Para Azevedo (1993),
“a violência é psicológica quando a coação é feita através de ameaças,
humilhações, privação emocional. Apresenta - se sob variadas formas.
Também designada como ”tortura psicológica”, evidencia -se como a
interferência negativa do adulto sobre a criança e sua competência
social, conformando um padrão de comportamento destrutivo” (p.13) Como quando um adulto deprecia uma criança, bloqueia seus esforços de auto-aceitação, causando-lhe grande sofrimento mental.
Para Koller (1998), este tipo de violência está presente em todas as demais, podendo variar desde a desatenção até a rejeição total. Por não ser visível é muito
difícil de ser detectada, não sendo comumente localizada nos levantamentos de que se tem informação.
Garbarino (1992), refere-se ao abuso emocional “como uma corrupção que leva a criança a modelos de conduta não aceitáveis pela sociedade, rejeição, degradação, exploração, isolamento, terrorismo e indisponibilidade emocional” (p.67). Esta forma de violência psicológica é prejudicial à criança, posto que pode conduzi-las a conseqüências drásticas como baixa auto-estima, introspecção e depressão.
A violência psicológica apresenta-se associada a outros tipos de violência. Seis são as formas mais constantemente estudadas (Garbarino e cols.,1992; Ruiz,1981):
1) Rejeição:- quando o adulto não reconhece o valor da criança nem a legitimidade de suas necessidades;
2) Isolamento:- o adulto afasta a criança de experiências sociais normais, impede-a de ter amigos e a faz crer que está só no mundo;
3) Terror:- agressões verbais à criança, onde o agressor instaura clima de medo, atemoriza e a faz crer que o mundo é hostil a ela;
4) Abandono:- o adulto não estimula o crescimento emocional e intelectual da criança; 5) Cobrança:- expectativas irreais ou extremadas exigências sobre o rendimento
(escolar, intelectual, esportivo), que têm sido mais relacionados com crianças oriundas de classe média ou alta;
6) Corrupção:- ato de o adulto corromper a criança à prostituição, ao crime ao uso de drogas.
Como já foi dito o abandono pode ser considerado uma violência psicológica e pode estar dentro de casa. Para a maioria das pessoas o abandono é sinônimo de crianças largadas nas ruas ou criadas em entidades assistenciais. No nosso entender o abandono mais preocupante é o emocional, no qual toda e qualquer criança pode ser esquecida. Os vínculos afetivos são muito importantes e possibilitam o referencial para o adulto do futuro. O ser humano precisa de vínculos anteriores para determinar sua própria vida. (Garbarino e cols.,1992; Ruiz,1981):
Dentro de uma proposta de vida moderna e tendo condições de possibilitar um equilíbrio financeiro mais satisfatório, muitos pais “esquecem” seus filhos em
escolas, cursos e outras atividades, impossibilitando a formação de vínculos afetivos de qualidade. Muitas vezes os pais acreditam que a educação é o bastante para a criação dos filhos. Estes dados não deixam de constituir uma violência psicológica. (Garbarino e cols.,1992).
A exploração do trabalho infantil não deixa de ser uma violência psicológica, muitas vezes inevitável, tendo em vista a complexidade das causas do trabalho infantil, que podem incluir a pobreza, exploração econômica, valores sociais e circunstâncias culturais. Sabe-se que o correto seria a garantia da educação gratuita e obrigatória, além da proteção legal mais ampla. No entanto, o fato da família, na maioria dos casos, necessitar do trabalho de seus filhos para complementar a renda familiar, faz com que
muito pouco seja feito para reverter este processo. (Floriani, 1998). Floriani (1998), que também é psicanalista, chama atenção para o fato da
utilização prematura dessa mão de obra trazer conseqüências muito sérias para o desenvolvimento de garotos. ”Se esses meninos perdem o direito de brincar, certamente tornarão adultos com menos capacidades cognitivas e afetivas”, argumenta. Este movimento ainda pretende proteger e promover os direitos de todas as crianças, principalmente no que diz respeito à educação gratuita e de qualidade e ao compromisso de libertá-las da exploração econômica.
Fala-se que a exploração do trabalho infantil constitui-se em violência contra criança, porém, cabe-nos ressaltar que, dependendo do tipo de violência, o desenvolvimento infantil pode ser prejudicado de forma irreparável. Em muitos casos, a saúde é afetada de modo geral. As conseqüências podem ser detectadas de diferentes maneiras, podendo afetar a coordenação resistência física, a visão e a audição. A dificuldade no aprendizado, por exemplo, a alfabetização, indica a dificuldade do desenvolvimento cognitivo. (Floriani, 1998).
Para este autor, emocionalmente, a criança pode chegar a perder a auto- estima e os sentimentos de amor e de aceitação. Perder ou ter reduzido os sentimentos de identidade de grupo, a habilidade de cooperar com outros e a capacidade de distinguir entre o certo e o errado, são alguns exemplos de dificuldade do desenvolvimento social e moral. A sociedade, como estrutura estruturante não pode
mais admitir este tipo de situação, onde crianças são expostas e submetidas às mais diversas formas de exploração e violência.
Não podemos nos esquecer da pobreza que pode ser entendida como um tipo de violência. O impacto e as conseqüências psicológicas que a pobreza e a miséria, como sua forma limite, podem causar na população infanto - juvenil, não podem ser desprezados, considerando todas as formas de violação de direito que sofrem as crianças pobres e os que vivem em condições que ultrapassam a linha da pobreza e os conduzem à miséria. A pobreza e a miséria podem conduzir ao desentendimento e afastamento natural das pessoas, havendo um distanciamento da afetividade, tão necessário ara a interação e integração dos membros de uma família. (Rojas, 1991).
Rojas (1991), define uma forma de violência na família que é, antes de tudo, violência de um discurso. Designa como discurso familiar os intercâmbios da linguagem produzidos como circuito grupal. Discurso predominantemente verbal, mas ao mesmo tempo composto dos elementos não verbais. Assinala como discurso violento àquela que tem como efeito à anulação do outro como sujeito diferenciado. Define violência como um exercício absoluto do poder de um ou mais sujeitos sobre outro, não reconhecido como sujeito do desejo e reduzido, em sua forma externa, a puro objeto.
Ocupou-se de um dos tipos de discurso-violento familiar, ao qual chamou de sagrado, tratando-se de uns discursos inquestionáveis, caracterizados por certezas compartilhadas, que impedem as diferenças e a singularidade. É transmitido através das gerações, tendendo a manter-se tão sólido e estável como os dogmas religiosos e a perpetuar-se por via de repetição. Carrega assim a marca da irracionalidade e apodera-se dos sujeitos, restringindo sua liberdade, até a do pensamento. Desta forma, a família se formula como uma organização estável que tende a preservar seus integrantes da dor vinculada à consciência da finitude colocando-se como unidade fusional, fonte de todo amparo e saber. (Rojas, 1991).
A Psicanálise do discurso sagrado tende à remoção da suposta “verdade”, penumbra contraposta a todo descobrimento. Trata-se de possibilitar que aquilo que se repete perca sua univocidade quer dizer, possua pelo menos dois significados diferentes.
O discurso sagrado apresenta a palavra não no lugar do ato violento, mas, sim, ela mesma, em função violenta, separando o sujeito do seu desejo e empurrando cada integrante da família para um lugar fixo e imutável. Esta palavra configura um ato de violência psicológica.