Inicialmente, a comparação será brevemente feita entre o poema e a matéria temática. No caso, primeiramente entre o assunto que abarque: “o sertão e a saga do retirante nordestino”.
A primeira impressão a se pontuar em termos percebidos nos dois discursos é que no poema e na matéria eles são pensados de forma semelhante, mas com sentidos opostos. No poema, há uma crítica social mais forte a situação que o nordestino brasileiro enfrenta, a luta pelo trabalho é manifestada, assim como a saudade de sua terra natal, assim como uma travessia. Porém, no caso da matéria a travessia ocorre a partir de um livro de ficção, em uma caminhada propriamente dita. E no livro, isso ocorre devido ao movimento migratório.
É interessante perceber que a mídia nesse caso, utiliza artefatos simbólicos todo o tempo, desde a construção de cenário na matéria até a escolha de respostas específicas exibidas sem suas perguntas originais. Inserindo frases de efeito a partir do que é falado pelos entrevistados, elevando a poética da matéria.
O que se vê de diferente nas duas abordagens e em ambas travessias é que uma exibida de forma mais racional, o sofrimento vivido em viver numa terra seca, mas também em sair dela e além disso, a dificuldade de viver numa terra alheia, querendo voltar. E esse querer voltar se mostra por amor ao seu local, mas também porque as condições do presente já não são tão diferentes do passado. E essa racionalidade se mostra mais fortemente no poema, em questão. O irônico seria colocar um poema, como menos “poético” que uma matéria jornalística. Porém, o discurso do poeta é construído a partir de uma realidade próxima a ele, a qual pode pontuar de forma mais real e também inserir aspectos poéticos e dramáticos, sem perder a clareza no que é vivido. A poética é construída através de uma realidade, portanto, não seria menos “racional”. Os elementos diurnos, de ascensão e aspectos heroicos são preservados, mas com uma luta constante e de indignação também.
O que se vê na matéria é uma indignação por parte dos entrevistados também, porém a procura de elementos poéticos e frases de efeito para completar as falas dos entrevistados tira um pouco da essência real ou credibilidade daquilo que é dito. A romantização se mostra clara, pelo fato de relacionar com o livro e a construção estrutural da matéria. A mídia colocou o nordestino como batalhador, inconformado, que luta pela vida, mas que em certos pontos escolheu ficar como está, e o trabalho duro é uma escolha. Os elementos diurnos e o aspecto do imaginário heroico também prevalece, mas sob esse olhar. Colocam como bonito e louvável e como escolha permanecer onde está e trabalhar duro, não que
não seja louvável. Mas os pontos explorados parecem remeter propositalmente ao livro clássico brasileiro, e a matéria em um geral acabou por romantizar essa realidade.
No segundo tema geral: “A poesia popular nordestina e o poeta matuto”, percebem- se aspectos semelhantes e também convergentes. No poema a questão de comparação com o poeta culta é colocado durante todo o texto, para exaltar o poeta popular. Na matéria isso não ocorre, não é citado pelo entrevistado, mas ele também não é questionado nesse sentido. A comparação que ocorre na entrevista é o fato de o poeta conseguir viver de seu trabalho como declamador, enquanto muitos não vivem.
Em ambos textos, a terra como inspiração é colocada em pauta, assim como a peregrinação dos poetas e o trabalho duro de ambos. No caso do poema, o poeta, além de ser declamador é também roceiro e possui uma rotina árdua de trabalho. No caso da entrevista, o poeta se mostra como um poeta que vive de seus livros e canções, seus trabalhos anteriores não incluíam o campo, como o exibido por Patativa.
Porém, em ambos textos há a exaltação do poeta e da poesia popular de forma geral, em uma arte que a luta não cessa, e que não é fácil ser poeta popular no Brasil.
É notório que os dois poetas são diferentes, e as visões de poeta matuto da mídia e do poema não se conversam integralmente. Isso é exemplificado pela ausência de perguntas relacionadas a escolaridade do cancioneiro entrevistado. Além disso, não há questões sobre a comparativa com a poesia culta, apenas uma pergunta sobre o “preconceito”, que poderia ser relacionado também a aceitação do público, ou seja, se as pessoas gostavam dos poemas ou não. Ademais, o poeta é da cidade, o que inviabiliza a questão do campo em contraposição com o meio urbano.
Percebe-se então, que o aspecto da oralidade muito forte e de poesia autodidata não são colocadas na mídia. A pontuação mais forte é que a poesia popular, assim como colocada na poesia, funciona como a exaltação da sua terra, feita por um nordestino, e a utilizar como inspiração. Além disso, a persistência e luta, peregrinação é explorada nos dois textos, colocando o poeta popular nesse patamar.
Por fim, os aspectos simbólicos caminham para semelhanças, porém, ao se analisar o discurso, percebe-se que possuem abordagens um pouco diferentes. Por mais que o mito seja o mesmo, ele é colocado com distintos sentidos para o público.
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao final das análises: mitocrítica e de discurso é possível verificar algumas dispa- ridades e semelhanças entre os poemas e matérias investigas. A primeira consideração importante a se pontuar seria a definição simbólica que há na mídia e nos poemas estudados, que carregam de fato, aspectos funcionantes na lógica de Durand bio-psique-social. A ques- tão reflexiva, postural está presente, assim como impressões de sentimentos, personalidade e realidade cultura e histórica.
Nos poema A triste partida e na matéria a respeito da seca no Ceará semelhante a história da obra O quinze possuem aspectos em comum. Ao serem analisados percebem-se o regime diurno, com a reflexiva para a ascensão, devido ambos carregar elementos rementes a essas duas pontuações feitas por Durand. O sertanejo nordestino se apresenta com a superação da morte e luta pela sobrevivência, como um verdadeiro herói. O medo da passagem do tempo, e diversos tipo de morte é evidenciado, seja ela a física mas também a de partir e deixar seu lugar, no agricultor entrevistado a de parar de trabalhar, por exemplo.
A paixão pela vida e exaltação do trabalho e do caminho aparecem em ambas em declarações e falar que frisam tal posicionamento. Tais características indicam para o mito do herói, a travessia, o ciclo, os grandes feitos e a coragem. Elementos que se repetem em ambas obras a toda tempo. Além disso, a potência na figura divina nos dois casos: “[...] a proeza espiritual, na qual o herói aprende a lidar com o nível superior da vida espiritual humana” (CAMPBELL, 1988, p. 137). As condições de vida em extrema urgência, mas Deus é sempre clamado em preces e tido como esperança. É característico também que nesse momento de sofrimento o herói não fraqueje, e encontre força espiritual para enfrentar o seu vilão, no caso aqui, a seca, a saudade, o patrão.
O poema e a matéria remetem também a caminhada, a travessia: “[...] quer para recuperar o que tinha sido perdido, quer para descobrir algum elixir doador da vida. Normalmente, perfaz se um círculo, com a partida e o retorno” (CAMPBELL, 1988, p. 138). A água pode aparecer como elixir em ambos os casos, no poema a família vai a sua procura em locais mais distantes, e esse retorno ainda não ocorreu. Na matéria, ainda há essa procura simbolizada pelo lago seco da região, em que diariamente a viagem é feita a procura de outras alternativas. apenas de seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um deus.
Já na segunda temática, as características apontam para o mesmo mito e conse- quentemente, regime. Porém, na matéria com o poeta ocorre de uma forma mais implícita em que é necessário um contexto maior com o território nacional. Devido a utilização de palavras não muito simbólicas universais durante a entrevista. Porém, o nordestino é exaltado com seus feitos coragem e a questão da travessia é novamente citada remetendo
ao trajeto do herói. No poema Cante lá que eu canto de cá, o herói nordestino é aquele que consegue escrever lindos versos sobre o sertão sem nunca ter estudo formalmente, e luta para que o direito de falar sobre o local que vive não seja tirado de si: “A façanha convencional do herói começa com alguém a quem foi usurpada alguma coisa, ou que sente estar faltando algo entre as experiências normais franqueadas ou permitidas aos membros da sociedade” (CAMPBELL,1988, p. 138).
Portanto ele utiliza disso para lutar e poder se sobrepor a tudo isso, seus problemas sociais e paisagem considerada inferior funcionam como seus feitos para inspirar-se e poder ser superior em escrita sobre o sertão em relação ao poeta letrado da cidade. Na matéria, o sertanejo nordestino é colocado como o que consegue renda através das canções, que batalha por seu reconhecimento, e o herói nacional de cantar as belezas de uma região.
Visto isso, o sertanejo nordestino é representado como um herói, seja na prática da proeza física, como ato de coragem, de trabalho duro, persistência e também espiritual. Por mais que existam questões que existam disparidades a essência, e pregnância mítica e discursiva que permanece é essa:
O objetivo moral é o de salvar um povo, ou uma pessoa, ou defender uma idéia. O herói se sacrifica por algo, aí está a moralidade da coisa. Mas, de outro ponto de vista, é claro, você poderia dizer que a idéia pela qual ele se sacrificou não merecia tal gesto. E um julgamento baseado numa outra posição, mas que não anula o heroísmo intrínseco da proeza praticada (CAMPBELL,1988, p. 141).
As vezes incompreendido, por nunca desistir do seu lugar, mesmo quando já foi embora ou julgado por defender uma literatura iletrada, com distribuição em feiras e palavras simples. Mas o sertanejo nordestino continua, ele resiste, e é assim representado.
Percebe-se portanto quão simbólica a mídia pode se manifestar, quase tão simbólica quanto a poesia. Trabalhando na produção-armazenamento-circulação desses instrumentos simbólicos. Que pode ser vista superficialmente, mas que de caráter essencial de simbologia necessita de uma análise profunda, entender os discursos ali embutidos e inferior deduções de simbologia e pregnância mítica.
Assim, é possível perceber a mídia como simbólica mas também produtora desses contextos sociais amplos resistentes e partilhar tais produtos (THOMPSON, 2011). Ela continua assim, provocando diferenças formas de emoção através dessa lógica, criando heróis e mitos, que contribuem para o imaginário coletivo e também identificação. O sertanejo nordestino e essa representação provoca naquele que o identifica o orgulho regional e nacional, incentivando-o ao trabalho e a luta.
Assim, a construção de sentido em torno do sertanejo, veio através da descrição de fatos já ocorridos, entrevistas, depoimentos, edição das falas que mais significam para o corpo editorial e assim, insere-se automaticamente sentido. Porém, cabe ao sujeito também fazer a interpretação dessa disponibilização de fatos organizados simbolicamente.
Por fim, a complexidade do processo das representações (imaginários) envolve interpretações discursos, lógicas mutáveis ou definitivas. O arquétipo de herói converge para características positivas do sertanejo nordestino, e remete inclusive, ao cangaço, Maria Bonita e Lampião. Porém aqui, o herói é mostrado de maneira mais familiar, que luta pela sobrevivência e reconhecimento literário, que ama seu lugar, clama a Deus por melhora e realiza o trajeto do herói de forma diária, um caminho incessante a ser percorrido. Seja por água, inspiração e respeito, além de livros, visibilidade real e atual do que é ainda é vivido por muitos heróis e heroínas do Nordeste.
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ANEXO A – A TRISTE PARTIDA
Setembro passou, com oitubro e novembro Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste, Com medo da peste,
Da fome feroz.
A treze do mês ele fez a experiença, Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença com gosto se agarra, pensando na barra
Do alegre Natá.
Rompeu-se o Natá, porém barra não veio, O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra, Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.
Sem chuva na terra descamba janêro, Depois, feverêro,
E o mêrmo verão.
Entonce o rocêro, pensando consigo, Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!
Apela pra maço, que é o mês preferido Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito, Lhe foge do peito
O resto da fé.
Chamando a famia Começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo, Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.
Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia; Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho, Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.
E vende o seu burro, o jumento e o cavalo, Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece feliz fazendêro, Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.
Em riba do carro se junta a famia; Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora, Lhe bota pra fora
Da terra natá.
O carro já corre no topo da serra. Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena, De longe inda acena:
Adeus, Ceará!
No dia seguinte, já tudo enfadado, E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, coitado, falando saudoso, Um fio choroso
Escrama, a dizê:
- De pena e sodade, papai, sei que morro! Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: - Mãezinha, e meu gato? Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!
E a linda pequena, tremendo de medo: - Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca! E a minha boneca
Também lá ficou.
E assim vão dexando, com choro e gemido, Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando, E o carro rodando
Na estrada do Su.
Chegaro em São Palo - sem cobre, quebrado. O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente, Tudo é diferente
Do caro torrão.
Trabaia dois ano, três ano e mais ano, E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo, E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.
Se arguma notícia das banda do Norte Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio, E as água dos óio
Começa a caí.
Do mundo afastado, sofrendo desprezo, Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia, vem dia, E aquela famia
Não vorta mais não!
Distante da terra tão seca mas boa, Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo, Vivê como escravo
ANEXO B – CANTE LÁ, QUE EU CANTO
CÁ
Poeta, cantô da rua, Que na cidade nasceu, Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu. Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo, Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui, Que eu também não mexo aí, Cante lá, que eu canto cá.
Você teve educação, Aprendeu muita ciência, Mas das coisa do sertão Não tem boa experiência. Nunca fez uma boa palhoça, Nunca trabalhou na roça, Não pode conhecê bem, Pois nesta penosa vida, Só quem provou da comida Sabe o gosto que ela tem.
Pra gente cantá o sertão, Precisa nele morá,
Tê almoço de feijão E a janta de mugunzá, Vivê pobre, sem dinheiro, Trabalhando o dia inteiro, Socado dentro do mato, De aprecata currelepe, Pisando em riba do estrepe, Brocando a unha-de-gato.
Sabe lê, sabe escrevê,
Pois vá cantando o seu gôzo, Que eu canto meu padecê. Enquanto a felicidade Você canta na cidade, Cá no sertão eu enfrento A fome, a dô e a miséria. Pra sê poeta deveras, Precisa tê sofrimento.
Sua rima, inda que seja Bordada de prata e de ouro, Para a gente sertaneja É perdido este tesouro. Com o seu verso bem feito, Não canta o sertão direito Porque você não conhece Nossa vida aperreada. E a dô só é bem cantada, Cantada por quem padece.
Só canta o sertão direito, Com tudo quanto ele tem, Quem sempre correu estreito, Sem proteção de ninguém, Coberto de precisão Suportando a privação Com paciência de Jó, Puxando o cabo da enxada, Na quebrada e na chapada, Molhadinho de suó.
Amigo, não tenha queixa, Veja que eu tenho razão