CHAPITRE 2 - Simulation de la tenue en tension d’un composant en SiC
2.2 Isolants solides et gazeux sous fort champ : conduction et rupture
2.2.2 Mécanisme de rupture dans les gaz sous fort champ
2.2.2.1 Les décharges électriques dans les gaz sous champ uniforme
Semelhante a Nietzsche, de quem herda um grito sobrenatural, capaz de reunir as legiões dos anjos mais rebeldes, arrastado para fossas abissais duma consciência flagelada dia após dia pelo excesso de beleza que o consome, Lautréamont é eleito imperador entre alguns deserdados da vida. Os únicos que o olharam de frente, nas frases mais turbulentas em que afirmava lutar contra gigantes interiores, ofereceram-lhe então uma coroa de rosas e uma pena de pavão que apresentava numa das extremidades um aparo de ouro com as suas iniciais. Comovido, o escritor chorou.
Num rosto marcado pelas sobreposições alternadas da coragem e do medo, as tensões acumuladas ao longo de milénios encontram aí o seu lugar de afirmação. Seguiram-se depois estados de felicidade plena... Na impossibilidade reconhecida de reconstituir o passado, cabe ao narrador abreviar o caminho, ou seguir em frente.
Incapaz da mínima contenção face à obra do autor, a uma pujança dionisíaca que o atira para lá das franjas da genialidade, à coroação dos advérbios negada em vida, Lautréamont não suporta o mar de Camões. Suportaria a visão de um mar gelatinoso, primordial, com icebergues de placenta, ou Ŕ ó visão atroz da alma negra Ŕ o poeta ciclope.
Recusa-lhe o domínio de uma vastidão planetária apenas subserviente aos deuses e aos tronos, onde, ainda que por permanência breve, o haveria de situar: nas Poesias. Mas, mesmo aí, é no ventre de uma ironia demasiado viscosa que o impeça de libertação futura.
Espécie de denso globo de matéria vulcânica de que mais tarde se libertará em ascensão completa, entoando Os
Lusíadas, o poeta eleva-se e eleva-nos a uma altitude nunca anteriormente alcançada: o Trono do luminoso Ra: o
Irradiante.
O outro, o de Montevideu, tenta convencer-nos do contrário. Por pouco tempo Ŕ pensamos; mas não. Durante os séculos seguintes vê-lo-emos ainda sob múltiplas formas na sua transmutação sem fim. Até quando? Perguntas.
Suspenso pelos dedos da poderosa oscilação do devaneio, Lautréamont hesita entre lançar-se na eternidade ou ficar eternamente erguido acima de qualquer comparação.
Observam-no de boca entreaberta os fiéis de Santo Agostinho, alguns monges do deserto, devotos do silêncio, um grupo menor de xintoístas, e pequenos ajuntamentos de crianças várias. Uma legião elegível de críticos, segregando em excesso a sua bílis, dirige-lhe poderosos urros que o fazem rio. Não está decididamente ali, como nunca esteve em lado nenhum.
[…] Desesperados, desafiando a razão, provavelmente vítimas de disputas violentíssimas sobre a hierarquia dos verbos, projectam-se a distâncias incontornáveis onde recuperam tonalidades azuis semelhantes às exalações dos incêndios celestes, os pensamentos de um homem.
Alguém que não hesita em exigir à literatura o que a vida lhe recusara desde sempre. Um corpo protegido por pele celeste, polvilhado de milimétricas estrelas. Exigência de um esteta que não se compadece com a fermentação histórica das qualidades mais elevadas que se encontram a milímetros do chão.
Exigência magra que está na origem da única divergência com o Mestre das Ilusões Duplas.
A partir do momento em que Camões, provavelmente devido a um golpe de esgrima, a um estilhaço de arcabuz ou a um rapidíssimo golpe de punho de que não conseguiu esquivar-se a tempo, ficou incapaz de distinguir as aves de rapina que sobrevoavam como abutres o reino, salvo a única camada de pele que lhe restava. As outras foram flageladas pelos chicotes da incompreensão e da inveja.
Nunca os investigadores da nossa história se referiram uma única vez aos desenhos de Camões. Das suas mitologias gráficas nada resta.
Não acredito que o poeta, na medida em que desenvolvia o manuscrito do poema que o haveria de imortalizar, não visualizasse, vindas das mais recônditas regiões do cérebro e do seu arquivo de imagens, as deusas-mães, protegidas por bandos de corvos e toutinegras alvas, os semi-deuses calvos ou o polvo dos mil tentáculos, espécie desaparecida das profundidades que reinou soberbo no oceano primordial.
Recuso-me a acreditar que não nos tivesse reservado esses sinais, a nós que impacientes os procurámos em vão, 500 anos depois. Esboços a tinta-da-china sobre papel de arroz, de um realismo assustador, denunciando pulsões espontâneas, apenas comparável ao virtuosismo nervoso dos mestres calígrafos do Império do Meio.
Não acreditem num Camões submisso. Nunca cedeu às sugestões de vassalagem, mesmo que do ponto mais alto da imaginação, onde permanentemente se encontrava, o atirassem à fossa mais profunda do oceano baço da vulgaridade. Alvo de provocações constantes, aprendeu com o ímpeto da revolta contra a tirania, o manejo exímio da espada e da pena.
DÉLIO VARGAS [2006]
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CANTO-TE
Ŗ[...]Canto-te tudo o que desliza e dança no rio do mundo as auroras súbitas e as noites precoces
as rosas a florescer sobre os túmulos as fontes que brotam nas grutas do coração a murmurar sob a pele de estarmos aqui
os pressentimentos jovens de um despertar maduro os sinais inequívocos do medo vencido
o drapejar da bandeira de todas as vitórias
Canto-te o diáfano manto da melancolia a triste alegria que desponta das brumas a morte que vem nas crinas do vento a chamar-nos para a cinza dos dias e o ébrio rompante que a tudo trespassa o heróico canto que do imo do coração brota e de eterno início em grinaldas sagra o oiro jovem dos peitos inflamados
Canto-te estas coisas que entre nós pulsam estes esplendores esta pujança este viço tudo isto que se não sabe e nos emudece num espanto que sobe das entranhas a tremeluzir no uivo dos ventos
nos labirintos que pela terra serpenteiam no segredo dos jardins mais íntimos nas rodas vivas que no corpo giram e imortal o transmudam
Canto-te tudo isto
pois tudo isto é o que nos soergue e nutre tudo isto é o trono onde reinamos
olhos nos olhos irados e doces gentis e feros unidos e separados
a dançar para além de sermos alguém a vestir todas as formas do possível
Assim te celebro no encanto de tudo o que nos envolve ó tu que invoco do fundo maior que o real
ó tu que despontas, de ouro e prata coroada adamantina, de sacro tremor ungida, ó Inigualável !
[...]ŗ
Ŕ fragmento de um terma (tesouro espiritual) evocativo do jogo sagrado de Yeshe Tsogyal e Guru Rinpoche, oculto na terra de Oddyana, na língua das akinis, e pela força da saudade de um obscuro escriba entrevisto numa colina sobre o Tejo e traduzido em portuguesa língua na manhã do dia 6 de Dezembro de 2007.
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