Com a modernidade assistimos a uma mudança na perspetiva da infância que de certa forma se deveu à redefinição da atribuição da responsabilidade dos cuidados das crianças na família, a criança deixa de estar “entregue” às criadas e os cuidados “ficam” no seio da família. Também influente nesta mudança na visão da infância está o aparecimento das ciências que se debruçaram sobre os saberes relativos às crianças como a pediatria, a psicologia do desenvolvimento e a pedagogia. Ainda importa referir a definição de padrões, novos hábitos, condutas e comportamentos espectáveis nas crianças relativamente à sua forma de estar nos diferentes espaços, o estabelecimento de regras quanto ao que é proibido e permitido às crianças na participação da vida coletiva e o aparecimento de documentos normativos como a CDC.
Todos estes aspetos exerceram grande influência nas mudanças associadas à infância, mas é a criação da escola pública que representa um marco na emergência da infância moderna. Segundo Sarmento (2012), com a escolarização, a criança passa a desempenhar um papel de ser social na escola constituindo o destinatário na transmissão de valores e saberes comuns definidos pela instituição. As crianças deixam de estar a tempo inteiro nas suas vivências domésticas, dividindo o seu tempo entre casa e a escola, retirando aos pais a exclusividade no âmbito da proteção e cuidados. Estes passaram a delegaram nos professores os seus poderes e esperanças transformando-os numa espécie de substitutos especializados. A criança "morre" e dá lugar a um novo personagem, o "aluno". Gimeno-Sacristan (2005) refere-se a esta “invenção do aluno” como fruto de uma construção social inventada pelos adultos ao longo do tempo pois são estes que enquanto pais, professores, educadores, legisladores ou autores de teorias sobre a
23 | P á g i n a psicologia do desenvolvimento quem têm o poder de organizar a vida dos não- adultos. Para o mesmo autor, a escola é um meio institucional regulado pelos adultos que, em princípio, não foi pensado para satisfazer as necessidades dos menores, tal como hoje os concebemos.
Sarmento (2012) afirma que com a escolarização, o aluno deixa de ser visto na instituição como possuidor de saberes e sentimentos próprios e passa a ser o destinatário dos valores e saberes estipulados pelas políticas públicas, estabelecendo formas de avaliar, premiando ou sancionando. Esta transmissão dos ditos valores e saberes é realizada segundo um processo uniforme que ignora as diferenças socioeconómicas e culturais dos alunos, destinatários das aprendizagens. A criança agora transformada em aluno tem a sua função – o ofício – absorver a cultura escolar quaisquer sejam as suas origens.
A noção de ofício de criança surge com Kergomard3 que a propósito da escola maternal4, refere que se trata de construir uma escola adaptada à natureza infantil, onde se possam viver de forma natural a maturação e desenvolvimento das aprendizagens, sendo este o local onde a criança poderá desempenhar o seu papel – o ofício da criança (Sirota, 2001).
Mas esta escola tradicional tem vindo a sofrer uma crise que originou a implementação de algumas reformas no sentido de inverter algumas políticas, tentando seguir um novo caminho direcionado para as competências e autonomia da criança. Sarmento (2012) invoca Charles Handy ao designar de “escola às avessas” este novo “caminho” que se baseia numa organização flexível do trabalho, uma reinvenção do ofício de aluno. Contrastando com a disciplina e o esforço surgem a criatividade, a autonomia, a iniciativa e o empreendedorismo deste novo ofício reinventado. E autonomia é sem dúvida a palavra-chave, espera-se do aluno que seja capaz de se orientar e percorrer sozinho o seu trajeto escolar enquanto ao mesmo é avaliado permanentemente.
Perrenoud (2002), considera este ofício particular dadas as condições em que se verifica, e não apenas por ser um ofício não remunerado, mas por se
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PaulineKergomard, inspetora francesa de escolas maternais no início do século XX
4 No sistema escolar francês designa-se por escola materna o ciclo de escolaridade que se inicia entre os 2 e os 3 anos
24 | P á g i n a pode comparar com outros ofícios constrangedores e que são alvo de fiscalização pelas entidades responsáveis, como o caso dos trabalhos forçados e da prostituição. Para o autor, trata-se de um trabalho igualmente constrangedor em que a criança não escolhe de livre vontade o ofício e por se encontrar constantemente sob o olhar atento, controlador e de caráter avaliativo. E as crianças, sem condições para se defenderem dos seus “chefes”, seguem o único caminho que lhes é possível, o fingimento (Perrenoud, 2002).
Muitas vezes o insucesso destes “pequenos soldados” é atribuído ao distanciamento entre a cultura familiar e a escolar, mas hoje em dia, apesar da continuidade deste distanciamento, “os programas da escola obrigatória já não são o mero reflexo da cultura do “homem educado” (Perrenoud, 2002), os conteúdos dos programas atuais de disciplinas são menos acessíveis mesmo para os pais ais escolarizados e assim mais raro é a abordagem destes temas em família.
Sarmento (2012) refere-se ao ofício de aluno enquanto ofício das crianças, como incompleto, dada a não integração na cultura escolar dos aspetos relativos ao universo da criança como as brincadeiras, a linguagem, os relacionamentos, símbolos da cultura infantil. É no âmbito do domínio das tecnologias da informação e comunicação (TIC) que estes dois universos (da escola e da criança) entram em conflito. Se por um lado as TIC exercem um fascínio nas crianças dada a sua facilidade e rapidez de aprendizagem por outro causam constrangimentos no que respeita à sua utilização por vezes considerada abusiva, o autor lembra o caso mediático da utilização dum telemóvel na sala de aula para gravar situações de conflito entre professora e aluna.