A Senhora Teresa43 começou a esfregar o chão desde miúda. Hoje tem 46, e afirma:
“Eu comecei a esfregar o chão com 12 ou 13 anos, mas eu detestava....era muito trabalho...eram salas....e eu não gostava. Mais tarde optou-se por colocar o pavimento lavável, então aí era mais confortável porque era com o rodo e com um pano metido no rodo que a gente lavava, passava no balde e voltava a lavar. Assim era totalmente diferente, porque quando se
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A Senhora Teresa Cardoso tem sido uma colaboradora muito valiosa, tanto pelas suas ricas memórias biográficas quanto pela sua experiência profissional no que toca o âmbito da limpeza. Não só ela é mulher, filha, esposa e mãe, mas, nascida em 1965, pertence à geração “de meio”, ou seja, a uma geração que formou as suas experiencias de vida a cavalo de dois diferentes padrões económicos e sociais: os que marcaram a sociedade portuguesa antes da Revolução de 1974, e os que ditaram as profundas mudanças de costumes ocorridas ao longo das décadas seguintes. Às relevantes características biográficas da Senhora Teresa, acrescenta-se o facto dela ser chefe da secção limpeza da Pollux (histórica empresa da Baixa lisboeta no comércio de produtos destinados ao lar), o que a torna uma óptima conhecedora dos comportamentos dos consumidores
esfregava com aquilo [com a escova tipo viola] os meus joelhos doíam muito, e demorava o dobro ou o triplo do tempo....”44.
O que é curioso notar é que foi necessária a mudança do chão para que a limpeza resultasse uma tarefa um pouco menos pesada para as mulheres, mas no que toca a gestão das obrigações domésticas nenhuma reformulação estrutural no domínio do género ocorreu: nenhuma das minhas informantes chegou a ver um homem “de gata”, nem quando estiveram com febre ou doentes ou simplesmente impossibilitadas a cumprirem as suas tarefas de casa. Mas isso, as mulheres, já o tinham bem claro na cabeça e nem perderam muito tempo a fantasiar sobre o assunto, educadas, como foram, pela doutrina segundo a qual a economia domestica: “é uma enciclopédia que faz mais sólida e mais humana a cultura feminina; faz amar mais e melhor o lar
convertendo a mulher no véu do fogo sagrado da ilusão que assegura sua felicidade e a de todos os seus”, e através da qual: “uma boa dona de casa saberá fazer frente a
todasas contingências possíveis”. A “ciência do lar (...) é civilização, é ordem (...), é
altruísmo e generosa dignidade (...), é uma virtude social”, e, enfim “é a estrada por onde avança a prosperidade e a paz. (...) No Estado, é a felicidade do cidadão e a prosperidade da nação. No lar, é a felicidade do indivíduo e a prosperidade da família” (M. M. Calvet de Magalhães, 1946: 7-9). Paz, prosperidade e felicidade, garantidas pela hierarquia dos sexos, e dos papeis sociais.
Entre outros, quatro conselhos dirigidos às mulheres, iluminam os princípios básicos dessa suposta ciência civilizadora:
“ 6º_ Ser amante da ordem sem fazer escravos os que nos rodeiam. (...) Vosso marido e vossos filhos não se sentirão bem, porque não poderão acercar-se de uma mesa sem temer que um tapete se enrugue.
7º_ Considerar-se sempre a última pessoa da casa e a vosso marido o primeiro, não com a baixa submissão de uma escrava, nem com o servilismo de um inferior, mas sim com a amistosa presença de uma companheira.
8º_ Não considereis nunca vosso o dinheiro que não ganhais por vossa mão (...).
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9º_ Se a mulher leva dote para o matrimónio, terá cuidado de nunca o recordar, nem por palavras nem por actos. Pense a mulher que o homem tem o mesmo direito e, geralmente, com mais justiça, pois o mais corrente é a mulher ter herdado, e o dinheiro do homem ser fruto do seu trabalho.” (Ibidem. Itálico nosso.)
Felizmente, na família Cardoso, as regras existiam mas não se tornaram desumanas, até porque, infelizmente, Teresa era a única pessoa de família a tratar da casa: filha de dois trabalhadores, era a mais nova entre três irmãos e dois irmãs (estas últimas já casadas e independentes). Todavia, Teresa lembra-se de famílias muito mais rígidas que a sua, nas quais os horários eram estritamente regulados e vinculados aos horários e às exigências do pai, como também dos irmãos mais velhos45.
Apesar das palavras de Calvet de Magalhães poderem suscitar muitos comentários de possível indignação (todavia muito fáceis quando feitos com trinta ou quarenta anos de distância à luz das conquistas, embora imperfeitas, obtidas pelos movimentos feministas ocidentais), parece muito mais importante e construtivo focarmos a nossa atenção sobre a importância, e a potência, dessas palavras, e, no entanto, vê-las sedimentar-se na consciência e na experiência tanto das mulheres quanto dos homens pelas quais constituíram o fundamento natural da suas realidades quotidianas. Dado o clima ideológico que estas palavras exprimem, infelizmente, não surpreenderia encontrar o poder masculino, legitimado pela certeza da sua autoridade, exercido sobre a mulher na pior das suas formas, ou seja, no manifestar-se através da imposição duma supostamente indiscutida superioridade física. Superioridade física que, todavia, se encontrava (e se encontra) implícita (e não forçosamente ostensiva porque secularmente incorporada) no <<poder da delegação>> de limpeza que regulamentava (e regulamenta) a vida doméstica quotidiana.
Baseada na assimetria dos estatutos sociais, muitas vezes assentes em pressupostos de natureza biológica (branco vs negro; o sexo débil vs o sexo forte), se não até cosmogónica (brâmanes vs intocáveis), ou política (faraó vs escravo), o pedido de delegação em geral, neste caso o de limpeza, implica sempre uma entidade superior que manda, e uma inferior que efectua os trabalhos ordenados, de acordo com o valor social de quem os efectua. No seu livro Just a Housewife, Glenna Matthews afirma:
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“se o trabalho doméstico é desprezado, irá ser cumprido por aqueles que pelo sexo, classe social ou raça – ou talvez pelas três coisas juntas – serão empurrados para um estado de inferioridade”46
A relação de superioridade e inferioridade pode dar-se de formas muito diferentes, entre as quais no nosso mundo da economia terciária, isto é, de serviços o dinheiro constitui uns dos elementos centrais. Paralela à assimetria dos papéis sociais, a relação monetária estabelece uma troca convencionalmente aceite como equilibrada entre o dar o receber, mascarando a assimetria subjacente atrás do véu das regras de mercado. Nesse sentido, no mundo de todos os dias, o dinheiro, assume uma posição ambígua: se pode ser interpretado como elemento neutral de troca supostamente equilibrada entre um serviço e um preço correspondente (por exemplo, entre um cliente e um engraxador de sapatos), todavia será preciso contextualizar o poder monetário comparado do cliente com a média do poder monetário de todos os clientes possíveis (portanto incluindo o engraxador) para revelar a assimetria dos papéis económicos que antes não podia se revelar. E no mundo doméstico? Como interpretar a assimetria dos sexos no que toca as tarefas domesticas pelas quais não há retribuição? Apesar da resposta se basear numa infelizmente histórica disparidade, podemos concluir que esta desigualdade veio constituir uma óptima escusa para a implantação do sistema capitalista moderno, no qual o trabalho não pago é indispensável e no qual o trabalho feminino foi sempre condenado a receber pouco ou menos respeito aos homens, até no caso de cumprirem a mesma actividade.