Na Figura 18 observa-se também que os animais com NERD apresentam aumento significativo (P<0,05) dos níveis de KC no esôfago distal (40,82 ± 11,71 pg/mg de tecido) no sétimo dia após a indução cirúrgica, quando comparados aos animais do grupo sham (1,104 ± 0,53 pg/mg de tecido). O tratamento diário dos animais com a Goma do Cajueiro reduziu significativamente os níveis de KC no esôfago distal (4,46 ± 1,3 pg/mg de tecido).
64 Figura 18. Alterações inflamatórias esofágicas em camundongos com NERD. Peso úmido (A), atividade de MPO (B), níveis de KC (C). Os resultados são expressos como média ± E.P.M de 6-7 animais por grupo e foram analisados pelo teste One-way ANOVA seguido pelo teste de Bonferroni. *P < 0,05 versus grupo sham; #P<0,05 versus grupo NERD.
65 6.4. Análise Histopatológica
A avaliação histopatológica mostra que os animais com NERD, no sétimo dia após a cirurgia de indução, apresentaram alterações microscópicas com uma resposta inflamatória esofágica, quando comparados aos animais do grupo sham. Essas alterações microscópicas foram caracterizadas por infiltrado celular de polimorfonucleares (com preponderância de neutrófilos) intraepitelial, e edema na lâmina própria (Figura 19 e Tabela 2). Além do mais, foi também observado hiperplasia da camada de células basais, quando comparados aos animais do grupo sham. A Goma do Cajueiro foi capaz de reduzir os escores de edema na lâmina própria e infiltrado de polimorfonucleares intraepitelial. É digno de nota que não foram observadas úlceras no esôfago em nenhum dos esôfagos analisados (Figura 19 e Tabela 2).
66 Figura 19. Fotomicrografias do esôfago em camundongos com NERD. Animais do grupo sham apresentam arquitetura esofágica íntegra (painéis A e D). Alterações microscópicas no esôfago foram observadas em animais com NERD (painéis B e E) e animais tratados com a Goma do Cajueiro (painéis C e F). Painéis A – C (100×) e D – F (400×). Seta vermelha indica edema, seta amarela indica hiperplasia da camada de células basais e seta branca indica infiltrado de polimorfonucleares na lâmina própria.
67 Tabela 2. Escores das alterações microscópicas esofágicas em camundongos com NERD.
Nota: Os resultados são expressos como mediana com mínimo e máximo mostrados nos parênteses. Os dados foram analisados pelo teste de Kruskal–Wallis seguido pelo teste de Dunn´s. *P<0,05 versus grupo sham; #P<0,05 versus grupo NERD.
ESTUDO PRÉ-CLÍNICO: AVALIAÇÃO DAS ALTERAÇÕES FUNCIONAIS DE BARREIRA DA MUCOSA ESOFÁGICA
6.5. Resistência Elétrica Transepitelial (RETE)
A Figura 20A mostra que os animais com NERD eutanasiados no sétimo dia após a indução cirúrgica apresentaram RETE basal da mucosa esofágica menor (P<0,05) que os animais do grupo sham (129,3 ± 15,39 Ω/cm2 e 276,8 ± 33,64 Ω/cm2, respectivamente). Por outro lado, o grupo de animais que foi tratado diariamente com a Goma do Cajueiro apresentou um ganho substancial (P<0,05) na RETE (308 ± 12,35 Ω/cm2) quando comparado aos animais do grupo NERD.
Além disso, a Figura 20B mostra que a mucosa esofágica de animais com NERD apresenta alterações significativas na RETE quando exposta a uma solução KHBB pH 0,5 contendo pepsina e TDCA, observou-se uma queda na RETE após 60 min maior (P<0,05) na mucosa esofágica de animais dos grupos NERD e sham (-53,92 ± 10,09 e - 22,18 ± 7,86% da resistência basal, respectivamente), e do grupo que foi tratado diariamente com a Goma do Cajueiro (+0,9 ± 1,83% da resistência basal). O sinal negativo “-“ representa queda e o sinal positivo “+” representa sustentação da resistência acima do basal (100%). Grupos Experimentais (n=5-7) Hiperplasia da Camada de Células Basais (0-2) PMN Intraepitelial (0-2) Erosões (0-1) Edema na Lamina Própria (0-4) PMN na Lamina Própria (0-3) Sham 0 (0-1) 0 (0-1) 0 0 (0-1) 1 (0-1) NERD 2 (1-2)* 2 (1-2)* 0 2 (2-4)* 3 (1-3) Goma do Cajueiro 10% 0 (0-1) 0 (0-1)# 0 1 (0-1)# 1 (0-2)
68 6.6. Permeabilidade Transepitelial
Conforme mostrado na Figura 20C, a mucosa esofágica de animais com NERD apresentou um aumento significativo (P<0,05) da permeabilidade à fluoresceína após 90 min e 120 min (12,9 ± 1,51 e 37,13 ± 11,8 IF, respectivamente), quando comparados aos animais do grupo sham (3,47 ± 1,17 e 4,01 ± 1,47 IF, respectivamente). Os animais tratados com a Goma do Cajueiro diariamente tiveram a passagem de fluoresceína diminuída (P<0,05) tanto no minuto 90 quanto no 120 (3,99 ± 1,13 e 4,42 ± 1,037 IF, respectivamente) quando comparados ao grupo NERD.
69 Figura 20. Parâmetros de função de barreira em esôfago distal de camundongos com NERD. Média da Resistência Basal (A), perfil temporal do Percentual da Resistência Inicial (B) e a permeabilidade transepitelial da fluoresceína (C). Os resultados são expressos como média ± E.P.M de 6-7 animais por grupo e foram analisados pelo teste One-way (A) ou Two-way (B e C) ANOVA seguido pelo teste de Bonferroni. *P < 0,05 versus grupo sham; #P<0,05 versus grupo NERD.
70
ESTUDO DA TOXICIDADE DA GOMA DO CAJUEIRO EM CAMUNDONGOS
6.7. Avaliação Toxicológica da Goma do Cajueiro
Os resultados acerca da avaliação toxicológica da Goma do Cajueiro em camundongos mostraram que em nenhum dos parâmetros avaliados houve sinal de toxicidade. A descrição para cada resultado está detalhada nas Tabelas 3-6 e Figura 21.
Tabela 3. Média dos valores obtidos no consumo de água, consumo de ração, produção de excretas e aspecto fecal avaliados por 14 dias, em camundongos fêmeas, tratados com salina 0,9% e Goma do Cajueiro (GC, 2.000mg/kg, v.o.).
Tratamento Dose Consumo
de água (ml/dia/grupo) Consumo de ração (g/dia/grupo) Produção de excretas (g/dia/grupo) Aspecto Fecal (0-3) Controle 2,5 (ml/kg) 29,08±1,46 19,23±0,69 17,33±1,30 0 GC 2.000 (mg/kg) 32,69±1,66 21,54±1,75 21,30±2,43 0 Os valores são apresentados como Média ± EPM. Número de animais/grupo: cinco. *P <0,05 vs. Grupo controle (salina), Teste t de Student.
As pontuações para aspecto fecal foram atribuídas usando o método de Di Carlo e colaboradores (1994). Fezes normais = 0, fezes semissólidas = 1, fezes pastosas em pequena/moderada quantidade = 2, fezes aquosas em grande quantidade = 3.
71
Tabela 4. Parâmetros relacionados ao screening hipocrático, após administração oral em dose única da
Goma do Cajueiro (GC), em camundongos fêmeas, na dose de 2.000 mg/kg (G2). O controle (G1) recebeu salina 0,9% por gavagem.
Escores: 4: normal; 3: levemente reduzido; 2: moderadamente reduzido; 1: intensamente reduzido; 0: ausente (De acordo com Brito, 1994).
Parâmetros avaliados
Grupo (n=5)
Tempo (h) Tempo (dias)
0,25 0,5 1 2 24 3 7 10 14 Estado Consciente e Disposição Atividade Geral G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G2 4 4 4 4 4 4 4 4 4 Atividade e Coordenação do Sistema Motor e Tônus muscular Resposta ao toque G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G2 4 4 4 4 4 4 4 4 4 Aperto de cauda G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G2 4 4 4 4 4 4 4 3 3 Endireitamento G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G2 4 4 4 4 4 4 4 4 4 Tônus corporal G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G2 4 4 4 4 4 4 4 4 4 Força de agarrar G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G2 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4
Reflexos Reflexo corneal G2 4 4 4 4 4 4 4 4 4
G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Sistema Nervoso Central (SNC) Tremores G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Convulsões G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Contorção G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Straub G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Sistema Nervoso Autônomo (SNA) Lacrimação G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Piloereção G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Respiração G1 4 4 4 4 4 4 4 4 4 G2 4 4 4 4 4 4 4 4 4 Constipação Intestinal G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Mortalidade G1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 G2 0 0 0 0 0 0 0 0 0
72 Tabela 5. Efeito da Goma do Cajueiro (GC, 2.000 mg/kg, v.o.) no ganho de Massa Corporal (g) e na Massa relativa dos órgãos (%) em camundongos fêmeas após 14 dias consecutivos.
Os valores são apresentados como Média ± EPM. Número de animais/grupo: cinco. *P <0,05 vs. Grupo controle (salina), Teste t de Student.
A massa relativa dos órgãos foi calculada como a relação da massa do órgão/massa corporal após o tratamento x 100.
Tabela 6. Análises hematológicas e bioquímicas de sangue e plasma (respectivamente) após administração oral em dose única da Goma do Cajueiro (GC; 2.000 mg/kg) em camundongos fêmeas após 14 dias consecutivos.
Parâmetros Controle GC (2.000 mg/kg, v.o.) Hematológicos Eritrócitos (milhões/mm3) 6,31±0,46 6,02±0,62 Hemoglobina (g/dL) 10,65±0,69 13,08±1,50 Hematócrito (%) 33,00±0,89 35,00±1,76 -VCM (fL) 53,57±4,56 60,34±6,08 -HCM (pg) 17,21±1,57 22,27±2,56 -CHCM (g/dL) 32,28±1,87 38,08±5,35 Leucócitos/mm3 4.150±294,10 5.270±663,40 -Segmentados (%) 53,00±1,67 56,00±1,51 -Monócitos (%) 3,40±1,07 5,00±1,61 -Linfócitos (%) 41,60±2,73 36,00±3,43 -Eosinófilos (%) 2,00±1,04 3,00±0,77 Plaquetas/μL 764.800 765.200 Bioquímicos Função Renal Creatinina (mg/gL) 0,53±0,11 0,55±0,08 Ureia (mg/gL) 26,05±2,20 25,12±1,27 Função Hepática Proteínas Totais (g/dL) 3,53±0,18 3,52±0,14 ALT (TGP) (U/L) 56,43±7,74 59,06±3,08 AST (TGO) (U/L) 24,50±4,05 20,20±1,39 Os valores são apresentados como média ± EPM. Número de animais/grupo: cinco. Aspartato Aminotransferase (AST) e Alanina Aminotransferase (ALT).
*P <0,05 vs. Grupo controle (salina), Teste t de Student.
Tratamento Dose (ml/kg)
Massa Corporal (g)
Massa relativa dos órgãos (%)
Antes Depois Fígado Coração Baço Rins Intestino Delgado Controle 2,5 17,60 ±0,74 22,00±0,63 4,81±0,08 0,65±0,07 0,41±0,04 1,19±0,06 6,90±0,41 Goma do
Cajueiro
73 Figura 21. Zona cortical renal em HE, corte sagital. Grupo Salina (A) e Goma do Cajueiro (B), ambos os grupos apresentam corpúsculo renal com glomérulo normal (G) e espaço capsular normal, rodeados pela Cápsula de Bowman, em torno dos corpúsculos estão os túbulos contorcidos distal e proximal normais.
74
ESTUDO CLÍNICO
6.8. Resistência Elétrica Transepitelial (RETE)
Nossos dados em biópsias esofágicas humanas mostraram que 30 minutos de exposição da mucosa à solução ácida causou queda da RETE (-27,3 ± 2,4%) em comparação com 100% da sua resistência basal, que pôde ser prevenida (P<0,05) pela aplicação de alginato (+3,7 ± 6,1% sobre a resistência basal). Da mesma forma, a aplicação com soluções de Goma do Cajueiro (10% e 5%) impediu a queda da RETE (P<0,05) quando comparada com a resistência basal (+1,69 ± 1,06% e -3,5 ± 2,4%, respectivamente). A Goma do Cajueiro (GC) em 2,5% e o Sucralfato não protegeu a mucosa esofágica contra a solução desafio que mimetiza o conteúdo do suco gástrico. O efeito protetor da mucosa foi prolongado até 1h, em que as biópsias sem proteção apresentaram queda de -36,79 ± 5,5%, mas a aplicação de alginato e GC 10% impediu a queda de resistência causada pelo ácido, pepsina e TDCA (+4,2 ± 0,8% e +3,5 ± 0,6%, respectivamente) como mostra a Figura 22.
75 Figura 22. Parâmetros de função de barreira sobre a RETE em biópsas esofágicas de pacientes com NERD. Perfil temporal do Percentual da Resistência Inicial em 30 min (A) e em 60 min (B). Os resultados são expressos como média ± E.P.M. Foram analisados pelo teste Two-way ANOVA seguido pelo teste de Bonferroni. *P<0.05 Alginato versus Grupo “Sem proteção”; #P<0.05 GC 10% versus “Sem proteção”; ΨP<0.05 Alginato ou GC 10% ou GC 5% versus “Sem proteção”. λP<0.05 Alginato ou GC 10% versus Sucralfato.
76 6.9. Permeabilidade Transepitelial
Em se tratando da permeabilidade transepitelial, a permeabilidade à fluoresceína aumentou (P<0,05) comparada ao grupo GC 10% a partir do minuto 60. Ademais, esse aumento foi ainda mais evidenciado em biópsias “Sem proteção” (135,7 ± 37,43 IF), enquanto a GC 10% impediu (P<0,05) este evento (40,8 ± 17,1 IF) como mostra a Figura 23.
Figura 23. Parâmetros de função de barreira sobre a permeabilidade transepitelial em biópsas esofágicas de pacientes com NERD. Perfil temporal da Permeabilidade Transepitelial de 0 a 90 min (A) e no minuto 90 (B). Os resultados são expressos como média ± E.P.M. Foram analisados pelo teste Two-way ANOVA seguido pelo teste de Bonferroni. #P<0.05 GC 10% ou Krebs (pH 7,4) versus “Sem proteção”.
77 6.10. Localização da Goma do Cajueiro
Como mostram os resultados nas Figura 24 e Figura 25, as imagens de microscopia epifluorescente mostraram a aderência luminal à mucosa esofágica em biópsias humanas da Goma do Cajueiro (GC) 10% marcado até 1 hora. Embora tenha havido a redução da espessura em 1 hora comparada com o tempo 30 min, os resultados funcionais mostram que a GC é capaz de sustentar a RETE e proteger as biópsias esofágicas humanas.
78 Figura 24. Microscopia a 20X sob microscópio epifluorescente com a Goma do Cajueiro (GC) marcada com FITC na superfície luminal da mucosa da biópsia. As amostras foram submetidas a 1 h de lavagem em solução neutra e em seguida expostas à solução desafio. Os núcleos são corados com DAPI. As setas amarelas indicam medidas de espessura de exemplo.
79 Figura 25. Média de espessura da Goma do Cajueiro (GC) em µm sem lavagem ou com lavagem de 15 ou 60 minutos expostas à solução desafio. Os resultados são expressos como média ± E.P.M. Foram analisados pelo teste One-way ANOVA seguido pelo teste de Bonferroni. *P<0.05 15 min versus 60 min.
80 7. DISCUSSÃO
No presente estudo de abordagem translacional, nós demonstramos que tanto no modelo experimental de NERD em camundongos quanto em biópsias esofágicas humanas a Goma do Cajueiro (GC) demonstrou um interessante implicação do ponto de vista terapêutico e conceitual sobre a fisiopatologia da DRGE, sobretudo o subtipo mais prevalente, a NERD. Nossos resultados mostraram que a GC apresentou propriedades anti-inflamatórias por reduzir edema esofágico, reduzir infiltrado de células inflamatórias no esôfago distal de camundongos e reduzir os níveis de KC, uma citocina pró- inflamatória. Ademais, propriedades protetoras que levaram a uma preservação da integridade da mucosa esofágica tanto em camundongos quanto em humanos por sustentar a RETE e prevenir o aumento da permeabilidade transepitelial. Por fim, a Goma do Cajueiro desempenhou forte interação com a parede epitelial esofágica humana, deste modo possui propriedades mucoadesivas formando um escudo extra na camada pré- epitelial.
Além do mais, a avaliação da toxicidade da Goma do Cajueiro garantiu segurança do produto e abriu portas para, em um futuro breve, ser testada diretamente em pacientes com a DRGE de maneira que sejam estudos devidamente guiados com ferramentas diagnósticas precisas e tecnologias do ponto de vista padronização de uma formulação farmacêutica que possibilitem a avaliação deste produto em uma possível abordagem terapêutica. Por que destinar esforços para desenvolver um novo medicamento para o tratamento da DRGE? Na prática clínica ainda não existe uma abordagem terapêutica inteiramente eficaz para tratar os sintomas clínicos de indivíduos com DRGE, especialmente aqueles que não respondem aos fármacos padrão disponíveis no mercado (SCHOLTEN, 2007).
Nas condutas clínicas preconizadas, o manejo de intervenções médicas farmacológicas e não farmacológicas atingem uma gama substancial de pacientes, porém, todos os fenótipos possuem falha na terapia padrão ouro atualmente recomendada, os IBPs (GYAWALI, FASS, 2017). O maior índice de falha aos IBPs ocorre em pacientes com NERD, dessa maneira a busca de alternativas terapêuticas tem sido explorada e esforços direcionados à melhoria desta lacuna da gastrenterologia clínica (FASS, DICKMAN, 2006). Nesse sentido, alguns fármacos já foram introduzidos no mercado com boa aceitação e eficácia no tratamento dos sintomas clássicos da DRGE. Neste caso, destaca-se o alginato que tanto utilizado isoladamente é capaz de reduzir a sensação da
81 pirose em pacientes com NERD quanto em combinação com os IBPs, que melhora ainda mais os sintomas clássicos. Em outras palavras, a ideia de controlar a acidez adicionada de outro produto que atue em outro alvo, como o epitélio esofágico no caso do alginato, é reportada com bom êxito no tratamento da DRGE, especialmente em pacientes com NERD.
Conceitualmente, a DRGE apresenta dois, o tradicional e o alternativo. Até pouco tempo atrás, o conceito tradicional fora aceito durante quase 90 anos desde a publicação de Winkelstein (1935) sem causar dicotomias, portanto teve grande adesão consensual. Baseado nele, surgiram os tratamentos que focaram basicamente em conter a acidez gástrica. O conceito tradicional diz que a morte epitelial superficial induzida pelo ácido do suco gástrico refluído é o evento gatilho, isto é, o evento inicial que resulta em inflamação progredindo até a lâmina própria. Por outro lado, o conceito alternativo proposto em 2016 por um grupo da Universidade do Texas, Dallas-EUA, o qual suporta a ideia que o contato direto do material gástrico não lesiona o epitélio esofágico diretamente, porém, o suco gástrico refluído estimula as células epiteliais e inicia-se um influxo linfócitos T mediado por citocinas que causam alterações microscópicas e, por fim, erosões na mucosa (DUNBAR et al., 2016). É válido ressaltar sobre os conceitos que ambos envolvem o perfil inflamatório e que pouco se fala em tratar o sítio da inflamação esofágica em vez de apenas mirar na acidez gástrica e em seu dano potencial.
O modelo experimental de NERD publicado recentemente por Silva e colaboradores (2017) é uma ferramenta bastante eficaz para a investigação de candidatos a fármaco no tratamento e modulação da NERD. Os autores mostraram o envolvimento da resposta inflamatória seguida do comprometimento da função de barreira esofágica em animais que foram submetidos ao modelo cirúrgico. Nossos resultados mostraram que o modelo possui boa reprodutividade e dados semelhantes aos observados por Silva e colaboradores. Os hábitos de consumo de alimento são mais acentuados em período noturno nos roedores, consequentemente as repercussões do aumento da acidez são requeridas para a devida digestão (ELLACOTT et al., 2010). Baseado nessas nuances, nós escolhemos administrar a Goma do Cajueiro diariamente às 21:00 para que o efeito acompanhasse o período condizente com o aumento da acidez gástrica.
Na esofagite aguda causada por refluxo, o edema da mucosa e a inflamação podem manifestar-se em radiografias de duplo contraste na região torácica por aparência granular ou sutilmente nodular no terço distal ou esôfago medial (KRESSEL et al., 1981;
82 GRAZIANI et al., 1985). Silva e colaboradores (2017) avaliaram o peso úmido do esôfago de camundongos com NERD como uma medida indireta de se quantificar o edema do órgão. Os autores demonstraram que o esôfago do grupo com NERD apresentava edema quando comparado com o grupo controle (sham). Em nosso estudo, o modelo experimental apresentou boa reprodutibilidade considerando que a presença do edema esofágico foi acentuada nos animais com NERD quando comparados com o grupo sham, enquanto os animais tratados com a Goma do Cajueiro tiveram os valores de peso úmido reduzidos em relação ao grupo com NERD. Este dado serviu de estaca inicial para entender que mecanismos o biopolímero, Goma do Cajueiro, apresentava em sua composição.
Outros estudos com a Goma do Cajueiro têm sugerido um perfil anti-inflamatório diante de condições inflamatórias induzidas. Já foi demonstrado que a Goma do Cajueiro foi capaz de reduzir edema da mucosa gástrica de ratos com gastrite induzida por naproxeno (CARVALHO et al., 2015). Além disso, a Goma do Cajueiro mostrou capacidade de modular a resposta inflamatória de macrófagos murinos estimulados com LPS, um produto da parede bacteriana, na qual o biopolímero reduziu a expressão de IL- 6, citocina ligada à quimiotaxia de leucócitos para o local inflamado, e aumentou a expressão de IL-10, citocina que comumente inibe a secreção de citocinas pró- inflamatórias (YAMASSAKI et al., 2015).
Em se tratando de cenário inflamatório, um dos primeiros eventos a ocorrer é a migração de leucócitos para o sítio inflamado, majoritariamente neutrófilos. A resposta inflamatória pode ser deflagrada por elementos que podem ser produtos de patógenos (PAMPs) ou substâncias endógenas (DAMPs) (ABBAS, LICHTMAN, PILLAI, 2012). No caso da DRGE, componentes do refluxato são considerados nocivos quando entram em contato com a mucosa esofágica (WOODLAND, SIFRIM, 2010). No presente trabalho, a participação da resposta inflamatória deflagrada pelo contato entre mucosa esofágica e material gástrico refluído pôde ser avaliada através da mensuração da atividade da MPO, enzima presente nos grânulos azurófilos de neutrófilos, no esôfago distal de camundongos. Animais com NERD apresentaram aumento da atividade da MPO esofágico, contudo, animais tratados diariamente com a Goma do Cajueiro tiveram redução da atividade desta enzima que é um marcador da presença de neutrófilos no tecido.
83 Embora pacientes com NERD não apresentem lesões macroscópicas acessadas pela endoscopia digestiva alta, a mucosa esofágica apresenta alterações microscópicas caracterizadas pela presença de hiperplasia na camada de células basais, alongamento das papilas e infiltrado de PMN (YERIAN et al., 2011). Em nosso estudo pré-clínico, usamos o peso úmido como indicador da presença de edema esofágico, mas além do edema, as alterações histológicas ocorreram sincronicamente. Nossos dados corroboraram translações demasiadamente importantes em animais com a doença do refluxo, os quais apresentaram, de maneira semelhante ao observado em pacientes com NERD, hiperplasia da camada de células basais, infiltrado celular de PMN (com preponderância de neutrófilos) intraepitelial, e edema na lâmina própria. Por outro lado, a Goma do Cajueiro reduziu alterações histológicas de edema e infiltrado neutrofílico, indicando mais uma vez que este polímero possui indícios de efeito anti-inflamatório no epitélio esofágico.
Entender a fisiopatologia da DRGE possibilita a elaboração de alvos terapêuticos que podem ser acessados por intervenções. Vários estudos têm demonstrado que não apenas a acidez é capaz de levar à inflamação esofágica culminando na expressão de citocinas pró-inflamatórias, especialmente a IL-8, mas outros ingredientes do refluxato desempenham papel flogístico como DAMPs à mucosa esofágica tais como pepsina e sais biliares (TOBEY et al., 2001; SOUZA, 2010). Ademais, Oh e colaboradores (2007) demonstraram que a expressão do mRNA que codifica a interleucina 8 (IL-8) aumenta durante a progressão da doença de refluxo desde mucosa estratificada normal até o adenocarcinoma esofágico em pacientes. Por outro lado, a correção cirúrgica do refluxo com fundoplicatura de Nissen reduz significativamente a expressão de IL-8 tanto na mucosa estratificada como na mucosa de Barrett (OH et al., 2007). Um outro estudo reportou que, em biópsias da mucosa esofágica de pacientes com NERD, os níveis aumentados de IL-8 ocorrem associados ao infiltrado de neutrófilos (YOSHIDA et al., 2004). Em abordagens experimentais, a aplicação de ácido biliar em células epiteliais esofágicas levou à expressão de mRNA para IL-8 e a própria proteína IL-8 via ativação do fator de transcrição nuclear NFκB (HUO et al., 2014).
Nossos dados experimentais intercomunicam-se com a repercussão do material refluído ao esôfago e o aumento da expressão de KC (Quimiocina Derivada dos Queratinócitos, advinda do inglês “Keratinocyte Chemoattractant”), citocina murina análoga à IL-8 em humanos. Animais do grupo NERD tiveram um aumento nos níveis de KC deveras acentuado comparado ao controle corroborando com os estudos
84 disponíveis na literatura. Todavia, o uso diário da Goma do Cajueiro levou a uma diminuição significante na expressão dessa citocina chave para a DRGE. Juntos, estes resultados correlacionam-se e fortalecem a hipótese de que a Goma do Cajueiro exerce um papel importante na diminuição da resposta inflamatória no esôfago caracterizado por atenuar esses marcadores inflamatórios supracitados.
Como mencionado anteriormente, elementos presentes no refluxato são potencialmente lesivos à mucosa esofágica. Além de acionarem uma resposta inflamatória no epitélio do esôfago, estes materiais gástricos em contato com a parede esofágica promovem prejuízos na integridade da mucosa. Oshima e colaboradores (2012) demonstraram em um modelo de cultura de células esofágicas humanas em 3D que o ácido é capaz de causar queda na RETE epitélio esofágico seguido da perda da expressão da claudina-4, uma proteína do complexo juncional que promove adesão paracelular (OSHIMA et al., 2012). Não apenas a acidez, mas a pepsina também já é conhecida por degradar as proteínas do complexo juncional e por poder acometer proteínas vitais na