentemente, alterando palavras ou mesmo juntando várias palavras na tentativa de representar a cadeia sonora, na grafia que ele chama de ortograf fonétik.
a) representação de palavras estrangeiras
Nos casos em que há a utilização da grafia francesa para representar palavras inglesas, utilizamos o mesmo critério, transpondo para a grafia do português a realização sonora dessas palavras. Vejamos alguns exemplos:
A palavra “camping” aparece 25 vezes no romance, sempre escrita “campigne”. Na tradução, transcrevemos como “câmpingue”.
172 “l'indépendence sémiotique des systèmes actuels par rapport au contenu qu'ils véhiculent em discours”
(REY-DEBOVE, J. À la Recherche de la Distinction Oral/Écrit. In: CATACH, N. Pour une Theorie de la Langue Écrite. Paris: CNRS, 1990, p. 78).
As palavras inglesas “strip-tease”, “cash”, “western” e “girl”, transcritas em francês como “stripeutise” (101), “cache” (102), “ouesterne” (183) e “gueurle” (184), foram traduzidas respectivamente por “estripitise”, “quéche”, “uésterne” e “guerl”.
A palavra “newtonienne”, derivada do nome próprio Newton, é escrita “nioutonienne”, de acordo com regras ortográficas francesas. Em português, grafamos “niutoniana”, aportuguesando a escrita da palavra.
Há ainda a sigla inglesa “WC”, que foi transcrita como “vécés” (216), e que transcrevemos como “dabliucê”; ainda que seja muito pouco usada em português, ao passo que “vécés” é de uso corrente em francês.
b) efeito arcaisante
À medida que o duque viaja pelas várias épocas da história, o plural da palavra “cheval” é apresentada em três grafias diferentes “chevals”, “chevaus” e “chevaux”, monstrando sua evolução diacrônica. Para reproduzir o efeito usamos, na tradução, “caballo(s)”, “cavallo(s)” e “cavalo(s)”, pois, ainda que a evolução da palavra na língua possa não ter sido essa, remete de qualquer modo à palavra latina de origem, “caballus”.
A palavra “catholique” é escrita “catoliche” (18) e “catholiche” (41), grafia que permite em francês a pronúncia do “ch” como /k/ em certas palavras de origem grega. Em português, na impossibilidade desse procedimento, grafamos “cathólico”, que mantém a pronúncia da palavra ao mesmo tempo em que remete à sua origem, do grego “katholikós”, através do latim “catholicus”, e dá uma aparência arcaisante, uma vez que o dígrafo “th” não existe mais na ortografia do português.
Finalmente, temos a palavra “asteure”, que, ao mesmo tempo que resulta da transcrição em ortograf fonétik da expressão “à cette heure”, é uma palavra arcaica do francês, ainda utilizada no Quebec e na Louisiânia. Na tradução para o português, optamos por “aestora”, em que se mantém o procedimento de ortograf fonétik para “a esta hora”, embora se perca a alusão ao arcaísmo.
c) ortograf fonétik
Como a ortografia do português, tendo sofrido várias reformas, é muito mais próxima da realização fonética do que a do francês, nem sempre o efeito das modificações fonéticas é tão forte como em francês. Ainda assim, optamos por utilizar em português alguns elementos fonéticos próprios da lingua falada.
A palavra “voiture” aparece 33 vezes no texto escrita “houature”, corruptela que reproduz a fala. Nesse caso, como em português a palavra mais comum “carro” não se presta a deformações ortográficas, traduzimos por “otomóvel” ou “otomóvis”.
Várias outras palavras ou frases aparecem com a grafia alterada, reproduzindo a fala, para restituir o efeito em português utilizamos várias adaptações:
1) “je mdemande si... je mdemande...” (79) em que se omite o “e” não pronunciado de “je me
demande si... je me demande...”. Traduzimos por “eu mi pergunto si... eu mi pergunto...” em que o “e” de “me” é escrito “i”, também reproduzindo a fala.
2) “ses douas” (118) por “ses doigts”, em que utilizamos em português “os dedo”, retratando a tendência do falante brasileiro de omitir a marca redundante de plural do substantivo.
3) “Oui, msieu” (154), por “Oui, monsieur”; “Vsêtes gentil. Merci, msieu.” (155), por “Vous
êtes gentil. Merci, monsieur” e “Grammercy” (160), por “Grand merci”. Utilizamos vários desvios encontrados no português falado no Brasil e traduzimos respectivamente por “Sim, sinhor”, “O sinhor é muigentil. Brigada.” e “Tobrigado”.
4) o francês popular, assim como as crianças francesas, pronunciam as palavras “des
haricots”, fazendo a ligação “desaricots”, ignorando a presença de um h aspirado que a impediria. Para reproduzir esse fato, Queneau escreve “des zaricots”. Na tradução, utilizamos a palavra “fejão”, reproduzindo a tendência da fala brasileira de reduzir o ditongo “ei” em “e”. Chegamos finalmente aos casos mais radicais do emprego da ortograf fonétik, com a ligação de palavras ou mesmo uma frase inteira escrita como se fosse a mesma palavra. Embora reproduza a cadeia sonora, isso provoca grande estranheza mesmo ao leitor francês que, em alguns casos, tem dificuldade para decodificar e compreender a frase.
Encontramos, por exemplo, “cexé” (63) em vez de “ce que c'est”. Traduzimos por “uquiéquié” (o que é que é), ligando as palavras e usando a repetição própria do oral.
A frase “Stènnes se tut” é escrita numa só palavra “Stènnstu” (72), Usando o mesmo procedimento, grafamos “Stenessicalô” (Stenes se calou).
“ Tu ne feras jamais tèrstène” (177) representa a frase “Tu ne feras jamais taire
Sthène”. Nesse caso, além da ligação das palavras, utilizamos ainda a redução de “você” e a omissão dos “r” finais dos infinitivos, todos desvios encontrados no português falado: “Cê nunca vai fazê Stenessicalá” (Você nunca vai fazer Stenes se calar).
Duas frases, representadas como duas palavras encontramos em “Stèfstu esténoci” (202), por “Stèphe se tut, Sthène aussi”. Também aqui, além da ligação das palavras, utilizamos a omissão do “r” final do infinitivo e a redução de “mb” para “m”: “Estêvãossicalô stenestamém” (Estêvão se calou. Stenes também).
Finalmente, encontramos a frase “tummplupeu ce matin” (256), por “tu me plus
peu ce matin”. Nesse caso, não ligamos palavras e compensamos por vários desvios do português: “cê num mi agradô essa manhã” (você não me agradou essa manhã).