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Défis sociétaux

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As novas condições de luta dos comunistas no campo deram oportunidade para o avanço da formação das convicções de Mao acerca das características específicas da estratégia revolucionária na China. As formulações de Mao eram produto de certa elaboração coletiva, entre líderes do PCCh; decorriam do debate e confronto de idéias e tinham a ver com a experiência e as necessidades dos comunistas chineses. Para Mao (2003a, p. 11), só com o Movimento do 4 de Maio, o povo chinês teria alcançado um conhecimento racional sobre a luta antiimperialista. Compreendeu-se a aliança ent re o imperialismo, a burguesia compradora e os senhores feudais e seus efeitos, como opressão das amplas massas populares da China.

Mao pretendeu generalizar suas formulações teóricas, expondo os conceitos de contradições principais e secundárias, contradições antagônicas e não-antagônicas, aspectos principais e secundários das contradições. Tomando como ilustração o exemplo chinês, Mao (2003c, p. 46-7) sistematizou as diversas situações como mudanças na contradição principal e suas implicações:

Em um país semicolonial como a China, a relação entre a contradição principal e as contradições não principais oferece um quadro complexo. [...]

Quando o imperialismo desata uma guerra de agressão contra um país assim, as diferentes classes deste, exceto um pequeno número de traidores, podem unir-se temporariamente em uma guerra nacional contra o imperialismo. [...]

Quando o imperialismo não recorre à guerra, mas a meios relativamente moderados, meios políticos, econômicos e culturais, para levar adiante sua opressão, a classe dominante do país semicolonial em questão capitula ante o imperialismo e forma com ele uma aliança para oprimir conjuntamente as massas populares. Nessas circunstâncias, as massas populares recorrem à guerra civil contra a aliança do imperialismo e da classe feudal [...].

Os chineses, entre os revolucionários no século XX, foram os pioneiros na adoção da longa guerra de guerrilha para a conquista do poder. O principal formulador da nova

estratégia foi Mao Zedong, que começou a levá- la à prática na criação da primeira base comunista, localizada nas montanhas de Chingqang, em 1927, após as derrotas dos levantes de agosto em Hunan e Jiangxi (na capital Nanchang). Mao denominaria essa estratégia de guerra popular prolongada, através da mobilização dos camponeses que eram a força social mais numerosa e mais explorada na China. A chamada linha de massas buscava a ligação estreita entre os comunistas e o povo para o estudo da realidade, para a constituição do exército e para a reforma agrária.

Na revolução chinesa, o campesinato seria força social principal e o proletariado seria a força dirigente. Buscava-se o cerco das cidades pelo campo, em vez das insurreições operárias. Nas zonas libertadas, os comunistas já instalavam o governo e realizavam a reforma agrária, criando uma dualidade territorial na China entre os poderes paralelos do PCCh e do Guomidang. Em 1937, Mao (2003a, p. 11, itálico nosso) se referia à “nossa Guerra Revolucionária Agrária, dos últimos dez anos”.

Ao longo da guerra civil entre os comunistas e o governo nacionalista, a retirada de nove mil quilômetros, conhecida como a Longa Marcha, após a derrota e desmantelamento das bases no sul da China em 1934; a defesa do papel revolucionário do campesinato e o emprego da guerrilha; a reorganização e expansão do partido no noroeste chinês, com a sede em Yenan; entre outros fatores, terminaram levando Mao à liderança do Partido Comunista.

O imenso e profundo ressentimento nacional dos chineses, por causa das humilhações e sofrimentos causados pelo imperialismo e pela ocupação estrangeira, concentrou-se, a partir de 1937, na resistência à invasão japonesa. A revolução chinesa, depois de insurreições fracassadas e longa guerra civil, só alcançou a vitória a partir da resistência à nova invasão japonesa em 1937, dessa vez com as tropas nipônicas ocupando as importantes áreas urbanas e econômicas do litoral, rumo ao sul da China. Nesse país, houve o sacrifício de milhões de vidas humanas na Segunda Guerra Mundial. Os comunistas tornaram- se, na guerra, os mais decididos e importantes oponentes aos japoneses, granjeando prestígio e força política na sociedade chinesa. Houve uma confluência entre as tarefas antifascistas, nacionais e sociais, preparando os exércitos liderados por Mao.

Os comunistas lançaram a proposta de frente única contra a invasão japonesa. Chiang Kai-chek resistiu a essa nova aliança com o PCCh, mas terminou sendo forçado pelos seus generais a selar o novo compromisso com os comunistas. As tropas comunistas foram

integradas ao Exército Nacional da China. Entretanto, a aliança não levou o governo a conter as escaramuças militares entre os aliados e os vários ataques do Guomidang às forças comunistas. A Frente Única rompeu-se em 1941. O governo sofria as divisões, no seu interior, entre os que decidiam combater e os que queriam colaborar com os ocupantes. Os colaboracionistas viam o Japão como uma força militar extremamente superior ao exército nacionalista. Essas dúvidas não impediram o engajamento do governo contra o invasor, mas houve momentos de pouca clareza no próprio esforço militar. O Guomidang não foi capaz de impedir que o exército japonês ocupasse as principais cidades costeiras.

As limitações militares do Guomidang refletiam as contradições do seu regime político. Não era um governo apoiado pelas massas camponesas e concentrava sua base social em latifundiários, senhores de guerra do sul da China, classe média urbana e os ricos chineses no exterior. O governo nacionalista, ao restringir o alcance da modernização da China, restringiu ao mesmo tempo sua legitimidade. Tratava-se de um regime ditatorial e corrupto, com o poder, afora as grandes cidades, em mãos de chefes militares locais e, até mesmo, representantes das sobrevivências das famílias da nobreza. Os longos anos da guerra contra o Japão e a nova guerra civil contra os comunistas contribuíram para a crise econômica, inflação e piora das condições de vida das massas, retirando ainda mais a legitimidade do governo do Guomidang.

Da nova guerra civil, surgiu vitorioso o exército comunista, apesar das armas e apoio dos Estados Unidos ao governo do Guomidang e do, pelo menos, imobilismo soviético em face da disputa interna chinesa. Medvedev (1986, p. 78) afirma que “Stálin tendia inicialmente a apoiar não tanto Mao Zedong quanto Chiang Kai-chek, não naturalmente porque previsse as futuras degenerescências do socialismo na China”. Hobsbawn (1995, p. 168-9; 225) reconhece o pouco entusiasmo soviético, mas sugere que a vitória da revolução na China, que dependeu de nova guerra civil, não teria sido possível sem a existência do contraponto, potencial, da URSS aos exércitos ocidentais. Portanto, na verdade, a revolução chinesa teria sido feita “contra a opinião de Stálin”.

Ao sair da Segunda Guerra Mundial, baseando-se na aliança antifascista de então, o dirigente da URSS apostava, na época, não só na convivência a longo prazo entre o capitalismo e o socialismo, como em governos reformistas compostos amplamente por comunistas e liberais. A Internacional Comunista foi dissolvida em 1943, dentro desse clima de aliança ampla mundial, sendo substituída, depois, por um organismo de consulta dos

partidos comunistas, que se chamava Departamento Informação Comunista (Cominform). Hobsbawn nota que o Informe de Andrei Zhadanov, importante dirigente do PCUS, com o balanço da situação mundial, na conferência de setembro de 1947 em que foi fundado o

Cominform, não fazia menção à China. Constavam, nesse Informe, apreciações positivas, do

ponto de vista antiimperialista, ao Vietnã, Indonésia, Índia, Egito e Síria. É significativo o fato de que foi da URSS o único embaixador que acompanhou Chiang Kai-chek, na mudança da capital do governo Guomidang de Nanquim para Cantão, em abril de 1949, às vésperas da vitória dos comunistas chineses.

A revolução de 1949 agregou o mais substancial fortalecimento político do campo do socialismo real em razão das dimensões da China, especialmente sua população gigantesca. A revolução chinesa seria uma base de apoio, sobretudo, para os regimes comunistas no Extremo Oriente.

A dramática pobreza do povo chinês era a base social real do trabalho político dos comunistas e da mobilização revolucionária. Nessas circunstâncias, a revolução foi enxergada pelas massas como o meio para vencer essa iniqüidade. A tomada do poder abriu o caminho para a instauração do regime comunista. Depois, de um século de espera, a China passaria a contar com governantes legitimados, porque Mao, à frente do Partido Comunista, fizera por merecer o novo “mandato do céu”.

2.4 A VONTADE DAS MASSAS PARA CONSTRUIR A ECONOMIA E O

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