Nesse item falo sobre os subsídios teóricos elaborados pelo MMC em vista da continuidade da luta. Obviamente, se há elaboração, as mesmas são necessárias e importantes politicamente para o Movimento, pois há intencionalidades sobre e com eles. Os materiais escritos e desenhados do MMC, assim como de outros movimentos populares, são de cunho ideológico e não há problema nenhum em dizer e assumir isso enquanto Organização. A conexão entre eles e a educação popular se dá na medida em que contribuem para fortalecer o poder popular.
De modo geral, na sociedade, a palavra ideológico acaba tendo conotação pejorativa e, de parte da direita, acusar os Movimentos de serem ideológicos tem sido uma constante, como se em suas ações a favor do latifúndio, da exploração e do lucro a qualquer custo não houvesse ideologia pelo fato de se dizerem neutros em várias ocasiões. Nesse aspecto Freire
(1987, p. 74) argumenta que, a suposta neutralidade das ações é uma maneira ideológica de manter o autoritarismo e a violência de uns sobre os outros, sendo que nos chama a refletir sobre “qualquer que seja a situação em que alguns homens proíbam os outros que sejam sujeitos de sua busca, se instaura como situação violenta. Não importa os meios usados para a proibição”.
Em se tratando dos subsídios, os quais estão em pauta nesse item, foi perguntado às mulheres da direção e coordenação sobre a importância deles para o Movimento, aparecendo de forma convicta a ideia de que por meio deles é possível entender e pensar melhor sobre os
assuntos, pensar um novo projeto de sociedade. Além disso, disseram que os materiais são importantes porque contribuem no dia a dia das mulheres, ensinando, com informações.
Foi ressaltado, também, pelas pesquisadas que esses subsídios servem para
sistematizar concepções que permeiam as práticas; e que eles são formas de registro e formação para as mulheres. Nessa mesma direção, os afirmam como suporte teórico para estudo individual e em grupo e que os materiais referendam o MMC interna e externamente; sãoimportantes pela relação que se cria, também ao elaborá-los com as demais companheiras. Foi dito ainda, que eles são acúmulo da história e oportunidade de leitura.
Dentre os pontos mais evidenciados pelas mulheres a respeito dos subsídios, chamo a atenção para o fato de terem mencionado “entender para pensar” e “sistematização de
concepções”. A questão do entendimento surge mais uma vez, lembrando que no capítulo
anterior foi destacada a capacidade de compreensão, quando perguntado sobre os maiores aprendizados obtidos com o Movimento do qual fazem parte. Desse modo, capacidade, entendimento e compreensão estão vinculados ao Movimento, de acordo com o que mostrou a pesquisa, tanto com relação aos subsídios teóricos, quanto com o estar no Movimento.
Para as militantes, foi questionado sobre quais subsídios, enquanto materiais elaborados pelo Movimento, lembravam ou, mais utilizavam. As respostas obtidas, conforme ordem de importância pelo número de vezes mencionadas, foram: o jornal Desperta Mulher; cartilha Plantando Saúde; cartilha Gênero e Classe; livro do MMC; cartilha contra a Violência; cartilhas em geral; cartilhas de preparação para Assembléias; cartilha Gênero, Sexualidade e Direitos das Mulheres; panfletos; cartilha Agricultura Camponesa; agendas; camisetas; folders; cartilha da Soberania Alimentar; mensagens e poesias91.
Cabe, diante do que trouxe a pesquisa, falar brevemente de cada um dos subsídios mais elencados pelas mulheres. O jornal Desperta Mulher é um informativo quadrimestral de
91
As referidas cartilhas e o jornal Desperta Mulher encontram-se nos anexos, bem como uma poesia e uma mensagem.
quatro páginas, com notícias dos últimos acontecimentos importantes do Movimento. Traz algumas fotos de mulheres que participaram de lutas ou eventos, alguns depoimentos e editorial. Em geral, há duas pessoas responsáveis mais diretas pela elaboração e a colaboração de várias outras militantes, de acordo com os temas abordados. Esse jornal destina-se basicamente a militantes e simpatizantes do MMC.
Com relação à cartilha Plantando Saúde, ela fez parte de um projeto de trabalho prático com manipulação de plantas medicinais em todas as regiões do Estado, entre os anos de 2001 a 2004. Essa cartilha consistiu em um dos mais importantes materiais escritos daquele período para a base, subsidiando debates acerca da saúde integral das pessoas ao mesmo tempo em que era suporte para a realização de oficinas com vistas à recuperação e potencialização de saberes populares das comunidades.
A cartilha Gênero e Classe teve sua primeira edição no ano de 2001, sendo reeditada alguns anos mais tarde devido à importância do debate e, basicamente problematiza o funcionamento da sociedade de classes, mostrando também como se dá a opressão das mulheres. Ela tem servido de base para todos os debates do MMC, sendo que foi amplamente discutida e distribuída e, talvez por isso, tenha sido um dos materiais mais lembrados.
A cartilha que discute sobre as formas de violência cometida contra mulheres na sociedade patriarcal, fundamenta debates nos últimos três anos no MMC, devido às últimas pautas presentes no cotidiano do Movimento. É fruto de estudos e pesquisas com mulheres da roça e mostra uma dura realidade com relação à violência sofrida, sendo esta moral, física, sexual, psicológica, patrimonial, do sistema capitalista, etc.
Pelo que demonstrou a pesquisa, todos os materiais, de uma maneira ou outra, contribuem para esclarecimento das militantes em suas atuações, mas é preciso salientar que, cada mulher também possui suas preferências por determinados temas, dependendo de como é tocada por cada um deles. No caso das dirigentes, com as quais tive maior oportunidade de estar e observar, percebi que o acúmulo de certos debates frente a tarefas que assumem as leva a estudar, prestar mais atenção e, consequentemente, gostar e se identificar com tais assuntos. Assim, a construção do que é o Movimento depende de cada mulher que vê nele uma bandeira de luta, devido ao entendimento e convicção de que é possível acumular e, mais que isso, socializar desde as angústias do cotidiano, aos saberes e conquistas da luta em coletivo. Acima de tudo, posso constatar que boa parte dos aprendizados, bem como as pautas que se transformam em lutas, vêm da necessidade da base. Constata-se que o espaço de coordenação e direção torna-se, dessa forma um catalisador dos mais variados temas e, a partir deles, são pensadas as ações e construídas estratégias.
Na realização das entrevistas, ao falar com uma das dirigentes, perguntei sobre a elaboração de materiais, sobre as teorias utilizadas pelo MMC e, devido à sua importância, transcrevo seu dizer:
Como diz uma pastora que nos ajuda no Movimento, não é a teoria que faz a gente, é a gente que faz a teoria. O movimento não se embasa num ou numa teórica somente. Às vezes a gente percebe que o que escreveu há certo tempo está ultrapassado, não dialogamos com uma vertente única, estamos em movimento, existem muitas teorias que dialogam e, por vezes, é uma bem empírica que nos orienta para a luta. (...) É de uma companheira da base, que tem 80 anos e um dia ela me disse o seguinte ‘um dia a gente avisa, outro dia a gente a gente avisa e, se não escutar, a gente puxa a orelha...’. Então, entendi que ela quis dizer que, se o Movimento conversa, conversa, pauta e nada, então vamos pra rua. Essa teoria não tá escrita em nenhum lugar, em nenhum livro, mas a gente vive (MARGARIDA. A). Em geral, os temas que estão em pauta no Movimento são os que se encontram escritos nos subsídios, pois, a função desses é, justamente, contribuir para debates e maior entendimento daquilo que o Movimento, considera pertinente. Cabe destacar, entretanto, que o considerado pertinente ou relevante, para o MMC, é elevar o nível de consciência crítica das mulheres em vista de libertação enquanto mulher e enquanto classe social, o que acredita-se não acontecer sem profundas transformações socioculturais. Por isso, no subtítulo da sequência, sendo o último deste capítulo, pretendo apontar como se evidencia o ser mais, as possibilidades de libertação e o empoderamento das militantes do MMC/RS.