Chapitre II. G´ en´ eralit´ es sur les processus de Markov
1. D´ efinitions et premi` eres propri´ et´ es
A principal pergunta sobre a execução das sessões de leitura a ser respondida é: o procedimento de mediação de leitura adotado - baseado nos princípios da andaimagem - revelou-se adequado para o trabalho com as obras de literatura infantil negra na perspectiva que foi planejada? Para respondê-la, devemos avaliar a eficácia das estratégias adotadas em cada uma das etapas da andaimagem, uma vez que elas apresentam objetivos específicos.
A fase de planejamento foi fundamental para a condução de todo o processo. Através dos esforços concentrados nessa fase, fomos capazes de prever algumas características da recepção dos sujeitos, planejando antecipadamente as reações da mediadora a elas. De fato, essa fase teve duração longitudinal na condução da pesquisa, tendo sido construída por etapas, desde os objetivos gerais do trabalho às metas traçadas para cada sessão de leitura, passando pela escolha das obras e do exercício de leitura oral delas, até chegar-se a uma prosódia fluida e com o colorido da voz que é capaz de ressaltar determinados elementos do texto. Nesse percurso, destacamos a auto- reflexividade da atividade de planejamento, que nos conduziu a diversas mudanças no plano, de acordo com os resultados preliminares obtidos.
Dentre as escolhas metodológicas da etapa de pré-leitura, destacamos o pré-ensino de conceitos como uma estratégia que visou à introdução e à complementação dos
conhecimentos prévios dos sujeitos, para assegurar que todos teriam ciência das informações básicas acerca do mundo real que permitissem um contato mais profícuo com o universo ficcional. Esse procedimento demonstra a necessidade de bagagem de mundo para a qualificação da leitura de literatura. Por um lado, essa escolha teve sucesso no alcance desse objetivo, uma vez que possibilitou a construção de conhecimentos de modo transdisciplinar. O diálogo estabelecido entre literatura e ciências sociais contribuiu ainda para o aprendizado acerca das relações entre o real e o ficcional, pelo entrelaçamento dos dois tipos de narrativas. No entanto, houve um preço a ser pago por termos incorrido no perigo das análises históricas generalizantes e apressadas. Tal preço está relacionado às lacunas deixadas nessas análises, que acabam por tornarem-se significativas, quando são preenchidas pelos sujeitos com base naquilo que já sabiam e no que passaram a saber. Assim, por exemplo, o fato de termos deixado de mencionar a escravidão em outros povos, em outras épocas e lugares da história da humanidade pode levar os sujeitos a percebê-la como um problema exclusivamente africano. Nesse sentido, o mais adequado seria que o ensino transdisciplinar fosse levado a cabo a longo prazo, o que traria a oportunidade de aprofundar os conhecimentos dessas áreas correlatas em paralelo, cada uma preenchendo as lacunas deixadas pela outra.
De acordo com as concepções teóricas assumidas, os objetivos metodológicos estabelecidos e as reações dos sujeitos observadas, as diversas estratégias de leitura adotadas obtiveram, em geral, êxito em promover a consumação do processo comunicacional que a leitura literária promove. Verificou-se a importância do planejamento prosódico, que fez com que a expressividade sonora da voz da professora melhorasse a cada sessão e, assim, conseguisse maior adesão dos sujeitos ao momento da leitura e repercutisse favoravelmente na compreensão da obra. Na leitura de algumas obras, foram introduzidos elementos musicais e diálogos dramatizados. Com isso, pretendíamos não imitar, mas fazer uma referência à figura do contador de histórias no Brasil, que, por sua vez, é também herdeiro da tradição legada pelos griôs africanos. Fizemos essa referência com base no entendimento de Silva (2012), segundo o qual, o trabalho do griô converge para o conceito de arte total e o lastro de seu espetáculo pode ser observado - ainda que recriado conforme o contexto local (SOUZA, 2011) - no fazer do contador de histórias e, como fruto de um processo de transculturação narrativa, nos próprios registros escritos baseados nos contos da tradição oral.
Reafirmamos que o professor não é obrigado a dispor de habilidades musicais ou teatrais, mas é positivo que tenha em mente esse lastro comentado anteriormente, ao
mediar a leitura de literatura infantil negra. Assim, é adequado que o mediador procure empregar suas habilidades em favor do enriquecimento dessa experiência, em termos estéticos. Isso pode significar o simples domínio sobre a própria voz, que deve perseguir a variabilidade justa, segundo as possibilidades do texto. Assim, observamos no decorrer das sessões que a professora teve de vencer uma dificuldade inicial em brincar com a própria voz, imprimindo-lhe um colorido de timbres, tonalidades, intensidades, ritmos, etc. As observações iniciais, descritas no capítulo 4, permitem-nos relacionar essa dificuldade aos limites que separam a brincadeira em sala de aula e a autoridade docente. De fato, pode-se argumentar que tanto a professora quanto os sujeitos tiveram nesse trabalho uma oportunidade de aprender acerca desses limites, verificando que, por vezes, ele parece, na verdade, não existir. Trata-se de uma discussão interessante e complexa, que não temos condições de empreender neste trabalho. Pode-se, não obstante, relatar, em solidariedade às dificuldades encontradas pela professora em seu fazer docente cotidiano, que, nas poucas oportunidades em que o pesquisador viu-se obrigado e estar só com a turma, o ambiente tendeu rapidamente para uma manifestação caótica dos eventos, na qual seria difícil empreender as práticas de ensino-aprendizagem conforme planejadas.
Na fase de pós-leitura, tivemos como principal atividade a discussão de histórias. Segundo os posicionamentos teóricos defendidos no capítulo 3, e de acordo com os dados expostos e com as análises empreendidas neste capítulo, consideramos que a ação argumentativa da professora durante a discussão de histórias obteve êxito em propiciar aos sujeitos expressarem múltiplos aspectos de sua recepção à obra, como sentimentos, memórias, interpretações, desejos, hipóteses, frustrações, valores, etc. Foi também, conforme já mencionado, um momento muito propício ao debate aberto e franco acerca da diversidade étnico-racial, no qual os sujeitos expressaram diversos argumentos, defendendo desde posicionamentos de respeito e valorização dessa diversidade a posturas abertamente racistas, calcadas em preconceitos cristalizados no senso comum brasileiro.