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2.5 TXDS CONTROL PROGRAM ERROR MESSAGES
Esta seção põe à vista o perfil das participantes da pesquisa, com base nos dados coletados em dezembro de 2014, após almoço em celebração do Natal que se aproximava. A partir da intervenção individual com cada uma das participantes e com a aceitação das mesmas, coletei os seguintes dados: nome, idade, escolaridade, identidade de gênero, sexo, orientação sexual, escolaridade, profissão, relacionamento (ou estado civil) e número de filhos. A informação sobre condição de sorologia ao HIV obtive pela convivência com as mesmas nos encontros em que participei na ONG, conversas com as participantes ou através das suas narrativas. Os nomes apresentados na tabela abaixo, bem como todos os nomes próprios presentes nos excertos, são fictícios, para preservar a identidade das pessoas que partilharam suas histórias de vida de qualquer eventual situação de preconceito ou estigmatização. Os demais dados estão apontados na seguinte sequência: identidade de gênero∕sexo, orientação sexual, raça∕etnia∕cor, idade, número de filhos, estado civil, nível de escolaridade, profissão atual, soropositividade ao HIV (+ [positivo], -
[negativo]). Os dados foram obtidos através de anotações de campo e de formulário, bem como nas narrativas e entrevistas, na escrita presencial da pesquisadora quando da solicitação da participante da pesquisa.
QUADRO 1: Perfil das participantes da pesquisa. Nomes
fictícios
Perfil das participantes Data da
coleta Narrativa 1 Janete Mulher Cis, hétero, branca, 30 anos,
um filho, relação estável, 5º ano Ensino Fundamental, zeladora, HIV+.
18∕ 12 ∕14
Narrativa 2 Denise Mulher Cis, hétero, alfabetizou-se por si só, branca, 53 anos, três filhos, divorciada ∕ nova relação estável, dona de casa, HIV-.
18∕ 12 ∕14
Narrativa 3 Lorena Mulher Cis, hétero, negra, 38 anos, quatro filhos, relação estável, 9º ano do Ensino Fundamental, do lar, HIV-.
18∕ 12 ∕14
Narrativa 4 Irene Mulher Cis, hétero, branca, 52 anos, dois filhos, separada, Ensino Médio incompleto, vendedora, HIV-.
18∕ 12 ∕14
Narrativa 5 Teófila Mulher Cis, hétero, branca, 51 anos, cinco filhos, viúva, 3º ano Ensino Fundamental, dona de casa, HIV+.
18∕ 12 ∕14
Narrativa 6 Andreia Mulher Cis, hétero, branca, 40 anos, três filhos, separada, 6º ano Ensino Fundamental, do lar, HIV+.
12∕ 05 ∕14)
Narrativa 7 Luciane Mulher Cis, hétero, branca, 59 anos, um filho, viúva, escolaridade não informada, aposentada ∕ do lar, HIV+.
13∕ 05 ∕14
Narrativa 8 Márcia Mulher Cis, hétero, branca, 49 anos, filhos falecidos (in memoriam), relação estável, 2º ano Ensino Fundamental, dona de casa ∕ servente de pedreiro, HIV+.
18∕ 12 ∕14)
Narrativa 9 Vanessa Mulher Cis, hétero, branca, 38 anos, seis filhos, casada, 9º ano Ensino Fundamental, do lar, HIV+.
18∕ 12 ∕14
Narrativa 10
Ivana Mulher Cis, hétero, branca, 48 anos, solteira, um filho, 6º ano do Ensino Fundamental, zeladora, HIV-.
18∕ 12 ∕14
Narrativa 11
Pérola Mulher Cis, hétero, negra, 43 anos, um filho, viúva∕casada, 9º ano Ensino Fundamental, do lar, HIV+.
18∕ 12 ∕14
Das 11 mulheres das quais as narrativas foram coletadas e interpretadas, 7 delas, até a data da coleta, declararam ser soropositivas ao HIV. Todas as 7 autoidentificaram-se como mulheres Cis e como heterossexuais. Em relação ao termo Cis posto no quadro do perfil das mulheres aqui retratadas, meu intuito foi trazer a reflexão sobre a vulnerabilidade à infecção ao HIV a essas mulheres, que, como poderemos ver nas narrativas delas, referem grande confiabilidade nos seus parceiros, e para desestabilizar o preconceito de que o HIV e a AIDS é uma questão somente das pessoas Trans ou de orientações sexuais não heteroafetivas. Mulheres não-Trans (ou Cis) podem, como qualquer outra pessoa, ser infectadas pelo HIV, caso não tomem medidas preventivas. Entendo como Cis, o termo que se refere a pessoas que têm o sexo biológico correspondente a sua identidade de gênero.
Coincidentemente, as narrativas coletadas foram de mulheres Cis. Logo, na busca de explicar o termo Cis, trouxe para o meu texto a referência de Arnaud (2013) a partir da leitura de seu artigo “Cisgenre”, ou seja, Cisgênero. Ele diz que “Cis é um prefixo que significa ‘do mesmo lado’ que remete a certos privilégios de corpos”. (ARNAUD, 2013, p. 2). Refere-se ao termo Cisgênero como uma forma de imposição em relação à Transidentidade, em que são colocadas histórias e subjetividades vazias pelas evidências clínicas e naturais (Idem. p. 7). Segundo Arnaud (2013), os movimentos feministas e queer acabam de perceber a importância de reconhecer que não é um pedido de normalização, mas a realização da Transidentidade, que traz à tona as identidades e os corpos visíveis e habitáveis do privilégio cisgênero que até então era considerado como hegemônico (Idem. p. 8). Arnaud (2013, p.5) diz que quem introduziu o termo cisidentidade na literatura universitária foi Julia Serrano, em 2007, por meio de seu livro “Whipping girl, a transexual woman on sexism and the scapegoating of feminity” e depois em “Le privilège de la naissance cissexuelle”.
Reporto uma de minhas notas de campo de uma mulher Trans. A mesma narrou oralmente um pouco de sua experiência vivida, em conversas durante minhas estadas na ONG Reviver ou por telefone. Em um de seus telefonemas contou dos enfrentamentos e vivências enquanto mulher Trans. Ela autoafirmou-se como uma travesti soropositiva ao HIV, em relação estável com um homem também soropositivo ao HIV. Hoje trabalha como vendedora de roupas e produtos de beleza. Alguns tempos atrás trabalhava como vendedora de sexo (prostituta). Contou sobre alguns preconceitos vivenciados pelas pessoas Trans em relação à linguagem de seu corpo
e pela não aceitação das suas diferenças corporais em relação à norma corporal Cis (Anotações de campo, 08∕2014).
Quanto a isso, Arnaud (2013) também diz que as relações entre Transidentidade e Cisidentidade são formadas por questões de poder que indicam restrições e resistências, sobretudo discursivas. Os dispositivos de gênero e sexualidade levam a observar a norma e os desvios (Idem, p. 6). Não querendo me alongar no assunto, visto que não é o foco da minha pesquisa, defino então o termo Cis como aquele atribuído à pessoa que, por privilégio, torna-se mulher como aquisição, sem precisar lutar para ser reconhecida como tal, que não é questionada, que não enfrenta restrições ou resistências em sua feminilidade e de autodenominar- se mulher porque se reconhece como mulher, vive como mulher e os outros a reconhecem como mulher de forma neutra, “naturalizada”. Friso, no entanto, que é uma breve apresentação desse tema. Aponto como sugestão de pesquisas23 para outros futuros pesquisadores, pois considero a temática bastante ampla e demandaria de mais tempo de pesquisa e muitas outras leituras e estudos, os quais não é possível por hora. No entanto, eu não gostaria de me silenciar em relação à questão.
Voltando para o quadro do perfil das mulheres participantes da pesquisa, após a pausa por mim feita para a explicação do termo Cis, as mulheres, em suas narrativas, afirmaram terem sido infectadas por seus parceiros íntimos com os quais tiveram relações sexuais. Duas delas ficaram viúvas de seus parceiros estáveis (denominados por elas de maridos) e descobriram a sorologia positiva ao HIV através do diagnóstico clínico dado pelo médico ou pelo marido já em estado de AIDS quando as doenças oportunistas estavam levando o corpo ao colapso. Das três que ficaram viúvas, uma mantém relacionamento estável e vive na mesma casa com outro parceiro. As outras duas preferiram a vida solitária. Duas das sete vivem com o mesmo parceiro estável (marido) mesmo após saber de sua sorologia positiva ao HIV, descoberta através de testagem pedida pelo médico na gestação, a partir da qual o marido também fez teste que o afirmou soropositivo ao HIV, e a outra não informou o que a levou a fazer o teste para detectar a sua sorologia e a do marido. Uma delas nunca casou ou teve uma relação estável em que vivesse na mesma casa, relatou que teve um namorado em virtude de que trabalhava como vendedora de sexo e os
23 A pesquisadora Simone Ávila escreveu sua tese de doutorado defendida em 09 de julho de 2015
intitulada como “FTM, transhomem, homem trans, trans, homem: A emergência de transmasculinidade no Brasil contemporâneo. ”
homens não namoravam mulheres que exerciam tal profissão. Infectou-se provavelmente de um de seus clientes. Descobriu-se com a sorologia quando ficou grávida de seu filho. Deixou a profissão para ocupar-se da sua saúde e principalmente da saúde do filho. Continua solteira. O motivo apontado por ela, segundo minhas anotações de campo (16∕05∕2014), é porque ela, como ainda enquanto prostituta sabia que os homens não casariam com uma mulher que exercesse tal profissão e agora com 48 anos e infectada pelo HIV, não teve relações sexuais íntimas com mais nenhum homem. Afirmou ter tido um namorado quando era jovem, mas disse que tinha certeza que nenhum homem suportaria a profissão dela e nem casaria com alguém que tivesse tido tal profissão como a dela, de maneira geral. A partir desse breve relato, aponto como sugestão de pesquisa para outros futuros pesquisadores a temática.
Já as mulheres soropositivas ao HIV vivem com o vírus em virtude de que seus maridos sabem de sua sorologia. Duas delas mostraram preocupação em relação à amamentação dos filhos, pois coincidentemente ficaram sabendo de que os maridos eram soropositivos ao HIV quando estavam amamentando filhos ou filhas, e os maridos, em decorrência de doenças oportunistas, foram parar no hospital, onde o médico diagnosticou os sintomas da AIDS, confirmados pelo teste de verificação da sorologia ao HIV. Uma delas vive relacionamento íntimo habitual com seu marido, que é dependente das chamadas drogas ilícitas. A outra vive na mesma casa com o marido, mas se declara solteira (visto que afirma não ter relacionamentos íntimos com o marido). A terceira casou com o atual marido soropositivo ao HIV, por intermédio da igreja que frequenta. Duas delas, e marido ou ex-companheiro que vive na mesma casa, participam da ONG Reviver.
Com idade entre 30 e 51 anos de idade, essas mulheres, todas mães, de etnias variadas, de escolaridade diversificada, que vai desde pouquíssima frequência ou nada na escola, até ensino médio, chamam a atenção quanto ao aspecto da vulnerabilidade da mulher à infecção pelo HIV. Um aspecto importante de se observar é que os perfis aqui trazidos são de pessoas de poder aquisitivo desfavorecido economicamente e socialmente pelo fato de eu ter estado em um campo de investigação para recrutar as participantes de pesquisa em uma ONG que dá assistência também social a elas. O que não quer dizer que pessoas de poder aquisitivo favorecido não sejam infectadas pelo HIV. Em geral elas não frequentam espaços em que exponham sua sorologia e muitas delas, ao saberem da
soropositividade ao HIV, buscam centros urbanos maiores pela possibilidade de recursos médicos e clínicos “mais privilegiados” ou também como uma outra forma de preservar sua identidade enquanto soropositivo ao HIV, pois, para muitas destas pessoas, preservar a sua identidade é “preservar” também “o nome de família”. (Conforme minhas anotações de campo de 2014 e 2015 e também conforme o quadro 1 que mostra o perfil das mulheres participantes da pesquisa já apresentado nessa dissertação.)