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Couplage entre deux structures spatio-temporelles

2.5 Structure spatio-temporelle des déformées

2.5.3 Couplage entre deux structures spatio-temporelles

“Livra-te da filosofia da história”111, recomenda o personagem Pedro Antão, do conto “Os óculos de Pedro Antão”. Esta disciplina, que pertence tanto à área de Filosofia quanto à de História, apresenta e analisa as diversas interpretações filosóficas dessa ciência que estuda os eventos passados, opondo-se à mera coleção e repetição de informações sobre o tempo que passou.

A teoria do medalhão, como já foi visto, ensina que Filosofia da História é uma locução que deve ser empregada com frequência, mas sem reflexão ou originalidade. Não obstante, Machado de Assis, que não foi filósofo, pensou a respeito da dimensão temporal da existência humana, pondo em discussão as teorias do progresso, da evolução e da descontinuidade histórica.

Significativamente, a primeira menção de Machado ao niilismo é acompanhada de uma reflexão sobre a história. Na crônica de 2 de junho de 1878, que reporta um incêndio no paço municipal de Macacu, município da região serrana do estado do Rio de Janeiro, o cronista Eleazar faz uma irônica referência às “consequências niilistas da história”112:

Também a história é tão loureira, tão disposta a dizer o sim e o não, que o melhor que pode acontecer a uma cidade, a uma vila, a uma povoação qualquer, é não a ter absolutamente; e para isso a maior fortuna seria aplicar o niilismo aos documentos. Entreguemos os sábios vindouros ao simples recurso da conjetura; aplicação higiênica, algo fantástica, e sobretudo pacífica113.

A irônica citação acima sugere duas questões sobre as quais é preciso se deter: (1) as consequências niilistas da história; (2) a história como loureira, que é o assunto desta seção. O primeiro ponto será discutido no decorrer desta tese, especialmente no segundo capítulo, que busca o conhecimento das condições e circunstâncias nas quais o niilismo nasceu, sob as quais se desenvolveu e se modificou, mostrando que o niilismo coincide com a dominante cultural da Europa oitocentista, motivo pelo qual Nietzsche cunhou a expressão “niilismo europeu”.

111 ASSIS. Contos avulsos I, p. 1254.

112 Nietzsche anotou essa frase, mas não desenvolveu o texto. Cf. NIETZSCHE. Nachgelassene Fragmente

1885-1887, p. 127.

A palavra “loureira” nomeia a mulher que procura agradar, seduzir; em uso pejorativo, significa prostituta, meretriz. A concepção de história como loureira – posteriormente retomada por Walter Benjamin114 – rompe com a tradição teleológica para a qual a história é o cenário do progresso da racionalidade humana ou de desígnios divinos, tendo-se por meta alcançar um objetivo transcendente.

De um modo geral, a concepção teleológica da história pressupunha as noções de linearidade, progresso e a busca de uma explicação abstrata e unidimensional do mundo, fabulações decorrentes de uma má interpretação existencial da vida, que vê desenvolvimento vital e aprimoramento de forças criativas do ser humano onde pode haver declínio e retrocesso.

Machado, opondo-se às perspectivas teleológicas e evolutivas que impregnam o pensamento moderno, tanto em suas vertentes idealista, marxista e positivista, atacou o credo oitocentista segundo o qual a sociedade europeia de então, em decorrência dos inúmeros avanços técnicos advindos da Revolução Industrial, representava o ápice de plenitude do desenvolvimento humano, de tal modo que as gerações precedentes e as civilizações não- europeias eram consideradas inferiores:

Dei um exemplo de defeitos que achem análogos em outras terras, sem diminuí-los da grandeza, como nos não diminuem os nossos. Nem por isso deixamos de caminhar todos na estrada da civilização, uns mais acelerados, outros mais moderados. Não vamos crer que a civilização é só este desenvolvimento da história, esta perfeição do espírito e dos costumes. Nem por ser uma galera magnífica, deixa de ter os seus mariscos no fundo, que é preciso limpar de tempos a tempos, e assim se explicam as guerras e outros fenômenos115.

Na prosa machadiana, a marcha progressiva sempre aparece lapidada e corroída internamente por um contramovimento destrutivo, de modo que a realização evolutiva no tempo é aniquilada por uma desrealização que lhe é solidária. Esse significado machadiano do progresso temporal se revela no princípio formal da volubilidade, com seu emaranhado de marchas e contramarchas em tempo, espaço e assuntos116.

No capítulo IV de suas Memórias póstumas, Brás Cubas também se opõe à interpretação teleológica que confere um sentido único e uma racionalidade à história: “a

114 “O historicista apresenta a imagem ‘eterna’ do passado, o materialista histórico faz desse passado uma

experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz ‘era uma vez’. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história”. BENJAMIN. Sobre o conceito da história, p. 230-231.

115 ASSIS. A Semana, p. 1181.

volúvel história que dá para tudo”, “com os seus caprichos de dama elegante”, é uma eterna loureira, sujeita a releituras e reinterpretações117. Quer dizer, o passado não deve ser compreendido como algo pronto e acabado, mas sim como uma instância determinada pelo presente, tendo em vista que a ação do presente sobre o passado o ressignifica. Recusando a ideia de que o homem seja uma aeterna veritas, uma medida segura das coisas, o defunto autor afirma que o homem, “senhor da Terra”, é uma “errata pensante”, indicando que não há télos, constância e continuidade na história:

Mas é isso mesmo que nos faz senhores da Terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes118.

“Não existe um telos no horizonte ficcional de Machado de Assis”119, porque o ser humano não está predeterminado em um modo de ser, não está condicionado por uma essência preestabelecida. Ao contrário, o ser humano descobre suas possibilidades de ser ao longo da vida. E o editor dá a edição definitiva aos vermes porque o homem moderno não conseguiu alcançar a imortalidade, que a religião promete e a ciência persegue, mas que dinheiro nenhum pode comprar e exército algum pode conquistar. A conservação da saúde, a busca do elixir da vida, da fonte da juventude, foi uma obsessão do homem moderno, como bem ironizou Machado com o já mencionado emplastro Brás Cubas.

A morte, a finitude da vida, foi justamente aquilo que Brás Cubas, enquanto vivo, mais temia, por entender que eterna é esta vida tal como a vivemos aqui e agora – daí o silêncio sobre o “processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo”120.

Em face à multiplicidade de forças que configuram a incerteza da vida e a indeterminação da história, Machado não se detém ante a contradição das opiniões e suspeita do sentido histórico dos fatos, afirmando a finitude a partir de uma temporalidade que não é cumulativa nem evolutiva, mas um constante recomeçar que só cessa com a morte.

117 ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas, IV, p. 629. 118 ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas, XXVII, p. 662. 119 CORDEIRO. A outra herança de Rubião, p. 156. Grifo original.

120ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas, Ao leitor, p. 626. Machado parece recusar qualquer ontologia

substancialista que aceite a existência de entidades últimas, sejam elas de natureza psíquica ou física. O assunto será discutido, mais adiante, na seção “O louco e a viúva de deus”.

Machado, mergulhado na experiência da indeterminação da história, concebe suas produções literárias como formas de intervenção no devir, que não serve de moldura ou contexto a coisa alguma: “Quando muito, podia apelar para a História. Mas a História é pessoa entrada em anos, gorda, pachorrenta, meditativa, tarda em recolher documentos, mais tarda ainda em os ler e decifrar”121.

Essa concepção machadiana da história, sumamente cética e irônica, afastada do historicismo típico do século XIX, foi influenciada pela tradição luciânica, sobretudo em sua tendência para privilegiar a ironia, e a imaginação e para rejeitar todo sistema filosófico totalizador. Loureira, provocante e infiel, a história se aproxima mais do simbolismo da lenda e da arte do que da objetividade da ciência122.

Tal visão da história também se aproxima bastante dos moralistas franceses dos séculos XVII e XVIII, que se interessavam pelo homem sem recorrer à metafísica ou à teologia; examinavam a conduta humana sem buscar fundá-la em princípios transcendentes. Compreendendo a história como uma mistura desordenada de ações, eventos, situações morais, costumes, arranjos sociais e traços de caráter, não a consideravam uma ciência. Pouco lhes importava se tinha inteligibilidade ou não, o que contava era o seu uso para compreender o ser humano123.

Pode-se concluir que o escritor brasileiro apresenta uma imagem da história não- evolucionista que, tomada a um repertório anterior ao sentimento moderno da história como progresso, não deixa lugar para o moderno sentimento da história teleológica – se a história não tem fim, objetivo ou télos, seu sentido não pode ser apreendido de antemão, tampouco é possível identificar a lei de seu desenvolvimento. Ora, essa fórmula inspirada no Setecentos europeu, quando deslocada para o contexto brasileiro de modernização capenga, se adapta perfeitamente à nossa história volúvel, que facilmente muda de direção, passando do Império à República com a mesma facilidade (ou dificuldade) com que uma confeitaria troca de placa. Adequa-se, ainda, à história moderna, na qual tudo que é sólido desmancha no ar.

Se a obra de Machado de Assis constrói-se sob o signo da representação histórica, como ensinam Schwarz, Faoro, Gledson e Chalhoub, foi com essa concepção de história loureira e volúvel que o escritor interpretou a história da sociedade brasileira oitocentista e o niilismo nela presente. Mas isso é assunto para os próximos capítulos.

121 ASSIS. A Semana, p. 915.

122 Cf. REGO. O calundu e a panaceia, p. 152-164.