3. Choix Techniques
3.2. Développement de GraphiConv
Sob o domínio material criativo, também, no corpus C-ORAL-BRASIL, são encontradas orações com a forma verbal dar:
(118) diz ele que eu tomei prejuízo com a lingüiça // tomei prejuízo // com a lingüiça // [...] mais &q [/2] mais dez da tripa / trinta-e / e-três e sessenta / com dez / quarenta-e-três e sessenta / que ficou // deu noventa // então / deu prejuízo / uai // deu // deu um prejuízo cê precisa de ver / que demônio que é / uai // (bfamcv10)
(119) *LIQ: agora / eu nũ acho que esse namoro dura muito tempo não // [...] ah / eu conheço os dois / aquilo é onça e o do bode //
*KEL: um gênio pior do que o outro / né / mãe // [...]
*LIQ: / <é uma> jararaca // o outro / uma cascavel // cê acha que isso tem chance // *SEU: dá uma briga boa / hein // (bfamdl31)
(120) *LCS: cê nũ tem <vontade de incluir música em> inglês no seu / repertório <não> // *JSA: <não> / nũ é nem por [/1] por não ter vontade // é porque / como eu nũ tenho <o hábito> + [...] <como eu> nũ tenho o hábito de cantar em inglês / então eu tenho que pegar / direitinho / a pronúncia / <certinho> / né //
*LCS: <ham ham> // [...] <aí dá mais trabalho> // (bfamcv14)
(121) <isso> // <inclusive / nũ sei> se o vento / <dá barulho> // (bfamcv31)
(122) a troca de faixa dá uma [/2] dá uma freqüência [...] dá um / sinal> muito <baixo / (bfamcv32)
(123) *OSV: <eu pedi pro> Ibraim passar em nome da <Prefeitura> / pa nũ vim mais em nome do Geraldo // [...] tá dando problema / né // passar em nome da Prefeitura / e / ir tudo pra lá duma vez / em vez de vir <pra cá> //
*CAR: <é / porque> aí / ele fica dando problema no nome dele // *OSV: é //
*CAR: mas nũ vai &pa [/3] nũ vai [/2] nũ vai [/2] nũ dá problema de pagar <mais não> // (bpubcv02)
(124) é / porque / [curso de informática] dá dinheiro / né // (bfamdl02)
Em todos os exemplos de (118) a (124), é possível comutar o verbo dar por gerar ou
criar: deu (=>gerou) prejuízo; dá (=>gera) uma briga boa; dá (=>gera) mais trabalho; tá dando (=>gerando/criando) problema, o vento dá (=>gera/cria) barulho, a troca de faixa dá
(=>gera/cria) uma frequência, dá (=>gera) dinheiro. Também, há sempre um participante na função de Meta/Meio representando a criação de algo (nos casos aqui analisados, algo abstrato):
prejuízo, briga, trabalho, frequência, sinal, problema e dinheiro. O participante Ator/Agente
aparece apenas em (121), (122) e (124), indicando o fluxo de energia responsável pela criação da Meta/Meio; nos demais casos, por mais que esse participante não seja representado, deve ser resgatado pela consciência do falante a partir do contexto a fim de que a oração com o verbo
dar seja compreendida: [a linguiça] deu prejuízo (118), [esse namoro] dá uma briga boa (119); [o fato de ter que pegar a pronúncia da música em inglês] dá mais trabalho (120); [a conta de luz] tá dando problema (123). Nesse sentido, tem-se o verbo dar realizando Processo Material
criativo do tipo transitivo. A figura seguinte demonstra a análise das orações de (118) a (124).
Figura 56 – Processos criativos com a forma verbal dar
Fonte: O autor (2019). Orações extraídas do C-ORAL-BRASIL.
Principalmente nas orações em que o Ator é expresso, nota-se uma aproximação com a região relacional. No modelo semântico da instanciação (DAVIDSE, 2000), é possível, por exemplo, interpretar o vento, em (121), como uma instância da categoria de coisas barulhentas. No entanto, no contexto em questão, a oração o vento dá barulho é mais adequadamente sondada pela pergunta o que o vento faz?, e não por o que o vento é?; ainda, o presente progressivo pode ser aplicado sem restrição: o vento está dando barulho. Isso direciona ao entendimento de que, na oração (121) o vento seja Ator e barulho seja o participante Meta criado a partir de um processo de mudança envolvendo tempo e energia. Essa forma de raciocínio é o que conduz à distinção de (125), do tipo material criativo (portanto de natureza semelhante às orações até aqui apresentadas nesta seção), de (126), relacional atributiva.
(125) esse nome nũ dá sorte / minha mãe morreu com vinte-e-oito ano // (bfammn02) (126) *PRI: <eu já caí em vários [bueiros]> / só que eu dei <sorte de nunca> +
*MRC: <isso> // <vão> // <dez e dez cê nem vê passar> // (bpubcv09)
[a linguiça] deu prejuízo
[esse namoro] dá uma briga boa
[o fato de ter que pegar a pronúncia da música em inglês]
dá mais trabalho
[a conta de luz] tá dando problema
o vento dá barulho
a troca de faixa dá uma frequência
[curso de informática] dá dinheiro
Em (125), o participante esse nome é um Ator, já que provoca/gera algo denominado
sorte. Em (126) eu não provoca ou gera o participante sorte; antes, passa a ser dotado do
atributo sorte, sendo uma instância ou membro da categoria de pessoas sortudas (que nunca, por exemplo, estouraram o pneu127).
Outros exemplos de orações criativas com o verbo dar envolvem estruturas em que os elementos circunstanciais são necessários. A oração (127) exemplifica uma construção em que o processo é imediatamente seguido de Circunstância de Causa realizado por sintagma preposicional encabeçado pela preposição de (de vento forte). O exemplo (128) demonstra orações com Circunstâncias de Condição (sempre que cê ligava errado; se você ligar o
aparelho de cento-e-dez na tomada de duzentos-e-vinte). Nas orações (129) e (130), por sua
vez, o processo realizado pelo verbo dar indica a procriação/reprodução de seres vivos em um determinado ambiente (no chão, em parede) na função de Circunstância de Localização.
(127) esse barulho dá de vento forte (reescrita de (121))
(128) *BEL: pra mim sempre que cê ligava errado / dava algum problema <muito> <cabuloso> //
*BAL: <não> //
*BAL: <dá> <problema / se você ligar o aparelho de> &duz [/1] cento-e-dez na tomada de duzentos-e-vinte // (bfamdl02)
(129) é / também / ela [essa abelha] às vezes ea dá no chão / mas ea dá mais em parede de casa // a' lá / ea tá / bem boa // eu <peguei ela na vila CEMIG ali // (bpubdl05)
(130) é / <ela [essa abelha] dá> muito em parede / (bpubdl05)
No caso do exemplo (128), em que o fluxo de energia provocador do processo é representado em forma de Circunstâncias de Condição e o participante Meta na função textual de Rema, o verbo dar é mais facilmente substituído por haver, de sentido existencial: sempre
que cê ligava errado dava (=>havia) algum problema; dá (=>haverá) problema se você ligar o aparelho de cento-e-dez na tomada de duzentos-e-vinte128. O fato de essas orações intransitivas com o verbo dar serem analisadas como materiais se justifica pela mudança envolvendo tempo e energia no processo, sendo isso verificado por meio da possibilidade do tempo progressivo: sempre que cê ligava errado ficava dando algum problema; fica dando
problema se você ligar o aparelho de cento-e-dez na tomada de duzentos-e-vinte.
127 No texto, o falante não completa aquilo que seria o Modificador do nome sorte.
128 Isso também pode ser verificado no exemplo (118) caso o provocador do processo (a linguiça) não seja resgatado pela consciência do usuário da língua: deu (=>houve) prejuízo.
Esses casos em que o verbo dar se aproxima do sentido existencial revela a tenuidade na divisão das orações materiais criativas intransitivas das orações existenciais. Como afirmam Halliday e Matthiessen (2004, p. 185), “orações ‘criativas’ do tipo ‘intransitivo’ possuem o sentido de ‘vir a existir’ e se fundem às orações com processos do tipo ‘existencial’”129. Essa tenuidade é confirmada pela estrutura das orações de ambas as regiões, que apresentam apenas um participante.
Analisando a tabela com os tipos de Processo Material disposta em Halliday e Matthiessen (2004, p. 187-189), percebe-se que as orações criativas podem ser de dois tipos: [geral], com verbos de sentido geral como aparecer, emergir, acontecer, fazer, preparar etc., ou [específico], com verbos associados a eventos específicos e constituintes de estruturas transitivas, como construir, compor, pintar, abrir, escrever, desenhar, cozinhar etc. Nesse nível de refinamento, as orações de (118) a (130) são do tipo [geral] (ver Figura 57).
Figura 57 – Localização dos Processos Materiais criativos do tipo [geral]
Fonte: O autor (2019).
Em nosso estudo, por não analisarmos um vasto número de verbos, não propomos uma rede de sistema sofisticada, com possíveis dependências entre os termos que apontem as semelhanças e diferenças entre os sentidos aqui expostos (conforme foi feito na seção com dar
transformativo de extensão, momento em que foi utilizada uma rede já elaborada por Hasan
(1996) a partir da análise de nove verbos). Em um estudo de maior amplitude (no que se refere ao número de verbos), o termo [geral] poderia ser condição de entrada para sistemas de natureza mais refinada que indicassem, por exemplo, o ponto de diferença entre dá uma briga boa e ela
[essa abelha] dá muito em parede.
129 “‘Intransitive’ ‘creative’ clauses have the sense of ‘come into existence’ and shade into clauses of the ‘existential’ process type.”
Com esta seção, finalizamos os casos de orações materiais com a presença da forma verbal dar. Na seção seguinte o verbo dar será observado na realização de Processos Relacionais.