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(Jeremias Moreira Filho)

(Taquaritinga, 1942)

Entrevista concedida em São Paulo, Abril/2006.

Assim que eu comecei a trabalhar em cinema profissional, em 68, a Lynx já era uma grande produtora em SP. E eu só fui conhecer a Lynx em 73 porque eu passei um período numa agência de publicidade que na época se chamava Salles Interamericana e através da Salles eu fui fazer alguns filmes na Lynx. Eu comecei a fazer cinema com uma pessoa que era do longa-metragem - o Luis Sérgio Person - mas que também trabalhava em publicidade e eu era assistente de direção dele, durante três anos. Eu queria ser diretor e tinha que passar por todas as etapas para isso, mas ganhava-se muito mal como assistente de direção, era considerado quase um estagiário e por isso eu fazia também produção, para ganhar um pouco mais. Nesse período em que eu fiz trabalhos pra Lynx, eu já era montador. Entre o trabalho com o Person e a Lynx, eu trabalhei numa produtora pequena, mas que era da moda, que se chamava Filme Center, e lá eu comecei a montar e também fiz produção. Quando eles foram produzir O Predileto, o Sady Scalante me chamou e me apresentou para o Roberto Palmari e desse papo, o Palmari me chamou pra produzir O Predileto que foi rodado em Rio Claro, pelo menos uns 70% e o restante em São Paulo. Foi interessante porque eu entrei na Lynx já participando de projetos especiais - um pouco antes a Lynx tinha produzido o Vozes do Medo, que o Roberto Santos tinha coordenado, com direção de alguns alunos da ECA e alguns diretores da Lynx. O Predileto foi a primeira aventura mais arrojada da Lynx. E eu tive o privilégio de chegar na Lynx e já trabalhar nesse projeto do filme O Predileto. E quando terminaram as filmagens, eu conversei com o Palmari e me ofereci para montar o filme. E foi muito bom porque eu tive muita liberdade pra trabalhar nesse filme.

O meu relacionamento com a Lynx foi através do Sady Scalante, um dos sócios, juntamente com o César Mêmolo e o Chick Fowle. O Chick Fowle era um fotógrafo famosíssimo, um inglês, que veio para trabalhar na Vera Cruz, o Sady também vinha da Vera Cruz, acho que como assistente de produção, e o César, que

dirigiu um filme lá. O Sady era o esteio da Lynx, coordenava a produção, tocava as coisas e foi muito gratificante ter feito esse trabalho com a Lynx porque o Sady era incrível, ele se preocupava muito com os detalhes. Aí eu passei a conviver realmente dentro da Lynx porque eu comecei a montar o filme (O Predileto) e a montagem do filme foi muito longa.

O que eu tenho pra dizer com muita saudade é que a Lynxfilm era uma verdadeira escola de cinema: tudo era multiplicado por cinco, tinha cinco equipes, cinco moviolas, cinco câmeras, filmava-se todos os dias, era muito grande o volume de trabalho. Vários fotógrafos se formaram na Lynx com o Chick e a forma como o Chick lidava com eles era impressionante; o cuidado com o equipamento... era impressionante como as coisas funcionavam por lá, era uma perfeição. E as pessoas se formavam, começavam como assistentes e depois passavam por todas as outras funções. E era realmente a maior produtora do Brasil, eles faziam em média 60 filmes comerciais por mês. Era realmente uma escola de cinema.

Em seguida veio o Diário da Província. Em 1976 eu fiz o meu próprio filme,

O Menino da Porteira. Eu escrevi e dirigi. Montei uma produtora com uns amigos e o

filme foi um enorme sucesso de público. Aliás, a Lynx quase se associou. E aí eu ia começar a minha carreira de diretor. E foi por isso que eu não fiz a produção do O

Diário da Província, que o Palmari tinha acabado de filmar. Naquele momento o

Palmari começou a montar o filme na Lynx. Ele estava tendo problemas com o montador e então me chamou pra montar o filme para ele. E eu reeditei o filme, comecei a montar de novo.

Entre o filme O Menino da Porteira e Mágoa de Boiadeiro, meu segundo filme, eu fui contratado pela Lynfilm como diretor de comerciais. Eu fiquei uns oito meses na Lynx dirigindo. Mas então eu tive que sair pra dirigir o meu segundo filme que foi o Mágoa de Boiadeiro. Mas minha relação com a Lynx sempre foi muito estreita, eu sempre continuei trabalhando com a Lynx. Depois disso fiz assistência de direção e fiz direção de produção em Contos Eróticos, no episódio do Roberto Santos, porque eu queria trabalhar com ele. Aí eu comprei os direitos do Josué Guimarães, escritor, pra fazer um filme chamado Dona Anja e eu propus ao César Mêmolo para produzir o Dona Anja. Mas o César já tinha conversado com o Eduardo Escorel para produzir o Ato de Violência em que eu fiz a produção também. Eu tive algumas dificuldades porque metade da equipe era carioca e a outra paulista. Foi uma produção bastante tumultuada e por causa disso a minha relação ficou um

pouco desgastada com a Lynx e o filme Dona Anja não foi produzido.

Nesse momento, era mais ou menos 1979, a Lynx era a maior produtora do Brasil, mas tinha outra produtora que vinha na cola da Lynx, que era a Diana Cinematográfica. Eles foram os primeiros a trabalhar com vídeo e hoje a Diana se tornou a Casablanca. Ela tinha praticamente a conta da Estrela, fazia os filmes do Omo, era uma produtora grande, mas enxuta ao mesmo tempo.

Naquela época todos os efeitos especiais eram realizados na Truca, uma empresa de trucagem. A Lynx praticamente sustentava uma empresa que fazia truca, era como se eles terceirizassem o serviço. Outro desses serviços que eles sustentavam era o som. E eu dava dicas “porque vocês não montam um estúdio de som, porque vocês não montam uma truca?”. A Arlete, que era a dona da Diana tinha uma truca e um estúdio de som que funcionava muito bem. Eu acho que faltou visão para o pessoal da Lynx, tinha um desperdício na hora de finalizar, na hora da trucagem e do som. Com relação ao vídeo eu também acho que faltou visão. O César Mêmolo, no auge da Lynx, tinha boas relações com os donos das agências. Mas a publicidade é muito dinâmica, está em constante modificação, as coisas mudaram e a partir de um determinado momento, quem passou a dar as regras dentro da agência era o pessoal de criação, uma outra geração. E esse pessoal foi para outro lado. Naquela época (anos 70) o filme ia para a Lynx, não ia para o diretor, já nos anos 80 o filme ia para o diretor. Na época da Lynx os diretores ganhavam um salário mensal, não importava quantos filmes dirigisse. A partir dos anos 80 passaram a receber cachê por filme. As agências passaram a escolher os diretores, não importava a produtora. Então a situação se inverteu. A figura do diretor ganhou importância, o diretor passou a ter um nome, ter valor. Antes, quem mandava era o departamento de RTV, que tinha muita autonomia. Depois o pessoal de criação começou a opinar e pedir para os seus filmes determinados diretores. Então as produtoras começaram a contratar diretores que tinham prestígio. Nesse período eu fui diretor free-lance. Depois dos anos 80 eu dirigi muitos filmes pra Lynx como free-lance. Eu também dirigi muitos filmes para eles na filial em Porto Alegre, além de São Paulo.

O Palmari era assim: ele decupava a cena e de cada plano ele fazia um

long-shot. Ele filmava a cena inteira do plano. Se ele fazia um close de uma pessoa,

ele fazia a cena inteira no close. Ele gastava muito negativo e eu selecionava as cenas. Eu fui pra edição e meu primeiro trabalho foi selecionar as cenas. A

sensação que eu tenho é de que eu extraí o melhor do material. Assim foi com O

Predileto. Agora, quando não se tem dinheiro, tem que fazer o filme montando.

Na época em que eu estive na Lynx eu não era do primeiro time, não chegavam os bons filmes pra mim. O meu auge foi na época da Companhia de Cinema (produtora), em que vinham bons filmes pra mim.

Foram meus contemporâneos na Lynx, como diretor: Mamoru, Adilson Bonini, Birillo, Dudu, Marcos Weinstock. A pessoa da Lynx que dirigia para a Salles era o Adilson Bonini. O Julio (Xavier) nunca foi diretor da Lynx. Naquela época, algumas pessoas de Rádio e TV das agências também dirigiam os filmes. O Julinho era o RTV da Almap – Alcântara Machado. Eles tinham praticamente uma sala na Lynx, porque eles produziam muito lá. Então o Julinho estava sempre na Lynx porque tinha muito trabalho. Hoje é a Criação que dá as regras, o RTV perdeu muita força.