Os cemitérios são equipamentos que tem a função de inumar cadáver humano, os quais liberam o necrochorume, que é tido por diversas publicações no mundo como a maior ameaça a contaminação do aquífero subterrâneo e oferece grande perigo à saúde pública, causando uma série de doenças como o tifo, Hepatite A, leptospirose e outras. Por ser rotativo seu processo de inumação a fonte de contaminação apresenta-se como pontual e permanente. Apresenta uma estreita relação com a composição do solo, permeabilidade, o tipo e a quantidade de argilominerais presentes no solo e no manto de intemperismo, entre as zonas saturadas e não saturadas, a declividade e hipsometria, sua geomorfologia, geologia, cobertura vegetal, clima e pluviosidade.
Para melhor entender a situação de risco em cemitério utilizando o diagrama de Venn triplo, que entende a noção de risco como um tripé, onde a eliminação de um dos seus componentes elimina a possibilidade de riscos. Sem a presença do necrochorume, que representa uma ameaça, ou a sua eliminação de forma segura sem comprometer o meio ambiente e a saúde pública, não haveria risco, Se o cemitério fosse construído isolado de qualquer receptor (não vai apresentar perigo de dano ou ameaça) portanto não será considerado risco. No caso dos receptores usarem todo tipo de barreira que impeça o contato, seja de forma direta ou indireta (situação hipotética e ilusória, já que não tem como fazê-la, mesmo com uso de EPI- equipamento de proteção individual, o que não garante seu isolamento por completo) não existiria a concretude do risco. Estas situações não existem, portanto as medidas aplicadas na mitigação dos impactos de cemitérios não eliminam por completo seus riscos, mas podem reduzir bastante.
Em relação à construção de cemitérios, principalmente em áreas urbanas, se faz necessário saber e conhecer os riscos ambientais ocasionados pelos mesmos, e quais os danos que causam a saúde pública, pois se não forem bem concebidos e gerenciados podem comprometer a qualidade de vida, não só dos moradores locais, como também a vida das pessoas que ficam expostas, sujeitas a algum tipo de contaminação. Encontra-se no necrochorume números elevados de bactérias heterotróficas, proteolíticas e lipolíticas. Encontram-se também Escherichia coli,
Enterobacter, Klebsiellae Citrobactere a Streptococcus faecalis, e microrganismos
patogênicos como Clostridium perfringes, Clostridium welchii– estes causam tétano, gangrena gasosa e toxi-infecção alimentar; Salmonellatyphique causa a febre tifoide e S. paratyphia febre paratifoide, Shigella causadora da disenteria bacilar e o vírus da hepatite A.
6.6.1 Elementos a serem considerados como uma ameaça:
i. As covas rasas se não estiverem dentro do que estabelece a legislação balizadas por estudos, em que as distâncias mínimas deve ser 1,5m do nível mais alto do lençol freático, também devem ser consideradas como uma ameaça de alto grau.
ii. As carneiras devem possuir um sistema de exaustão para liberação dos gases, além de drenos para eliminação dos necrochorume. Se elas não possuírem tais recomendações, podem emanar gases.
iii. Os caixões devem ser entendidos como uma possível ameaça se não forem construídos de forma sustentável, o que pode ocasionar a contaminação não só do solo como também dos aquíferos por materiais pesados utilizados na sua fabricação como os vernizes contendo cádmio, chumbo e outros metais pesados.
iv. A tanatopraxia que tem por objetivo o tratamento estético do defunto para uma inumação mais humana pode ser entendida como uma ameaça, não pela função mais sim pelos cosméticos que são utilizados na conservação do cadáver.
v. Para a manutenção da qualidade ambiental do sistema deve ser levado em conta os caixões que devem ser construídos de materiais que se decomponham rapidamente e não liberam subprodutos químicos persistentes no ambiente. Caso contrário passa a ser entendidos como uma ameaça, sendo agravado quando estes forem metais pesados.
6.6.2 Vulnerabilidade de aquíferos a cemitérios:
Dentre os fatores que podem esta relacionados à vulnerabilidade de aquíferos a cemitérios, podemos citar o solo. O solo é uma coleção de corpos naturais constituídos por partes sólidas, líquidas e gasosas, tridimensionais, dinâmicos, formados por materiais minerais e orgânicos, que ocupam a maior parte do manto superficial das extensões continentais do nosso planeta, contém matéria viva e podem ser vegetados na natureza, onde ocorrem. Ocasionalmente podem ter sido modificados por atividades humanas (EMBRAPA, 1999). Como já mencionado, a
contaminação por meio do necrochorume atinge a zona vadosa dependendo da estrutura Hidrogeológica do local.
O solo é um elemento importante para preservação da qualidade das águas subterrâneas, agindo como filtro, como barreira de contaminantes ou mesmo não oferecendo nenhuma proteção ao aquífero.
O solo pode ser dividido, de modo simplificado, em duas zonas. A zona não saturada (ou de aeração) é composta de partículas sólidas e de espaços vazios, equipados com porções variáveis de ar e água. Já a zona saturada é aquela em que a água ocupa todos os espaços. O limite entre essas zonas é definido pelo nível do lençol freático. O movimento da água tende a ser vertical na primeira e horizontal na segunda.
A zona não saturada atua como um filtro, por apresentar um ambiente (solo, ar e água) favorável à modificação de compostos orgânicos e inorgânicos e a retenção e eliminação de bactérias e vírus. Aeficácia da retenção de microrganismos depende de fatores como tipo de solo, aeração, baixa umidade, teor de nutriente e outros. Para reter organismos maiores, como as bactérias, o mecanismo mais importante é o de filtração, relacionado a permeabilidade do solo. Para reter vírus, bem menores, e evitar que atinjam o lençol freático, é mais relevante a adsorção (adesão de moléculas de um fluido a uma superfície sólida), que depende da capacidade de troca iônica da argila e da matéria orgânica do solo. Segundo WHO (1998), vírus com carga negativa inferior a um determinado nível são imediatamente adsorvidos enquanto vírus com uma forte carga negativa são movidos a locais mais distantes. Esta diferença é explicada pela constituição e propriedades químicas do solo. A argila possui grãos muito pequenos carregados eletro-negativamente. Quando vírus muito carregados de elétrons passam pelos grãos de argila são repulsados por que têm cargas iguais. Já os vírus poucos carregados conseguem ficar retidos nos grãos por afinidade química (Troca catiônica).
O contaminante, de uma maneira geral, ao entrar no solo sofre algumas reações que podem retê-lo, deixá-lo passar livremente ou atenuá-lo no meio sólido. Por esta razão é fundamental o estudo do solo abaixo do local onde será implantado o novo cemitério. Nos terrenos destinados à implantação de cemitérios, a espessura da zona não saturada e o tipo de material geológico são fatores determinantes para a filtragem do necrochorume. A proporção de argila no solo deve ficar entre 20% e 40%, para favorecer os processos de decomposição (que depende da presença de ar) e as condições de drenagem do necrochorume. Segundo a Resolução CONAMA 368/06, que alterou alguns dispositivos nos artigos 3° e 5° da resolução 335. Ela estabeleceu a distância do nível inferior da sepultura 1,5m acima do nível mais alto do lençol freático, além de sugerir o coeficiente de permeabilidade para solos destinados à construção de cemitérios, onde o mesmo deverá está enquadrado entre 10-5 e 10-7 cm/s na faixa compreendida entre o fundo das
sepulturas e o nível do lençol freático, medido no fim da estação cheia. Se a permeabilidade for maior (como a areia e o cascalho) será necessário que o nível inferior da sepultura esteja a dez metros do nível acima do lençol freático.
A mobilidade do poluente no solo é medida pela condutividade hidráulica do mesmo. A condutividade hidráulica depende do peso molecular e densidade do poluente e significa a velocidade de infiltração em solo saturado.
Não existem grandes quantidades de pesquisas que estudam o comportamento do necrochorume no solo. É sabido apenas que sua densidade é maior que a da água. Isto favorece a infiltração pelo solo até atingir o aquífero subterrâneo. Após todos os processos que ocorrem no solo, se o necrochorume alcançar a franja capilar do aquífero ele irá atravessá-la por que é mais denso que a água. Não existem estudos de solubilidade do necrochorume, então qualquer definição de comportamento no aquífero será imprecisa.
O necrochorume quando no interior do aquífero pode ser dissolvido (a depender da solubilidade), carreado no sentido de fluxo do aquífero ou se depositar na camada inferior impermeável do mesmo. Apesar da densidade do necrochorume
ser maior que a da água (d = 1,23 g/cm³), seu valor não é tão elevado a ponto de todo o poluente atravessar o aquífero até sua camada impermeável. Com isto, parte do necrochorume deverá ser carreada com o aquífero no sentido do fluxo da água e ser espalhado pela região.