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Chapitre 4 : Méthodologie

4.3 Définition des variables

Já tivemos oportunidade de nos referirmos várias vezes à problemática da arte neste trabalho. Interessa-nos, agora, trabalhá-la desde o ponto de vista de patrimônio, até porque nesse campo, ela tem uma presença marcante. Para buscarmos problematizar o seu entendimento e tentarmos uma aproximação com a visão fenomenológica, convém conferir alguns de seus vários entendimentos. Uma primeira visão do que seja arte se confunde com o entendimento de cultura como civilização. Nesse sentido, arte seria aquilo que é “excelente”, “especial”, com todas as contradições e problemas que essas acepções criam e que não cabe aqui explorar. Também a postura museológica que vem do iluminismo colocou lado a lado a História e as artes nos espaços dos museus, conferindo- lhe a função de documento e chave de entendimento de outras culturas ou de outros tempos e, nesse sentido, confundindo-a com o próprio documento histórico.

Se principiamos nossa investigação sobre as funções psicológicas de orientação e identidade que aparecem recorrentemente neste texto, convém debruçar um pouco sobre tema tão presente nas reflexões que se fazem sobre a arte: a sua necessidade. Para alguns autores, a arte seria uma forma de expressão básica do ser humano, ponte de ida e volta entre o eu interior e o mundo exterior, seria uma revelação constante de novas realidades e novos modos de ver, função psicológica de representação e exploração de sentimentos internos. Todas estas constatações aparecem de uma forma ou de outra nos textos sobre a questão e parecem, no que elas têm em comum, falar do anseio do homem em se situar no mundo e na sociedade11, uma espécie de anseio pela cura. A arte seria, portanto, uma

chave para o homem entender sua cultura (aqui como “locus” das representações simbólicas que intermediam o homem ao mundo, uma visão prévia) e para modificá-la, modo supremo e não passivo de exercer sua potencialidade humana, revelando aspectos e vivências renovadas e renovadoras da vida e da existência.

Através da arte o homem poderia exercer a sua liberdade pessoal de forma plena, investigando, sem amarras, a sua existencialidade e seus limites. Desse modo, a liberdade seria o ponto fundamental da expressão artística. Esse caráter de liberdade é, inclusive,

11 O homem anseia por absorver o mundo circundante, integrá-lo a si; anseia por estender pela ciência e pela

tecnologia o seu “Eu” curioso e faminto de mundo até as mais remotas constelações e até os mais profundos segredos do átomo; “anseia por unir na arte o seu ‘Eu’ limitado com uma existência humana coletiva e por tornar social a sua individualidade” (FISCHER, 1981, p.13, grifos nossos).

aquele que propicia ao ser a possibilidade de estender seus domínios de compreensão de si mesmo, seja como criador ou como fruidor, fazendo com que ela tenha, portanto, uma capacidade de “formação”, em estreita consonância como o conceito heideggeriano de “verdade”. Essa capacidade formativa se estende ao espírito crítico e faz com que, nesse sentido, a arte possa ser veículo de diferentes tipos de mensagem, apresentando, além da função psicológica individual, também uma função social12, ao permitir uma abordagem sensível dos problemas e mazelas que a sociedade apresenta.

Resgatando o paralelo que criamos entre as consciências histórica e artística, a arte permitiria uma condição de presente através da fruição estética, a qual lhe possibilitaria, inclusive entender esse presente como momento histórico, conforme a apreensão de Karl Marx que via na arte antes uma alienação na medida em que ele a via “historicamente condicionada por um estágio social não desenvolvido” e apresentava um poder “de se sobrepor ao momento histórico e exercer um fascínio permanente” (FISCHER, 1981, p. 17).

A arte seria, assim, um eterno presente na sua fruição, se apresentando aos nossos olhos como algo “permanente”. Este aspecto é potencializado pela própria linguagem da arte – baseada no espaço - caracterizada como “universal”13:

Ainda a propósito da divulgação da arte e da sua compreensão, quero antecipar o seguinte: nas imagens – que são portadoras da comunicação artística – se preservam intactos os elementos de orientação espacial. É esse fato extraordinário que faz com que as mensagens visuais provenientes de épocas remotas (cujas línguas faladas ou escritas desconhecemos – por exemplo, a arte pré-histórica, ou a arte etrusca, ou a arte chinesa, ou mesmo a arte da Idade Média) ainda possam ser "legíveis" e ter sentido para nós. O fato dessas mensagens se comporem de elementos espaciais é da maior relevância. Veremos que o conteúdo expressivo das obras de arte não se articula de maneira verbal, através de palavras, e sim de maneira formal, através de formas. São sempre as formas que se tornam expressivas. Ainda voltaremos a este ponto. Mas é justamente o caráter não-verbal da comunicação artística que constitui o motivo concreto da arte ser tão acessível e não exigir a erudição das pessoas para ser entendida. Exige inteligência, sim, e sempre sensibilidade. (OSTROWER, 1983, p. 23). Aspecto importante que une a arte à História, como documento, e à cultura, no seu entendimento como civilização, é a sua presença como registro de valores de época e

12 “(..) a função do drama ‘não-aristotélico’ que Brecht preconizava era precisamente a de dividir a platéia,

para o que lhe cumpria remover o conflito entre os sentimentos e a razão, incentivado pelo mundo capitalista” (Conf. FISCHER, 1981, p. 15).

13 Convém distinguirmos aqui que o “universal” a que OSTROWER se refere não é uma “verdade”

como expressão mais elevada dos valores culturais. Sobre o primeiro aspecto, a arte auxilia o processo dedutivo da História ao ilustrar não apenas os fatos como vistos pelo olhar de quem os vivenciou, mas também por os tingir com valores críticos. Impregnados na arte figurativa que perpassou o maior período da História estão valores que ajudam a compreender os tempos e valores passados. Exemplo clássico nesse sentido são a estrutura compositiva em ponto de fuga central da Renascença (que permite compreender uma maior estabilidade do ser humano a partir de sua valorização como ser humano) e, através das leis da perspectiva, os primeiros passos de uma análise científica do processo de percepção, postura que caracterizava a época. Outro exemplo clássico que nos diz sobre a visão do homem relacionado à época são as telas medievais, onde a figura da divindade é pintada sempre maior que a dos humanos (ainda que estivessem em segundo plano em termos espaciais), não porque os medievais desconhecessem que aquilo que está mais longe se apresenta menor aos nossos olhares, mas pela veneração ao sagrado o qual sempre deveria se apresentar na sua grandeza superior (OSTROWER, 1983). Ao mesmo tempo, entretanto, há que se tomar um cuidado com as classificações históricas excessivamente rígidas que acabam sugerindo também uma “classificação artística” congeladora.

Pelo outro lado, se a História muitas vezes se confundiu com a história das civilizações e procurou transmitir principalmente a história do poder ou das excelências, a arte como exemplo superior de uma cultura foi sempre uma temática importante nos esforços de preservação realizados por diferentes sociedades mesmo longínquas. Parece que essas sociedades viam nas obras de arte momentos singulares de sua própria vida os quais, por alguma razão transcendental, deveriam ser mantidos. Não se discute aqui os critérios pelos quais cada uma dessas sociedades resolveu preservar esta ou aquela forma de expressão artística, mas salienta-se que houve razões para essas e não outras terem sido preservadas (e isto interessa à História e a cultura) e, antes até, que elas entendiam ser importante preservar as manifestações artísticas, talvez porque elas contivessem as chaves para um entendimento superior da existência humana ou refletissem de forma especial os seus próprios valores.

Esta linha de pensamento, associada àquela anteriormente desenvolvida sobre a universalidade da linguagem artística, aponta para a importância da arte como unidade de expressão, em que a obra artística é, em si, uma mensagem completa e integrada e onde

qualquer acréscimo ou modificação da relação de seus componentes, alteraria os conteúdos inicialmente por ele transmitidos. De fato, a coerência da mensagem artística reside na maneira como os seus elementos e partes são dispostos e da relação que entre eles se estabelece. Alterações posteriores ao momento de sua concepção seriam equivalentes à rasura de um documento histórico na tentativa de alterar sua veracidade. Mas, por outro lado, como já vimos pela abordagem fenomenológica, o exercício da mensagem estética não está apenas na sua forma “original”, mas também no seu fruidor, se constituindo, portanto, em um fenômeno puramente individual, estando o assento no presente e com isto se conciliando com passado .

________________________________________________________________________ APONTAMENTO 4.6: Essa concepção, própria das artes visuais influencia profundamente a preservação do bem arquitetônico, como se ele comportasse exatamente como a pintura e a escultura, assunto que exploramos mais detidamente no capítulo anterior.

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