Foucault (1999) demonstra que a taxonomia – a classificação decorre de nossos hábitos de categorizar os seres. Nesta perspectiva perguntas como: O que é ser mulher? O que é ser lésbica? O que é homoerotismo? A prática sexual conduz a uma identidade sexual? Constituem-se em perguntas com múltiplas respostas, uma vez que cada cultura, organização social, cada época, tem a sua maneira de compreender estas questões.
Segundo o psicanalista Jurandir Freire Costa (1992), o termo homoerotismo refere-se à possibilidade que têm certos sujeitos de sentir diversos tipos de atração erótica ou de se relacionar fisicamente de diversas maneiras com outros sujeitos do mesmo sexo biológico. Ainda segundo este autor, sua particularidade e reprovação em nossa cultura se devem ao fato de ser uma experiência subjetiva moralmente desaprovada pelo ideal sexual da normatividade do binarismo heterossexual/homossexual.
Os antropólogos Peter Fry e Edward MacRae (1983) afirmam que, ao se perguntar o que é homossexualidade, parte-se do pressuposto de que ela é alguma coisa. Para eles, o problema neste pensamento reside no fato de ser a homossexualidade uma infinita variação sobre um mesmo tema: o das relações sexuais e afetivas entre pessoas do mesmo sexo. Segundo estes autores, não há nenhuma verdade absoluta sobre o que é a homossexualidade, pois há tantas maneiras de representá-la e praticá-la quanto há sociedades, épocas históricas e grupos distintos nestas mesmas sociedades. Nesta perspectiva propõem uma postura relativizante, que é a de enxergar a questão da homossexualidade como essencialmente política e cultural. Ao longo de seu livro “O que é a homossexualidade” os autores argumentam que a homossexualidade “é, acima de tudo, um fato social” (p. 120).
Classificada como prática homossexual e inserida no imaginário coletivo ocidental como “desvio”, a lesbianidade ainda hoje suscita muitas questões13. Existe um mal-estar social em torno da mesma que tende a
qualificá-la como “mutilação do SER mulher”. Mas afinal, o que define a lesbianidade: o amor, a cumplicidade afetiva ou o sexo? O que é ser mulher? O que é ser lésbica? Podemos afirmar que se trata de uma identidade fixa, ou que pode ser uma prática sexual eventual ou sistemática?
Para a socióloga francesa Jules Falquet (2004) “cada sociedade constrói e interpreta as práticas sexuais e amorosas entre mulheres de forma diferente e sua legitimidade varia segundo a concepção que tem do que é ser
13 O termo lesbianismo, usado em grande parte da literatura do campo da bio-medicina, parte do pressuposto de que se
trata de um comportamento desviante, quanto não patológico; por isto prefiro usar aqui o termo lesbianidade, seguindo as propostas foucaultianas para falar das sexualidades contemporâneas.
mulher ou homem” (p.21). A autora chama a atenção para os diferentes arranjos culturais em torno do sexo, do gênero e da sexualidade nas mais diversas culturas, o que torna complexo definir tanto o que é ser mulher como o seja a homo ou a heterossexualidade. Destaca ainda que o paralelismo estabelecido entre os termos homossexual ou gay com a situação dos homens é muito reducionista e enganoso, quando aplicado às mulheres, uma vez que estas, em quase todas as culturas, encontram-se em desvantagem em relação aos homens, mesmo que estes sejam homossexuais.
No senso comum, as diferentes concepções a respeito da homossexualidade feminina fazem com que esta seja categorizada, ora pelo amor entre mulheres, ora pela simples prática sexual entre elas.
Existem aqueles que vêem na lesbianidade uma saída para as mulheres “mal amadas” que se voltam para o mesmo sexo pela impossibilidade de ter relações “normais”, por pura e simples frigidez ou ainda por não conseguir atrair os interesses de um parceiro do sexo oposto. Com certeza estas e outras concepções sinalizam, antes de tudo, tentativas de respostas para explicar um comportamento que foge das regras socialmente estabelecidas, que impõem como padrão de normalidade a relação binária macho/fêmea, naquilo que Butler denomina de “heterossexualidade compulsória”. Destaque-se que um comportamento diferente do socialmente aceito - que se constitui, para muitos, em uma afronta aos valores e costumes estabelecidos - é para outros o exercício da coragem e da autonomia na realização de sua sexualidade.
O antropólogo Richard Parker (1991) afirma que no senso comum brasileiro do final do século XX, em camadas populares, havia dois tipos de mulheres homossexuais, denominadas de “sapatão” e “sapatilha”. “Sapatão” é a mulher envolvida em relações sexuais com outra mulher, que se afasta mais completamente das normas esperadas do comportamento feminino, definido mais em termo de seu estilo corporal e de um vestir-se fundamentalmente masculino do que do seu comportamento sexual. A “sapatilha” é aquela mulher que, ao envolver-se em relações sexuais com outra mulher mantém sua identidade feminina pelo estilo corporal e modo de se vestir feminino, assim como por sua posição aparentemente mais “passiva” no que diz respeito aos papéis de gênero no interior do casal lésbico. Neste modelo, localizado majoritariamente em camadas populares, a mulher “sapatão” reproduziria papéis masculinos e a mulher “sapatilha”,
papéis femininos. Assim, segundo o autor, as oposições
atividade/passividade que estruturam o relacionamento entre homens e mulheres na sociedade brasileira, reproduzem-se na dualidade complementar deste modelo de relação entre mulheres. Parker salienta que a falta de ênfase sexual é compreensível apenas quando se percebe que a própria idéia da conduta sexual feminina fora de um contexto de confronto com a sexualidade masculina, é quase impensável no imaginário tradicional ocidental e em especial do brasileiro e ressalta:
Para ser completamente apreendido e manipulado, tanto intelectual como emocionalmente, o ato sexual entre duas mulheres, tem de ser estruturado paralelamente às relações de sexo oposto, em termos de atividade e passividade, penetrar e ser penetrada [...] surgindo então a distinção entre sapatão e sapatilha... A sapatilha mantém sua identidade feminina pelo desempenho do papel propriamente passivo, o sapatão sacrifica sua feminilidade pela dominância ativa. [...] Assim, as oposições que estruturam o relacionamento entre homens e mulheres funcionam também dentro
das distinções mais elaboradas dos domínios masculino e feminino. (1991, p. 88).
Estas reflexões vão ao encontro do sentido deste estudo que parte do pressuposto de que não existe sexualidade no singular, e sim sexualidades múltiplas que encerram uma diversidade de práticas sexuais, posição que auxilia no entendimento de que existem diferentes concepções culturais e teóricas sobre homossexualidade, homoerotismo e lesbianidade.
A seguir, passo a aprofundar estas questões partindo de alguns exemplos culturais a respeito da possibilidade de mulheres assumirem papéis masculinos em determinadas sociedades.