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Décomposition sous azote Analyses en température

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O primeiro princípio da filosofia é que os Universais não explicam nada, eles próprios devem ser explicados.

Em sua obra composta, Deleuze e Guattari sempre insistiram na gênese criativa da filosofia, naquilo em que ela é mais potente e insinuante no Pensamento. Não poderia ser diferente, inclusive nos seus procedimentos de escrita, como já se pode observar de vários dos textos citados. A questão não é meramente estética, uma vez que toda “criação é singular, e o conceito como criação propriamente filosófica é sempre uma singularidade”130. Trata-se, portanto, dessa atividade bastante própria da filosofia em estabelecer suas coordenadas em seus planos onde os conceitos serão erigidos como potências do Pensamento. Como isto se dá, é o que se busca aqui evidenciar.

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Mais adiante a noção de contágio será explicitada com mais vagar, no momento é de referir que advém da sociologia de Gabriel Tarde e que para o Direito, poderá ser bastante proveitosa. “A diferença é que o contágio, a epidemia coloca em jogo termos inteiramente heterogêneos: por exemplo, um homem, um animal e uma bactéria, um vírus, uma molécula, um microorganismo”. DELEUZE, Gilles, et. al. Mil platôs. Capitalismo e esquizofrenia, v. 4, p. 23.

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Sobre a perspectiva imunitária, confira-se: ESPOSITO, Roberto. Immunitas: protección y negación de la vida.

Trad. Luciano Padilla López. Buenos Aires: Amorrortu, 2009. 251 p. Ainda, do mesmo autor: Bios: biopolítica e filosofia. Trad. M. Freitas da Costa. Lisboa: Edições 70, 2010. 273 p. Sobre a autoimunidade, confira-se: GUERRA FILHO, Willis Santiago. A Ameaça Política da Autopoiese do Direito na Sociedade Mundial. In: Novos Direitos. Revista Técnico-Científica do Instituto de Ciências Jurídicas da UNIFAN – Faculdade Alfredo

Nasser. Ano 2, n. 03, 2012. pp. 23-32.

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DELEUZE, Gilles et al. O que é a filosofia? 2. ed. Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: 34, 2001. p. 15.

Em primeiro lugar é necessário que se perceba que o conceito é sempre multiplicidade, porque está sempre em relação com um problema e com o tempo, tendo, portanto, uma história e um devir. Uma história porque justamente o problema pode mudar de plano e o conceito sofrerá retorsões e movimentos advindos de outros conceitos de que às vezes se apropria de pedaços de conceitos para reinventar-se; de outro lado, um devir porque está em relação, no mesmo plano, com outros conceitos que também o forçam a movimentos e retorsões, alianças e coimplicações131.

Tome-se, por exemplo, no Direito o caso do direito natural. Em sua história, os problemas que a ele se relacionavam no medievo da patrística e da escolástica serão postos em movimento com os problemas levantados pela via moderna, sofrendo o conceito retorsões que muitas vezes o levam à ruptura de seus termos, sua inconsistência e desequilíbrio. Já dentro do mesmo plano, há uma coimplicação entre, por exemplo, Duns Scott e Guilherme de Ockham, no que concerne ao problema da subjetividade132.

Como já se pode perceber, apesar de nominalmente idênticos, são dois conceitos distintos de direito natural, com consequências bastante importantes para o Pensamento e a filosofia, pois o campo problemático não é o mesmo, uma vez que para os primeiros o conceito de direito natural está imbricado numa dimensão política da Igreja como Estado, da não coerção e da natureza como adequação aos mandamentos com sentido de coletividade, caridade; ao passo que no segundo, muitas das querelas estão relacionadas já com uma configuração de forças totalmente distintas, laicas, individuais e que, no limite, apontará outros problemas e outras soluções133.

Nota-se que há complexidade no conceito e que ele é inseparável do que nele mesmo se constrói. É por isso que é autorreferencial134. Vê-se, também que o conceito se relaciona com o movimento e, portanto, com as velocidades que o perpassam e ultrapassam. Por isso também os Autores afirmam um paradoxo quanto ao seu estado, em que o conceito é “infinito por seu sobrevoo ou sua velocidade, mas finito por seu movimento que

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Confira-se: DELEUZE, Gilles et al. O que é a filosofia? p. 27 e ss.

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Confira-se a análise detalhada de vários conceitos criados por Guilherme de Ockham e suas importantes consequências no Pensamento e na filosofia, In: GUERRA FILHO, Willis Santiago. Epistemologia e jusfilosofia em Guilherme de Ockham. In: GONZAGA, Álvaro de Azevedo, et. alii., (coord.). (Re)pensando o

dirieto. Estudos em homenagem ao Prof. Cláudio De Cicco. São Paulo: Ed. RT, 2010. pp. 335-349.

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  Confira-se, sobretudo: VILLEY, Michel. A formação do pensamento jurídico moderno; trad. Cláudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2005. pp. 117 e ss. Michel Villey, embora de outra perspectiva filosófica, aponta como Tomás de Aquino constitui uma espécie de passagem entre os dois percursos, uma interface que atualiza o conceito de direito natural, mas que mesmo por isso, nesta passagem há mudança de natureza do próprio conceito. Tais problemas serão detalhados a seguir.

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traça o contorno dos componentes. (...). Real sem ser atual, ideal sem ser abstrato135

”. (Com os itálicos no original).

De outro lado, por ser autorreferencial é que o conceito se distingue da proposição, uma vez que esta é referencial, ou seja, “não concerne ao Acontecimento, mas a uma relação com o estado de coisas ou de corpos, bem como às condições desta relação136”. Enquanto numa proposição as variáveis são independentes devido a esse caráter espacial de referência que as relações entre os termos assumem, nos conceitos as variáveis são inseparáveis porque numa ordenação intensiva, mais de ressonância e composição que de correspondência ou sucessão.

Em termos de enunciação, também haverá diferenças consideráveis entre os conceitos e as proposições. Nas ciências, as proposições estão sempre em relação externa com seus termos porque sempre decalcadas de uma finalidade pré-concebida como hipótese (seja mesmo a falseabilidade). Já na filosofia, os conceitos se enunciam da consistência do próprio conceito, ou seja, da imanência de onde se erigem, e por isso não são discursivos, “são centros de vibrações, cada um em si mesmo e uns em relação aos outros137

”. De outro lado, há o problema do criador. “No caso das proposições, trata-se de observadores parciais extrínsecos, cientificamente definíveis com relação a tal ou tais eixos de referência, ao passo que, para os conceitos, são personagens conceituais intrínsecos que impregnam tal ou tal plano de consistência138”.

Ao se afirmar, no entanto, que o conceito concerne ao Acontecimento, o que isso expressa para a filosofia? Trata-se de uma dimensão intensiva do conceito que o põe em relação com o espaço/tempo (spatium/aion) de ordem distinta daquela das proposições139. É que a criação é construção, ou seja, o conceito é cartográfico e instaura o plano onde sobrevoa o Acontecimento que ele erige. Sobre a distinção de coimplicação entre o conceito e o plano, vale a pena transcrever as paisagens descritas pelos Autores:

Os conceitos são o arquipélago ou a ossatura, antes uma coluna vertebral que um crânio, enquanto o plano é a respiração que banha essas tribos isoladas. Os conceitos são superfícies ou volumes absolutos, disformes e fragmentários, enquanto o plano é o absoluto ilimitado, informe, nem superfície nem volume, mas sempre fractal. Os conceitos são       

135Idem. 136

DELEUZE, Gilles et al. O que é a filosofia? p. 35.

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DELEUZE, Gilles et al. O que é a filosofia? p. 35.

138Idem. p. 36. 139

“O conceito não é paradigmático, mas sintagmático; não é projetivo, mas conectivo; não é hierárquico, mas

agenciamentos concretos como configurações de uma máquina, mas o plano é a máquina abstrata cujos agenciamentos são as peças. Os conceitos são acontecimentos, mas o plano é o horizonte dos acontecimentos, o reservatório ou a reserva de acontecimentos puramente conceituais: não o horizonte relativo que funciona como um limite, muda com um observador e engloba estados de coisas observáveis, mas o horizonte absoluto, independente de todo observador, e que torna o acontecimento como conceito independente de um estado de coisas visível em que ele se efetuaria. Os conceitos ladrilham, ocupam ou povoam o plano, pedaço por pedaço, enquanto o próprio plano é o meio indivisível em que os conceitos se distribuem sem romper-lhe a integridade, a continuidade: eles ocupam sem contar (a cifra do conceito não é um número), ou se distribuem sem dividir. O plano é como um deserto que os conceitos povoam sem partilhar. São os conceitos mesmos que são as únicas regiões do plano, mas é o plano que é o único suporte dos conceitos. O plano não tem outras regiões senão as tribos que o povoam e nele se deslocam. É o plano que assegura o ajuste dos conceitos, com conexões sempre crescentes, e são os conceitos que asseguram o povoamento do plano sobre uma curvatura renovada, sempre variável140.

Já se pode afirmar: plano de imanência ou imagem do pensamento141, uma vez que o plano é dito pré-filosófico142, e aqui se vê também como os problemas maquínicos levantados por Guattari serão agenciados com a filosofia da diferença de Deleuze, pois afirmam que “os elementos do plano são traços diagramáticos, enquanto os conceitos são traços intensivos143”.

Embora não seja o lugar de se exaurir o complexo problema da imanência e da transcendência, não se pode deixar de referir que o plano de imanência não se confunde com um algo que o contaminaria com um transcendente, todavia nosso vício de

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DELEUZE, Gilles et al. O que é a filosofia? pp. 52-53.

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Toma-se o cuidado de não afirmar a mera identidade do plano de imanência e a imagem do pensamento, evitando-se anotar o verbo ser tanto da imanência quanto da imagem, uma vez que se poderia afirmar, por exemplo: o plano de imanência é a imagem do pensamento. Nesse sentido, ao tratar do problema da velocidade

infinita que percorre o pensamento (confira-se supra): “(...). Mas a velocidade infinita é o problema do pensamento conceitual, porque há imanência, de um lado, entre ela e o caos que ameaça diluir as consistências do pensamento, e, de outro, entre ela e as velocidades infinitas graças às quais o conceito sobrevoa seus componentes na vibração de sua consistência própria. Em outros termos, há problema, porque o pensamento conceitual opera em velocidades infinitas que o ligam, de direito, ao movimento infinito ou do infinito, mas que, de fato, o ligam aos movimentos finitos, dos seus atos, das suas criações conceituais. O plano de imanência, a imagem do pensamento, a peneira filosófica é condicionante desse problema, isto é, afeta a transpassagem da velocidade infinita, porque funciona como alternador fluindo de permeio entre a ligação de direito e a ligação de fato”. ORLANDI, Luiz B. L. Anotar e nomadizar. In: LINS, Daniel. Razão nômade; org. Daniel Lins, Charles Feitosa, et al. Rio de Janeiro: Forense Universitári, 2005. p. 51.

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Importa sobre o problema a advertência dos Autores: “(...). Pré-filosófica não significa nada que pre-exista, mas algo que não existe fora da filosofia, embora esta o suponha. São duas condições internas”. DELEUZE,

Gilles et al. O que é a filosofia? p. 57.

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pensar o imanente a partir dessa imagem, assim se pronuncia a cada vez que nossa desatenção, ou melhor, nossos vícios de atenção o possibilita.

Deve-se por isso cuidar de que há sempre uma relação de forças e tensões que podem bloquear a diferença, como já visto no primeiro capítulo, e que também concerne ao problema do poder, que interessa ao presente trabalho, que impede que se erija outra imagem do pensamento. Daí importa a advertência144

:

(...) o que diz Foucault é verdade, que toda formação de poder tem necessidade de um saber, do qual, no entanto, não depende, mas que, ele próprio, não teria eficácia sem ela. Ora, esse saber utilizável pode ter duas figuras: ou uma forma oficiosa, tal como se instala nos “poros”, para fechar determinado buraco na ordem estabelecida; ou então uma forma oficial, quando ele constitui por si mesmo uma ordem simbólica que dá aos poderes estabelecidos uma axiomática generalizada. Por exemplo, os historiadores da antiguidade mostram a complementaridade cidade grega geometria euclidiana. Não que os geômetras tenham poder, mas porque a geometria euclidiana constitui o saber, ou a máquina abstrata, da qual a cidade precisa para sua organização de poder, de espaço e de tempo. Não há Estado que não tenha necessidade de uma imagem do pensamento que lhe servirá de axiomática ou de máquina abstrata, e à qual ele dá, em compensação, a força para funcionar: daí a insuficiência do conceito de ideologia, que não dá conta dessa relação. Foi o papel deplorável da filosofia clássica, tal como o vimos, o de fornecer a aparelhos de poder, Igreja ou Estado, o saber que lhes convinha.

Não só este perigo está sempre presente, mas a filosofia também não se desvincula das outras formas de conhecimento, como as ciências e as artes, e pode a partir de si mesma elevar a potência de uma vida a novos patamares, desde que se esteja atento para quais os problemas que devem ser postos a fim de se criar conceitos e construir o plano de imanência que forcem o Pensamento ao sobrevoo destes encontros e acontecimentos. É somente a partir da colocação do problema que se poderão buscar as soluções que podem desbloquear a imagem do pensamento à imanência da diferença naquilo que difere.

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