O conhecimento da doutrina cristã ajuda a entender o problema do niilismo, porque o cristianismo fornece categorias que fundam a obra de autores como Pascal e Dostoievski, além de ser presença constante na obra de Machado de Assis, que foi um leitor interessado nos problemas espirituais e suas incidências políticas, incluindo as polêmicas religiosas que animaram o fim do século XIX.
A institucionalização do cristianismo teve início em 312 d. C., com a conversão de Constantino. Ao longo de todo o século IV a Igreja Católica terá o apoio incondicional da maioria dos Césares, tornados cristãos. Entre os séculos V e VI o cristianismo tornou-se a fé que a maioria dos ocidentais abraçavam; as pessoas passaram a nascer cristãs como antes nasciam pagãs. Popularizado pelos milagres das relíquias, pelo carisma de alguns líderes e pela autoridade dos bispos, esse cristianismo transformado em hábito será automático e sincero como os outros hábitos, e como eles dissimétrico: são respeitados por costume, sem que se saiba o motivo5.
Segundo Heinrich Heine, essa vitória definitiva do cristianismo provocou uma metamorfose nas antigas divindades greco-romanas, transformadas em demônios. A crença
4 CALDWELL. Machado de Assis: the Brazilian master and his novels, p. 112. 5 Cf. VEYNE. Quando o nosso mundo se tornou cristão, p. 70.
popular atribuiu então àqueles deuses uma existência real, mas maldita, opinião que estava de acordo com a doutrina da Igreja, que os tratava como espíritos malignos destronados pelo poder de Cristo6.
Não obstante, afirma Paul Veyne, a difusão do cristianismo também ocorreu através da paganização, isto é, do sincretismo com práticas da antiga religião greco-romana. Enquanto os antigos tinham um fervor pessoal por uma divindade, os católicos podem ter devoção por um santo. Se os santos e a santíssima trindade dão um aspecto politeísta ao monoteísmo católico, os fiéis não se fazem de rogados e recorrem a santos para solicitar o que os chamados pagãos pediam a seus deuses: prosperidade, cura, segurança, amor, sucesso, etc. Nos primórdios do cristianismo havia peregrinações aos túmulos dos mártires e santos, faziam-se procissões em caso de seca, celebravam-se missas pelas colheitas e pelos rebanhos – ações que, em menor medida, ocorrem ainda hoje.
Veyne avalia que o sucesso inicial do cristianismo primitivo junto à elite romana deve-se à autoridade sobre-humana que emanava de Jesus Cristo. Para quem tinha fé, a existência recebia de repente uma significação eterna no contexto de um plano cósmico, coisa que não lhe dariam nem as filosofias da época nem o paganismo. Graças ao Deus cristão, a vida recebia a unidade de um campo magnético no qual cada ação, cada movimento interior adquiria um sentido – bom ou mau – que o próprio homem não se dava por si próprio, mas o orientava na direção de um ser absoluto e eterno.
O sucesso do cristianismo se explica também pelo dogma do inferno, que mais exalta a doutrina cristã do que a prejudica. Os inventores do infernum (profundezas da Terra) e das penas eternas em dobro (o fogo, no sentido próprio da palavra, e o castigo da privação de Deus) ainda hoje aterrorizam um grande público, porque muitas pessoas se deixam impressionar pelas ficções apavorantes. O Deus de amor e de justiça é também o Deus impiedoso que pune e aterroriza. Com sua invenção de um Deus do amor que criou o inferno, se poderia reprovar-lhes o fato de terem criado um personagem incoerente, mas uma doutrina religiosa não pretende ter uma coerência lógica.
Mas, afinal, a principal razão para o sucesso do cristianismo está em outro ponto, avalia o historiador francês. O medo da danação não era o principal motivo das conversões, mas sim o que torna o cristianismo uma das religiões de salvação: o amor de Deus. Nesse sentido, os motivos para alguém se converter eram mais elevados do que o medo da morte:
Não era a uma esperança no além que se deviam as conversões, mas a algo muito mais amplo: à descoberta pelo neófito de um vasto projeto divino do qual o homem era o destinatário e no qual a imortalidade e até mesmo a incerteza da salvação eram apenas implicações. Através da epopeia histórico-metafísica da Criação e da Redenção, com seus efeitos de sombra e de luz, sabe-se agora de onde viemos e para que estamos destinados. Sem essa epopeia exaltadora, a crença na imortalidade da alma não seria mais do que uma superstição insuficiente para fazer mudar de vida7.
Essa fé implicava, aos olhos dos convertidos, que a Providência preparava o caminho da salvação para a humanidade. Se Deus engloba o mundo em seu imenso amor e lhe prepara um destino sublime, o crente prova em seu coração desse mesmo amor, e encontra a divindade presente em si mesmo.
Ao humilhar-se diante dessa divindade amorosa – “todo aquele que se humilhar será exaltado”8 – o cristão passa a pertencer a seu alto projeto, confessa ser pecador diante de sua grandeza, se oferece a essa divindade com o coração contrito e reconhece sua soberania, para louvá-la e exaltá-la. Nessa relação pessoal com Deus, suporta-se o martírio para não renegar a fé. Despreza-se a vida terrena em nome da esperança de uma destinação sobrenatural.
Segundo Blaise Pascal, Jesus Cristo teria ensinado aos homens que eles eram “escravos, cegos, doentes, infelizes e pecadores; que era preciso que ele os libertasse, esclarecesse, beatificasse e curasse, que isso se faria pelo ódio de si mesmo e seguindo-o pela miséria e a morte na cruz”9. Nesse sentido, o cristianismo é uma religião que propõe o ódio de si, sendo, assim, capaz de agradar àqueles que odeiam a si mesmos e que procuram um ser superior verdadeiramente amável. Diante de Deus, o homem deve aniquilar-se e igualar-se aos vermes da terra, reconhecendo que nada se pode sem ele e que nada se mereceu dele, afora estar em desgraça: “É preciso amar só a Deus e odiar só a si mesmo”10, apregoa Pascal.
Machado de Assis ironiza essa obediência às injunções morais que alimentam a metafísica cristã e geram essa demanda por um mundo suprassensível que redima e justifique a vida na imanência. O cronista de “A Semana”, em um texto de 11 de junho de 1893, dessacraliza a sagrada escritura, ao emendá-la, tirando-lhe o caráter inviolável, o purismo e a venerabilidade:
– Certamente, este mundo é um baile de casacas alugadas.
7 VEYNE. Quando o nosso mundo se tornou cristão, p. 22. 8 BÍBLIA. Evangelho segundo São Lucas, 14, 11, p. 1368. 9 PASCAL. Pensamentos, §271 (545), p. 109.
Meditei sobre a idéia, e cada vez me pareceu mais verdadeira. Os desconcertos da vida não têm outra origem, senão o contraste dos homens e das casacas. Há casacas justas, bem-postas, bem-cabidas, que valem o preço do aluguel; mas a grande maioria delas divergem dos corpos, e porventura os afligem. A dança dissimula o aspecto dos homens e faz esquecer por instantes o constrangimento e o tédio. Acresce que o uso tem grande influência, acabando por acomodar muitos homens à sua casaca.
Condoído desse melancólico espetáculo, Jesus achou um meio de corrigir os desconcertos, removendo deste mundo para o outro a esperança das casacas justas. Bem-aventurados os mal-encasacados, porque eles serão vestidos no céu!11.
Machado parece compreender o niilismo cristão como um modo de relação com a existência orientada pela negação, oposição, contradição, ou, em termos mais cristãos, acusação, justificação, superação, redenção, salvação. A visão de mundo cristã pressupõe que a vida é culpada, faltosa, injusta e que, portanto, deveria ser justificada através da redenção. É este o ponto de vista contra o qual o cronista de “A Semana” volta-se, conforme texto de 24 de setembro de 1893: “preferi a terra com os seus pecados ao céu e suas bem-aventuranças”12.
O cristianismo, ao renegar os impulsos naturais do homem, considerando-os pecados, desvios e tentações, teria transformado em um ideal a oposição aos instintos de conservação da vida saudável. Apregoando o sacrifício da vida e da energia vital, a moral cristã enfraqueceria as paixões revigorantes que aumentam a sensação de viver em favor da fé em um poder transcendente: a lei ou a vontade de Deus.
Dado que o traço fundamental da vontade humana é o seu horror vacui, ela tende a reagir à falta de uma meta e de um porquê com a criação de uma nova meta e de um novo porquê, mesmo que agora se trate do “nada”: “em todas as religiões pessimistas chama-se ao nada Deus13”, avalia Nietzsche. O “nada” só se torna objeto da última vontade do homem quando este já sente o seu horror ao vácuo, isto é, quando o próprio mundo aparece como um “nada” e, portanto, não oferece à vontade nada que ela possa querer ou desejar. No caso do niilismo cristão, a vontade humana acaba por criar ainda valores niilistas, que implicam a negação da existência e a difamação da vida terrena. Resta então ao homem a sua última vontade, a vontade de nada14.
O niilismo começa com um deslocamento metafísico do centro de gravidade da vida em direção a outra esfera que não ela mesma. A depreciação promovida pelo cristianismo pressupõe a ideia de um mundo suprassensível (Deus, a essência, o bem, o
11 ASSIS. A Semana, p. 991-992. 12 ASSIS. A Semana, p. 1020-1021.
13 NIETZSCHE. Genealogia da moral, III, §17, p.123.
verdadeiro) que nega a vida terrena. A vida inteira torna-se então irreal, representada como aparência, assumindo em seu conjunto um valor de nada:
Quando se coloca o centro de gravidade da vida não na vida, mas no “além” – no nada –, despoja-se a vida do seu centro de gravidade. A grande mentira da imortalidade pessoal destrói toda razão, toda natureza no instinto – tudo de benéfico, promovedor da vida, garantidor de futuro nos instintos passa a despertar suspeita. Viver de modo que já não há sentido em viver, isso torna- se o sentido da vida...15.
O cristianismo levou longe a tarefa de negação da vida, da depreciação da existência, de modo que o niilismo cristão se define pela maneira segundo a qual o cristianismo justifica a fabricação da culpa e a terrível equação dor-castigo, prolongando ao infinito a sede de julgar. Origina, assim, uma religião do poder baseada no sofrimento que acusa a vida, que testemunha contra ela, que faz da vida alguma coisa que deve ser justificada:
Haver sofrimento na vida significa primeiramente, para o cristianismo, que ela não é justa, que é mesmo essencialmente injusta, que paga com sofrimento uma injustiça essencial: ela é culpada visto que sofre. Em seguida, significa que ela deve ser justificada, isto é, redimida de sua injustiça ou salva, salva por este mesmo sofrimento que há pouco a acusava: ela deve sofrer visto que é culpada. Estes dois aspectos do cristianismo formam o que Nietzsche chama “a má consciência” ou a interiorização da dor. Eles definem o niilismo propriamente cristão, ou seja, a maneira pela qual o cristianismo nega a vida: por um lado a máquina de fabricar a culpa, a horrível equação dor-castigo; por outro lado, máquina de multiplicar a dor, a justificação pela dor, a fábrica imunda. Mesmo quando o cristianismo canta o amor e a vida, que imprecações nesses cânticos, que ódio nesse amor! Ele ama a vida como a ave de rapina ama o cordeiro: tenra, mutilada, moribunda16.
No desenho do itinerário cumprido pelo niilismo em sua história, o pessimismo cristão aparece como uma protoforma do niilismo porque com a sua doutrina fracassa a capacidade de dizer sim à existência, de desejá-la mesmo a partir de seus aspectos mais sombrios. Com isto, entra em colapso a confiança no poder da cultura de tomar as dores do mundo como estimulante e não como objeção à vida:
A atitude ressentida diante do sofrimento leva à criação de uma escapatória imaginária, segundo movimento no processo. Consolida-se a noção de que há um outro mundo que redime nossa condição dada neste – lugar dos valores superiores, da plenitude e da realização de tudo o que foi
15 NIETZSCHE. O Anticristo, §43, p. 50. Grifos originais. 16 DELEUZE. Nietzsche e a filosofia, p. 10. Grifo original.
efetivamente negado naquela experiência inicial. Uma moral dualista encontra nisso seu alegado fundamento absoluto, pois, se aqui governa o mal, o território do bem tem de ser alhures. Entretanto, mesmo a ideia de que a transcendência reserva algo melhor termina por ser esvaziada, num terceiro movimento do processo. O extraordinário refinamento alcançado pela consciência moderna tem como resultado o decreto da morte de Deus, circunstância em que o niilismo volta-se sobre si, aniquilando o que ele mesmo tinha produzido17.
Como instituição de combate às paixões, o cristianismo promove a despotenciação pulsional do homem. Quer dizer, a metafísica cristã opera no sentido moral de desnaturalização e espiritualização das paixões, lançando-as ao reino do mal. Tal teorização metafísica das paixões acabou por apaixonar a humanidade pela impotência:
Para Nietzsche, cristianismo e platonismo se confundem na fundamentação do Ocidente. Cristianismo – afirma, no Prólogo de Além do bem e do mal –, é platonismo para o povo. Enquanto instituições instauradoras de avaliações canônicas, são horizontes promotores do esgotamento e da despotenciação do homem diante de sua finitude. Porque subtraem do homem a boa consciência em relação à dinâmica que lhe garante vigor, são instituições promotoras de niilismo, de indiferenciação, de cansaço da vida. O que elas instituem é o pathos do em vão: paralisam os impulsos hierarquizantes e valorativos do homem, alienando-o, pois, do que seria sua tarefa fundamental, a tarefa de se colocar a própria meta, o próprio “para quê?” [...] O homem passa a não querer o que pode e a não poder o que quer; seus instintos são anarquizados pelas normas morais, baseadas em valores supostamente divinos, eternos, capazes de corrigir a falta constitutiva do devir humano, a distância do homem em relação à perfeição do ser, que metafisicamente é e não devém, isto é, não carrega em si o não-ser18.
O cristianismo, educando os devotos para a fé em suas próprias desgraças e culpas, fez os mais fiéis perderem a fé em si mesmos, gerando assim o niilismo, configurado como completa falta de sentido para o futuro. É daí que avalio, no rastro de Nietzsche, o pessimismo cristão como protoforma do niilismo.
Ao apresentar o homem como necessariamente decadente, vítima de seus instintos, o cristianismo torna-se uma instituição promotora do niilismo. “O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza”19, conclui Quincas Borba.
17 PIMENTA. Nietzsche, Thomas Mann e a superação do niilismo, p. 163. 18 OLEARE. Paixões transvaloradas, p. 44-45. Grifos originais.