A etapa de coleta dos dados teve início no mês de novembro, período do ano não muito recomendável para este tipo de atividade devido aos possíveis contratempos decorrentes das festas de fim de ano e por ser um período em que as empresas estipulam férias aos seus funcionários.
Não obstante, o critério de seleção da empresa ex-estatal escolhida não considerou aspectos práticos de acesso, privilegiando o perfil da empresa para a pesquisa. Ademais o contexto da própria organização era adverso: a empresa vivia um momento conturbado tendo seu nome vinculado a escândalos políticos, por um processo de reestruturação acionária e movimentos do setor de telecomunicações envolvendo compra e fusões de empresas. A situação assumia dimensões preocupantes para o andamento da pesquisa, quando no momento de estabelecer contato com os informantes isso vinha à tona:
“Você pode enviar as perguntas? Com elas saberemos exatamente quem pode responder. O momento na [nome da empresa] não é bom para isso, estamos em fase de restruturação acionária, vários movimentos no mercado de Telecom nacional e está tudo muito corrido.”
Funcionário da empresa (Por e-mail)
Não há dúvidas que o momento era inoportuno, ainda mais considerando o estágio avançado da pesquisa de dissertação e os prazos estabelecidos para a conclusão do curso de mestrado.
De fato, as questões de acesso nunca foram formalmente resolvidas, apesar da procura por canais de comunicação para legitimar a pesquisa para empresa. As várias tentativas foram frustradas em parte devido ao pouco reconhecimento e importância atribuído às pesquisas acadêmicas feitas no Brasil. Depois de muito insistir obtive a seguinte resposta:
“Oi, Daniel, eu trabalho aqui na assessoria da (nome da empresa) e vou ser sincera. Nossos diretores de área estão sempre muito ocupados dando várias entrevistas e tentando atender a demanda de todos os jornalistas, além de cumprir as demandas de suas próprias áreas também, é lógico. Normalmente nem todos os jornalistas conseguem. Se dá prioridade aos jornalistas mais renomados e tal. Como o seu caso é tão somente uma pesquisa, acho meio difícil conseguir entrevista com o responsável por alguma área ou algo assim. O que eu acho que você poderia fazer é pesquisar bastante e coletar coisas na própria mídia, ou quem sabe, entrevistar alguém experiente no seu assunto que possa te dar alguma base teórica. Acho que isso seria acessível. Vou continuar tentando aqui, mas acho um pouco difícil entende? De qualquer maneira , boa sorte no trabalho.”
Comunicação Coorporativa (Por e-mail)
Paralelamente contatos obtidos através de redes de relacionamentos profissionais e acadêmicos mostraram importância fundamental para que a pesquisa tivesse prosseguimento.
As dificuldades de obter contatos, no entanto, constituía apenas o início do processo. Em alguns casos o acesso aos informantes era facilitado por intermediários (colegas de trabalho) que consultavam previamente os entrevistado sobre a possibilidade de entrevista. De fato, essa era a forma mais adequada e segura para obter a participação do entrevistado, pois alertava o mesmo que seria em um futuro próximo abordado pelo pesquisador. Neste momento a conversa era relativamente fácil e amigável sendo possível nesta mesma ocasião agendar a entrevista. Ao longo do processo de coleta de dados esses momentos ocorreram apenas três vezes. A cada entrevista realizada, o pesquisador solicitava indicação para entrevistar outras pessoas, aproveitando o ensejo de tratar com funcionário da empresa. Em alguns casos o pesquisador obtinha o e-mail, em outros casos o número de telefone, chegando a raros momentos em que o próprio informante, ao término da entrevista, entrava em contato com possíveis candidatos para participarem da pesquisa.
Nos casos em que não existia intermediário, o contato era estabelecido por e-mail ou por telefone sendo bem mais complicado. O horário da manhã foi escolhido para tentar contato, julgando ser o momento mais “calmo” do horário de trabalho. Esta decisão mostrou-se por vezes inócua. Não eram raros os momentos em que os funcionários estavam participando de reuniões, o que não contribuía para estabelecer “simpatia” com o entrevistado. Em função destes acontecimentos estipulava-se aleatoriamente um horário para entrar em contato agora com tendência para o final da tarde, mesmo sabendo que o contato seria comprometido se o dia do possível candidato tivesse sido “difícil”.
Ao entrar em contato e o possível candidato concordasse em prosseguir com a conversa, a primeira preocupação era apresentar de forma sucinta o tema e os objetivos do projeto de pesquisa. Cabe ressaltar que por várias vezes eram escolhidos os objetivos mais neutros, pois como mencionado a empresa passava por um momento conturbado. As conversas duraram de aproximadamente três a sete minutos. Em alguns casos se obtinha a oportunidade de neste primeiro contato agendar a entrevista. Porém na maioria das vezes ficava acordado o compromisso do pesquisador em enviar por e-mail resumo sucinto e antecipasse algumas perguntas do roteiro de entrevista. Superando estes momentos de negociação, o processo de coleta dos dados foi encerrado no final do mês de janeiro, totalizando 10 entrevistas.
As entrevistas semi-estruturadas foram conduzidas em espaços reservados para rápido descanso e descontração (espécie de refeitório), em salas de reunião e nas próprias “baias” de trabalho. O horário das entrevistas variava de acordo com a disponibilidade do entrevistado. Duas entrevistas foram conduzidas depois do horário de trabalho (18:00) e apenas uma foi adiada, não havendo cancelamentos.
A primeira entrevista foi realizada depois de coletado e analisado dados secundários sobre a empresa. Dessa forma o pesquisador corria menos risco de gerar distanciamento do entrevistado e aumentava a probabilidade de angariar a simpatia do mesmo, afinal, esperava-se conseguir futuros contatos no término da entrevista. À medida que a entrevista evoluía perguntas do roteiro eram preteridas favorecendo a exploração de dados que emergiam. Por vezes a profusão de informações gerou certo desconforto no pesquisador por considerar alguns “dados” não muito interessantes para a pesquisa. Mesmo assim, mantinha-se atenção e interação com o entrevistado.
A partir dessa entrevista foi elaborado um organograma da empresa para a pesquisa e para o pesquisador se situar dentro da organização. A construção desse organograma contou com a participação de todos os entrevistados e servia para quebrar o gelo inicial das entrevistas fazendo com que o entrevistado não mais visse o pesquisador como totalmente alheio à empresa. Jargões e palavras próprias da organização eram também manipulados pelo pesquisador para obter esse fim.
O acesso aos profissionais da área de marketing só foi possível depois de realizadas três entrevistas com informantes de outros departamentos. A perspectiva desses profissionais era igualmente importante já que OPM é uma orientação organizacional. Porém, a pesquisa também deveria ter entrevistas de profissionais da área de marketing da empresa para entender o que
marketing faz em empresas orientadas para o mercado. Como já apontado a emergência do conceito de OPM impede o reconhecimento da prática dos profissionais de marketing uma vez que todos os membros da organização são responsáveis por praticar marketing nessas empresas.
As entrevistas com os profissionais de marketing exigiam especial atenção. Com o objetivo de “descobrir” a realidade destes praticantes evitava-se a menção de conceitos estabelecidos e ensinados pela disciplina de marketing. As perguntas eram abrangentes cabendo ao pesquisador observar os principais aspectos da reposta dos entrevistados, para só então adentrar o campo da prática. Assim como nas demais entrevistas, o roteiro consistia em duas partes: primeiro, perguntas de caráter geral, explorando as repostas dos entrevistados; segundo de perguntas mais específicas relacionadas à prática. O roteiro de entrevista sofria alterações de entrevistado para entrevistado sempre mantendo a preocupação em acessar os “dados corretos”. Porém nas últimas entrevistas o roteiro sofreu poucas alterações em reflexo da saturação de dados que começavam a se repetir com freqüência.
Neste momento o pesquisador em virtude das pressões do cronograma para entrega da dissertação começou a pesar o custo-benefício de cada entrevista realizada. Como todas as entrevistas realizadas foram gravadas após permissão dos entrevistados, o próprio pesquisador seria encarregado de fazer a transcrição. Esta tarefa árdua e cansativa consumia bastante tempo, que nesse momento revelava ser um recurso valioso para o pesquisador. Após transcrição e prévia análise, chegou-se à conclusão de que os dados coletados eram suficientes para atender aos objetivos da pesquisa e que a realização e transcrição de mais entrevistas poderiam comprometer a conclusão do projeto no tempo estabelecido pela instituição. Ironicamente ao término do processo de coleta de dados, ao contrário do seu início, existiam mais 4 contatos com elevada probabilidade de participarem da pesquisa.
Antes de realizar a análise dos dados foi necessário retomar a revisão de literatura com a emergência de dados importantes e não previstos pelo pesquisador.
A análise dos dados foi realizada com base do framework desenvolvido para a pesquisa exposto na seção 2.4. A identificação de diferentes concepções de OPM em mercado regulado, da instituição dos valores da cultura de mercado em empresas ex-estatais, e contradições de sensemaking a partir do relato dos entrevistados gerou classificação respectivamente em níveis de análise micro, meso e macro.