Sem dúvida alguma, dois dos fatores que exercem grande influência no ambiente empresarial são as taxas de câmbio e de juros. A inflação, ainda que presente em reduzida escala nas decisões empresariais, deixou de figurar como a maior preocupação das finanças corporativas no Brasil após a estabilidade monetária proporcionada pela implantação do Plano Real, em 1994.
A abertura dos mercados e a crescente integração financeira entre países têm evidenciado cada vez mais a importância dos modelos econômicos de economia aberta. Tais modelos incorporam, na análise econômica tradicional, elementos externos ao controle do País, tais como taxas de juros internacionais, nível de produção do resto do mundo, etc.
No tratamento de modelos de economia aberta, duas variáveis freqüentemente se fazem presentes: taxa de câmbio e taxa de juros.
O Brasil tem uma experiência relativamente recente com taxa de câmbio flutuante. Sete anos ainda conta pouco, contra décadas de câmbio fixo ou administrado. Cálculos de taxa efetiva de câmbio e projeções de balança comercial são mais relevantes em um regime onde o governo administra a taxa de câmbio diária, com pouquíssima variância, fora as grandes desvalorizações ocasionais, do que no regime atual. Neste, a taxa de câmbio é determinada livremente pela oferta e
demanda de divisas, se ajustando e variando de acordo com os fluxos comerciais e financeiros do balanço de pagamentos.
No regime anterior e a partir de 1995, com a estabilidade proporcionada pelo Plano Real, os movimentos especulativos de capitais respondiam fortemente ao diferencial de juros entre o Brasil e o exterior. Os altos custos de uma mudança de regime cambial, em conjunto com taxas de juros algumas vezes acima de 40% ao ano, faziam com que a ganância superasse o medo e capitais especulativos de curto prazo entrassem no país mesmo em períodos de crise, como após as crises mexicana e asiática. Na verdade, há necessidade da entrada de capitais estrangeiros para fomentarem o investimento no setor produtivo sem a necessidade de gerar papel-moeda e, com isso, manter a inflação sob controle.
Dimensionar movimentos especulativos de capitais é difícil, uma vez que eles podem tomar diversas formas. Neste contexto, a discussão sobre controles de capitais de curto prazo torna-se pouco relevante. Inexiste, portanto, relação entre câmbio e juros? Claro que existe, mas na economia brasileira atual, ela parece ser dominada por efeitos sobre a demanda agregada. A alta da taxa de juros reduz o consumo e o investimento, reduzindo o dispêndio face à renda, desta forma aumentando o superávit em conta corrente e apreciando o câmbio. A apreciação cambial faria com que o superávit comercial, em um segundo momento, se reduzisse.
Entretanto, a favorável conjuntura internacional atual refletida tanto na expansão do comércio quanto no aumento no preço médio das exportações brasileiras tem mais do que compensado este efeito, ampliando o superávit comercial. Tanto este quanto a redução de endividamento em dólares das empresas, motivada em parte pela
queda no investimento doméstico e em parte pela própria apreciação cambial, junto com a manutenção de um significativo ingresso de investimentos diretos, menos sensíveis à conjuntura, contribuem para apreciar ainda mais o câmbio. Neste panorama, o capital especulativo participa como um coadjuvante secundário e não como um dos atores principais.
Indústrias que investiram pesado na conquista de mercados externos, mas com um câmbio apreciado, estão perdendo competitividade e acesso aos mesmos. Todo este cenário é muito fluido e decorre da liquidez farta de recursos financeiros nos mercados internacionais, não só da SELIC elevada e dos excessos do chamado “Custo Brasil”.
Dessa forma, pode-se afirmar que a taxa básica de juros em patamares elevados e a sobrevalorização do real frente ao dólar inibem o desenvolvimento econômico e reduzem a competitividade dos produtos brasileiros no exterior.
Uma taxa de juros elevada inibe investimentos na produção e aumenta o nível de desemprego, provocando uma redução na renda e inibindo o consumo. Dessa forma, ela inibe o crescimento do País, fato este de extrema gravidade. A âncora cambial foi utilizada durante um longo período para conter a inflação. Entretanto, a taxa de juros como instrumento de controle de inflação é eficaz caso a inflação seja de demanda. No caso do Brasil, essa medida foi adotada para conter uma inflação que não tinha características de demanda e sim gerada pelos preços administrados ou monitorados pelo poder público. Esse fato comprometeu os investimentos e desaqueceu a economia, pois uma taxa de juros elevada prejudica diretamente o setor produtivo e favorece a especulação financeira.
Por outro lado, temos também que um câmbio muito apreciado pode trazer problemas para o setor mais dinâmico da economia brasileira, que é o exportador. Com o dólar baixo, as importações se elevam e tiram inclusive a competitividade dos produtos nacionais internamente, além das comercializações externas, pois a subvalorização do dólar significa que o produto brasileiro fica caro para ser exportado. O dólar “barato” também provoca um aumento nas taxas de desemprego, pois as indústrias podem deixar de investir na produção interna e “terceirizar” a produção no exterior para aproveitar o câmbio apreciado. Isso impacta diretamente nas taxas de crescimento do PIB e na balança comercial.
Com isso, podemos observar que com uma taxa de juros elevada, as empresas ficam em dificuldades para investir e promover o crescimento econômico do País. O dinheiro “caro” inibe investimentos na produção, conforme dito anteriormente, incentivando a especulação.
Enquanto que uma taxa de câmbio apreciada afeta diretamente empresas que transacionam no mercado internacional ou que dele recebam algum tipo de influência. Por exemplo, uma empresa com receita em dólar e custo em real sofre uma forte influência negativa de uma taxa de câmbio apreciada, pois podem sofrer uma inflação de custos e ter dificuldades de recompor suas margens.
Os efeitos do câmbio são mais problemáticos. É claro que exportadores sempre querem câmbio mais depreciado, mas essa variável tem importância na economia a médio e longo prazo, a partir do seu valor real (corrigido pela diferença de inflação), que não depende do governo, a não ser por tempo limitado. Há evidência que a taxa de câmbio real é uma série estacionária a longo prazo para o Brasil (Mário Mesquita,
2003). O problema é que a meia vida dos desvios dessa tendência estacionária é longa, e nas transições os efeitos sobre as empresas podem ser desastrosos. O grande problema (além do lobby que engana) é o fato que muitos projetos de
exportação são decididos com base em projeções erradas de câmbio, e as empresas depois se acham prejudicadas "pela política cambial", e esquecem que
tomaram suas decisões, muitas vezes, em momentos de câmbio muito
depreciados em termos reais, em valores que se tornam insustentáveis a longo prazo.
3.2 A construção da estratégia corporativa