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A análise morfológica da paisagem, de modo sistemático e continuado, inicia-se no campo da geografia durante o século XIX, com Humboldt.278As suas observações levam-no a considerar, já nessa época, que esta é o resultado de um processo dinâmico que tende para equilíbrios formalmente diferenciados e que o homem é parte integrante dessa realidade.279 A escola alemã de geografia continuou estudos sobre a temática da paisagem durante o princípio do século XX originando-se o movimento da Landschaft, que estudava aquilo que actualmente se denomina paisagem cultural a partir de uma escala regional. A paisagem como fruto do relacionamento entre o homem e o seu meio era também um dos objectos de estudo da escola francesa de geografia liderada por Vidal de la Blanche, no fim do século XIX e o início do século XX. A escola inglesa preocupava-se nesta época com a sua compreensão e interpretação como entidade visual, relacionando pela primeira vez o termo com a percepção.280

Durante as primeiras décadas do século XX a paisagem é um dos objectos de estudo privilegiados da geografia. Distinguem-se dois modos de abordagem: os utilizadores do método morfológico dedicam-se a analisá-las a partir da sua forma e de atributos de interesse específicos, e a inseri-las em tipologias;281 com o método corológico estudam-se áreas específicas, já que a corologia diz respeito aos “padrões espaciais formados por diferentes tipos de paisagem para formar uma disposição espacial única com uma identidade distinta”,282 a que é frequentemente atribuído um nome próprio. A procura de uma estrutura na paisagem e a inclusão das diversas áreas e elementos da paisagem em tipologias continuam a ser usadas como uma forma de abordagem à paisagem na geografia, arquitectura paisagista e ecologia. A corologia foi abandonada no modernismo mas voltou a ser considerada em investigação no pós-modernismo. Esta via de investigação é corroborada pela própria Convenção Europeia da Paisagem, que dá um grande enfoque à descrição de paisagens concretas que necessitam de soluções de intervenção, mais do que à sua inserção em tipologias.

Inicialmente muito focados na descrição das formas físicas da superfície terrestre, os estudos geográficos foram progressivamente incorporando os aspectos visíveis da transformação humana da paisagem ao longo do tempo, procedendo-se a partir de determinada fase à distinção entre paisagens naturais e culturais.283 A acção humana passa a ser considerada um factor decisivo da transformação e a necessidade de encontrar explicações para aquilo que é observável conduz a que o conceito de paisagem passe a integrar outras dimensões, não directamente observáveis, do domínio da cultura, economia ou política.284

Em Portugal Orlando Ribeiro é uma referência nos estudos de caracterização e interpretação da paisagem. Para este autor “uma paisagem é um espaço acessível à observação. (…) [No entanto] qualquer paisagem apresenta, para além dos factos visíveis, a marca de muitos outros factos, de diferentes

277 Posteriormente revista em 1985.

278 Naturalista e explorador alemão (1769-1859) que lançou as bases de diversas ciências como a geografia, geologia, climatologia e

geobotânica.

279 BATISTA, D. - “Paisagem, cidade e património: O Sistema Olhão – Faro – Loulé”. Évora: Universidade de Évora, 2009. Tese de

doutoramento. p. 15.

280 Idem, p.16.

281 Esses atributos podem ser o uso do solo, o tipo de ocupação humana ou o tipo de vegetação, por exemplo. As tipologias são

genéricas e podem surgir em diferentes regiões, como é o caso dos montados.

282 EETVELDE, V., ANTROP, M., op. cit. p. 162.

283 SALGUEIRO, T. - “Paisagem e geografia”. “Finisterra: revista portuguesa de geografia”. Lisboa: Centro de Estudos Geográficos. Vol.

XXXVI, nº 72, (2001) p. 41.

53 categorias, que influenciam e explicam os primeiros: desde o estado variável da atmosfera, (…) até à produção e circulação de produtos comerciais, (…); a circulação de ideias, particularmente imponderável, mas que modifica gostos e hábitos, vislumbra-se também na paisagem modificando o comportamento das populações.”285 A paisagem de Orlando Ribeiro constitui um registo da memória colectiva, posição partilhada por Jorge Gaspar quando refere que “a paisagem torna-se um elemento tão poderoso da identificação cultural que, como a língua e a religião – no que ela transporta de código comportamental – entra no pano de fundo do universo onírico (…) E o mais espantoso ainda é que, ainda como a língua ou religião, também a paisagem se actualiza permanentemente.”286

O positivismo modernista fez esmorecer o interesse dos geógrafos pelo estudo da paisagem, que no entanto ganhou novo fôlego nas últimas décadas do século XX, consequência de um renovado interesse da análise da relação indivíduo-paisagem e da maior atenção prestada às consequências da sobreexploração dos recursos.287 Em França algumas escolas de geografia posicionam-se na proximidade da arquitectura paisagista quando pretendem conciliar a componente objectiva e subjectiva da paisagem por meio da aproximação à teoria dos sistemas. Uma das aproximações é a da escola de Besançon, que considera a existência de três subsistemas: produtores de paisagem (que integra elementos abióticos, bióticos e antrópicos); utilizadores (relacionado com os fenómenos de percepção e projecção afectiva e mental); e a

paisagem visível.288 Para Brossard e Wieber a paisagem visível é “uma espécie de potencial para utilização que estabelece a intermediação entre os dois subsistemas anteriores e que corresponde a uma zona abstracta onde se formam as imagens do território".289 Para Augustin Berque, outro autor francês, é necessário abarcar simultaneamente as duas dimensões da paisagem, que não é apenas um objecto físico nem uma simples representação subjectiva, mas sim “uma trajection (ligação sujeito-objecto)”. A paisagem deverá então ser estudada no contexto daquilo a que chama médiance, que integra simultaneamente aspectos ecológicos e simbólicos. A paisagem é, para este autor, “a manifestação sensível da médiance”.290 O conceito de paisagem tem, na actualidade e no campo da geografia física, uma proximidade grande com conceitos expressos em arquitectura paisagista. Marc Antrop define-a como um “conceito sintético e integrador que se refere tanto a uma realidade física e material, originada a partir de uma dinâmica contínua de interacção entre processos naturais e a actividade humana, como aos símbolos e aos valores existenciais imateriais dos quais a paisagem é o portador.”291 Refere ainda que “a paisagem é vista como uma entidade holística apreendida pelos humanos, e que tem uma identidade ou carácter distintos”.292 Este autor considera que até ao século XVIII o ritmo da evolução das paisagens era lento, as paisagens eram estáveis desde que não atingidas por alguma catástrofe. A aceleração da transformação das paisagens, devida principalmente aos fenómenos de intensa urbanização e mobilidade tornou-se um fenómeno que é percepcionado pela população e técnicos muitas vezes como ameaçador, porque não equilibrado, quer em termos ecológicos como em termos sociais, funcionais ou estéticos.293 Marc Antrop integrou investigações recentes no âmbito da geografia física que conciliam metodologias holísticas e paramétricas para a classificação de paisagens, por meio de abordagens multifaseadas em que se alternam os dois tipos de metodologias.294

285 RIBEIRO, O. – “Paisagens, regiões e organização do espaço”. “Finisterra: revista portuguesa de geografia”. Lisboa: Centro de

Estudos Geográficos. Vol. XXXVI, nº 72, (2001). p. 29.

286 GASPAR, J. - “As regiões portuguesas”. Lisboa: Ministério do Planeamento e da Administração do Território, Secretaria de Estado do

Planeamento e do Desenvolvimento Regional, 1993. p. 11.

287 SALGUEIRO, T. op. cit. p.43. 288 Idem, ibid.

289 Cit. por SALGUEIRO, T. op. cit. p. 45. 290 Cit. por SALGUEIRO, T. op. cit. p. 46. 291 ANTROP, M. (2006) op. cit. p. 188. 292 Idem, ibid.

293 ANTROP, M. (2005) op.cit. p. 23.

294 Uma análise desta metodologia aplicada à Bélgica conduz à conclusão que, apesar de existirem passos em que se procede à

individualização corológica da área de estudo - processo para o qual as faculdades integradoras e a capacidade de percepção são importantes – a componente holística desses passos se perde quando se procede às generalizações que caracterizam as fases paramétricas posteriores. Uma das conclusões que se retira desta aplicação prática é que, apesar da sofisticação metodológica e

A abordagem da geografia cultural aproxima-se também, por outra via, da arquitectura paisagista. Este ramo da geografia usa metodologias diversificadas de pesquisa, de entre as quais se podem destacar o recurso a entrevistas, trabalho de campo com observação participante, a interpretações pessoais da paisagem (análise de literatura e obras de arte gráfica, ou outras) e o folclore.295 Segundo Luís Ribeiro “a geografia cultural considera a paisagem cultural principalmente como o resultado de decisões culturais concretizadas por diferentes grupos, realçando a singularidade de cada lugar definido não apenas pelas suas características naturais, mas também imbuído de significados humanos, tradições e memórias.”296 Este ramo da geografia olha para a paisagem como um lugar simbólico, segundo as palavras de Meinig é “a expressão de valores culturais, comportamento social e acções individuais que se desenvolvem em locais particulares ao longo de um período de tempo.”297 J.B. Jackson refere que esta deverá ser encarada como um lugar de vivência e trabalho, que “deverá preencher as necessidades do ser humano como um todo, biológicas, sociais, sensuais e espirituais.”298

As metodologias qualitativas usadas na geografia cultural sublinham a importância do contacto directo entre o pesquisador, o lugar e os seus habitantes, e são o principal factor em comum entre este ramo de conhecimento e o procedimento metodológico que se pretende usar para a apreensão do carácter da paisagem açoriana. Luís Ribeiro sintetiza que o interesse do estudo da paisagem do ponto de vista da geografia cultural, para a arquitectura paisagista, “tende a residir na informação subjectiva e intangível sobre os lugares que, quando em conjunto com a análise espacial (valor ecológico, qualidade visual, sustentabilidade de desenvolvimento, entre outras) permite um conhecimento compreensivo das potencialidades do lugar, da sua singularidade.”299

Quanto ao desenvolvimento da geografia nos Açores, para além das descrições de Gaspar Frutuoso no século XVI e dos naturalistas que no século XIX aportaram aos Açores (e dos seus correspondentes açorianos) já referenciados no ponto anterior destaca-se Charles Darwin, que aqui desembarcou em 1836. No entanto, após cinco anos de viagem e no regresso a casa, com a mente ocupada com as observações concretizadas na Argentina, Chile, Galápagos e outras arquipélagos mais exuberantes nada do que viu nos Açores lhe chamou especialmente à atenção.300 No século XX os Açores foram abordados por Orlando Ribeiro que em 1954 elabora um artigo sobre a Macaronésia, a que chama também Ilhas Atlântidas, no qual faz a comparação entre os diversos arquipélagos e conclui que estes não possuem entre si uma unidade natural especialmente evidente (apesar das afinidades geológicas e de vegetação) mas sim “um ar de família a que o destino histórico e as paisagens rurais introduzidas pelo homem vincaram a expressão.”301 Raquel Soeiro de Brito dedica em 1955 um estudo geográfico a São Miguel e Carlos Alberto Medeiros dedica em 1987 um estudo à ilha do Corvo. A Universidade dos Açores foi fundamental para a impulsão de novos estudos relativos a estas ilhas com importância para a compreensão da paisagem, os quais são citados nesta investigação.

tecnológica, o carácter da paisagem não é suficientemente apreendido se os dados de base não tiverem qualidade. De facto, numa paisagem eminentemente cultural como a da Bélgica só foi possível integrar no modelo dados relacionados com a componente natural da paisagem, já que os dados relacionados com a componente cultural não tinham um grau de pormenor homogéneo para todo o território. Assim, é possível concluir que, faltando a integração de dados sobre os aspectos culturais, históricos, arqueológicos e arquitectónicos então “não é possível apreender o completo carácter da paisagem”. É também possível colocar a hipótese que a parametrização de um conjunto de dados após a sua generalização poderá ser contraproducente. EETVELDE, V., ANTROP, M., op. cit. p. 168.

295 RIBEIRO, L.P. op. cit. p p. 100. 296 Idem, p. 11.

297 Cit. por NDUBISI, F. op. cit. p 106.

298 Cit. por NDUBISI, F. op. cit. p 107.

299 RIBEIRO, L.P. op. cit. p. 107. 300 AÇORES, D. R. C. op. cit. p. 15.

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A - O carácter da paisagem dos Açores

O arquipélago dos Açores é o objecto de estudo desta investigação. A aproximação ao carácter da paisagem açoriana segue os passos expressos no capítulo 1.4. “Posição metodológica”. Após a visitação de todo o arquipélago pretende-se, nesta fase, proceder a uma abordagem paramétrica do objecto de estudo, tendo como base os conhecimentos experienciais do lugar mas também a revisão bibliográfica, cartográfica e fotográfica concretizada. Paralelamente à abordagem da paisagem açoriana sob uma perspectiva paramétrica (capítulo 2) procede-se à abordagem sobre as perspectivas paisagista (capítulo 3) e fenomenológica (capítulo 4). O objectivo é que a paisagem seja observada a partir de diversas perspectivas para que na fase de proposta - que corresponde à abordagem holística (capítulo 5) - se consiga validar a hipótese inicial. O capítulo 5 corresponde à conclusão da fase A. Aqui se procede à síntese do carácter da paisagem açoriana. Estes dados são o ponto de partida da fase B, que se foca nas áreas protegidas existentes no arquipélago e na área protegida que é o caso de estudo à escala do lugar.