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tudo! Saí do trabalho, deixei tudo para trás, juntei todo o dinheiro que resultou das 374
vendas, abri a tal conta conjunta, tratámos de tudo o que era preciso, e fomos para a 375
Suíça. Tudo isto em cerca de um mês. Inicialmente ficámos com o tal amigo dela, o 376
[nome do amigo], enquanto procurávamos casa para nós, enquanto nos adaptávamos a 377
tudo, etc. Depois lá nos mudámos para a casa que gostámos. Nisto, ela supostamente 378
começou a trabalhar, que o tal amigo conseguiu-lhe trabalho, mas eu nada. Ela vinha 379
cada vez menos a casa, cada vez mais tarde, supostamente fazia turnos nocturnos… Até 380
que um dia a segui. E qual não foi o meu espanto quando afinal o trabalho que ela tinha 381
era na verdade um affair com o tal amigo. Voltei para casa, esperei que ela chegasse, 382
liguei-lhe a dizer que precisava de falar com ela, para ir a casa assim que pudesse, e 383
então quando ela chegou confrontei-a. Disse-lhe que tinha visto tudo, que sabia de tudo, 384
que ela não me ia enganar mais, que aquilo tinha sido tudo um esquema para ela ir ter 385
com ele, que eu não ia permitir, que não me ia enganar mais, que me ia embora e levar 386
tudo o que pudesse comigo, que ela não ia mexer mais um tostão que fosse da nossa 387
conta, tudo! E assim que falei no dinheiro… aí é que a expressão dela se transformou. 388
Levantou-se, veio direita a mim, e começou a agarrar-me, assim nos braços, com muita 389
força, e a sacudir-me enquanto me gritava que não era eu que a ia impedir de ser feliz, 390
que não me tinha aturado aquele tempo todo para agora não ter nada, que aquele 391
também era dinheiro dela porque me tinha aturado aquele tempo todo, que eu não ia 392
deixá-la, que não ia a lado nenhum, que me ia ficar com o dinheiro todo porque também 393
era dela e que merecia mais, e quando dei por mim deixei de a ouvir porque me apercebi 394
que ela me estava bater, e se calhar nem dei pela primeira chapada. [Pausa 0,5 395
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segundos] Triste, não é? Aquele plano ardiloso… aquele nível de maldade… não é?
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Quer dizer, ela tinha tudo planeado! Tudo! O fazer o choradinho, o sair do trabalho, o 397
vender tudo, o abrir conta conjunta… tudo. Para ir ter com ele. Para poder usar-me 398
como meio para ir ter com ele! E quando a confrontei, ainda me agride?! Não podia 399
ficar naquilo. Depois dela me agredir voltou para a casa do [nome do amigo], e eu 400
agarrei no telefone e mesmo àquela hora liguei àquela enfermeira mais velha, a que 401
referi como minha primeira amiga, e ela felizmente atendeu. Chorei que me fartei, 402
contei-lhe tudo tim tim por tim tim, o que aconteceu, o que vi, o que ela me fez, o que 403
disse, tudo. Ela disse-me para eu ter calma, para tratar de tudo, para voltar poder voltar 404
assim que fosse possível, e que assim que eu voltasse que me ajudaria lá a recompor 405
tudo, lá em Portugal. No dia seguinte, ou seja, logo de manhã, dali umas horas, ela 406
ainda não tinha voltado. Eu aproveitei, fui logo cedo ao banco para fazer o que fosse 407
possível para a impedir de aceder à conta, quando me foi dito e mostrado que já não 408
tinha dinheiro nenhum na conta. Ela havia levantado tudo. E podia, porque ela tinha 409
esse poder. Ainda estive umas duas horas a falar com o dirigente do banco, a explicar a 410
situação vezes sem conta, para tentar reaver o mínimo que fosse naquele desespero, 411
porque ao fim e ao cabo vendi tudo e tinha acabado de ficar sem nada. Mas nada feito. 412
Era tudo legítimo e ela podia ter feito o que fez porque também era titular da conta. 413
Voltei para casa lavada em lágrimas, voltei a ligar para a minha amiga, actualizei-a 414
sobre tudo e ela… ela acalmou-me. E eu, eu estava completamente desesperada! O que 415
é que eu ia fazer? Sem dinheiro para voltar, sem dinheiro para pagar a próxima renda, 416
para ir às compras comprar comida, para pagar as contas! Em breve ficaria sem água, 417
luz e gás, sem comida suficiente que durasse para o tempo que eu iria precisar, e sem 418
um tecto onde me abrigar! Em menos de nada passei de ter tudo para não ter nada e 419
estar à beira de me tornar uma sem-abrigo! Disse tudo isto à [nome da amiga] e ela 420
descansou-me, disse-me para me acalmar e disse-me que me iria emprestar a quantia 421
necessária mas para outra conta, para evitar que ela pudesse perceber e levantar essa 422
quantia também, e assim fiz, fechei a outra conta, abri outra, dei-lhe a informação que 423
ela precisava, a minha amiga, ela transferiu o dinheiro, eu fui de imediato tratar de tudo 424
o que precisei, terminar contrato de arrendamento, despesas que ficassem em falta para 425
poder vir embora, comprei o bilhete de avião e vim-me embora. Devo o mundo a esta 426
minha amiga. Se não tivesse sido ela… nem sei. Não sei como seria a minha vida. 427
Provavelmente teria acabado na prostituição, no roubo ou numa valeta, porque sendo 428
lésbica, que já era perseguida e discriminada só por isso, sem nada, sem casa, sem 429
176 dinheiro, sem trabalho, que ele nunca mo arranjou, sem ter família com que contar, sem 430
ter ajuda de ninguém a não ser desta minha única amiga, sem nada… não sei mesmo. 431
Quer dizer, como é que eu faria? Que hipóteses teria? Uns anos mais tarde, esta minha 432
amiga morreu. Mas foi ela que me salvou a vida, dessa vez pelo menos. Quanto à [nome 433
da ex-companheira], nunca mais soube nada dela.
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