VII. Troubleshooting Hints
3. COSMAC VIP Expansion Notes
O sentido de uma fronteira é ser atravessada. Mas Narciso quer permanecer ali, admirando- se no lago. E, por vezes, enamorado de sua dor, advinda da impossibilidade de realização do ideal. O sujeito do jogo narcísico tem no próprio corpo o objeto de desejo e nele se satisfaz, como aponta o austríaco Sigmund Freud (2003) no texto Introdução ao Narcisismo. Seu auto-erotismo desinteressado pela exterioridade, debruçado sobre si mesmo dada a dor da rejeição, pode levar a uma erogenização de órgãos internos compondo um hipocondríaco egoísmo. Uma paralisia que interrompe o devir.
Assim, um acontecimento pode configurar-se, neuroticamente, em trauma: a expulsão, castigo que reprime o desejo, pode ser de tal modo frustrante a ponto de impelir a libido para dentro. Se, para o dissidente, o primeiro exílio é o da família, o primeiro refúgio talvez seja sua própria interioridade.
É certo que Freud é uma figura basilar para o pensamento ocidental. Para Foucault (1995), compõe com Nietzsche e Marx uma tríade decisiva para a modernidade. Ainda assim, compreendo que, desde seu lugar de fala – homem, cis, branco, europeu, médico na Áustria do século XIX- foi incapaz de voltar suas análises sobre o processo narcísico para si, para sua condição, dada a própria subjetividade tão conformada pelo eurocentrismo que:
Não se refere a todos os modos de conhecer de todos os europeus e em todas as épocas, mas a uma específica racionalidade ou perspectiva de conhecimento que se torna mundialmente hegemônica colonizando e sobrepondo-se a todas as demais, prévias ou diferentes, e a seus respectivos saberes concretos, tanto na Europa como no resto do mundo
(QUIJANO, 2005, p. 126)
A este respeito, o argentino Jorge Baños Orellana (2003) chega a associar a arquitetura e a urbanidade de Viena, contempladas por Freud em suas constantes caminhadas, ao esquema psíquico de ego, id e superego proposto pelo criador da psicanálise. Reconhece, então, uma associação fundamental entre lugar e produção de conhecimento que, como a produção discursiva, para Michel Foucault, “é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” (FOUCAULT, 1996, p.9), estando a política e a sexualidade entre as regiões mais controladas no âmbito desta produção discursiva. Assim, não seria o desejo de verdade, apoiado em uma disciplinaridade coercitiva, que configuraria a escuta psicanalítica, já que sua intencionalidade está focada no deciframento do sentido em meio a aparente desordem das palavras? Não seria este desejo de verdade, engendrado em um contexto de racionalidade ocidental, a base dos processos de patologização?
Freud generaliza a noção de humanidade desde o imaginário grego e refere-se às culturas subjugadas ao cânone europeu como “primitivas”. Neste sentido, também patologiza as mulheres e, por extensão, os homossexuais - pelo que eles trazem de feminino - desde uma noção de normalidade que corresponde, justamente, aos seus privilégios. Um exemplo é a importância da histeria, diagnosticada principalmente em mulheres, para que ele consiga elaborar a noção psicanalítica de insconsciente, como nos fala o argentino Walter Mignolo (2016):
El hecho de que el nombre, histeria, provenga del griego es por un lado obvio y por otro sin importância. La cuestión abierta es si en Grecia, y antes en China o Persia y en Tawantinsuyu y Anáhuac, la población femenina padecía de tales trastornos nerviosos o será que fue la propria sociedad europea, masculinizada, y moralmente represiva, la que generó un tipo de desequilibro psicosomático con las características que observó y experimentó Freud. En el Tawantinsuyu los andinos conocían y conocen el “Tinku”. El
Tinku consiste en un ritual-actuación por medio del cual se armonizan los contrarios, que no
son nunca dicotomías sino complementariedad. La desarmonía y el desequilibrio desvía de la vida plena no, claro está, del individuo, sino de la persona en lo comunal. El Tinkus es un tratamiento del desequilibrio que más que conocerse, se siente, y se lo conoce porque se siente. Freud hizo, para los europeos, lo que el Tinku hacía y hace para los andinos, cada uno en su cosmología (MIGNOLO, 2016, p.32).
É, pois, nesse contexto masculinizado e de forte repressão moral - no qual as línguas francesa e alemã estruturam o inconsciente das pessoas atendidas/pesquisadas por Freud - que é constuída a psicanálise. E, por isso mesmo, “para la sanación decolonial no se necesitan psicoanalistas” (MIGNOLO, 2016, p.37). Ou seja, a ferida colonial, entendida aqui como a desvalorização de tudo que se diferencie do modelo eurocentrado, não pode ser sanada pelo simples emprego de uma prática terapêutica filosoficocientificamente engendrada no eurocentrismo da colonialmodernidade - ainda que Freud seja um sujeito judeu em uma Europa cristã, o que o desloca, em alguma medida, dentro de seu próprio eurocentrismo.
Homem branco de seu tempo, interessa-me sua percepção sobre o processo narcísico que, como defendo nesta Tese, conforma muito da colonialidade subjetiva ainda operante ou, para usar um termo de Suely Rolik (2018), do inconsciente colonial capitalístico. E n t e n d o q u e a compreensão freudiana sobre o insconsciente, sobre a libido e o trauma podem contribuir muito para o reconhecimento da dimensão colonial remanescente, mesmo em sujeitos não brancos - já que inegavelmente submetidos ao modelo idealizado de branquitude. Então, nessa perspectiva, guardado o distanciamento crítico, seu pensamento pode auxiliar no reconhecimento de modelos psíquicos com os quais nos deparamos no processo de reelaboração da ferida colonial, neste caso mais especificamente ao que tange à expulsão, ao deslocamento forçado que caracteriza o sexílio.
Em O Mal Estar na Cultura (FREUD, 2010), o psicanalista nos apresenta a tensão entre o desejo humano de felicidade e as dificuldades impostas pelo mundo externo que impedem a realização do gozo. Se ainda bebês estamos imersos num sentimento oceânico de totalidade que
ignora o que esteja para além de si, o seio materno seria o primeiro objeto de oposição a esse eu absoluto. Ele evidencia a existência de um mundo externo para o desejo infantil.
O princípio do prazer, segundo o qual buscamos a realização do desejo e a felicidade, não pode ser realizado. A felicidade é precária, acontece em momentos de satisfação, mas não pode ser mantida no tempo. A dor é mais constante dada a precariedade do corpo. Viver converte-se, desse modo, num processo contínuo de escapar ao sofrimento: sendo que a cultura aí exerce papel central, pois “a liberdade individual não é um bem cultural. (…) Por meio do desenvolvimento cultural, ela sofreu restrições, e a justiça exige que ninguém seja poupado de restrições” ( FREUD, 2010, p.98). Se, por um lado, nada é mais prazeroso do que a satisfação de um impulso selvagem, por outro a cultura atuará no sentido de conter tais impulsos para garantir uma vida social mais dócil. A solidão voluntária, as drogas e o sexo podem ser adotados como estratégias para escapar ao sofrimento. Mas também o trabalho psíquico e intelectual, a exemplo da produção científica e da criação artística que, compondo um processo de sublimação, conseguem “deslocar de tal modo as metas dos impulsos que elas não possam ser atingidas pela frustração do mundo exterior” (FREUD, 2010, p.69). Interessa-me particularmente pensar a produção artística nesse contexto, considerando- a objeto desta investigação:
No topo dessas satisfações fantasísticas se encontra o gozo de obras de arte, também tornado acessível a quem não é criador através da mediação do artista. Quem é sensível à influência da arte não tem palavras suficientes para louvá-la como fonte de prazer e consolo para a vida. No entanto, a suave narcose em que a arte nos coloca não é capaz de produzir mais do que uma fulgaz libertação das desgraças da vida, e não é forte o bastante para fazer esquecer a miséria real (FREUD, 2010, p.71).
É interessante notar que Freud opõe a arte à realidade, compreendendo-a como fantasia. Chega a compará-la ao efeito fugaz de substâncias narcóticas. Discordo desta compreensão por considerá-la redutora. Primeiro porque uma fronteira tão clara entre realidade e fantasia parece-me estar necessariamente ancorada numa compreensão demasiadamente objetiva, para não dizer cartesiana, sobre o que seria o real. Assim, a ideia de realidade em Freud (2010) ainda aparece como algo mensurável objetivamente, independente da subjetividade do observador.
Contudo, como nos aponta o português Boaventura de Sousa Santos (2010) desde Einstein e a mecânica quântica, o modelo de racionalidade científica dominante é posto em cheque. Herdeiro da revolução científica do século XVI, tal modelo se desenvolve sobretudo no âmbito das ciências naturais, estendendo-se às emergentes ciências sociais apenas no século XIX. Desde então, compõe com essas um tipo de unidade totalitária, auto-referencial, que exclui a produção de conhecimento advinda do senso comum e dos estudos humanísticos:
conhecemos do real senão nossa intervenção nele, está bem expressa no princípio da incerteza de Heisemberg: não se podem reduzir simultaneamente os erros da medição da velocidade e da posição das partículas; o que for feito para reduzir o erro de uma das medições aumenta o erro das outra. Este princípio, e, portanto, a demonstração da interferência estrutural do sujeito no objecto, tem implicações de vulto. Por um lado, sendo estruturalmente limitado o rigor do nosso conhecimento, só podemos aspirar a resultados aproximados e por isso as leis da física são tão só probabilísticas. Por outro lado, a hipótese do determinismo mecanicista é inviabilizada uma vez que a totalidade do real não se reduz à soma das partes em que a dividimos para observar e medir. Por último, a distinção sujeito/objecto é muito mais complexa do que à primeira vista pode parecer. A distinção perde seus contornos dicotómicos e assume a forma de um continuum(SANTOS, 2010,
p.44-45).
Ou seja, o caráter contextual da observação é definitivo mesmo para uma ciência “dura” como a física. A manutenção da dicotomia arte/realidade denota a camuflagem da subjetividade do observador no contexto da análise. Além disso, reconheço nesta fantasmografia, tecida no encontro com artistasmigrantescuir, a presença da arte como um mecanismo de conformação da própria realidade. Em outras palavras, esses sujeitos reconfiguram dimensões de suas próprias realidades existenciais - todas marcadas pela dissidência e pelo castigo do exílio - por meio de sua produção artística. Ressignificam, assim, uma experiência traumática em acontecimento, redirecionando suas libidos e reconfigurando suas subjetividades, num desdobramento que qualifico como vidobra: “o desdobramento de experiências existenciais em obra que, por sua vez, se converte em novos modos de existência” (GUIMARÃES & BRAGA, 2017, p. 28) .
Em todo caso, a arte configura um refúgio tanto para o criador quanto para quem desfruta de uma obra, e nisso me aproximo da compreensão freudiana. Porém, mais do que gerar um entorpecimento momentâneo para escapar à dor, ela torna possível o deslocamento no corpo estático de Narciso – quando a libido encontra-se voltada para dentro, para um órgão traumatizado pela rejeição – diluindo suas fronteiras com o mundo e reconfigurando o desejo de si em um desejo de outro, na direção de um vir a ser.
Freud alerta-nos que o investimento de libido em objetos exteriores advém de um transbordamento da carga libidinosa do eu. Já que “Un intenso egoísmo protege contra la enfermedad; pero, al fín y al cabo, hemos de comenzar a amar para no enfermar y enfermarmos enquanto una frustración nos impide amar” ( FREUD, 2003, p. 2024). Assim, se o ególatra ama seu ideal, seguirá amando-o sobre todas as coisas, sobre todos os corpos que esse ideal invisibiliza.
A ideia de que o processo narcísico compõe uma etapa de nossa subjetividade e de que “a conservação do passado na vida psíquica é antes a regra do que uma exceção extraordinária” (FREUD, 2010, p.55) é o que justificaria adorarmos na exterioridade o aprimoramento que nos escapa, ignorando o que seja diferente disso. Tomo como exemplo um conto de Marguerite Youcenar - autora lésbica nascida na Bélgica, primeira mulher eleita à Academia Francesa de Letras, sexilada nos Estados Unidos – que reconstrói no livro Fogos (YOURCENAR, 1983) a vida
de Safo12.
Ali, a mítica poetisa grega é convertida em uma mulher madura, trapezista de circo, apaixonada pela jovem malabarista Átis – que foge do seu amor com um homem mais velho. Safo passa a procurá-la por todas as cidades da Europa, até envolver-se, na Turquia, com um jovem falsário chamado Fanon. Chega a rasgar diante do novo amante as cartas que anunciam o regresso da jovem. Mas ao vê-lo, acidentalmente, vestindo roupas da amada, dá-se conta de que não pode escapar. Safo tenta o suicídio das alturas do trapézio. Mas não consegue sequer matar-se, sobrevivente de si mesma:
Todas as mulheres amam uma mulher. Amam perdidamente a si próprias, e o seu corpo é, de ordinário, a única forma na qual elas concordam em encontrar a beleza. Os olhos penetrantes de Safo olham mais longe, presbitas da dor. Ela questiona as jovens, ocupadas em enfeitar o seu próprio ídolo, sobre aquilo que elas esperam dos espelhos. Talvez um sorriso que corresponda ao seu trêmulo sorriso, até que o hálito dos lábios cada vez mais próximos embace o reflexo e aqueça o cristal. Narciso ama a si próprio e só a si próprio, tal como é. Safo, entre suas companheiras, adora com certa amargura tudo o que ela não chegou a ser (YOURCENAR, 1983, p.176-177).
A personagem não pode fugir da imagem de seu próprio ideal, replicada na jovem acrobata e, posteriormente, sobre o corpo masculino do amante. Sequer pode escapar de sua própria vida, dado o frustrado suicídio. Ainda que a autora distinga sua adoração da de Narciso, ela está tragicamente atada à idealização da própria figura a ponto de não poder escapar do labirinto de espelhos.
Aqui a fronteira eu/outro mantém-se de pé. O desejo pelo objeto remete a si, de modo a nunca tocar numa diferença por sua impossibilidade de percebê-la. Insisto neste tema porque compreendo que a lógica colonial, ainda tão presente em nossos modelos de relação, a exemplo da família nuclear, está baseada em um desejo narcísico. E creio ser a causa da tensão mútua entre alguns grupos minoritários, subalternizados - que militam no sentido de uma superação da colonialidade - justamente um “narcisismo de pequenas diferenças”, termo usado por Freud (2010) para qualificar a agressividade que algumas comunidades culturais, contextualmente próximas, mantém entre si.
A relação com a própria imagem, ainda que idealizada, constitui muito de nossas subjetividades. Isso estrutura não apenas nossa psique, a nível pessoal, mas é decisivo no âmbito da cultura, pois “ Del ideal del yo parte un importante cambio para la comprensión de la psicología colectiva. Este ideal tiene, además de su parte individual, su parte social: es tambien el ideal común 12
Foi numa encenação deste conto, em 1995, em Curitiba, que se deu minha estréia como ator “profissional”- ou,
pelo menos, recebendo um cachêpelomeu trabalho. Ainda que minha participação no espetáculo fosse modesta, marcou-me profundamente, jovem de 17 anos iniciando no ofício de artista. A peça contava com Patrícia Vilela no papel principal e tinha direção de Leônia de Oliveira.
de una família, de una clase o de una nación” (FREUD, 2003, p. 2033). Indo além: esse ideal, replicado no imaginário imposto pelo colonizador, torna-se ainda mais cruelmente inviável para um corpo não-branco, dissidente, periférico.
E é neste sentido que o filósofo e psiquiatra Frantz Fanon - nascido na ilha da Martinica, situada na região do Caribe dominada pela França - faz em seu livro “Pele negra, máscaras brancas” (FANON, 2008) uma análise do racismo colonial desde o reconhecimento da idealização da branquitude. Exemplifica isso com a descrição do comportamento dos sujeitos que regressam à colônia depois de passarem um tempo na metrópole.
Para ele, tais sujeitos mimetizam o comportamento do colonizador, das roupas à linguagem, porque foram submetidos a um imaginário eurocentrado que supervaloriza a branquitude e, ao mesmo tempo, representa o negro como algo selvagem e animalesco (FANON, 2008). Um narcisismo idealizado segundo o qual pessoas negras buscam no espelho por imagens brancas.
Com efeito, o que emerge é a configuração de um duplo narcisismo: um por parte dos brancos presos à própria imagem, imposta violentamente aos demais; outro dos negros fixados a um ideal de si, ainda que inatingível. Em ambos os casos há demarcação de fronteiras muito bem definidas:
A imposição cultural atua facilmente na Martinica. A derrapagem ética não encontra obstáculo. Mas o verdadeiro branco me espera. Na primeira ocasião ele dirá que não é suficiente que a intenção seja branca, que é preciso construir uma totalidade branca. É só nesse momento que tomo consciência da traição (FANON, 2008, p.163).
Complementar a es se sentimento de superioridade branca, a fobia está expressa nos diferentes pensamentos folclorizados sobre o negro vindo da colônia: seja em sua figura infantilizada - que o leva a ser tratado como alguém limitado, incapaz -, seja no temor à sua agressividade, selvageria que, ao final, pode ser compreendido como uma intensa atração sexual reprimida ou pura inveja fálica:
Ainda no plano genital, será que o branco que detesta o negro não é dominado por um sentimento de impotência ou de inferioridade sexual? Sendo o ideal de virilidade absoluto, não haveria aí um fenômeno de diminuição em relação ao negro, percebido como um símbolo fálico? O linchamento do negro não seria uma vingança sexual? Sabemos tudo que as sevícias, as torturas, os murros, comportam de sexual. Basta reler algumas páginas do Marquês de Sade para nos convencermos... A superioridade do negro é real? Todo o mundo sabe que não. Mas o importante não é isso. O pensamento pré-lógico do fóbico decidiu que é assim (FANON, 2008, p. 139).
Mais uma vez temos aqui a idealização como componente decisivo da auto-imagem. Contudo, se no caso dos sujeitos colonizados ela leva a uma imitação da branquitude, no caso dos sujeitos colonizadores a dupla idealização - de si e do outro - leva ao ódio pelo desejo, à inveja do
corpo negro, o que não é mais do que a constatação da impossibilidade de sê-lo.
Consideremos a operação desse jogo narcísico para além do quadro descrito. No contexto das dissidências sexuais e de gênero, a idealização leva à mimética masculinização ou feminilização cisheteronormadas. Sendo que no âmbito da colonialidade, como já explanei, comportamentos masculinos se sobrepõem aos femininos no sentido de sua dominação.
A idealização de modelos cisheteronormativos justifica, por exemplo, o crescente sistema de reprodução assistida sustentado por casais monogâmicos de lésbicas que contratam o custoso serviço de inseminação artificial para gerarem, via de regra, bebês brancos, conforme descrito por Norma Mogrovejo (2017). Desinteressados pela adoção, tais casais recorrem ao mercado internacional de sêmen para levar a cabo seu ideal de matrimônio e maternidade, ratificando, desde seu privilégio de classe, o papel da mulher na instituição familiar.
No caso de homens homossexuais, a idealização é visível no rechaço que sujeitos afeminados sofrem de outros homossexuais. Como aponta Daniel Mazzaro Vilar de Almeida (2011) em seu estudo sobre estereótipos gays em um site de relacionamento na internet, o nível de feminilidade ou masculinidade atribuído a um homossexual está também associado ao sexo penetrativo, sendo o homossexual ativo considerado o modelo de masculinidade, enquanto o passivo é estigmatizado pela sua preferência.
Esta estigmatização se faz ainda mais intensa nas práticas de sujeitos g0ys - homens que mantém relações sexuais com outros homens sem aceitar a classificação de homo ou bissexual13. Tais sujeitos, também autodenominados heteroflexíveis, promovem festas e participam de clubes de encontros sexuais em diferentes países. No Brasil já existe um clube de encontros g0ys na cidade de São Paulo, onde é comum que participantes levem suas parceiras mulheres - afinal, para ser g0y, é necessário manter relações sexuais também com mulheres (TNH1, 2018).
Toda a classificação é limitadora. Descolonizar é, em última medida, desclassificar, como nos aponta Mignolo (2016). Mas a aparente fluidez identitária e abertura sexual do discurso g0y perde seus contornos libertários se considerarmos que nessa comunidade é proibido o sexo anal, pois ele configuraria a homossexualidade para aqueles sujeitos. O zero que substitui a letra a da palavra gay, no termo g0y, significa, justamente, zero (ou nenhum) sexo anal. Além disso, para ser aceito por essa comunidade, o participante deve comprovar não ser homossexual - a exemplo do referido clube paulistano - pois os gays não são bem vindos.
O mais espantoso na cultura g0y é a negação da ideia de bissexualidade e as práticas