SECTION VII MULTICS ENVIRONMENT
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Nos dicionários da língua portuguesa, a palavra tempo tem muitos significados, entre eles, o de que tempo é “a sucessão dos anos, dias, horas, que envolve a noção de presente, passado e futuro” (FERREIRA, 2008). No entanto, o conceito de tempo é multidisciplinar e bem mais complexo. Não se pode falar em um único conceito de tempo, e, dessa forma, para se ter uma noção sobre o que é o tempo, é necessário conhecer as várias concepções que foram desenvolvidas ao longo da história da humanidade, principalmente na Física e na Filosofia, apesar de esse conceito também fazer parte dos estudos da História, da Biologia, da Psicologia, das Ciências Sociais, da Geologia, entre outras.
Todos os seres vivos estão submetidos às mudanças ambientais, que ocorrem de forma periódica e cíclica na natureza, como, por exemplo, os dias e as noites, as estações do ano e as fases lunares. O mais poderoso ritmo da natureza é o ciclo de 24 horas do dia e da noite, que governa uma grande variedade de padrões de comportamento temporal das criaturas vivas (SZAMOSI, 1988). Para esse autor, a estratégia de adaptação a esses padrões utilizada pelas formas de vida existentes é, essencialmente, a mesma e consiste na evolução de algum mecanismo fisiológico interno que regula o comportamento temporal do indivíduo. Esse mecanismo é denominado relógio biológico ou interno e está presente em todas as formas de vida, desde um paramécio (protozoário) até um ser humano.
A noção de tempo foi evoluindo juntamente com o cérebro humano, ou seja, vários eventos evolutivos fizeram com que os seres humanos percebessem o tempo a partir do relógio biológico e, posteriormente, também começassem a processar informações envolvendo o uso de intervalos de tempo. Daí surge uma questão: como a mente humana consegue aprender a respeito do mundo exterior, inclusive no que se refere à percepção de tempo? Szamosi (1988) identificou dois pontos de vista que buscam responder a essa indagação.
No primeiro, empirista, conforme alguns cientistas, como Jonh Locke, David Hume, Denis Diderot, Jean D’Alembert, Ernest Mach, Bertrand Russel, entre outros, tudo que é aprendido parte de experiências individuais, ou seja, o ser humano nasce como uma lousa limpa, que vai sendo preenchida por meio das experiências acumuladas ao longo da existência. No segundo, racionalista, pensadores, como René Descartes, Baruch Spinoza, Gottfried Leibniz, Immanuel Kant, entre outros, defendiam a ideia de que a mente humana produz o que se observa do mundo exterior.
Reis (1994, p. 13) afirma que
[...] não se pode falar de um “conceito do tempo”, mas de concepções do tempo. Estas pretenderiam o estatuto de conceito definitivo. Mas nenhuma noção ou definição do tempo recebeu uma aprovação unânime, embora todas elas tenham contribuído à construção de uma ideia, a mais informativa, sobre um possível conceito do tempo.
Para esse autor, as concepções de tempo estão baseadas nos conceitos de mudança e movimento. A mudança não é movimento, apesar de um conceito não existir sem o outro. A mudança caracteriza a perspectiva subjetivista, pois a alma muda qualitativamente. A consciência não volta ao seu estado inicial, pois nela ocorrem mudanças. Já o movimento é o principal conceito da perspectiva objetivista, pois é reversível, quantificável e mensurável.
O problema do tempo é um dos mais antigos e complexos da história do ser humano. Inicia-se na pré-história, período no qual os conceitos de espaço e de tempo não eram generalizados, sendo considerados como símbolos humanos, portadores de significado emocional (SZAMOSI, 1988). Na antiguidade, o conceito de tempo “era concreto, definido por e relacionado com acontecimentos, colorido pelas emoções e carregado de significado simbólico” (SZAMOSI, 1988, p. 69). Nesse período, existiam diferentes concepções de tempo, elaboradas a partir da contribuição de vários pensadores, entre eles, Heráclito, Platão, Aristóteles, Plotino e Agostinho. Na Idade Média, houve um retrocesso no conceito de tempo, uma vez que sua percepção como um ciclo retorna para a vida e a imaginação dos povos medievais. Nessa época, São Tomás de Aquino, um dos principais representantes dessa época, tentou conciliar as concepções aristotélica-ptolomaica com as da Igreja.
Os pensadores da modernidade, como Galileu, Descartes, Newton, Leibniz e Kant, apresentam concepções diferentes de tempo, as quais vão desde um tempo absoluto e quantificável até um tempo intuitivo e indivisível. O desenvolvimento de novas teorias da física, na contemporaneidade, também modificou profundamente as concepções de tempo. Ele deixa de ser considerado como absoluto e passa a ser concebido como um tempo relativo, concepção
esta desenvolvida por Einstein. A partir de então, na Física, o tempo passa a depender da velocidade relativa dos observadores e é afetado pela presença da matéria.
A concepção de tempo também foi influenciada pelo desenvolvimento da física quântica. No entanto, esse desenvolvimento gerou várias polêmicas, que ainda precisam ser esclarecidas pelos teóricos (MARTINS, 2007). Além da Física, na modernidade, filósofos como Ernst Mach, Henri Bergson, Gaston Bachelard e Emmanuel Levinas desenvolveram concepções sobre a temporalidade.
O problema do tempo, no século XX, deixa de interessar apenas à Filosofia e à Física, passando a fazer parte dos estudos de várias áreas, como, por exemplo, a Psicologia, a Sociologia, a História, a Matemática, a Biologia, entre outras. O tempo é, nesse século, não apenas objeto da pesquisa teórica mas também o foco do ser de uma pessoa, em virtude da aguda dependência do ser humano em relação à temporalidade, possibilitando, assim, a compreensão de seu envolvimento na vida humana (BOLOTOVA, 2006).
Diante das várias concepções de tempo apresentadas, pode-se perceber que existem duas perspectivas principais que buscam representá-lo: o tempo objetivo, mais relacionado à Física e aos movimentos naturais; e o tempo subjetivo, mais interligado à Filosofia e à Psicologia, relativo às mudanças da consciência.
Essa discussão evidencia que o tempo sempre foi importante na existência humana, e seu estudo, nos dias atuais, se torna cada vez mais necessário, devido à nova relação estabelecida com ele pelas pessoas, à exacerbação do tempo na percepção humana e à autodeterminação do próprio ser na temporalidade.