Guattari vai constituir a partir daí uma teoria bastante complexa dos agenciamentos de enunciação. Logicamente que a desmontagem linguística, a que já se referiu não poderia deixar se suscitar novas problemáticas à enunciação120. Daí que será
118
GUATTARI, Félix. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise. p. 145.
119
GUATTARI, Félix. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise. p. 166.
120
Este conceito central na teoria linguística, desde Saussure, passando por Benveniste e indo até Ducrot, é que dá à linguagem sua efetividade, visto que é considerado o acontecimento da língua, no primeiro, da estrutura
necessária a construção de outras relações, também diferenciais e maquínicas como soluções possíveis. Num primeiro momento serão distinguidas as transformações gerativas interpretativas, das transformações não-interpretativas. Não aprofundaremos aqui esta teoria, mas no que interessa referir, apresenta-se o seguinte quadro121:
Componentes semióticos Funções de conteúdo Articulações do conteúdo e da expressão Agenciamentos de enunciação Transformações gerativas interpretativas
A. Analógico Semântica Campos de
interpretação Subjetivos coletivo e territorializado B. Semiológico linguístico Significante Campos de significância (dupla articulação) Sujetivo individualizado egóico Transformações gerativas não interpretativas C. Simbólico intensivo Ilocucionário indiciário e de passagem Linhas de fuga e de desestratificação A-subjetivo coletivo e desterritorializado D. Diagramático De sentido a- significante Plano de consistência A-subjetivo maquínico
Observar-se-á que tais agenciamentos não são independentes dos outros operadores e entram em relações rizomáticas com os vários componentes da teoria.
(...). Um agenciamento de enunciação será puxado ora para o lado da significação, ora para o lado do diagramatismo, em virtude das transformações de sua composição. Com efeito, todos os agenciamentos de enunciação que têm algo a ver com o mundo humano são mistos. As abstrações de poder, os polos personológicos cotejam aí as codificações intrínsecas, as linhas de desestratificação, os processos diagramáticos. Qualquer que seja a consistência dos vetores que as manifestam, as máquinas abstratas não são, pois, nunca definitivamente ligadas a coordenadas fixas e universais; podem sempre “retomar” seus parâmetros, reemitir quanta de possível122.
no segundo, e da argumentação no terceiro, respectivamente. Guattari vai ultrapassar essas noções arrastando- as ao nível maquínico para daí extrair suas potências enquanto conceito.
121
GUATTARI, Félix. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise. p. 153.
122
Dir-se-ia que as teorias jurídicas que buscam certeza pela interpretação se encontram em estado de decomposição. Quer isto dizer que, enquanto evidenciado que as relações linguísticas são de composição de vários dos vetores que a atravessam, no Direito parece haver uma preconcepção de que os sentidos são fixados numa racionalidade territorial, muito condizente, inclusive, com aquele que é considerado pela dogmática como seu conceito central, qual seja, o de propriedade!
Diferentemente, o que fica claro aqui é que não só há uma possibilidade imensa de combinatórias, portanto as interpretações são sempre provisórias, bem como subjaz a relação de forças que não se pode deixar ao largo de qualquer teoria que pretenda um mínimo de realidade.
É conhecido nas teorias jurídicas o problema insolúvel da efetividade, uma vez que não levam em conta os índices maquínicos aqui apontados, pois ainda referidas ao modelo hilemórfico123 da distinção conteúdo/forma, sem qualquer aproximação com a matéria e suas intensidades pré-formais e a-subjetivas, deixando, portanto, de reconhecer a dimensão maquínica ontológica de suas próprias máquinas.
A efetividade está sempre remetida a uma suposta dimensão ética que, de sua vez, seria fruto de uma consciência do bom senso nas ações humanas, ficando o Direito a depender, tão-somente, desta tomada de consciência por parte de seus destinatários, quando assim o cumprimento da lei seria inevitável, pois de acordo com tal requisito. O que este posicionamento não explicita, no entanto, é esta relação paradoxal do sentido com seus próprios pressupostos provisórios, como na relação signo-significante-significado, da linguística mais comumente assumida. Desta outra perspectiva, no entanto, os sentidos estão sempre submetidos a estes quanta de possível que atravessam, os diagramas, os agenciamentos e os componentes, deixando em aberto o próprio sentido, a cada função efetuada pela máquina abstrata.
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Este termo é relativo ao problema da individuação e foi Gilbert Simondon quem lhe denunciou a insuficiência para pensar esta problemática da expressão. Nesse sentido: “Existen dos vías según las cuales puede ser aboradada la realidad del ser como individuo: uma vía sustancialista, que considera el ser como consistente en su unidad, dado a sí mismo, fundado sobre sí mismo, inengendrado, resistente a lo que no es él mismo, y una vía hilemórfica, que considera al individuo como engendrado por el encontro de una forma y de una materia”. Em tradução livre: “Existem duas vias segundo as quais pode ser aboradada a realidade do ser como indivíduo: uma via substancialista, que considera o ser como consistente em sua unidade, dado a si mesmo, fundado sobre si mesmo, inegendrado, resistente ao que não é ele mesmo, e uma via hilemórfica, que considera o indivíduo como engendrado pelo encontro de uma forma e uma matéria”. In: SIMONDON, Gilbert. Op. cit., p. 23. Segundo Simondon esta maneira de colocar o problema da individuação leva a uma petição de princípio, pois refere ao indivíduo já formado como dado ontológico e a partir daí busca seus princípios, quando deveria buscar o processo de individuação no que é pré-formado e pré-individual.
Há, ademais, outra retorsão na teoria, pois segundo Guattari, certas conexões entre os componentes e os agenciamentos levariam a constituição de três campos limites, que seriam assim apresentados124:
Agenciamento de
enunciação
Componentes semióticos
Campos pragmáticos
Campo a Territorializado Ícones e índices Simbólico
Campo b Individualizado Triângulo semiótico Significante
Campo c Coletivo-maquínico Signos-partículas Diagramático
Advirta-se, novamente, que estes campos também se põem em relações rizomáticas, levando a novas complexidades e problemáticas que não se estabilizam nunca em universais ou estruturas. É justamente dessa abertura constante ao provisório da maquínica que se pode estabelecer não mais uma análise de significantes e operadores lógicos, mas uma esquizoanálise125
Como já referido, no pensamento de Guattari não se separam as várias problemáticas e práxis relativas que instauram as soluções possíveis. Assim, um programa esquizoanalítico, não se desvinculará das relações de poder, dos agenciamentos de enunciação das várias ordens, seja do biológico, sociológico, maquínico, etc. Também não será o caso de um fechamento a soluções universalizantes, como um método de cura ou solução final. Justamente porque rizomático, maquínico, diagramático, o processo aqui envolvido é da ordem do desejo, portanto da produção e da criação que devém do eterno retorno da diferença.
(...). Enquanto processo de diagramatização maquínica, não será redutível a um sistema de representação e implicará o trabalho de diversos agenciamentos coletivos de enunciação. A confecção de um rizoma esquizo-analítico não terá por fim a descrição de um estado de fato, o reequilíbrio de relações intersubjetivas, ou a exploração dos mistérios de um inconsciente escondido nos recantos obscuros da memória. Ela será, ao contrário, inteiramente voltada para uma experimentação tomada sobre o real. Ela não “decifrará” um inconsciente já todo constituído, fechado sobre si mesmo, ela o construirá e concorrerá para a conexão dos campos, para a desblocagem de corpos sem órgãos estratificados, vazios ou cancerosos, e para sua abertura máxima sobre o plano de consistência maquínica. Ela será levada a pôr em jogo modos de codificação e semióticos diversos, de ordem, por exemplo, biológica, sensitiva, perceptiva do pensamento por imagens, do pensamento categorial, dos semióticos gestuais, verbais, de campos políticos e sociais, das escritas
124
GUATTARI, Félix. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise. p. 57.
125
“(...). A esquizoanálise ou a pragmática não tem outro sentido: faça rizoma, mas você não sabe com o que você pode fazer rizoma, que haste subterrânea irá fazer efetivamente rizoma, ou fazer devir, fazer população no teu deserto. Experimente”. DELEUZE, Gilles, et. al. Mil platôs. Capitalismo e esquizofrenia, v. 4, p. 35.
formalizadas, das artes, da música, dos ritornelos. (...)126. Com os itálicos no original.
Já se expressa aqui o projeto ético de criação da diferença pela diferença em constante devir127. Nada está pronto ou determinado, ainda que os maquinismos sejam imanentes ao a-subjetivos, mas sempre agenciam quanta de possíveis que os abrem para novos agenciamentos em constante movimento que destitui o universal e o significante das suas posições centrais e hierarquizadas de poder. Trata-se de saber se tal imagem do pensamento é possível também para os conceitos do Direito, pois que deverá se ampliar para diversos outros agenciamentos, não só a lei estritamente como modelo universal de conduta, mas, outra imagem que possibilite ao de-Fora e o que nos força a pensar a maquinar novos sentidos. Linhas de fuga...
126
GUATTARI, Félix. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise. pp. 166-167.
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“Um devir não é uma correspondência de relações. Mas tampouco é ele uma semelhança, uma imitação e, em última instância, uma identificação. (...). O devir não produz outra coisa senão ele próprio. É uma falsa alternativa que nos faz dizer: ou imitamos, ou somos. O que é real é o próprio devir, o bloco de devir, e não os termos supostamente fixos pelos quais passaria aquele que se torna”. DELEUZE, Gilles, et. al. Mil platôs. Capitalismo e esquizofrenia, v. 4, p. 18.
CAPÍTULO 2. FILOSOFIA E ESQUIZOANÁLISE NO PENSAMENTO