2 DEUXIEME PARTIE : L’ETUDE DE TERRAIN
2.2 Les résultats des entretiens
2.2.1 La démarche projet : quelle plus-value pour le directeur des soins dans
A proposição principal do livro de Citton (2014) “Por uma ecologia da atenção” é, como o próprio título já indica, que se procure pensar a atenção por uma via ecológica, implicando um olhar para a complexidade das relações que produzem e são produzidas por gestos atencionais. A ecologia da atenção não é totalmente separada do conceito de ecologia no sentido mais tradicional da palavra, mas problematiza um certo ambientalismo que também separa o indivíduo do mundo. Para Citton (2014), a ecologia não é uma questão de ambiente (ou meio), mas sim de relacionalidade, e a atenção funciona estabelecendo conexões [rapport] entre o si e o mundo, e os possíveis efeitos das relações entre eles.
Uma lógica ecológica da atenção não desqualifica de forma alguma os estudos e elaborações econômicas – de certa forma, inclusive, se vale das críticas feitas em alguns desses estudos; entretanto, a diferença de vocabulário não é mera questão estilística. A proposta trazida por Citton (2014) é a de um alargamento acerca dos estudos sobre a atenção, uma vez que identifica que, ao longo de sua história, a atenção foi quase sempre atrelada a lógica econômica, ligada a uma noção de recursos atencionais finitos, predominantemente
individuais que, de alguma forma, serão investidos no mundo e trarão algum retorno
(“lucrativo” ou não). A terminologia inglesa usada para se referir à atenção (em particular, “to
pay attention”) denota claramente o caráter econômico da atenção. Segundo Caliman (2008,
p. 637),
No vocabulário inglês, os usos da língua revelam dados importantes e esclarecem um pouco mais o que os autores chamam de processo de racionalização e ‘economização da atenção’. Antes do século XVIII, os verbos que acompanhavam o emprego da palavra atenção eram dar e emprestar. Alguém dava atenção (to give
attention) para alguma coisa ou para um outro alguém; alguém emprestava atenção
(to lend attention). O verbo dispor ou fornecer atenção (to afford attention) também era utilizado. Somente a partir de 1760 o termo “prestar atenção”, em seu sentido mais econômico (pay attention to), começou a ser empregado. Nesta época, as
sociedades inglesas viveram um crescente processo de comercialização. Os indivíduos começavam a ser vistos como entidades comerciais e o processo de racionalização econômica e valoração moral da atenção tinha seu início.
No entanto, vemos que em outras línguas visões mais ampliadas e relacionais da atenção ainda podem ser acessadas pelo emprego do idioma. Como nos lembra Fernandez,
prestar atención não é pagar atenção – como pay attention. Ao contrário, é prestar-
se – que na acepção espanhola do termo quer dizer entregar-se transitoriamente a algo ou a alguém, entregar-se “de corpo inteiro” por uns instantes à aquilo que nos interessa. E essa experiência nos devolve, em troca ao préstimo que concedemos, o prazer da autoria de sentir-nos ativos (…., p. 228)
e ao que a autora se refere em relação ao castelhano, podemos também encontrar no português num sentido semelhante: de algo que se faz a alguém, que se dedica, mas também de troca e, como diria Larrosa, de padecimento. Atenção, no português, também é algo que se
dá, como dádiva, a alguém ou a alguma coisa. O próprio Citton fala do francês “faire
attention” tem uma conotação interessante ao dar um sentido ativo, de produção da atenção: a atenção é algo que se faz, que se produz, que se põe em ato; e também do sentido que no francês se “faz” um esporte ou música (“faire du sport”, “faire de la musique”), que é uma atividade que tem finalidade em si própria – por isso, quando tive que traduzir “faire
attention”, escolhi usar o verbo: atentar-se (embora o verbo no português, transitivo, não
conserve em si o segundo sentido do “faire” em francês).
Na direção desse alargamento dos estudos da atenção, o autor propõe que as críticas e os clamores dos estudiosos da economia da atenção sejam levadas a sério, mas que a elas sejam feitas nuances, esclarecimentos e reenquadramentos – e essas mesmas mudanças pedem também uma mudança de terminologia, que nos leva justamente à ecologia da atenção.
Um primeiro reenquadramento importante é o da questão temporal, em particular no que diz respeito ao aspecto de “novidade” da economia da atenção. Embora esse tema venha sendo discutido dentro das esferas da economia e da publicidade principalmente a partir de 1996 (CITTON, 2014), o mesmo termo surge em trabalhos situados nas fronteiras da psicologia e da estética desde meados do século XIX (CRARY, 2013). Ainda que a economia da atenção não possa ser separada das evoluções sofridas e produzidas pelo capitalismo tardio, esse reenquadramento temporal, que reforça e insiste no aspecto histórico da atenção, é importante porque de alguma forma amplia a associação tradicional (e demasiadamente estreita) entre a economia da atenção e o desenvolvimento das tecnologias digitais (CITTON, 2014).
Além disso, os estudos sobre o caráter econômico da atenção parecem reforçar, de forma geral, a atenção como um processo privado ou individual. Influenciadas quase epistemologicamente por um
individualismo metodológico que caracteriza conjuntamente a disciplina econômica ortodoxa, a psicologia experimental herdada do século XIX e o desenvolvimento recente das neurociências (com seu apêndice cognitivista), a maior parte das análises correntes dizem da atenção que um cérebro (na posição de sujeito) dirige ou experimenta em relação a uma coisa ou um problema (na posição de objeto)18 (CITTON, 2014, p. 36).
Essa situação é muito bem ilustrada pelos discursos em torno do diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), se nos dispusermos a pensar que, ainda que algumas análises se proponham a incluir o contexto atual (de aceleração dos meios de comunicação e das mídias sociais, do desenvolvimento muito rápido de novas tecnologias, etc), mantêm a noção de um diagnóstico individualizado e individualizante, bem como neurologizado, onde o aspecto histórico e relacional da atenção é quase sempre ignorado. Um segundo reenquadramento proposto, portanto, diz respeito à inversão da visão da atenção “focada nas relações estabelecidas entre um sujeito perceptivo com certos objetos percebidos (ou ignorados)”19 (p. 39). Refutar essa visão privada da atenção é um dos pontos chave da proposta de Citton, ao explicitar que a atenção tem um funcionamento complexo, de muitas camadas, as quais alude como “mil folhas da atenção”.
Para dar conta do funcionamento complexo da atenção, outro paradigma se mostra um tanto mais estimulante que o econômico: o de uma ecologia dita “radical” ou ecosofia, teorizada pelo filósofo norueguês Arne Naess e pelo francês Félix Guattari nos anos 1980, que trazem como afirmação central que os indivíduos não são anteriores às relações que os constituem (Citton, 2014). A ecosofia da atenção se mostra uma questão vital na medida que a atenção é vista como a interface que nos conecta ao mundo, é a interação, um gesto que nos põe em relação com o mundo que, nesta ato, se põe em formação. Neste sentido, a atenção diz do nosso processo de coexistência e coprodução com o mundo que nos contorna.
18 « [...] l’individualisme méthodologique qui caractérise conjointement la discipline économique orthodoxe, la psychologie expérimentale héritée du XIXe siècle et le développement récent de neurosciences (avec leur appendice cognitiviste), la plupart des analyses courantes portent sur l’attention qu’un cerveau (en position de sujet) dirige ou éprouve par rapport à une chose ou un problème (en position d’objet). »
19 « qui focalise les questions d’attention sur les rapports qu’entretient un sujet perceptif avec certains objets perçus (ou ignorés).
Citton (2014) traça um caminho possível na direção de uma ecologia da atenção revertendo a ordem mais tradicionalmente adotada de que o coletivo resulta das atividades individuais – diferentemente, o autor parte de uma atenção coletiva, passando pela atenção conjunta, para tentar compreender como a atenção se individua a partir do comum.