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Croissance mondiale

As narrativas que colocam Luíza como uma negra são apresentadas pela tradição oral. Metódio Fernandes da Costa (são-vicentino e o primeiro prefeito eleito pelo voto na cidade) é a única pessoa que menciona a existência de Luíza como uma negra.

Vale salientar que este já falecera. Diante dessa situação, o que consegui, durante a pesquisa de campo, foi uma entrevista que a professora Fátima Santos empreendeu com a turma da quarta série da Escola Joaquim Adelino de Medeiros, no dia 06 de dezembro de 2001. Nessa entrevista é levantada a possiblidade de Luíza ser uma negra.

Fátima Santos: Eles gostariam, eles sabem que o senhor tem história assim,

lendas para contar da história do município. O senhor ainda está lembrado de alguma? Aquela de Luíza, caçadores.

Metódio: Quem?

Fátima Santos: Luíza, que o senhor uma vez contou para os alunos. Sobre

Luíza, aquela...

Metódio: É a índia, a negra Luíza né? Fátima Santos: Sim.

Metódio: A negra Luíza.

Fátima Santos: A história da onça.

Metódio: Ela não era índia. Ela era uma negra criada no mato, caboclo- brabo. Ela vivia no Saco da Luíza. Aí então, ela tomou, vinha sempre aqui a

cidade, a cidade não, a vila, o povoado e refugiava-se lá. E zelava alguma coisa que, os prédios aqui. Ela vinha e voltava, mas ela não possui residência aqui e então no Saco da Luíza quando essa negra, essa cabocla-braba. Essa

índia, é uma cabocla-braba e lá ela se acomodava, se acomodava vigiando

os animais dos proprietários que Miguel Domingos e outro proprietário que tinha gado grande propriedade aqui, criava gado no Saco da Luíza e ela vigiava aquele gado e dava, recomendava vinha dizer quando o gado estava passando sede. Então ela vinha dizer aqui e o velho meu avô Manoel Fernandes da Costa tinha propriedade lá no Saco da Luíza em sociedade com o velho Sebastião Rodrigues e lá ele criava animais, criava gado, animais e etc né! E a onça começou a perseguir os animais.

Fátima Santos: Nessa época tinha onça! Metódio: Hein?

Fátima Santos: Nessa época tinha onça, hoje não tem mais. Estão todas em

extinção.

Metódio: Ela descia da serra do Piauí, da serra de Santa Cruz e vinha,

sangrava o animal e se refugiava.32 Nessa época o velho meu avô fez a ligação com Caicó e contratou o matador de onça o velho Miguelão, chamava Miguelão e matava a onça. Ele pastorava a onça e ele chegava e matava, contratava e ia pra lá, amolava a faca para pegar a onça e fazia o ponto da onça cair naquela coisa e ficava. Levava os cachorros e matava a onça. Um belo

32 A Serra do Piauí corresponde a uma divisão existente no Saco da Luíza. Os moradores dividem o espaço em

dia, era um campo muito devastado, sem o mato, só tinha uns paus seco longe e caiu uma onça nas ataca. Aí o povo de São Vicente foi olhar ele pegar a onça. Ele levou os cachorros e pegar a onça. E lá ele tinha um meio de laçar a onça nas ataca para puxar, ele tinha muita força para puxar e os cachorros rasgava. No momento em que ele veio fazer esta... , executar o trabalho aí a onça furou, forçou, furou um buraco, viu uma pedra e saltou, saltou, saiu das ataca e saiu saltando no campo, saiu saltando a procura e se defendendo dos cachorros, os cachorros caia em cima dela e a velha Luíza, a negra Luíza não queria assistir isso para cima de um galho de pau a 100 metros de distância da coisa e ela subiu numa aroeira grande e seca que tinha e ficou no gancho e lá quando a onça saltou, passou pelos cachorros e chegou saltando no gancho aonde a velha estava. Aí a velha, a onça saltou, a velha caiu, aí os cachorros caíram em cima pensando que era a onça, rasgando a velha, rasgaram a roupa da velha todinha. Nisso a onça saltou, saltou, escapou do cerco porque os cachorros cercaram ela, pensando que era ela e aí quando o povo chegaram tiraram a velha do cerco e a onça foi embora. (Palmas das crianças). Essa é a história. (COSTA, entrevista 06 de dezembro de 2001, grifos nossos).

Ao analisar a história compartilhada por Metódio Fernandes, percebo uma indefinição quanto à etnia de Luíza. Ela apresenta as seguintes identidades na estrofe: uma índia, uma negra e uma cabocla-braba. O termo cabocla-braba designa a união de índio com negro. No entanto, nota-se que, na maioria das passagens, há uma insistência de Metódio Fernandes em afirmar que Luíza era uma negra que costumava ter zelo com o gado dos fazendeiros. Quando algum perigo surgia, a negra saia do Saco para avisar aos proprietários dos rebanhos. Desse modo, é apresentada uma narrativa de mais uma Luíza, na qual ela é apresentada como uma negra.

Um aspecto importante na narrativa de Metódio é o ofício que Luíza desempenhou, o de criar gado, de vigiar os animais dos fazendeiros, ou seja, uma espécie de mulher vaqueira que cuidava de animais e enfrentava onças, em caso de necessidade. Essas atividades não eram muito comuns para uma mulher, naquela época. Uma mulher desempenhar essa função contraria as demais narrativas existentes sobre os vaqueiros.

Não me interessa saber qual é a verdadeira etnia de Luíza, mas sim demostrar como, a partir das histórias referentes a ela, moradores se apropriam para a reelaboração de um passado.

Ainda fazendo uma ligação do relato de Metódio Fernandes, consigo identificar como a memória tem poder de interligar diversos acontecimentos numa mesma situação. Oswaldo Lamartine Faria também destaca um fato envolvendo o sucesso de Miguelão das Marrecas como caçador. Este era “lembrado toda vez que surgia um carniceiro a desfalcar os rebanhos”. Oswaldo Lamartine menciona um chamado de Miguelão por um fazendeiro:

[...] O Miguelão das Marrecas veio da Serra do Doutor, chamado por Joaquim Teles para ser seu morador, porque perseguia onça como herói lutador.

Em novecentos e quatro Miguelão andava armado de agalha, rifle e punhal com um cachorro aprovado; Seguiu para Serra Negra por causa de um chamado... (FARIA, 1961, p. 31).

Os caçadores eram tidos nas ribeiras como heróis, principalmente os de onça, sendo lembrados em diversas histórias. O relato de Metódio Fernandes expõe essa recordação. Num levantamento da fauna sinergética dos municípios, em São Vicente, especificamente, a onça pintada (feliz onça) e a onça vermelha (feliz concolor) havia sido extinta há 25 anos (FARIA, 1961), o que quer dizer que antes disso havia onça, conforme afirmou Fátima Santos na entrevista.