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Reconhecer o caráter simbólico das relações sociais e o poder público daí resultante é fundamental para compreender as estratégias familiares regionais no período estudado. No final do século XIX, a decadência econômica levou muitas famílias a garantir seu status político a partir apenas da tradição e prestígios sociais passados. Em uma boa medida, a hierarquia social local passou a assentar-se no prestígio garantido pelas cerimônias. Uma competição pelo prestígio parecia predominar no campo de poder local. Disputas em torno de doações, sobre quem era o maior benemérito, sobre o privilégio de fundações e presidências de entidades sociais, provocavam grandes

debates apaixonados e dividiam opiniões. Existia uma verdadeira corrida por privilégios, nos centros e círculos culturais, academias de letras, artes e ciências que seguiam os moldes dos institutos históricos e geográficos.

O papel da elite escolar era central neste jogo de relações à medida que detinha os instrumentos simbólicos para produzir elogios e relatos que confeririam dignidade às personagens locais.

Nesta perspectiva, a interpretação das fontes apresenta-se não mais como uma narrativa dos fatos, tal como eles teriam ocorrido, mas como uma manifestação de uma visão de mundo, socialmente partilhada e constituída. As fontes são, elas mesmas, ação simbólica constituídas por interações que obedecem a determinações socialmente estabelecidas. O propósito de uma análise das fontes seria, neste sentido, interpretar os significados veiculados pela documentação, apreendendo o ponto de vista que os membros daquela sociedade, naquele momento determinaram a estratégia particular adotada. Assim optamos por uma descrição das representações simbólicas que possibilitassem a apreensão do sentido das histórias que as pessoas contavam sobre si mesmas e sobre como a sociedade representava a si própria, simbólica e publicamente.

O material estudado permite conceber a organização política local como um campo de forças intrincado e não homogêneo, cuja ação era tudo menos integradora. Um incipiente campo de poder vinha se estabelecendo, no qual a capacidade de exercer a dominação, isto é a capacidade de tomar decisões às quais outros se sujeitariam, se expressava na forma de uma internalização simbólica vinculada ao respeito e a tradição. A essa malha não escapava também aquele que exercia o papel da dominação, porque também ele se encontrava preso às mesmas malhas de uma representação e uma concepção de si sem a qual ele próprio não encontraria significado.

No caso estudado, a estrutura assentava-se, em uma larga medida, nas demonstrações de prestígio público assegurado pelos jornais, revistas e almanaques, que repetiam e asseguravam a permanência do prestígio. A repetição constante nas páginas desses meios de comunicação dos feitos locais e de personagens dignos de nota, asseguravam o poder renovador da tradição em contrapartida às novas forças sociais como trabalhadores urbanos, escravos libertos e imigrantes, que tendiam à dispersão e ao redesenho das posições tradicionais. Novas estratégias vinham sendo exigidas e se realizaram através de uma política de alianças, rede de matrimônios e associações políticas entre as famílias de antigo prestígio e uma ainda tênue burguesia em ascensão, setores que antes competiam pelo predomínio no campo do poder geral e agora compunham suas forças para assegurar sua posição na hierarquia social local.

Neste sentido, as narrativas que asseguravam a primazia das famílias na história local e as cerimônias de homenagens aos ilustres homens da cidade, constituíam uma espécie de espetáculo que

grandiloquência, pompa e tom de epopéia garantia aos personagens a identificação com os heroicos ancestrais da terra.

Na competição pelo predomínio no campo de poder local, as posições eram desenhadas e resolvidas pala posição representada pelos personagens na teatralização. Tratava-se de construir um modo de percepção, representação e realização que era gradualmente assimilado a uma tradição de elite. A posição de cada um na hierarquia social assentava-se como um signo num sistema de signos, uma imagem num campo de imagens, que era aquilo em que se transformara as cerimônias e relatos.

Tratava-se de visualizar no passado um modelo idealizado das posições sociais atuais, que seria imitado, personificado e identificado como tradição. A partir das metáforas orgânicas de corpo, presentes no ideário republicano e positivista, a associação política era representada pelos laços de parentesco que retrocediam a um passado distante, assegurando assim a identidade, coesão e integração social.

A tradição, neste sentido, não se referia ao passado, mas ao presente e as representações, cerimoniais, descrições em jornais, almanaques e revistas, faziam parte de uma cadeia de ações de homens e mulheres resultantes em um campo social complexo.

Consequentemente, as imagens plasmadas podem ser compreendidas como a produção simbólica de uma realidade dentro da qual a elite podia se localizar, identificar e legitimar suas ações sociais.

A produção desse imaginário próprio a elite republicana, que via a si como o agente do progresso nacional de um lado, obscurecia os fazendeiros originais, enobrecidos no período monárquico, considerados agentes da estagnação social e de outro, lado distinguia essa elite dos perigos da aproximação das classes emergentes, como os imigrantes europeus. A nova elite cafeeira em ascensão concebia seu projeto como a locomotiva do progresso nacional, agentes da modernização e do progresso.

Em São Carlos, o discurso fundador contribuiu para a elaboração de representações que definiram os principais momentos e principais atores sociais que teriam participado da criação da cidade e de suas principais instituições.

A constituição de um imaginário coletivo contava com a propagação de práticas sociais simbólicas que à medida que repetiam as imagens sociais de poder e identidade das famílias importantes da cidade associadas com os momentos vividos, lhes atribuíam sentido e significado e fixavam sua forma na memória coletiva.

Cerimoniais de formatura, comemorações, discursos de paraninfos de turma, palestras, conferências, artigos em jornais, discursos públicos que estabeleciam e mantinham a memória coletiva como uma memória viva. Fixados na memória coletiva como fatos sociais, invocavam o

espírito de pertencimento, que empolgava e emocionava tornando-se parte da imagem que os habitantes da cidade faziam de si e da coletividade. Ressaltavam o caráter intrépido e pioneiro dos fundadores, heranças do bandeirantismo paulista, que justificava social, política e historicamente a primazia da elite paulista.

A memória coletiva é uma construção social que dá sentido a identidade das pessoas em um determinado quadro histórico e refere-se às circunstâncias sociais dessa época. As práticas sociais seriam, assim, dentro dos limites sociais estabelecidos, rememoradas e revividas o que lhes atribuía um caráter de realidade.

CAPÍTULO III