Essa busca permanente da “cura textual” ocorre para diminuir ou amenizar a ferida, certo de que é necessário, no caso da biografia, acumular acontecimentos. Não pode mais servir-se de imediatismo ou das discussões que seduzem no tempo presente. “Como situar, então, o real lugar do acontecimento?”, pergunta Damasceno (2002, p. 50). Em um cenário de texto biográfico, Le Goff (2003) identifica a necessidade de uma mudança antes e para se compreender um acontecimento. Os
10 A ideia de caos na escrita biográfica está vinculada à ideia da multiplicidade e à uma teia “infinita” de
informações da história de uma vida. Pena defende que a ideia do caos não está relacionada à “ausência de ordem”, mas a sistemas dinâmicos e complexos de informação próprios da imprevisibilidade da natureza.
fatos estão cercados de contextos específicos e variados que podem ajudar a explicar as relações que são estabelecidas para uma transformação social.
Nas obras sobre Marighella, as relações do personagem em meio à ditadura militar, no círculo do Partido Comunista e até nas origens familiares ajudam a compreender os acontecimentos de uma forma mais ampla e não apenas como se fossem fatos isolados.
O conteúdo biográfico, seja qual for o gênero, traz semelhanças tanto com os trabalhos jornalísticos quanto com a narração do romance de ficção. Um gênero impuro que busca, por origem, reduzir ou apagar as imprecisões próprias de uma narrativa de descobertas do passado. A ideia de Benjamin (1987) sobre a necessidade do narrador de resgatar o testemunho é o que pode trazer tecido às obras biográficas também (ainda que estejam preocupadas com as explicações). “A informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive nesse momento (...). Muito diferente é a narrativa. Ela não se entrega. Ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de se desenvolver” (BENJAMIN, 1987, p.204). O olhar isento não existe nesses tipos de materiais. Nem em qualquer outro que busque o real. O autor explicou que, nesse sentido, o passado é impelido à “redenção” já que traz um índice “misterioso”.
Os relatos de vida, para Benjamin (1988), fazem sentido quando há marcas da ação das pessoas sobre a história e também do imponderável. O autor contextualiza que, se a trajetória de uma sociedade ou de alguém (como homens a fazem) não é um movimento contínuo e linear, o relato da vida/a história será também marcado por “rupturas” e realizado através de “lances” e fatos que poderiam modificar toda a trajetória. Ele não entende que as ações do sujeito do “hoje” pré-determinarão o que ocorrerá no dia seguinte, visto que o indivíduo tem a capacidade de surpreender, em vista de que o sujeito revolucionário tem alteração permanente de rumos. Ora, se a história é marcada por rupturas, o relato desses lances também será incorporado à biografia de um revolucionário, que deve, segundo o autor, se contrapor ao institucionalizado e ao “movimento que gerou a institucionalização”.
Esses movimentos são detectados pelas narrativas que foram deixadas ao alcance da história. Para observar os caminhos das biografias a respeito de Marighella, nos interessa os pensamentos instigantes de Benjamin. “Não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem nas vozes que
escutamos, ecos das vozes que emudeceram? (...) Se assim é, existe um encontro marcado entre as gerações precedentes e a nossa” (BENJAMIN, 1985, p. 37). Houve, entretanto, processos de apagamentos. Florestan Fernandes, em livro publicado em 1995, sobre intelectuais revolucionários, afirma que Marighella foi perseguido “como a caça mais cobiçada e condenado à morte cívica, à eliminação da memória coletiva” (FERNANDES, 1995, p. 4).
Refletindo ainda sobre o nosso tema, o revolucionário registrado em obras marca uma posição não somente com o olhar do passado, mas com uma ressignificação, seja qual for o produto cultural realizado: as vozes que emudeceram em períodos de violência e de censura oficial ganham ecos audíveis no presente em diferentes formatos, religados e realinhavados por estruturas amarradas por fios nítidos e outros nem tanto, mas que podem ser verificados com olhar sistemático a esse objeto especial.
Conceituar a biografia como uma “grande reportagem” não pode ser considerada uma definição exata (trataremos em próximo item, sobre o assunto sob a vista do jornalismo). Considerar dessa forma, nesse sentido, pode obscurecer os engendramentos de gêneros porque não são simples buscas por acontecimentos. Nem são isentos. Por isso, também, não pode ser entendida apenas como uma derivação de um livro-reportagem. Há um corte, uma posição praticamente explícita, o que contradiz à ideia de texto-resumo ou ampliado da “história de uma vida”. Seria a história que se quer contar e que tem condições de ser contada. Uma narrativa com os acontecimentos que puderam ser resgatados de acordo com as necessidades de desenvolvimento de um enredo.
Aliás, em relação à posição do narrador, que conta a história a partir das experiências que vivenciou com personagens ou documentos pesquisados, Lejeune (2014), consagrado estudioso do tema “autobiografia” (no corpus para este trabalho, o gênero está contemplado pelo livro escrito pelo próprio Marighella), acredita que pode ser complexa a conceituação ou análise, a partir da interioridade de um autor ou instituir os cânones de um gênero literário em transformação e impuro.
Candido (1998) aponta que há um risco de simplificação no tratamento de situações históricas nas biografias. Um dos perigos seria a tentativa de estabelecer o tempo inteiro nexo-causal entre as ações dos personagens biografados com situações históricas, não levando em conta a complexidade das temáticas. Viana Filho (1945),
aliás, já dizia que um biógrafo jamais sairia satisfeito do seu trabalho, como um matemático que acaba de montar uma equação. De outra forma, é preciso refletir que as fantasias se inspiram também no real, no referente, como os problemas que nos cercam. “Por isso há uma relação curiosa entre a imaginação explicativa, que é a do cientista, e a imaginação fantástica, ou ficcional, ou poética, que é a do artista e do escritor”. São estímulos de realidade. “Como produções híbridas, esses textos realizados por escritores-jornalistas apresentam características peculiares. A primeira delas é a dificuldade de determinar seu gênero (...) o que faria aflorar a necessidade de refletir sobre a dialética realidade-ficção” (DAMASCENO, 2002, p.63).
Essa relação epistemológica de melhor esmiuçar os gêneros é chave para o presente estudo. Todorov, estudioso das estruturas narrativas, entende que compreender os gêneros, aliás, pode ser entendido como uma forma de garantir a base científica nessa nossa área de pesquisa. “(O estudo dos gêneros é) Um ponto de encontro da poética geral e da história literária factual; ele é, por isso, um objeto privilegiado, o que bem poderia agraciá-lo com a honra de se tornar personagem principal dos estudos literários” (TODOROV, 1979, p.36). A esse respeito, o autor defende que uma narrativa ideal é aquela que traz uma situação estável em que uma força qualquer surge para perturbar, gerando uma situação de dúvida e desequilíbrio. Em outro momento, uma força de outro sentido busca o reequilíbrio, mesmo não sendo com idênticas modulações ou potências. Na biografia, essas forças apresentam-se dessas formas também, e com as características de que o biografado enfrenta dificuldades e soluções, ainda que caminhem para derrocadas, superações e a morte.
Para Iser, como nenhuma história pode ser contada na íntegra, o próprio texto é pontuado por “lacunas” e “hiatos” negociados no ato da leitura. “Tal negociação estreita o espaço entre texto e leitor, atenua a assimetria entre eles, uma vez que por meio dessa atividade o texto é transportado para a consciência do leitor” (ISER, 1999, p.28). No próximo item a ser estudado, trazemos considerações sobre as influências “genéticas” desse tipo de texto, bem como um posicionamento desse tipo de material em relação ao interesse sobre ele na contemporaneidade, inclusive industrial.
1.1.2. Escrita de romance e prestígio editorial
Um conhecimento importante para conceber como o discurso biográfico desse gênero coaduna-se ao romance é traduzido por reflexões de Bakhtin (2011), atento às formas de criação estética. O movimento de desdobramento do eu em outro está no princípio da dificuldade de o objeto estético representar o real. Uma vez que essa coincidência entre universos de valores está tanto na biografia quanto na autobiografia, Bakhtin afirma que “não existe um limite de princípio acentuado entre a autobiografia e a biografia” (2011, p.138). Nos nossos estudos sobre biografias a respeito de Marighella, trabalhamos com a premissa de que esses produtos podem se apoiar na autobiografia da personagem. A reflexão a respeito do autor e do herói na biografia e, especialmente, na autobiografia, é desenvolvida a partir da observação e da autoconsciência do autor em relação ao seu herói ou a si mesmo.
Na contemporaneidade, a literatura biográfica goza de indiscutível prestígio editorial com a releitura de mulheres e homens de tempos presentes ou remotos, com um produto romanceado e ao mesmo tempo documentado. As biografias formam um gênero difícil de romance (Ricoeur, por exemplo, diz que a biografia é um misto instável de fabulação e experiência viva).
Para nossa análise, tratam-se de textos que formam um lugar de resistência, de reparo a injustiças, ou de apagamentos propositais a fatos que poderiam trazer nova concepção, ainda que cercado de indefinições, imprecisões, aporias, de letras e de pensamentos. Por isso, apresenta-se tão digno de estudo e de mergulho. Não apenas no que se diz, mas também nos processos de silenciamento que, por vezes, são eficazes em esvaziar os sentidos e os contextos e transformar o apagamento em força bruta. As narrativas resistem pela sobrevivência de arrastar para o campo do acontecimento o que estaria condenado ao ocaso, de iluminar as vestes do passado com a tinta discursiva e presentificada.
Segundo entende Dosse (2015), a biografia não é apenas mais um dos gêneros impuros e híbridos,. Quais não seriam os textos, pois, impuros e híbridos?, poderíamos refletir. Afinal, vivemos de fantasia. Como viver sem acreditar nas lendas, como não louvar heróis e mitos? Ainda que, como no caso de Marighella e de tantas biografias reconhecidas pela crítica literária, existam documentos e notas que seriam utilizadas como “provas”. Colocamos as aspas anteriores aqui para emoldurar as
provas porque existe evidente ambivalência na tentativa permanente do recurso da
veracidade dos fatos. Provas garantem os fatos e a veracidade, e empurram o enredo
desse romance tão especial.
Como é possível verificar no estudo das “escritas de si”, o eu-autor não é exato e está sujeito a um sem-número de contextos que tornam impossível a objetividade. Há, nesse caso, um conflito intrínseco às próprias características dos gêneros, a de imitar o real e ao mesmo tempo preservar as características literárias, como um texto romanceado. Trata-se, pois, de uma “tensão constante entre a vontade de reproduzir um vivido real passado, segundo as regras da mimesis, e o polo imaginativo do biógrafo, que deve refazer um universo perdido segundo sua intuição e talento criador” (DOSSE: 2015, pág. 55). Essa tensão é a base do dilema dessa construção teórica sobre os gêneros e obras biográficas, que se avizinham à ficção e promovem o pensamento, novos caminhos teóricos e também aplicações sobre o saber e ideias que não estão nem podem estar no território do indiscutível, pronto e acabado.