PARTIE III : PRESENTATION DE DOUJA PROMOTION GROUPE ADDOHA
II. A CTIVITE ET O RGANISATION
Nos últimos anos, a sustentabilidade social ganhou reconhecimento crescente como componente fundamental do desenvolvimento sustentável. Existe um consenso de que as diferentes dimensões do desenvolvimento sustentável não foram igualmente priorizadas pelos formuladores de políticas dentro do discurso de sustentabilidade e apenas no final dos anos 1990 as questões sociais foram levadas em conta na agenda de sustentabilidade (FOLADORI, 2005; COLANTONIO, 2007; VALLANCE; PERKINS; DIXON, 2011).
Uma das razões para que a dimensão social não tenha acompanhado as outras duas dimensões, em termos de práticas e avaliações, é explicada pela dificuldade de estabelecer métricas sociais e, por isso, é a dimensão mais negligenciada nos relatórios (MCKENZIE, 2004). Enquanto a sustentabilidade ambiental enfatiza a gestão dos recursos naturais, a sustentabilidade social preocupa-se com a gestão dos recursos sociais, incluindo habilidades e capacidades das pessoas e instituições, relacionamentos e valores sociais. O desenvolvimento social sustentável inclui elevar os padrões de educação, saúde, manutenção da diversidade cultural e o apoio às questões de justiça social (SCHIAVON, 2014).
A partir da revisão de literatura, observa-se que as definições de sustentabilidade social podem assumir diferentes vieses e há desacordo entre os autores, o que dificulta a evolução dos estudos e direcionamento das práticas (MCKENZIE, 2004; SCHIAVON, 2014; FOLADORI, 2005; COLANTONIO, 2007; VALLANCE; PERKINS; DIXON, 2011). Ademais, a sustentabilidade social não é um estado estável ou possui objetivos fixos, depende das condições locais e dos stakeholders e deve ser considerada como um conceito dinâmico, que mudará ao longo do tempo, de ano para ano, de década para década, em um mesmo local, considerando que as iniciativas sociais podem partir de pequenos grupos da sociedade civil, organizações com e sem fins lucrativos, governos e entidades governamentais nacionais ou internacionais, todos em prol do atendimento aos objetivos propostos na dimensão social (SCHIAVON, 2014).
Em um sentido geral, McKenzie (2004, p. 12), define sustentabilidade social operacionalmente como “uma condição que melhora a vida dentro das comunidades e como um processo interno das comunidades para que alcancem essa condição”. Colantonio (2007) considera que a definição de sustentabilidade social pode seguir duas tendências, uma holística, que considera a união igualitária dos três pilares do desenvolvimento sustentável em uma nova entidade, isto é, o Estado de Sustentabilidade, que embora pareça atrativo, é difícil de implementar e pode resultar na orientação ineficaz para a formulação de políticas. A segunda tendência trata da visão mais reducionista, que requer a avaliação e a medição das dimensões separadas da sustentabilidade. Esta abordagem tende a ser mais aplicável e pode ajudar favorecer o estabelecimento de políticas, mas ainda assim, não consegue captar sua natureza complexa.
A Western Australian Council of Social Services (WACOSS) (MCKENZIE, 2014)
identifica a ocorrência do viés da sustentabilidade social quando processos, sistemas, estruturas e relações formais e informais apoiam ativamente a capacidade das gerações atuais e futuras de criar comunidades saudáveis e vivas. Comunidades socialmente sustentáveis são equitativas, diversas, conectadas e democráticas e proporcionam uma boa qualidade de vida. Mckenzie (2004) destaca cinco princípios de sustentabilidade social: 1) equidade: a comunidade fornece oportunidades e resultados equitativos para todos os seus membros, particularmente os mais pobres e vulneráveis; 2) diversidade: a comunidade promove e incentiva a diversidade; 3)
interligação: a comunidade fornece processos, sistemas e estruturas que promovem a conexão
dentro e fora da comunidade no nível formal, informal e institucional; 4) qualidade de vida: a comunidade garante que as necessidades básicas são atendidas e promove uma boa qualidade de vida para todos os membros, individual, grupal e comunitário; 5) democracia e governança:
a comunidade fornece processos democráticos e estruturas de governança abertas e responsáveis.
Murphy (2012), por sua vez, propõe um framework conceitual que identifica quatro conceitos sociais abrangentes e estruturantes da dimensão social: equidade, consciência para a sustentabilidade, participação e coesão social, apresentados no Quadro 4.
Quadro 4 - Conceitos sociais estruturantes da sustentabilidade social
• Equidade: distribuição de bens sociais e oportunidades com base na justiça, ou seja, todos os cidadãos, sem distinção, devem ter a mesmas oportunidades para sobrevivência e satisfação de seus potenciais de desenvolvimento. Refere-se ao fornecimento de água potável, alimentação, emprego, educação, abrigo, medicamentos essenciais, um ambiente não poluído e acesso a redes sociais.
• Consciência para a sustentabilidade: sensibilização do público para as questões de sustentabilidade visando encorajar padrões de consumo alternativos e sustentáveis. Políticas tipicamente incluem campanhas "verdes" de publicidade, rotulagem ecológica, eventos de sensibilização, programas de educação ambiental e educação para programas de desenvolvimento sustentável.
• Participação: incluir o maior número possível de grupos sociais nos processos de tomada de decisão, melhorando a inclusão e a coesão social.
• Coesão social: é o termo apresentado como tema-chave em indicadores sociais da Organisation for
Economic Cooperation and Development (OECD), associado aos objetivos políticos como a promoção da
felicidade e bem-estar, minimizando o conflito social; reduzindo a criminalidade, promovendo a confiança interpessoal e combatendo o suicídio, o assédio moral e o comportamento antissocial.
Fonte: Murphy (2010).
A partir deste referencial, entende-se que práticas organizacionais direcionadas à dimensão social da sustentabilidade, as quais são consideradas neste estudo como práticas sociais, podem ocorrer tanto internamente, quanto externamente à organização. Internamente, no sentido de preverem melhorias em postos de trabalho, remuneração, saúde e segurança, entre outras ações voltadas à qualidade de vida, inclusão social e políticas igualitárias no ambiente de trabalho. Externamente, na proposição de ações voltadas à comunidade onde se inserem, tendo por base os princípios elencados por WACOSS (MCKENZIE, 2014).
Para compreender a sustentabilidade social e de que forma pode ser promovida ou percebida, há que se considerar os conceitos sociais estruturantes de Murphy (2012) apresentados no Quadro 4 e as dimensões e temas centrais da sustentabilidade social, apresentados no Quadro 5. A partir do disposto no Quadro 5, observa-se que a sustentabilidade social em muito se relaciona com a sustentabilidade ambiental, uma vez que a sociedade e o meio ambiente coexistem. Ações que visam melhorias em uma dimensão, impactam direta ou indiretamente na outra. A preservação do meio ambiente torna-se cada vez mais um tema de grande relevância para a sociedade como um todo, logo, satisfazer essas demandas é atender a sustentabilidade socioambiental (PEREIRA et al., 2011).
Quadro 5 - Dimensões e temas passíveis de práticas voltadas à sustentabilidade social
DIMENSÃO TEMA CENTRAL
Social 1. Acesso aos recursos
2. Necessidades da comunidade (elas são capazes de articular as suas necessidades?) 3. Mitigação de conflitos
4. Promoção cultural 5. Educação
6. Idosos e envelhecimento
7. Facilitar a gestão do conhecimento (incluindo o acesso ao conhecimento eletrônico) 8. Liberdade
9. Equidade de gênero 10. Felicidade 11. Saúde
12. Identidade da comunidade/orgulho cívico
13. Transformação de imagem e percepções de vizinhança
14. Integração dos recém-chegados (especialmente imigrantes estrangeiros) e residentes 15. Liderança
16. Justiça e igualdade
17. Instalações desportivas e desportivas 18. Pessoas menos capazes
19. Mudança populacional 20. Erradicação da pobreza 21. Qualidade de vida 22. Segurança e crime
23. Desenvolvimento de competências 24. Diversidade social e multiculturalismo 25. Bem-estar
Socioinstitucional 26. Capacitação
27. Participação e empoderamento
28. Confiança, organizações voluntárias e redes locais (também conhecidas como capital social)
Socioeconômico 29. Segurança econômica 30. Emprego
31. Atividades informais/economia 32. Parceria e colaboração
Socioambiental 33. Design inclusivo 34. Infraestruturas 35. Saúde ambiental
36. Habitação (qualidade e composição de posse) 37. Transporte
38. Desigualdades espaciais/ambientais 39. Preservação de recursos naturais Fonte: Colantônio, 2007.
Por fim, se entendida de modo convencional, a sustentabilidade organizacional nada mais é do que a capacidade contínua de gerar recursos para remunerar os fatores de produção, repor os ativos usados e investir para manter-se competitiva e, por isso, devem seguir inovando. Entretanto, se a sustentabilidade da organização estiver comprometida com o desenvolvimento sustentável, as inovações passam a ser avaliadas de maneira diferente, ou seja, devem gerar resultados econômicos, ambientais e sociais positivos concomitantemente. Um desafio para as organizações que assumem este compromisso, dada a incerteza que as inovações trazem (BARBIERI et al., 2010).
Considerando que a institucionalização do desenvolvimento sustentável está presente nas organizações que objetivam, com tal estratégia, atrelar bons referenciais ambientais e sociais à sua imagem (MEYER; ROWAN, 1977; BARBIERI et al., 2010) e que, paralelamente, mudanças nos processos produtivos e organizacionais voltados à sustentabilidade podem resultar não só em produtos e serviços mais atrativos aos consumidores, como também em redução nos custos gerais da organização (NIDUMOULU; PRAHALAD; RANGASWAMI, 2009; BARBIERI, 2010; BOLZAN, 2012; LANGE; BUSCH; DELGADO-CEBALLOS, 2012), a atenção das organizações pode direcionar-se para os processos de inovação, otimizando-os a partir da sustentabilidade organizacional.
Organizações que inovam neste sentido empreendem maior esforço e sua gestão é conduzida a novas formas de gerir as inovações, assim, são consideradas Organizações Inovadoras Sustentáveis. Entretanto, tal caracterização, não implica apenas em inovar constantemente, e sim, que as inovações propostas considerem as três dimensões da sustentabilidade (BARBIERI et al., 2010):
a) dimensão social – preocupação com os impactos sociais das inovações nas comunidades humanas dentro e fora da organização (desemprego; exclusão social; pobreza; diversidade organizacional etc.);
b) dimensão ambiental – preocupação com os impactos ambientais pelo uso de recursos naturais e pelas emissões de poluentes;
c) dimensão econômica – preocupação com a eficiência econômica, sem a qual elas não se perpetuariam. Para as empresas essa dimensão significa obtenção de lucro e geração de vantagens competitivas nos mercados onde atuam.
A inovação sustentável é a introdução (produção, assimilação ou exploração) de produtos, processos produtivos, métodos de gestão ou negócios, novos ou significativamente melhorados para a organização e que trazem benefícios econômicos, sociais e ambientais, para a organização e a comunidade a qual ela se insere, por conta disto, não devem preocupar apenas as organizações do setor privado. Inovar socialmente, contemplando as dimensões do desenvolvimento sustentável, requer esforços de P&D, participação ativa da comunidade acadêmica, dos órgãos governamentais, das instituições de normalização, das organizações da sociedade civil, ou seja, o sistema nacional de inovação também tem um papel relevante nessa questão (BARBIERI et al., 2010; DAINIENE; DAGLIENE, 2015).
Tendo em vista o papel que as inovações desempenham em organizações que pautam suas ações levando em conta as três dimensões do desenvolvimento sustentável, a seção que segue introduz o conceito de inovação, com vistas a apresentar definições e conceitos-chave,
tais como a tríade shumpteriana – invenção, inovação e difusão, tipos e pressupostos, além dos modelos de processos através dos quais ela pode ocorrer, para, na sequência, aprofundar os conceitos relacionados à inovação social e, posteriormente, inovação social corporativa.