Apresentamos a seguir o trabalho investigativo desenvolvido ao longo do processo e todas as modificações, reestruturações e mudanças de rota que se fizeram necessárias. Inicialmente, tínhamos o objetivo de investigar o processo de escolarização e suas relações com o desenvolvimento cognitivo na população de alunos com deficiência auditiva/surdez matriculados nas escolas da sede do município de Tauá- CE.
Com base nesse objetivo inicial, realizamos um levantamento dos trabalhos na plataforma de dados da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações – BDTD utilizando os descritores “surdez e alfabetização” e “surdez e escolarização”. Os trabalhos selecionados, naquele momento, foram analisados e constituíram um texto apresentado no momento do exame de qualificação.
Com a reformulação dos objetivos da pesquisa, sentimos a necessidade de realizar um novo estudo documental que contemplasse o processo de constituição social da pessoa com deficiência auditiva. Analisamos alguns trabalhos contemporâneos na perspectiva histórico cultural, evidenciando aspectos relevantes nas discussões atuais. Esse estudo corresponde ao 3º capítulo dessa tese.
Em meados do segundo ano do doutorado, iniciamos os contatos (via e-mail e por telefone) com as instituições públicas do município de Tauá para a realização de um levantamento da população de alunos com deficiência auditiva/surdez matriculados na sede do município e obter as autorizações necessárias para o envio do projeto ao Comitê de Ética e Pesquisa – CEP. Naquele ano de 2017, a população de alunos com deficiência auditiva/surdez frequentando as escolas da sede do município correspondia a 5 alunos.
Com a autorização do CEP e com o levantamento realizado fizemos nossa primeira imersão no campo investigativo. Viajamos até o Ceará e visitamos as escolas que haviam sido escolhidas para a realização da pesquisa. Entramos em contato com os pais e responsáveis dos alunos selecionados informando sobre a pesquisa, convidando-os a participarem do estudo. Após os aceites, agendamos as entrevistas que foram realizadas nas escolas onde esses alunos, respectivamente estudavam.
Naquele momento da investigação, contamos com o apoio de alguns professores que atuaram tanto como intérpretes como auxiliares de pesquisa, principalmente nas filmagens. Participaram da entrevista, 4 dos 5 alunos selecionados (2 alunos oralizados; 1 aluna usuária de gestos e sinais caseiros e 1 aluno em processo de oralização). A outra participante (usuária da Libras) já se encontrava de férias e, por esse motivo, não pode participar.
Com as entrevistas em mão, retorno para Campinas, para o processo de transcrição do material. As entrevistas orais demandaram tempo mas foram logo transcritas, no entanto, a entrevista da aluna usuária de gestos e sinais caseiros exigiu um esforço extra para transcrição. O processo de transcrição foi realizado de maneira lenta e cuidadosa. A gravação foi assistida repetidamente e foram feitas várias tentativas de identificar e separar o que eram sinais em Libras do que eram sinais caseiros, resultando numa glosa de caráter descritivo, depois transformada em narrativa.
Com a glosa realizada e decorrido um período de afastamento de um semestre, retorno ao campo para uma segunda imersão. Nessa ocasião objetivamos realizar a entrevista com a outra aluna usuária de Libras que foi agendada via secretaria Municipal de Educação e que contou com a participação da intérprete do município. Em seguida, fiz a tradução da entrevista para a língua portuguesa escrita e encaminhei para uma profissional da área, formada em Letras e professora de uma escola bilíngue para surdos em Campinas, que fez a revisão do material e as adaptações necessárias. Esse material constava no texto apresentado no exame de qualificação.
Nessa segunda imersão, senti necessidade de conversar com as professoras que atuaram como intérpretes na entrevista da aluna usuária do gestos e sinais caseiros. Entrei em contato com as profissionais e agendamos um momento na APAE, onde a entrevista foi exibida e, em seguida, realizamos uma roda de conversa sobre aquele momento25.
De volta a Campinas, inicio o processo de organização do material empírico e de preparação do texto para o exame de qualificação, que foi apresentado juntamente com algumas proposições e possibilidades de análise. Após o exame, que ocorreu em fevereiro de 2019, fizemos a escolha de dois casos prototípicos (José, o do participante mais jovem, que estava em processo de oralização e Maria do Patrocínio, a participante mais velha e usuária de gestos e sinais caseiro) para aprofundamento no estudo.
Em seguida, organizamos a terceira imersão no campo investigativo para reconstruir a ambiência cultural onde os participantes estavam inseridos e seguimos para o Ceará. Estando em Tauá, procuramos a família de Maria do Patrocínio e realizamos uma entrevista com seus pais. Com essa entrevista transcrita, retornamos para conversar novamente com a família e esclarecer algumas dúvidas e lacunas que surgiram.
Nessa segunda entrevista estava presente somente o pai, que nos respondeu questões relacionadas principalmente ao período de desconfiança da surdez. Como foram
surgindo mais dúvidas sobre a possível causa da surdez e eu já havia retornado para Campinas, solicitei o auxílio de uma professora da Universidade Estadual do Ceará, que foi até a residência da família e, dessa vez, entrevistou a mãe de Maria do Patrocínio.
Concomitantemente às entrevistas, solicitei a autorização da Secretaria de Educação para consulta aos arquivos do NAPE referentes à passagem dos dois participantes pelo serviço. Por conta da organização do arquivo, não conseguimos encontrar muitos registros sobre a frequência de Maria do Patrocínio na instituição. Com relação a José, foram encontrados seus prontuários e fichas de triagem, que foram copiadas e ajudaram ao pesquisador compor o quadro de desenvolvimento dele.
Ainda nesse momento de imersão no campo, entramos em contato com alguns profissionais que trabalharam com as pessoas surdas/com deficiência auditiva no município e convidamo-los para participarem da pesquisa. Aceitaram o convite: uma pedagoga que trabalhou no serviço de itinerância e na sala especial do CEJA; uma pedagoga que trabalhou no NAPE e no momento encontrava-se na Sala de Recursos Multifuncionais, a técnica da educação especial do município e uma fonoaudióloga que trabalhou no município na década de 1990.
Essas entrevistas foram transcritas e passaram a compor um banco de dados do pesquisador. Algumas delas foram utilizadas nessa investigação, enquanto outras, em virtude do tempo para análise, foram arquivadas.
No retorno para Campinas, o desafio foi de organizar esse material e dar-lhe a forma de uma narrativa. Foram feitas várias tentativas de interpretação do material empírico que foram se constituindo como versões da tese.