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Détermination des résistances par une analyse des caractéristiques des

B.2 Détermination des résistances en série et correction pour le réseau de 96 transistors

B.2.2 Détermination des résistances par une analyse des caractéristiques des

A discussão sobre etnicidade no Brasil considerando a identidade étnica como um fenômeno construído a partir de uma situação relacional, começa a ser desenvolvida no Brasil na década de 70 (século XX). Roberto Cardoso de Oliveira (1976) apresenta ao campo das Ciências Sociais a perspectiva interacionista de abordagem da temática. A implicação que emerge desta discussão é o fator de auto-definição como determinante para a existência de um grupo étnico. O autor ressalta a noção de “identidade contrastiva” para o qual “(...) parece se constituir na essência da identidade étnica, isto é, à base da qual essa se define. Implica a afirmação de nós diante dos outros. Quando uma pessoa ou um grupo se afirmam como tais, o fazem como meio de diferenciação em relação a alguma pessoa ou grupo com que se defrontam. É uma identidade que surge por oposição. Ela não se afirma isoladamente” (ibid:5).

Foi nesta linha de raciocínio que na introdução elaborei algumas reflexões teóricas acerca de meu objeto de estudo. Estava apresentando a maneira pela qual tenho abordado a dança de São Gonçalo na Mussuca. Todo o processo de contatos e relações estabelecidas ao longo destas últimas décadas, serviram como a situação de contraste pela qual o grupo passou a se auto-declarar, etnicamente. Quando se consideram um diferencial no conjunto dos “grupos folclóricos” existentes no universo da cultura popular sergipana, e quando defendem suas particularidades perante outros grupos de

culto a São Gonçalo existentes no Brasil; estabelecem o processo de afirmação de pertencimento étnico.

Por outro lado, o segmento do texto tem indicado que esta declaração se constitui em uma unanimidade na Mussuca. Na realidade neste processo de etnização não se apresenta uma coerência interior deste grupo social. Alguns moradores da localidade não compactuam com esta representação, quero dizer o São Gonçalo enquanto marca identitária não se configura na totalidade desta população. No momento em que me desloco do núcleo social do povoado, encontro as inconsistências que demonstram outras facetas da situação. Comprovando um ponto fundamental na revisão de conceito de cultura realizada por Barth (2000:128): “Em relação à população, a

cultura é distributiva; compartilhada por alguns e não por outros. Assim, não pode ser

definida como fazia Goodenough, como o que você precisa saber para ser membro de uma sociedade; e, ao contrário do que propunha os etnometodólogos, não pode ser elucidada sistematicamente a partir de um informante (...)”. Dessa forma, é pertinente apresentar como entendida a questão, por uma moradora da Mussuca de baixo, a Dona Aparecida (41 anos), região do povoado caracterizado como uma periferia local:

Sobre o São Gonçalo daqui da Mussuca eu não sei falar muita coisa não... mas se você quer saber o que eu acho, eu acho que o São Gonçalo tem mais importância pra o povo lá de cima, esse pessoal que mora aqui pra essas banda não tem muita aproximação com eles não... agente ver muita gente vim de fora procurar esse pessoal... antigamente já teve até um primo meu que acompanhava mas eu mesmo... se tem gente que ganha alguma coisa com isso eu não sei, eu só sei é que por aqui quase não chega ninguém desses que vem aqui estudar... ah, sobre esse negócio de escravidão? Eu não sei se aqui tinha escravo não, mas dizem que o pessoal tá querendo dizer que a Mussuca era um quilombo... isso é coisa do pessoal do Samba de Pareia e do São Gonçalo... dessas coisas eu só vou mesmo pra casa de dona Regina (Xangô)... mas eu acho que isso nem tem a ver com essa história né? (Depoimento, 2006).

As questões mais significativas para a análise e definição de um elemento cultural, enquanto referências de um grupo se apresentam no transcorrer da distribuição dos padrões diferenciadores que demarcam suas fronteiras, e não nas motivações que definem os conteúdos culturais. Neste caso as fronteiras sociais parecem estabelecer uma conexão com a ocupação territorial, o que implica em reconsiderar o processo de exclusão e pertencimento. Na Mussuca o fato de ser morador da “Mussuca de baixo” representa um deslocamento social. Acaba assim, sendo um critério de diferenciação. Até porque como foi demonstrado, a maioria das pessoas que habitam esta área é

constituída dos grupos familiares considerados “de fora”. Portanto, excluídos da estrutura de interação definida na lógica do parentesco.

Consequentemente parte da população também se encontra alheia ao processo de reconhecimento étnico, pelo qual está passando esta coletividade. Existe uma separação muito clara apresentada aos visitantes quando da apresentação do povoado e suas partes. No momento em que consultei meu principal interlocutor, que é morador da “Mussuca de cima”, para saber o que achava da minha idéia de conversar com as pessoas daquela área, este tentou me desencorajar em fazer esse deslocamento. Dizia ele: “Rapaz ali é ponta de faca”. Esta expressão indica um certo grau de periculosidade, contido na região, o que representaria um perigo minha visita ao local. Mas, como pode-se observar, fui desobediente e me direcionei ao suposto perigo. Realmente se percebe uma atmosfera diferente da outra parte do povoado. Nada que um ex-morador de periferia da capital do estado não soubesse lhe dar.

Considerei também a atitude de meu interlocutor uma tentativa de guiar meus passos pela localidade. O que sugere a intenção de me afastar de informações desencontradas com aquelas transmitidas em nossos diálogos. As suas versões sobre os elementos em torno do rito constituem uma das várias exegeses possíveis de serem encontradas no lugar. O grau de desordem no sistema converge com o efetivo consenso social moldado nas narrativas. A interpretação destas, por sua vez, devo reconhecer que é condicionada pela minha experiência etnográfica vivida no lugar (PRICE, 2004).

Afirmei anteriormente que a estrutura social é representada no rito. Se as estruturas sociais apresentam instabilidades, como essa vicissitude está representada na dança de São Gonçalo? No momento em que existe uma concentração dos integrantes em determinados eixos familiares, aos quais os moradores da “Mussuca de baixo” não fazem parte, é seguramente uma forma de apresentar essa inconsistência. O fato de se manter este distanciamento representa a definição de um sistema faccionário, que define, por assim dizer, um status social. Participar do rito além de garantir a presença na facção majoritária, dar atributos de uma identidade social interna, detentora de privilégios. Essa prerrogativa tem sua aceitação interna e um reconhecimento externo.

O fato de haver este limítrofe cria, nos termos de Goffman (1980), um estigma que, sendo aparente de imediato, promove o isolamento do contato, gerando uma visão do estigmatizado carregada de preconceitos. Sua aceitação no outro lado do escopo fica cada vez menos aceitável, e assim as diferenças vão se acirrando ao passo que se definindo. Neste processo a cultura representa um conjunto de alteridade para o

pesquisador. Deixando assim, de ser um modelo de análise de sua totalidade, para se constituir em elemento representativo da própria conduta humana.

Portanto, a etnização da dança de São Gonçalo emerge, em parte, de uma condição interna grupal. Condicionada pelo contexto das relações sociais e das interações entre as pessoas. É preciso também levar em consideração as implicações desta mobilização no interior do próprio grupo. Quero indicar com isso que é possível existir níveis de aceitação do processo diferenciados entre os membros que compõem o rito.

Pude perceber que alguns estão mais engajados que outros na aceitação de reconhecer o São Gonçalo como uma marca identitária da Mussuca. No advento do recebimento da carta, onde um dos integrantes declara o rito como “dos tempos da escravidão”, me deparo com o nível de engajamento mais potencializado. Por outro lado quando outro integrante me declara: “Quem sabe mais falar dessas coisas é Gringo (Erivaldo)... eu mesmo não sei muito bem falar desse negócio de escravidão não” (Depoimento, 2006). Estou diante, pelo menos aparentemente, da ausência de envolvimento com a questão. Até porque para elaborar um discurso sobre o assunto se faz necessário uma dose de interesse.

Por certo não se faz necessário que se haja uma apreensão dos elementos que envolvem a questão por parte de todos os envolvidos. O sentimento de coletividade define os rumos a serem seguidos e que de uma forma ou de outra serão aceitos pelos membros do grupo, até que para se sentirem e serem aceito como integrantes do grupo. Para dar continuidade as minhas análises, abordo um aspecto em torno do rito que advém deste processo de mudanças na organização do São Gonçalo.