Reformulation topologique
8.1 D´ efinition topologique
IX.1 Operacionalização do Diário
A utilização de diários como método de recolha de dados é vantajosa quando se pretende aceder a informação que ocorre em contextos reais/naturais (i.e. não “sintetizados” pelo investigador para análise) e que é, simultaneamente, de difícil “acesso” ao investigador (por acontecer na esfera pessoal do participante, em contextos privados/íntimos ou simplesmente por inconveniência). Possui também vantagens em relação aos efeitos da retrospeção, contrastando por exemplo com as entrevistas (que solicitam ao participante um esforço de recuperação de
informação). Adicionalmente, é um método com carácter longitudinal – o processo ocorre durante, tipicamente, algumas semanas (o que permite avaliar variações temporais ligadas a e.g. rotinas de trabalho vs. rotinas de lazer).
As vantagens e características referidas são, no entanto, exigentes em termos de metodológicos, quer para o investigador, quer para o participante. O carácter longitudinal implica solicitar um envolvimento “alongado” e maior compromisso aos participantes. O recrutamento dos participantes também se torna um desafio mais complexo. É comum recorrer-se a tipos de amostragem não-probabilísticos (e.g. por conveniência), nos quais o critério é a expectável participação e
compromisso dos participantes (implicando, neste caso, contactos próximos ao investigador ou referidos por estes).
Escolhas
O diário foi escolhido como método de recolha de dados para a investigação aqui descrita com o intuito de capturar a experiência contextualizada de indivíduos, na lógica espacial híbrida e com recurso a LM.
O tipo de experiência que se pretende analisar pode ocorrer em contextos
extremamente diversificados (desde o trabalho aos momentos de lazer), tornando- se difícil a um investigador “escolher” a altura correta para entrevistar ou observar. Alguns exemplos possíveis de atividades comuns com recurso a LM poderão ser:
• Comentar algo que se acabou de presenciar, referenciando o contexto espacial, numa rede social;
• Também numa rede social, partilhar fotografias de um lugar visitado; • Publicar o percurso de uma corrida, sessão de jogging ou passeio de
bicicleta;
• Georreferenciar, em contexto de trabalho, uma reparação ou anomalia. Este tipo de atividade levanta algumas dificuldades à investigação, na medida em que é particularmente difícil ao investigador estar presente quando os fenómenos “interessantes” ocorrem. Algumas atividades, pela sua “dispersão”, implicariam que o investigador estivesse quase constantemente com o participante. Outras, por questões de privacidade ou até acesso (e.g. contexto laboral) , nem sequer permitiriam a sua presença.
Este carácter “corriqueiro” e extremamente disperso (no espaço e no tempo) da utilização de LM poderia ser endereçado através de entrevistas. Todavia, este método está mais sujeito a efeitos de retrospeção – particularmente, se tivermos em conta que os fenómenos em análise são comuns, ou seja, dificilmente seriam relembrados pelo participante com grande detalhe. O diário permitirá, à partida, um “reporte” da atividade mais sistemático e próximo (temporalmente) do
fenómeno em análise. O próprio facto de o participante saber a priori que terá de fazer um registo poderá também potenciar a sua “atenção” ao fenómeno e
reflexão. Adicionalmente, considerando o espaço como uma noção emergente da experiência humana, o diário é particularmente relevante, dado que – ao recolher dados que são eminentemente “sintetizados” – irá incorporar intrinsecamente a perspetiva e as noções do participante.
Dado que os fenómenos em análise não ocorrem em intervalos fixos ou de forma contínua, mas são facilmente “identificáveis” nas práticas do indivíduo, optou-se por definir o agendamento do reporte no diário como indexado a
eventos/atividades. Isto é: o reporte da experiência por parte do participante deverá ser “despoletado” por eventos que são parte integrante das suas vivências.
Tendo em conta a referida contingência do reporte a eventos, a definição do dos mesmos enquanto estímulo do registo deverá ser cuidada e evitar ambiguidade. Todavia, deverá ser formulada (perante o participante) de uma forma pouco restritiva e que não iniba a participação; considera-se preferível que o participante reporte “em excesso” do que “em restrição” (o investigador poderá facilmente considerar porções do diário como menos relevantes mas não poderá,
obviamente, recuperar porções interessantes que não chegaram a ser reportadas por restrição excessiva na definição do evento).
Os participantes convidados receberam um documento com instruções de preenchimento, no qual foi definido o “estímulo” que deveria despoletar o seu registo. A redação foi a seguinte:
O foco desta investigação é a experiência do espaço e dos lugares, em contexto de utilização das TIC. Assim, poderá relatar qualquer situação em que se relacione com um lugar e exista um impacto das TIC na mesma. Alguns exemplos poderão ser:
• Partilhar uma fotografia no contexto de um lugar (com ou sem georreferenciação);
• Registar o percurso de uma caminhada, corrida ou passeio de bicicleta;
• Efetuar um check-in numa rede social;
• Planear uma visita ou deslocação através de informação on-line. Importa notar que estes exemplos são meramente indicativos e não uma lista de situações a relatar – no limite, deverá ser a sua experiência a ditar o que regista no diário. Pretende-se que relate as situações onde notou uma relação entre as TIC e a experiência que teve com o espaço e dos lugares.
Relativamente ao conteúdo do diário (i.e. aquilo que os participantes devem, efetivamente, escrever), optou-se por sugerir um formato misto entre a redação livre e um formato fechado, sendo predominante a redação livre. Solicitou-se aos participantes um registo “nas suas próprias palavras”, no qual referissem alguns aspetos instrumentais (data/hora e dispositivos, sendo esta a componente “fechada” das entradas de diário), com a seguinte redação:
O formato do diário é livre e, conforme referido, pretende-se um registo pessoal, de intimidade (na medida do possível e adequado). Deverá relatar a sua experiência, genuinamente e pelas suas palavras. Apenas se solicita que refira a data e hora (sem necessidade de exatidão) da experiência que relatou, os dispositivos digitais envolvidos e as pessoas (ou entidades) com que interagiu.
A duração do registo foi estabelecida em três semanas (de 6 a 27 de junho), com o intuito de obter pelo menos nove entradas de diário por participante (estimando- se, assim, três entradas por semana). Solicitou-se aos participantes uma
frequência diária, porém, ressalvando explicitamente as questões de
disponibilidade e considerando aceitável uma frequência menor. A redação foi a seguinte:
O desejável será atingir a frequência de uma entrada por dia, porém, é perfeitamente aceitável que em alguns dias o preenchimento do diário seja inconveniente ou até impossível. Assim, o “alvo” situa-se entre 3 e 7
Relativamente ao suporte do diário, optou-se por considerar aceitável formatos digitais (e-mail) ou físicos (neste caso, um pequeno caderno ou bloco), ficando a decisão à conveniência do participante.
O acompanhamento do estudo foi efetuado de forma pouco intrusiva pelo
investigador, porém, afirmando sempre a disponibilidade para esclarecimentos e acompanhamento. Existiu apenas um “checkpoint” no qual o investigador
contactou os participantes no ponto central (isto é, a meio do estudo) com o intuito de obter informação sobre o progresso, eventuais dúvidas ou qualquer outro tipo de feedback. No caso dos participantes que optaram por enviar as entradas de diário ainda durante a elaboração do mesmo, o investigador entrou em contacto com o intuito de confirmar a receção e reforçar o agradecimento pela participação.