Ritmo – Ternário, em clara imitação de cavalos a galope.
Melodia – Ao estilo do próprio cantautor, desconcertante, com alterações de ritmo e melodia.
Apresenta influências de música jazz, valorizando o pendor satírico do texto.
48
Idem
49 -Durand, Gilbert - (1986) - O Imaginário português e as aspirações do ocidente cavaleiresco in
138 Harmonia – Complexa, rompendo com a rotina.
Análise semântica - Este tema musical, segundo Gilbert Durand, 50 tem como temática o imaginário profundo do povo português – O do Salvador D.Sebastião, rei que espera escondido a hora do regresso. Contudo, Sérgio Godinho refuta este mito e caracteriza com sarcasmo o arrojado desejo de vencer os mouros no seu próprio reduto. Utilizando uma linguagem oralizante, com expressões populares, o poeta pretende ridicularizar, abanando as consciências saudosistas que sempre aspiraram pela vinda do desejado e malogrado D.Sebastião.
Este Rei acreditava que uma vitória no Norte de África abriria novas alternativas para o alargamento territorial e consequente desenvolvimento financeiro do país. Seduzido por um projecto político sem limites e por ideais cavaleirescos, D.Sebastião lançou-se para a campanha de África com a ideia de engrandecer o Império Português, como refere Pereira (1986:73)
“…Esta junção do imaginário cavaleiresco com propostas megalómanas de
redenção do todo nacional informa a assunção final da sua imagem de salvador da pátria pela conquista de Marrocos, chave para todos os problemas imediatos da expansão portuguesa.
Para tal desígnio, contraiu empréstimos provenientes dos fundos dos cristãos
novos e despendeu somas elevadas para apetrechar um exército que pudesse vencer todas as adversidades.
O cantautor imprime um ritmo vivo, bélico, apostando numa cavalgada musical que nos transporta até à batalha a fim de poder libertar os “demónios,” como forma de exorcizar a consciência colectiva do povo português. De salientar a linguagem utilizada: coloquial, moderna, descomplexada, com uma mescla de expressões familiares e populares que pretendem também com o recurso à ironia, desmistificar a lenda. De acrescentar que orquestração e letra estão interligadas por uma desenvoltura na interpretação própria de um “trovador” histórico da música portuguesa - Sérgio Godinho.
A primeira quadra satiriza através da repetição do verbo “investir”a medida julgada correcta - a de apostar no Norte de África. O terceiro e quarto versos
50
139 ridicularizam, por hipálage -“cavalo atulhado de livros de história” em alusão a D.Sebastião que, segundo o Padre Amador Rebelo51, seu mestre, gostava imenso de ler livros de feitos históricos. A introdução das guitarras de fado na guerra ameniza a violência que se perspectiva. A segunda quadra destaca o tom irónico da hipoteca do país resultante da atitude assumida. A quadra seguinte apelida o rei de” pedante”, vaidoso, autoritário –“…Quem manda aqui sou eu”. A quarta quadra apresenta uma das razões da derrota portuguesa – o desconhecimento do terreno. A aventura bélica está presente no tema musical com uma parte desconcertante, com sons soltos, desgarrados, projectando a ideia de desorganização, de violência que desemboca na imagem satírica do rei ter perdido a guerra e ainda ver como companhia na cama uma espanhola referência - à mulher de Filipe II de Espanha – Ana de Áustria. A sátira prossegue com a imagem da morte de um jovem a beber como se de uma taberna se tratasse a explicar a frase que historicamente lhe é reconhecida: de não ter aceitado rendição e ter respondido que “…morreria sim mas devagar! …”Sérgio Godinho conhecedor de tal frase atribuída ao rei utiliza mais uma vez o tom sarcástico para menosprezar o rei.
Finalmente, a última quadra culmina com o nevoeiro, arquétipo desprezado pelo poeta pela forma leviana com que aborda a questão:”…apanhou tal dose do tal nevoeiro “.O poeta aproveitou o nevoeiro para inventar a doença da tuberculose e divertir-se, uma vez mais, com o argumento de ter tido, finalmente, um funeral digno homenageado, em presença, por princesas, reis e outros aristocratas. Este é, segundo Gilbert Durand, um mitologema 52da sociedade portuguesa ” o do salvador, do rei que
espera, escondido a hora de regresso “Contudo, com este cantautor o mitologema
surge de forma invertida, negando-o pela forma sarcástica. A expressão final “Viva
Portugal”pretende evidenciar o desprezo que este mitologema desperta no autor – um
cansaço de um país que persiste, até agora, adiado a viver sob a alçada de um sebastianismo53
Símbolo da utopia de um povo infeliz e secularmente oprimido (pela coroa, pela igreja, pelo Estado, por ditadores, por potências estrangeiras, potentados económicos, etc.), mas também igualmente pouco ou nada habituado a ser dono do seu próprio destino e que se sente eternamente órfão de um líder iluminado que o encaminhe, num futuro mais ou menos distante,
51
Idem p.72 nota de rodapé (16)
52
-Durand Gilbert - (1986). O imaginário português e as aspirações do ocidente cavaleiresco. Lisboa instituto nacional de investigação científica p.16
53
-Machado Pires, (2005) E -utopia: Revista electrónica de estudos sobre utopia. Internet disponível em http:/www.letras.up./pt/upi/utopiasportuguesas/e-topia/revista.htm (consultado em 25de Junho de 2010)
140 para um horizonte de glória (…) povo (…) que o leva a gostar de carismas, auras míticas, destinos de missão, promessas milagres salvações espectaculares …um povo (generoso mas imprevidente ?!) que pensa mais com o coração do que com a cabeça …só a verdadeira cultura e a educação darão mais autoconfiança colectiva.
Sérgio Godinho, com este tema, pretende denunciar o sintoma de decadência, endógeno do povo português em se iludir na “emergência cíclica do inconsciente cultural português, em períodos de crise, de viragem, de profunda mutação do mito sebastiânico (ou de tendências messiânicas que com ele se confundem) “.O poeta insurge-se contra a mitogenia como força impulsionadora do pensamento e da arte (incluindo a literatura). Os portugueses gostam de mitos; não os enterram, glosam-nos, desenvolvem-nos.54
Os portugueses fomentam este mitologema porquanto ele parece constituir-se como resposta patriótica do subconsciente colectivo.
Já Almeida Garrett, na obra de carácter dramático leccionada no programa do 11º ano do Ensino Secundário - “Frei Luís de Sousa”, ao provocar a tragédia familiar, pretendia apelar para a necessidade de expurgar o sentimento patriótico do povo português. Como mensagem, transparece a ideia que o passado saudosista e todas as conotações daí advindas assombram e, consequentemente, impedem a regeneração da consciência colectiva do povo. Urge colocar, por isso, um final peremptório, abrupto, tal com termina o tema musical, exprimindo a impaciência de quem acredita na mudança de mentalidade.
1.2-Metodologia
Neste capítulo pretendemos apresentar e justificar a opção metodológica efectuada no decurso da investigação. De acordo com os objectivos e as questões de investigação realizadas para a evolução deste estudo, já revelados na introdução, escolhemos a metodologia de técnicas de índole qualitativa (recolha e análise documental, estudo de caso). Ponderada a natureza do objecto de investigação e dos objectivos traçados, esta metodologia seria a que melhor nos permitiria atingi-los, ambicionando sempre poder elaborar uma potencial solução para o problema.
Pilar Servau e Inmaculada Servau (2000:222) consideram o estudo de caso Uma metodologia que se mostra especialmente útil, tanto como método de investigação baseado na descrição e análise de uma social determinada, como quando constitui uma estratégia didáctica para compreender e interpretar factos e situações sociais que nos ajudem a avançar no nosso próprio trabalho profissional.
54
141 Nas Ciências Sociais e Humanas, o estudo de caso como processo de investigação permite a construção de novas teorias. Opõe-se ao estudo de massas, debruça-se no estudo de um certo e determinado facto de um problema. Esta metodologia permite inferir da recolha de determinada informação factual tanto para comprovar as nossas hipóteses como para infirmá-las. Segundo Tuckman (2000:37) “o problema de estudar deve estabelecer uma relação entre duas ou mais variáveis e deve ser tratável por métodos empíricos, ou seja, deve ser possível recolher os dados que respondem à questão ou questões formuladas.”
É nossa preocupação fundamental obter dados empíricos que possam fundamentar o estudo e “justificar” ou não a relação entre variáveis equacionadas complementadas com a informação teórica obtida a partir da revisão da literatura. Partimos do pressuposto de que a metodologia seleccionada nos facultaria os dados para atingirmos os objectivos propostos.
No que se refere à recolha de dados optámos pela técnica de apresentação de um teste de diagnóstico tanto à turma A – designada turma controle, como à turma B nomeada turma experimental. Esta investigação decorreu em 3 etapas distintas: a primeira teve lugar no 1º teste de diagnóstico, a segunda aconteceu durante as aulas ministradas à turma experimental com o apoio dos poemas musicados de intervenção e a última com a realização do mesmo teste às duas turmas.
Enquanto a turma A seguiu o seu percurso normal de aulas, a turma B recebeu durante nove aulas apoio complementar com audição e interpretação e análise de poesias musicadas de intervenção relacionadas pela sua intertextualidade com os conteúdos programáticos da disciplina de Português do 11º ano. Estes momentos musicais desenrolavam-se durante 30 minutos em aulas alternadas retomando o discurso considerado normal da aula nos restantes 60 minutos. Este estudo de caso foi realizado durante 9 aulas intercaladas.
Após ter terminado este trabalho experimental, tanto os alunos da turma de controlo A, como a turma experimental B realizaram, sem pré-aviso, o mesmo teste diagnóstico, já efectuado no início do estudo. Os resultados serão apresentados e devidamente analisados num capítulo subsequente.
142 A estratégia utilizada no decurso do estudo empírico efectuado não visa generalizar conclusões para além do universo do nosso trabalho. Não obstante, é nosso desejo não só elevar os índices motivacionais dos alunos como comprovar as vantagens advindas do recurso aos poemas musicados. Pretendemos conhecer melhor as realidades em estudo para que a acção desenvolvida pelos professores em sala de aula acompanhe o processo evolutivo da sociedade. Urge, por isso, reflectir e melhorar a nossa prática, enquanto professores e fazer com que a sala de aula se torne um espaço de esforço e de partilhado bem-estar.
1.3-Procedimentos
Após definição do universo a estudar – alunos que no ano 2009/2010 frequentam o 11º ano de escolaridade procedeu-se à escolha da Turma de Controlo (apelidada também de A) constituída por 19 alunos e a Turma Experimental (também denominada de B) formada por 25 alunos.
Após elaboração do teste diagnóstico por parte das duas turmas, procedemos à aplicação de poesia musicada de intervenção aos alunos da classe experimental. Foram seleccionadas fichas à medida que as aulas iam decorrendo. Com efeito, a turma experimental, partilhou em aulas intercaladas de 90 minutos, de 30 dos quais da referida poesia, por razões não somente de eficácia como também programáticas. Os alunos da turma Experimental usufruíram em 9 aulas do contributo de várias estratégias que se foram adaptando aos diferentes momentos e conteúdos do programa.
Num primeiro momento os alunos foram convidados a elaborar uma contextualização da poesia musicada de intervenção entre 1960 e o 25 de Abril recorrendo a toda a tipologia de material didáctico conseguido tanto em pesquisa realizada em casa como na biblioteca da escola. De seguida, e após duas audições do poema musicado, os alunos tiveram tempo disponível (aproximadamente 10 minutos) para responderem à ficha recebida pelo professor. 55 Por norma, a primeira questão aborda aspectos que se referem à parte musical - ritmo, melodia e harmonia; a segunda, terceira e quarta questões exploram aspectos de interpretação, entre as quais uma de teor gramatical. A última estabelece o paralelismo com os elementos intertextuais evidentes
55
143 entre o poema musicado e o conteúdo programático abordado. Por último, os alunos já acompanham a canção, cantando empenhados, partilhando o entusiasmo veiculado pelo tema musical. As estratégias foram-se moldando, de acordo com as circunstâncias. Por dois momentos, os temas foram interpretados integralmente pelos alunos, sob acompanhamento musical à viola do Professor. Numa outra situação lectiva, o tema musical foi apresentado através da projecção vídeo com recurso à internet do “You- tube”56 .